Na madrugada de sexta-feira, 2 de julho, Samuel, um jovem trabalhador de 24 anos, foi espancado até à morte por 12 homens ao grito de “maricas” em La Coruña. Este crime de ódio indignou grande parte da juventude de todo o Estado que logo após o dia do Orgulho LGTBI, não esperou para responder manifestando-se massivamente nas principais cidades do território. Nelas pudemos escutar gritos carregados de raiva como “Fora fascistas de nossos bairros!” e “Abascal é um criminoso!”

Por: Corriente Roja

Um cântico não se entende sem o outro, e se relacionam com o momento político em que vivemos: diante da segunda crise econômica mundial em menos de 15 anos, os discursos de ódio tem maior significado social, pois situam as minorias como bode expiatório pelas desgraças das classes populares (lembremos o recente assassinato em Murcia do marroquino Younes).

O VOX[1] não deixou de se consolidar como força política no Regime Monárquico espanhol, porém não é mais que a ala direita de um franquismo institucional que nunca foi erradicado e que ganha força diante da inação da esquerda institucional, tal como explicávamos em nossa declaração pelo Orgulho LGBTI este ano:

“Os partidos que se autodenominam de esquerda, mas que na realidade governam a serviço das grandes empresas e bancos, e dos mandatos da União Europeia, a única coisa que fazem é frear a luta social, dar falsas esperanças para que não lutemos, e decepcionar amplos setores populares e da classe operária que deixam de confiar neles e são ganhos pelo discurso da ultradireita, um discurso completamente reacionário, liderado pelo VOX, que ataca diretamente e nega os direitos mais básicos do coletivo LGBTI”.

Além dos ataques ao povo pobre por parte do “Governo Mais Progressista da História” e do consequente espaço político que oferece a reação do VOX, a reincidência de agressões LGTBIfóbicas que hoje vivemos, (mais de 15 só no mês passado, que podemos contar por terem sido denunciadas na mídia) também não se explicaria sem a tortuosa negociação do governo pela “Lei Trans”, a qual deu margem para preencher espaços televisivos com discursos LGBTfóbicos desde os estúdios até o parlamento (com parte do PSOE à frente).

A LGTBIfobia é estrutural ao Estado Espanhol

A grande mercantilização do Orgulho em Madri, ligada à aposta estatal por um modelo econômico baseado no turismo, não muda o fato de que a LGTBIfobia é estrutural ao Estado espanhol, não só pelo papel que cumpre como ideologia imposta pela burguesia para dividir a classe trabalhadora e legitimar sua maior exploração, mas pela relação privilegiada que tem com a Igreja católica, cuja preponderância se explica porque o fundamentalismo católico foi a base do franquismo e este sobrevive graças à uma Transição que não acabou com ele, mas que o converteu em uma forma “democrática”.

 Historicamente, o grande negócio da Igreja tem sido a educação e hoje em dia continua em suas mãos, subvencionada pelos nossos impostos: 60% dos centros subsidiados são geridos por ela e em 2017 recebeu 29,678 bilhões,  7,4% do gasto total em educação. Nos últimos 15 anos, a educação subsidiada ganhou uma média de 22.407 alunos por curso como consequência do desinvestimento em Educação Pública: de 2007 a 2017 o financiamento público à subsidiada cresceu 24,4%, enquanto que o crescimento da pública foi somente 2,3%.

Este negócio não serve à Igreja apenas para fazer caixa, mas instaura o machismo e a LGBTIfobia  a partir das salas de aulas, convertendo-as em um espaço de violência corretiva ao estilo da lei franquista “de vagabundos e meliantes” da qual nem sequer os precarizados centros públicos escapam: segundo os Acordos da Santa Sé de 1979, a Igreja Católica está presente em cada centro público através de 34.658 professores designados por ela, mas pagos pelo Estado, por um custo de 700 millhões anuais.

De acordo com um estudo da Agência para os Estudos Fundamentais da União Europeia que entrevistou mais de 3.000 espanhóis 91% se lembra de ter escutado ou visto comentários ou comportamentos negativos dirigidos a um companheiro LGBTI ou percebido como tal na escola. Ainda que não faltem estudos para corroborar a LGBTIfobia no âmbito escolar, pois provavelmente quem estiver lendo estas linhas foi vítima ou testemunha deste tipo de assédio em seus anos escolares.

Costuma-se dizer que a LGBTIfobia é produto da ignorância, porém esta “ignorância” é ministrada e promovida em nossas salas de aulas, por isso precisamos de recursos para uma Educação 100% Pública e Laica, que contemple uma educação sexual em valores de igualdade para os alunos e formação para capacitar os docentes a combater o assédio machista e LGTBIfóbico, impossível sem recursos para reduzir as proporções por sala de aula.

A negação da homofobia é homofobia

Até hoje, os responsáveis pela investigação do assassinato de Samuel, em cumplicidade com os meios de comunicação, continuam insistindo que não vêem homofobia como motor do crime, apesar de que a principal testemunha (a amiga com a qual estava na noite do espancamento) declarou que ameaçaram Samuel de morte como “maricas” e o mataram ao grito de “maricas de merda”.

Não é de se estranhar que o aparato policial, também herdeiro do franquismo, pretenda negar a homofobia como motor de um crime que despertou a indignação de dezenas de milhares de pessoas e que aponta a raiz do problema. No mesmo dia 3 de julho se denunciou uma agressão homofóbica por parte de um policial municipal em Madri e ocorreram acusações policiais na manifestação pela morte de Samuel, tanto em Madri como em Barcelona. O avanço do VOX nos Corpos de Segurança do Estado é uma realidade: Jusapol, o sindicato policial ligado ao VOX, obteve 58,4% dos votos nas últimas eleições para o Consellho da Polícia. Devemos exigir desde já a revogação da Lei da Mordaça e a dissolução das Unidades de Intervenção Policial (antidistúrbios) para que não se interponham em nossa luta contra a LGBTIfobia.

Contra a LGTBIfobia nossa solidariedade de classe 

Para combater a LGBTifobia e o racismo que a ultradireita promove, só há uma receita: unidade de classe! Pois esta luta é, de fundo, contra o Regime Monárquico em sua totalidade. A vitória parcial que significou o direito de autodeterminação de gênero nos mostra o caminho: temos que começar a traçar de forma unitária, entre todas as organizações LGBTI, sindicatos alternativos e organizações anticapitalistas, um plano de luta para conseguir garantias contra a LGBTIfobia em todos os níveis.

A livre decisão sobre nossos corpos e nossas vidas é um direito de toda a classe trabalhadora, por isso temos que incluir e chamar todos para que se unam a ela.

[1] Vox é um partido político de ultra direita do Estado espanhol fundado em dezembro de 2013 por antigos militantes do Partido Popular (ndt,)

Tradução: Lilian Enck