Um ano após a queda de Assad, sírios comemoram mas terão que lutar contra o novo governo
O povo trabalhador sírio tem muitos motivos para comemorar o fim da ditadura de Assad, ocorrida há um ano, em 8 de dezembro de 2024.
Assad construiu um regime ditatorial bonapartista baseado em um exército poderoso e em quatro serviços de repressão e tortura, conhecidos pela palavra em árabe “muhabharat”: Segurança Militar, Segurança Política, Segurança do Estado e Inteligência da Força Aérea, que depois se subdividiam em vários ramos. Um dos mais conhecidos era justamente o “ramo palestino” liderado por Yassin Dahi, especializado em perseguir, prender, torturar e executar palestinos. Além disso, o regime contava com 400 presídios onde “desapareceram” 200 mil sírios — incluindo o famoso presídio de Sednaya; e grupos paramilitares em todas as cidades chamados de “shabiha”, além de uma rede de 2 milhões de informantes, equivalente a cerca de 10% da população. Ainda que a maioria não fosse voluntária, esse era um elemento importante para criar um clima de medo entre todo o povo.
Todos esses instrumentos de repressão simplesmente desapareceram com a queda de Assad.
Além disso, a ditadura Assad destruiu o país: vivia de espoliar a população de várias formas, desde milhares de checkpoints onde as forças do regime exigiam o pagamento para o trânsito de pessoas e produtos, até sequestros, cujos resgates exigiam altas quantias das famílias sírias. Além de espoliar a população, o regime Assad se baseava, particularmente nos últimos anos, na produção e exportação clandestina da droga sintética Captagon.
A destruição do país também envolveu o bombardeio de bairros inteiros de cidades importantes como Aleppo e a grande Damasco, incluindo o campo de refugiados de Yarmouk, o maior fora da Palestina ocupada.
Essa destruição fez com que 90% da população vivesse na pobreza, enquanto uma pequena elite ao redor da família Assad e de seus aliados capitalistas se enriquecia — sendo o parente do presidente, Rami Makhlouf, um dos símbolos desse enriquecimento às custas do povo.
Além disso, o regime era sectário, ou seja, alimentava e apoiava-se na divisão do país em grupos confessionais ou nacionais. Assad reprimia duramente os curdos, marginalizava os drusos e oprimia a população trabalhadora sunita, alauíta e cristã. Embora recrutasse principalmente entre a população alauíta para as forças armadas e “mukhabarat”, mantinha a maioria desse segmento em situação de pobreza.
Infelizmente esse regime sectário não terminou; ele se modificou. Hoje, o novo governo é altamente centralizado por uma pequena elite dirigente oriunda do grupo HTS, e reconstrói exército, polícia e serviços de inteligência baseando-se principalmente na população sunita do país.
Por fim, o país estava ocupado por seis forças militares estrangeiras: os Estados Unidos no Nordeste e Sudeste (Tanaf); a Rússia com duas bases no litoral além de forças do famigerado grupo Wagner espalhadas pelo país; a Turquia na faixa limítrofe ao Norte; Israel nas Colinas de Golã; milícias iranianas ou pró-iranianas; e a organização Daesh. Após a queda de Assad, as forças iranianas e do grupo Wagner fugiram do país e os russos mantiveram as duas bases militares no litoral.
É importante dizer que, apesar da imagem de suposto antiimperialismo, a dinastia Assad colaborou com os Estados Unidos na invasão do Líbano em 1976 e na primeira Guerra do Golfo, enviando tropas para invadir o Iraque. Nos últimos anos, Bashar al-Assad se afastava do regime iraniano, e se aproximava da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, além de colaborar ativamente com o Estado de Israel, fornecendo informações sobre depósitos de armas e comboios destinados ao Hezbollah e milícias iranianas para os sionistas os bombardearem em território sírio.
Governo provisório prometeu justiça contra assadistas mas não cumpriu
Ahmad al-Sharaa prometeu investigar e punir os criminosos do velho regime. No entanto as atrocidades do regime Assad até agora não foram devidamente investigadas, nem seus responsáveis presos ou punidos. Mais de 600 mil sírios foram assassinados pelo regime desde 2011. Há cerca de 200 mil “desaparecidos” nos cárceres do antigo regime, e já foram descobertas 66 covas coletivas.
Não há uma ação prioritária do governo para punir os criminosos assadistas. Ao contrário, o novo governo nada fez para impedir a fuga em massa de criminosos assadistas para o Líbano nos primeiros dias após a queda de Assad. Pior ainda, integrou e promoveu alguns desses criminosos como Fadi Sakr, responsável pelo covarde massacre de Al-Tadamon em Damasco em 2013. A falta de justiça alimenta os assassinatos por vingança e as campanhas sectárias contra os alauítas.
Além disso, as forças de segurança do novo regime e suas milícias aliadas promoveram dois massacres no litoral e em Suwayda, em meio a combates contra milícias locais, mas o governo provisório não puniu os responsáveis dentre as forças do governo. Pior ainda, permitiu campanhas sectárias na internet contra grupos minoritários. Esta política sectária favorece a fragmentação da Síria ao fortalecer lideranças hostis entre os grupos minoritários e abrir espaço para a propaganda israelense ou “fouloul” (reminiscentes do velho regime) entre esses setores.
Trump Tower em Damasco?
Quanto à economia, o novo regime decidiu dar continuidade às políticas capitalistas neoliberais de Bashar al-Assad, que concentram renda na elite e eternizam a pobreza. Uma de suas piores medidas foi a eliminação do subsídio estatal ao pão. É verdade que há maior oferta de produtos, mas a preços inacessíveis. É necessária uma política de produção de alimentos baratos rumo à autossuficiência alimentar. Mas isso não interessa aos capitalistas que preferem que uma parte da população morra de fome enquanto obtêm lucros no comércio de alimentos.
