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Chile| A fome e a crise da saúde não são acalmadas com repressão. Saúde, Pão e Trabalho! Fora Mañalich e Piñera!

junho 11, 2020

A comuna El Bosque foi a ponta de lança das dezenas de protestos pela fome nos bairros, um fato que marcou a imprensa inclusive internacional.

Por: MIT-Chile
Entretanto, El Bosque não foi a exceção, a crise através das demissões e a famosa “lei de proteção ao emprego” estão atingindo centenas de milhares de famílias e os protestos já se expandiram nos bairros como Bajos de Mena na comuna de Puente Alto, em Renca, San Bernardo, La Pintana, no bairro La Bandera da comuna de San Ramón, e fora de Santiago em: Talca, San Felipe, Mejillones, entre outros. É que os 2 milhões e meio de caixas com mercadoria que Piñera prometeu estão longe de chegar, em seu lugar chegam as Forças Especiais e os militares para reprimir os protestos, jogando gás lacrimogênio nas casas durante as noites, e em alguns casos inclusive com militares enfrentando os moradores com disparos como foi o caso de Renca.
Os testemunhos de trabalhadores de El Bosque são dolorosos, alguns denunciam que “às vezes se passa o dia com um chazinho e outros apenas com um copo de agua”, “nas lojas a gente compra saquinhos de chá individuais”, e uma das vizinhas protesta: “Sim, dias ruins, ruins…dias que se passa praticamente deitada para não sentir fome”, “Eu me pergunto como este governo pode ser tão fechado que não escuta seu povo. Não olha para fora, não vê o próximo, não vê o fraco, o humilde, só olha para si mesmo”. Em San Pedro de La Paz não é muito diferente: “Não há trabalho, não há dinheiro, não há alimento, não temos uma casa digna para nossos filhos, temos que viver aqui, rodeados de ratos e de morcegos”, contou Carolina Marín, presidenta do Comitê La Esperanza de Michaihue.
Mas não só a fome está sendo reprimida, mas também o desespero de ver nossa classe ser contagiada e não poder ser atendida nos hospitais devido ao colapso que há no sistema de saúde. Em muitos casos há pessoas que morrem e nem sequer tinham sido diagnosticadas com covid-19. A pandemia já está fora de controle, já ultrapassamos a China em número de contágios e a média global de mortalidade com 46.3 mortos por milhão de habitantes. Isso sem considerar que um estudo da Universidade de Talca estabeleceu que no Chile são detectados 1 de cada 6 infectados. É por isso que recentemente um grupo de 40 cientistas exigiram de Piñera através de uma carta “O isolamento e fechamento oportuno de cidades ou regiões, que logo estarão saturadas pelos altos níveis de contágio, para assim evitar que se repita a situação atual de Região Metropolitana, onde se agiu tarde”, com o objetivo de “evitar no Chile uma catástrofe nacional devido a propagação do COVID-19”.
Se considerarmos que no marco dessa pandemia, há mais de 2000 presos políticos amontoados nas prisões e que continuam prendendo os que protestam pela fome, vemos que além disso, Piñera tem uma política focalizada de extermínio contra um importante setor de lutadores.
Um genocídio administrado pelo Governo
Piñera e Mañalich dão de ombros, dizendo que estão salvando vidas, no entanto bastou pouco tempo para que o próprio Presidente reconhecesse que no Chile não estávamos bem preparados, e para que Mañalich assumisse que muito do que tinha entendido se baseava em suposições errôneas. Mudaram seu discurso à medida que a realidade golpeava a cara, mas continuam com essa hipocrisia e mentindo na nossa cara ao dizer que estão fazendo todo o possível. O que mais os preocupa é a economia dos ricos, por isso destinaram bilhões de dólares às empresas, enquanto que para distribuir algo tão básico como uma cesta básica – anunciada com mais mentiras porque não cobrirá os 70% mais vulneráveis, e sim os 70% dos 40% mais vulneráveis – demoraram semanas.
É que a política de Piñera não é somente repressão, também tenta calar os protestos com migalhas, enquanto os recursos às empresas são vultosos. Pior ainda, para financiar tudo isto, como fez após os protestos de 18 de Outubro, continua endividando o Estado, isto é, solicitando empréstimos ao imperialismo que depois terão que ser pagos à custa de demissões e ajustes fiscais, ao invés de fazer com que a crise seja financiada com um imposto às famílias mais ricas como os Luksic ou os próprios Piñera. Nesse sentido, o FMI já aprovou a Linha de Crédito Flexível, um total de US$23,93 bilhões, já que sabem que para sua economia o panorama não é auspicioso: uma queda de 4,5% do PIB este ano e no pior dos casos – isto é, se houver um surto mais longo de coronavírus a nível global – uma queda de até 8,5% este ano, segundo o FMI. Estão colocando esta crise nitidamente nos bolsos dos trabalhadores.
Em síntese, no Chile estamos vivendo apenas o início do que pode ser uma catástrofe social, a fome e o descontrole da pandemia estão só mostrando suas primeiras consequências. E se deixarmos esta crise nas mãos de Piñera e companhia, não virá um futuro melhor.
A Frente Ampla e o PC não propõem uma saída real
O governo sabe o que está por vir, por isso pressiona por um Acordo Nacional para poder ter uma única voz e maior estabilidade entre os de cima diante do panorama da crise que pode trazer novas manifestações. A Frente Ampla e o PC também sabem disso, por isso cada um apresenta saídas. A Frente Ampla já se mostrou disponível para o Acordo Nacional colocando um eixo para que haja maior controle da pandemia, renda básica emergencial, e a participação de “atores sociais” no Acordo, inclusive para a renda da emergência, também propõem endividar o Estado! O PC se fechou para o Acordo, entretanto enfatiza em exigir um imposto de 2.5% sobre as maiores fortunas do Chile para garantir uma renda básica.
Poderiam parecer boas intenções, porém lamentavelmente não bastam boas intenções para mostrar uma saída real à crise. Nenhum pacto com Piñera ou com governos empresariais pode garantir mudanças reais a favor da classe trabalhadora, já ficou evidente que eles preferem seus negócios ao invés de nossas vidas. Por seu lado, a aposta do PC se move dentro dos limites estreitos do parlamento e das instituições financiadas pelos mesmos empresários que atacam nossos direitos. Por isso não podemos depositar confiança nessas apostas, já que mais do que uma tentativa de mudança real, são armadilhas que nos levam ao mesmo beco sem saída de sempre: o Congresso corrupto. E deixamos bem acentuado desde o 18 de Outubro que já não queremos mais armadilhas dos de cima.
Como continuar nesta situação em meio a uma pandemia?
É um momento muito difícil, em Junho e Julho virão os piores meses da pandemia no Chile e a necessidade de confinamento tem impedido de responder com mobilização aos ataques deste governo, só a pandemia nos tirou da Plaza Dignidad e das ruas do país. Pouco a pouco porém se percebe que é muito difícil resistir à fome ou às consequências da crise da saúde apenas esperando em nossas casas. Nos EUA a gota que entornou o copo foi o assassinato de George Floyd, as e os negros foram os mais afetados pela pandemia, percentualmente superam as mortes por uma superexploração justificada pela opressão racial, já que não podem aguentar tanto abuso confinados em suas casas, por isso embora seja o país epicentro da pandemia, hoje se levantam profundas mobilizações. No Brasil, outro epicentro da pandemia, já se veem os primeiros protestos contra Bolsonaro.
No Chile temos visto inícios de mobilizações nos bairros devido à fome e à crise, nesse sentido, nós do MIT apoiamos totalmente essas mobilizações e inclusive defendemos os trabalhadores que foram obrigados a saquear alimentos ou outros bens indispensáveis para sobreviver. Por outro lado, as panelas comunitárias e centros de coleta continuam se reproduzindo através da consigna: só o povo ajuda o povo, algumas assembleias territoriais e grupos de primeira linha são parte desse processo.
É importante continuar desenvolvendo e avançando em centralizar (isto é se juntar e organizar a nível nacional) este tipo de resposta de auto-organização nos bairros da classe trabalhadora para fazer frente à negligência do governo. Se houver mobilizações em nossos bairros ou locais de trabalho, devemos participar resguardando-nos com tudo o que for necessário para evitar mais contágios: máscaras, óculos de proteção, etc. Além disso, a organização deve se fortalecer no sentido de garantir uma melhor defesa no marco do avanço da repressão, nesse sentido as ações isoladas são um risco maior frente à repressão. Mas esta auto-organização e luta que estão ocorrendo devem ter um plano concreto para ver como enfrentar a pandemia e a crise econômica:

