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Líbano

O futuro do Líbano e o impasse no golfo

Fábio Bosco

maio 29, 2026

Desde o dia 2 de março o estado de Israel tem se dedicado em promover ataques devastadores contra o Líbano, em particular contra a região sul e o sul de Beirute. Já são mais de 3100 mortos, mais de um milhão de deslocados e muitas áreas devastadas. Até onde vai Israel?

Para entender esses ataques, é necessário entender qual é a visão histórica dos sionistas quanto ao Líbano. Em 16 de maio de 1955, o primeiro-ministro israelense Moshe Sharett descreveu em seu diário a reunião que teve com Ben Gurion, então ministro da Defesa, e seu chefe de Estado-Maior, Moshe Dayan:

“Segundo ele [Dayan], tudo o que é necessário é encontrar um oficial, mesmo que seja apenas um major. Devemos conquistar seu coração ou comprá-lo com dinheiro, para fazê-lo concordar em se declarar o salvador da população maronita. Então o exército israelense entrará no Líbano, ocupará o território necessário e criará um regime cristão que se aliará a Israel. O território do Litani para o sul será totalmente anexado a Israel…”.

Esse plano foi experimentado em 1978 quando Israel invadiu o sul do Líbano e constituiu um exército títere liderado pelo major Saad Haddad, substituído após sua morte pelo general Antoine Lahad, ambos cristãos maronitas. Quatro anos depois, as forças israelenses avançaram até a capital Beirute para expulsar as forças palestinas, derrotar as forças de esquerda e impor o aliado Bashir Gemayel na presidência.

Gemayel defendia uma agenda israelense: a expulsão dos palestinos a quem ele considerava uma “população excedente”, e a imposição de um governo autoritário para impor os interesses da burguesia libanesa cristã.

Para isso, Gemayel precisava de tempo para expulsar os palestinos e forças sírias antes de normalizar as relações com o estado sionista. Esse foi o pacto entre Gemayel e o general israelense Ariel Sharon em Bikfaya dois dias antes de sua execução através da explosão do edifício onde se encontrava a sede de seu partido.

Posteriormente, em 1983, a resistência libanesa hegemonizada pelos partidos de esquerda, expulsou as forças israelenses de Beirute para o sul. Em 2000, a resistência libanesa já sob hegemonia do Hezbollah, expulsou as forças israelenses e seu exército fantoche.

A segunda tentativa de impor um plano colonial ao Líbano foi iniciada em outubro de 2024 com ataques devastadores contra o território libanês, particularmente o sul e o sul da capital, mas também vilas e cidades no vale do Beka. Essa agressão foi suspensa por imposição de Trump mas o cessar-fogo foi rompido por Israel 15.000 vezes até 2 de março de 2026, quando Israel retomou a agressão em larga escala.

Nas negociações impostas pelo imperialismo estadunidense, os objetivos israelenses são claros: obrigar o governo libanês a impulsionar uma guerra civil para desarmar o Hezbollah enquanto as forças israelenses ocupam o sul do país, podendo atacar qualquer ponto do território libanês a qualquer momento. O plano israelense transformaria o governo libanês em um representante dos seus interesses de colonização das terras árabes.

Israel como posto avançado do imperialismo estadunidense

Esse plano de Israel depende diretamente do seu principal patrocinador: o imperialismo estadunidense. Desde 1973, o imperialismo estadunidense tornou o estado de Israel em seu posto avançado para controlar toda a região do Levante, Iraque e península arábica. Para isso, Israel recebe, gratuitamente, armamento moderno superior a qualquer outro na região, para quem os Estados Unidos vende armamento insuficiente para fazer frente aos sionistas. Desde o governo Obama, Israel recebe USD 3,8 bilhões anualmente, e até mais quando necessário, como foi o caso do genocídio contra os palestinos em Gaza.

Além disso, o imperialismo estadunidense desenvolveu uma série de estratégias diplomáticas para obrigar os países árabes a normalizar as relações com Israel. Foi assim em 1979 com o Egito, e depois com a Jordânia. Também em 1993, os acordos de Oslo transformava a OLP em gerente da ocupação israelense; e em 2020, os acordos de Abrahão com os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão, além de processos de normalização com quase todos os regimes árabes, à exceção da Argélia, Tunísia e Kuwait.