O governo provisório alimenta ilusões de que as grandes potências imperialistas farão investimentos para reconstruir o país, após o fim das sanções. As grandes empresas imperialistas podem fazer investimentos para tomar as riquezas naturais do país, ou para fazer gasodutos que atravessam o país. Mas elas não farão nada para beneficiar o povo. Apenas venderão eletricidade e gasolina a altos preços. Ou tomarão áreas bem localizadas que estão destruídas, como a zona leste de Aleppo e o campo de Al-Yarmouk em Damasco para construir condomínios de luxo ou centros comerciais, e a população expulsa dessas áreas não poderá retornar.
Precisamos de um plano de obras públicas para reconstruir todas essas áreas e material de construção barato financiado para a população poder reconstruir seus bairros.
A Síria não precisa de uma “Trump Tower” na cidade velha de Damasco ou na Praça dos Omeídas. Isso seria apenas um monumento aos colonizadores inimigos dos povos árabes.
Cadê a legalização dos partidos políticos e eleições livres?
A queda de Assad permitiu o retorno de cerca de um milhão de refugiados e liberdades democráticas inéditas. Mas essa conquista é ameaçada pelas políticas bonapartistas do novo regime, que não aceita liberdades democráticas plenas. Até agora, partidos políticos não foram legalizados e o povo não pode eleger seus dirigentes ou mesmo formar uma Assembleia Constituinte livre. O governo provisório organizou eleições restritas e redigiu uma declaração constitucional sem consulta popular.
Se as classes oprimidas não se organizarem e lutarem, Ahmad al-Sharaa imporá um governo autoritário bonapartista como havia na província de Idlib.
Nem Trump nem Putin são aliados!
Na política externa, o governo busca se integrar à ordem mundial capitalista de forma subordinada, aproximando-se dos EUA, potências europeias, China, Rússia, Turquia e países do Golfo.
É correto buscar o reconhecimento formal de todos os países, assim como é correto cobrar dos Estados Unidos e demais países o fim das sanções à Síria. No entanto, o reconhecimento e o fim das sanções não torna esses países imperialistas em aliados da Síria.
Todos os países imperialistas (Estados Unidos, Europa, Rússia, China e Japão) sustentam, na prática, as políticas genocidas do Estado de Israel contra os palestinos, libaneses e sírios. Além disso, os Estados Unidos mantêm mil soldados no nordeste e no sul da Síria, fortalecendo setores separatistas no SDF, e pressionam o governo sírio a não oferecer qualquer resistência contra a agressão israelense.
A Rússia, além de aliada de Netanyahu, protege os principais criminosos do antigo regime tais como Bashar e Maher al-Assad, Rami Makhlouf e Suhail Hassan, bem como todo o dinheiro que eles roubaram do povo sírio. As negociações entre Al-Sharaa e Putin para uma nova concessão de bases militares na Síria para forças russas é contrária aos interesses do povo sírio.
A China deu cobertura diplomática para a ditadura Assad e, em novembro de 2025, se absteve na votação no Conselho de Segurança da ONU pelo fim das sanções da ONU contra Ahmad al-Sharaa e o ministro do interior Anas Khattab. O motivo da abstenção é a presença de um grupo de militantes uigures na Síria que lutaram pela derrubada de Assad. Os uigures são muçulmanos que vivem em Xinjiang (território também denominado de Turquestão Oriental) sob ocupação chinesa. O governo chinês quer a extradição desses combatentes. De que lado ficará o novo governo sírio? Vai se curvar às exigências do poderoso imperialismo chinês e deportar esses combatentes uigures? Há um ano, Ahmad al-Sharaa se curvou aos protestos do ditador egípcio Al-Sissi sobre a postagem nas mídias sociais convocando sua deposição feita pelo combatente do HTS de origem egípcia Ahmad al-Mansour. Al-Sharaa destituiu e prendeu seu combatente.
A política externa síria deve estar orientada para a saída de todas as forças militares estrangeiras do país e pela solidariedade aos povos que lutam. Nesse sentido é urgente a organização de uma frente contra as agressões genocidas de Israel aos palestinos, libaneses, sírios e iemenitas, bem como o fortalecimento da auto-defesa síria no sul do país. Por outro lado é muito importante enviar uma mensagem de solidariedade ao povo iraniano em sua luta contra a carestia e a ditadura.
Pela organização independente da classe trabalhadora e dos oprimidos
Para dar continuidade aos objetivos da revolução, relembramos aqui algumas medidas básicas:
- Justiça de transição com tribunais populares e punição aos criminosos assadistas e outros que violaram os direitos humanos do povo sírio durante a revolução, sejam do regime ou de facções opositoras;
- Reconstrução econômica priorizando alimentos baratos e plano de obras públicas;
- Combate às políticas sectárias e formação de um exército nacional popular não sectário, treinado nas ideias progressistas e no respeito aos direitos humanos;
- Convocação de uma Assembleia Constituinte livre precedida da legalização de partidos políticos;
- Política externa soberana, exigindo a retirada de todas as forças estrangeiras, e solidariedade aos povos em luta, em particular ao povo palestino.
Nada indica que essas medidas serão feitas pelo novo governo. Elas só se tornarão realidade através da auto-organização independente da população trabalhadora síria e da luta pelo poder dos trabalhadores, único capaz de retirar a população da pobreza, garantir direitos democráticos reais e unir o povo na defesa da libertação árabe.