  • Quarentena total com salário emergencial garantido de $600.000 mensais para enfrentar esta pandemia e compensar a fome, isto deve ser financiado com impostos progressivos e graduais das fortunas dos grandes empresários do Chile, para satisfazer as necessidades primárias e secundárias das famílias, baseada na mobilização dos trabalhadores e do povo.
  • A lógica de demissões deve ser interrompida e garantir empregos com salários, mas que só sejam executados no caso de serem essenciais.
  • Liberdade imediata a todos os presos políticos, incluindo aos mapuche. Medidas sanitárias em todas as prisões.
  • Direcionar a economia para deter a pandemia, garantindo mais testes de detecção precoce, leitos de UTI, hotéis para deixar em quarentena as pessoas em situação de rua, ou outros. Precisamos garantir saúde para toda a população não somente através do governo centralizando a rede de saúde privada, mas estatizando-a e colocando-a sob o controle dos trabalhadores para fazer da saúde um serviço garantido para toda a população e não um negócio empresarial. Para isto provavelmente será necessário não somente um imposto, mas recuperar todo esse patrimônio dos super-ricos (Luksic, Piñera) expropriando-o sob controle operário e popular para colocá-lo à disposição de deter a pandemia e a fome.
  • Devemos fazer com que os ricos paguem por esta crise. Tudo isto não será alcançado com Piñera nem Mañalich nem todos eles no governo, por isso é mais vigente do que nunca a tarefa de tirar Piñera e todos eles. Por uma nova constituição através de uma Assembleia Constituinte que será convocada somente se fortalecermos a organização operária e dos povos, e avançarmos na luta por um governo operário e popular.
  • Se quisermos que estas lutas, que são parte da revolução aberta no ano passado, avancem para triunfar e não permaneçam somente um fato histórico, precisamos nos organizar em um projeto que aprenda com as lições das revoluções anteriores e com as experiências atuais, para propor um caminho a seguir. Se você estiver de acordo com uma alternativa política dos trabalhadores que defenda o exposto acima, vamos construir em conjunto o MIT no Chile e a LIT-QI em escala internacional. Vamos construir, difundir e ampliar um projeto para que a revolução vá tendo triunfos.

Tradução: Lilian Enck


 

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