Esse processo de normalização ampliada foi interrompido pela ação da resistência Palestina, liderada pelo Hamas, de 07 de outubro de 2023, que recolocou a questão Palestina na agenda internacional, congelou as negociações de normalização em curso, em particular com a Arábia Saudita, e quebrou a auto-confiança sionista em seu esquema de segurança.

Desde então, os Estados Unidos, sob Biden e Trump, dão apoio incondicional ao estado de Israel no genocídio em Gaza, e na limpeza étnica na Cisjordânia e no apartheid nos territórios palestinos ocupados em 1948.

Os objetivos fracassados na agressão contra o Irã

Após uma agressão de 12 dias em 2025, o imperialismo estadunidense e as forças israelenses iniciaram uma agressão brutal contra o Irã em 28 de fevereiro.

Seu plano era impôr um governo aliado para atender os objetivos estadunidenses na disputa interimperialista com a China, e eliminar as ambições regionais do regime iraniano, deixando o espaço aberto para as ambições hegemônicas de Israel.

Esse plano fracassou devido ao sucesso do plano iraniano de bloquear o estreito de Ormuz, e estrangular a economia internacional. Neste momento, há um impasse e Trump busca uma saída para reabrir Ormuz para evitar uma queda maior na economia mundial, afetando os interesses das corporações e da população estadunidense, e de países aliados.

Simultaneamente está em curso, um plano B por parte dos Estados Unidos através de seu representante, Tom Barrack, que está visitando todas as capitais árabes com o objetivo de construir uma aliança regional contra o Irã. Este objetivo já teve avanços com a aliança militar em negociação entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, e na substituição do primeiro-ministro iraquiano.

As ambições sauditas e a construção da terceira via

No entanto, esse plano enfrenta resistências. Em primeiro lugar do líder da Liga Árabe, o regime saudita, que tem suas próprias ambições de se tornar a potência regional hegemônica, em alternativa ao Irã e a Israel.

Há onze anos, o regime saudita iniciou uma guerra contra os iemenitas houthis sem sucesso, que terminou após dois drones atingirem o principal complexo petrolífero do país em 2019.

Simultaneamente, o regime lançou o projeto 2030 para diversificar a economia saudita, tornando-a menos dependente do petróleo. No entanto, esse plano não conseguiu reunir todos os recursos necessários para sua viabilização, e agora se encontra questionado a partir da agressão imperialista contra o Irã, que atingiu em cheio os países do Golfo.

Hoje o regime saudita busca uma aliança regional alternativa a Israel e ao Irã, aliando seus enormes recursos econômicos à Turquia e sua indústria armamentista, ao Egito e sua enorme população, e ao Paquistão e suas bombas atômicas: uma aliança explosiva. Essa aliança se mantém como aliada aos Estados Unidos, mas mantém uma ótima relação com o imperialismo chinês.

Uma das suas bandeiras é congelar a normalização com Israel subortinando-a à chamada iniciativa árabe de 2002, que exige o reconhecimento de um estado palestino nos territórios ocupados por Israel em 1967. O regime saudita já está ativo no Líbano buscando impedir a normalização de relações com Israel.

Líbano dividido

A opinião majoritária da burguesia libanesa e da população libanesa é contrária à normalização plena com Israel. Mas está dividida por grupos religiosos quanto à forma de terminar com a agressão israelense.

A burguesia cristã quer um acordo de cessar-fogo com Israel e o desarmamento do Hezbollah. A burguesia xiita rejeita as negociações com Israel pois representam a subordinação colonialista do Líbano, e apoia a resistência armada hoje liderada pelo Hezbollah, que precisa de armas para fazê-la. Entre essas duas posições estão a burguesia sunita e drusa: querem um cessar-fogo com Israel sem que isso implique em normalização, e um desarmamento negociado do Hezbollah.

