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Argentina| Menem está morto, mas não seu legado

BUENOS AIRES, ARGENTINA – MARCH 01: Former President Carlos Menem looks on during the opening session of the 138th period of the Argentine Congress on March 01, 2020 in Buenos Aires, Argentina. (Photo by Ricardo Ceppi/Getty Images)
fevereiro 23, 2021

Aos 90 anos, o senador pela Frente de Todos morreu impune de seus crimes. Há algumas horas soube-se da noticia de que, após uma longa convalescença, morreu o líder peronista, prócer do ajuste e saque, e exemplo não superado de corrupção política. Os grandes partidos representantes dos ricos e poderosos, a mídia e todos aqueles que foram e são beneficiários do mal que o recém-finado causou ao nosso país e à nossa classe social, choram a partida de seu líder e mestre. Mas entre nós que fomos vítimas de suas políticas surge um dilema: festejamos sua morte, ou nos lamentamos que vá para o túmulo na impunidade? Nós não só acreditamos que esse dilema seja falso e que há lugar para as duas atitudes, mas também que devemos redobrar os esforços para derrotar seu legado.

Por: Nepo

Basta ver os cinco minutos de horror, gritos, pranto e explosões naquele 3 de novembro de 1995 em Río Tercero, para resumir o que foi o menemismo: a detonação de Fabricações Militares de Río Tercero não só encobriu o tráfico de armas que serviu para apoiar a política do imperialismo ianque na Croácia, como demonstrou até que ponto chegou o saque dos bens do país e a entrega de sua soberania. Saque que não duvidou em massacrar treze pessoas, ferir centenas, e deixar um dano psicológico permanente em milhares. Mas Menem jamais pagou, como devia, por nenhuma dessas mortes: seus “discípulos” lhe garantiram 25 anos de impunidade e de permanência no poder.

Um eminente do saque

A morte de Menem parece ter fechado todas as “brechas”: Alberto [Fernández], Macri, Scioli, Cristina[Kirchner], Duhalde, todos expressaram suas condolências ante a morte do abominável ex – mandatario, elogiando suas “virtudes”. E não poderia ser de outra forma: o riojano (da província La Rioja), que após ter ficado numa prisão muito suave na ditadura chegou ao governo em 1989 prometendo um “salariaço” e uma “revolução produtiva”, permitiu que os capitais estrangeiros tomassem conta do país com uma virulência nunca vista na história. Promoveu um ajuste que destruiu a maior parte das indústrias soberanas (assim como a ciência e a educação), e acabou com décadas de direitos operários consagrados.  “Um peso=um dólar”, que por cinismo ou  estupidez alguns marginais defendem abertamente, foi feito com base em que a Argentina perdesse o que nem sequer perderam as nações que sofreram guerras e invasões.

Este saque terminou da única forma que poderia terminar: os capitais estrangeiros levaram um país de presente; as maiores patronais, os ricos e poderosos se encheram de dinheiro mais do que nunca; uma onda de decadência em todos os aspectos (inclusive culturais) inundou o país…enquanto o povo trabalhador viu seus locais de trabalho fecharem, cidades e províncias inteiras arrasadas, uma miséria monstruosa e um endividamento externo galopante, que reforçava a cada passo o ajuste e o saque. Isso, acompanhado de uma repressão brutal contra aqueles que se atreveram a se opor a este saque, uma repressão que não duvidou em pactuar a impunidade, indultando os genocidas, enquanto derramava sangue dos trabalhadores nas rodovias e ruas, de Ushuaia a La Quiaca [do extremo sul ao extremo norte do país].

Desta forma, Menem reconfigurou a ordem patronal na Argentina: construindo um capitalismo quase de colônia sobre um movimento operário duramente atacado, que sofreu milhões de demissões, com uma direção sindical servil que não organizou qualquer resistência. Um capitalismo, o único possível, que ainda é defendido tanto pelos ricos e poderosos como pelos seus representantes que se revezam para governar.

Terminar de derrotar Menem, acabando com o menemismo

Por estas razões, não houve um fato mais heroico nas últimas décadas que as mobilizações de 19 e 20 de dezembro de 2001: o Argentinaço. Naqueles dias de luta, o povo trabalhador, afundado na miséria, se vingou do menemismo e sua sucessão expulsando o icônico economista do menemismo, Domingo Cavallo, e depois o presidente De la Rúa, ao grito de “fora todos”, e cantando “sem peronistas, sem radicais, viveremos melhor”. Mas duas grandes ausências impediram que essas mobilizações fossem o ponto de partida para reconstruir a Argentina fundamentada em novas bases: o movimento operário organizado, força social principal do país há um século e meio, e, junto a este, um partido socialista revolucionário que guiasse as massas para além dos objetivos imediatos.

Sem estes dois elementos, a luta que expulsou De la Rúa e derrotou politicamente o menemismo mais expresso, acabou se dissipando. E a recomposição econômica a partir do  menemismo voltou com novas facetas: tanto Macri como o kirchnerismo continuaram com o ajuste e a entrega; e hoje as consequências dessa entrega estão se transformando em um sofrimento insuportável.

Por isso mesmo, tanto aos que festejam a morte deste símbolo do quanto nefasto o capitalismo pode ser, como aqueles que lamentam a impunidade que o acompanha ao seu caixão, ou se enfurecem pelos obituários da mídia e mandatários, dizemos o mesmo: ambos os sentimentos são válidos, mas o importante, o imprescindível é se organizar para lutar até que não fique o menor resto do menemismo, unindo, organizando e cercando de solidariedade as lutas, para colocar de pé um movimento capaz de ir mais além do que chegamos em dezembro de 2001, levando os trabalhadores e o povo ao poder para construir uma Argentina socialista.

Artigo publicado em www.pstu.com.ar, fevereiro de 2021.-

Tradução: Lilian Enck

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