A divisão entre a população é um pouco diferente. Segundo a pesquisa de opinião pública feito pelo canal local Al-Jadeed a maioria dos cristãos, drusos e sunitas querem o desarmamento do Hezbollah, enquanto 87% dos xiitas se opõem. Quanto às negociações diretas com Israel, cristãos e drusos apoiam em mais de 70%. Os sunitas estão divididos: 52% apoiam a paz com Israel mas 46% a rejeitam. E 53% dos sunitas rejeitam uma negociação entre Netanyahu e o presidente libanês Joseph Aoun.
Entre os xiitas, 93% rejeitam, demonstrando que o divórcio entre o Hezbollah e a população xiita não ocorreu, ainda que haja descontentamento quanto às políticas do partido desde a invasão da Síria em 2013 até os recentes ataques israelenses ao país.

Quanto à normalização com Israel, apenas os drusos são majoritariamente favoráveis: 70% apoiam a abertura de embaixada israelense em Beirute. Essa aproximação da comunidade drusa com Israel ocorreu após os conflitos em Suwayda entre as forças do governo sírio e as forças lideradas pelo sheikh al-Hijri. É interessante o divórcio entre a principal liderança drusa, Walid Jumblatt, e a população Drusa. Jumblatt prega uma reaproximação entre o governo sírio e a população drusa em Suwayda, e o afastamento de Israel.

A relação do público de esquerda com o Hezbollah também é complexa. O acadêmico Ziad Majed avalia que a esquerda libanesa está dividida em quatro grupos: o primeiro apóia o Hezbollah pelo seu papel de resistência à Israel. O segundo grupo critica duramente o Hezbollah pela sua política interna mas coloca a luta contra Israel acima dos desacordos. O terceiro grupo se opõe ao Hezbollah quanto à relação com o Irã e a invasão da Síria, mas não se alinha com as forças anti-Hezbollah e entende que Israel é a maior ameaça ao Líbano. O quarto grupo acredita que é necessário um acordo com Israel para acabar com a agressão.

Outros países imperialistas

Ainda na ordem internacional, o imperialismo europeu, outrora muito influente no Oriente Médio, hoje se limita a declarações diplomáticas criticando os excessos israelenses — criticando, por exemplo, a ação israelense no Líbano —, mas majoritariamente se omitindo perante o genocídio palestino e mantendo todos os canais diplomáticos e comerciais com o Estado de Israel.

A China se coloca como aliada de Israel, do Irã e da Arábia Saudita ao mesmo tempo, e não tem interesse na queda dos regimes de nenhum desses países. Já a Rússia mantém relações importantes com o Irã e com Israel, mas neste momento tem sua ação limitada pelo tremendo esforço de guerra contra a Ucrânia.

Expulsar Israel e derrubar o regime sectário

Nessa situação, é importante identificar qual é a orientação política para a classe trabalhadora libanesa, que necessariamente começa pela necessidade da expulsão das forças israelenses do território libanês e pela participação, da forma que for possível, na resistência. Para que isso seja concretizado, o principal obstáculo é o Estado sectário e a maioria de seus partidos burgueses. O Estado sectário foi o fruto de uma maquinação imperialista para dividir a classe trabalhadora libanesa em ilusórios interesses comunitários liderados pelos respectivos setores burgueses. Esse Estado sectário esteve prestes a ser derrotado no início da guerra civil libanesa, o que não aconteceu devido à interferência militar síria em 1976, que impediu a derrota da extrema-direita cristã.

Esse Estado capitalista sectário é o responsável pela decadência econômica do país. Ele é incapaz de garantir serviços básicos como a coleta de lixo ou o provimento de energia elétrica por 24 horas. Além disso, em 2019, a burguesia libanesa retirou seus capitais do país, levando a uma queda abrupta da lira libanesa e da economia em geral, seguida de uma criminosa explosão no porto de Beirute que, além de uma destruição total da área, ceifou a vida de 300 pessoas.

Contra o Estado sectário se ergueu, uma vez mais, o levante de 19 de outubro de 2019. Esse levante defendia o fim do Estado sectário e juntou setores diferentes, desde um setor proletário radicalizado, centrado na cidade de Trablous (Trípoli), até setores médios centrados na cidade de Beirute. A orientação para o movimento operário deve partir da luta contra Israel, construindo um campo independente da classe trabalhadora e da juventude, separado dos partidos sectários, e inspirado na juventude proletária de Trablous (Trípoli).

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