“Ruptura Suja” (Dirty Break) é o nome da estratégia proposta pelo autodenominado polo marxista do DSA (Socialistas Democratas da América) chamado Pão e Rosas (Bread & Roses). Em essência, a ideia da ruptura suja é colocar os socialistas nas listas eleitorais do Partido Democrata com o objetivo de consolidar forças suficientes para se separar e formar um partido socialdemocrata em algum ponto indeterminado no futuro. 

Por: Ahmed K.   (em 02/dezembro/2020)

Com o fraco desempenho do Partido Democrata nas eleições de 3 de novembro, que lições os Socialistas pela “Ruptura Suja” (doravante SRS) aprenderam e que caminho eles imaginam? Para o SRS e o restante do DSA, o dia da eleição trouxe um resultado ruim para os democratas em geral, mas foi uma boa notícia para a esquerda e, em particular, para o socialismo democrático. Em apoio a essa ideia, eles citam o sucesso de candidatos endossados ​​pelo DSA e iniciativas de plebiscito. Desde uma perspectiva marxista, entretanto, perguntas mais profundas precisam ser feitas do que se este ou aquele candidato venceu uma eleição. Esses sucessos estão aumentando a confiança e o poder da classe trabalhadora? Eles estão aumentando a consciência de classe proletária e a independência de classe? Eles avançam o movimento socialista para além do eleitoralismo? A resposta a todas essas perguntas-chave é não.

Balanço da Eleição

Para que as eleições sirvam à estratégia socialista, isto é, atendam verdadeiramente aos interesses dos trabalhadores, elas devem ser abordadas de uma forma diferente da que é típica na democracia burguesa. Para os políticos burgueses típicos, o objetivo é ganhar 50 por cento mais 1 dos votos e assumir a administração do estado capitalista porque seu objetivo é simplesmente “administrar” o capitalismo. Por definição, o eleitoralismo burguês desmobiliza e desorganiza a luta de classes do proletariado. A práxis socialista, ao contrário, é resumida pelo termo “parlamentarismo revolucionário”. Isso significa que nas eleições e parlamentos burgueses, os socialistas visam conectar as lutas de classe extraparlamentares aos debates parlamentares; para expor a democracia burguesa como uma limitação, uma forma incompleta de democracia que nunca garantirá a libertação da classe trabalhadora ou resolverá as crises do capitalismo; para educar a classe sobre a desonestidade e traições de políticos reformistas; e sempre colocar ênfase na ação de massas e na necessidade do proletariado de tomar o poder. Em outras palavras, os socialistas revolucionários ou comunistas participam das eleições não como “partidos parlamentares”, mas como “partidos de combate”.E isso porque seu objetivo não é dar continuidade à normalidade, mas para questionar e desfazer as instituições do poder de classe.

A eleição de 2020 foi vista pela massa de eleitores de Biden – quase 80 milhões, um recorde – como um referendo sobre Trump, em vez de uma expressão de apoio a seu candidato. O programa do Partido Democrata empalideceu em comparação com suas mensagens incessantes sobre a necessidade de livrar o país de Trump por causa da ameaça do “fascismo”. O Partido Democrata não ofereceu soluções para nenhuma das questões que a classe trabalhadora enfrenta, desde a pandemia da COVID-19 até o desemprego e o colapso climático. Nesse vácuo, Trump também obteve um total de votos quase recorde: mais de 10 milhões a mais do que em 2016, incluindo um aumento entre eleitores latinos e negros. Isso é surpreendente, dado o papel direto de Trump na morte de mais de 250.000 pessoas nos Estados Unidos por COVID-19 e no colapso econômico em curso – e o fato de que o Partido Democrata tem dito a todos que ele é o próximo Hitler. Além disso, os democratas perderam terreno na Câmara e não avançaram no Senado. As previsões dos pesquisadores de um “tsunami azul” se revelaram muito erradas.

Apesar do comparecimento recorde dos eleitores nesta eleição, devemos ter em mente que a democracia burguesa nos Estados Unidos é excepcionalmente antidemocrática. Até 35 por cento dos eleitores elegíveis não votaram, seja por causa da supressão do eleitor ou indiferença ativa, dada a forma como os dois candidatos eram claramente pouco atrativos ​​para a classe trabalhadora. Além disso, 47 milhões de imigrantes, quase 15% da população dos Estados Unidos, não têm permissão legal para votar. É comum nas eleições dos Estados Unidos que o número de não eleitores exceda em muito o número de votos de cada um dos candidatos burgueses, e o padrão básico parece se manter em 2020, embora não tão visivelmente como nas eleições anteriores.

Recriminações pela direção democrata

Apesar desses resultados desanimadores, os líderes democratas ignoram as várias falhas do próprio partido, entre elas o fracasso em mobilizar os eleitores latinos na região da fronteira com o Texas, onde Sanders obteve grandes vitórias nas primárias ou, novamente, de forma mais geral em oferecer soluções às crises do capitalismo. Em vez disso, o partido procurou culpar a esquerda do partido. Os alvos das recriminações do partido incluem ativistas e jovens negros e latinos. Na realidade, esses setores impulsionaram na campanha de Biden o entusiasmo que poderia muito bem ter desempenhado um papel determinante em empurrar Biden para além da linha de chegada. Os líderes democratas também criticam o apoio da esquerda às bandeiras de corte de verbas da polícia, de Saúde para Todos e Todas (Medicare for All) e ao “socialismo”.

Essa divisão destrutiva no Partido Democrata é digna de nota porque a maior e mais proeminente organização socialista dos Estados Unidos, o DSA, está agora afundada no pântano. Este é um resultado nada surpreendente da relutância do DSA em romper com o Partido Democrata. Para o pessoal da revista jacobin, cada vez mais indistinguível de uma liberal progressista, a demanda mais urgente parece ser que os democratas reconheçam a contribuição da esquerda para a vitória de Biden. “O que Biden deveria ou não fazer”, “e se Biden tivesse batido em mais portas ” e “ fantasiando sobre um gabinete de Biden” parecem ser suas questões candentes. Este é o resultado lógico de subordinar os princípios socialistas ao oportunismo e ao eleitoralismo que sempre foram os desorganizadores da classe trabalhadora.

Nesse ponto, oferecemos apenas mais uma observação. Imagine uma situação em que ocorrera um tsunami azul. O Partido Democrata “agradeceria” à esquerda? Isso abriria as portas do gabinete de Biden e da direção do partido aos “socialistas democráticos”? O que acontece com o movimento socialista democrático quando Biden, como é o cenário mais provável, não oferecer qualquer solução para as massas que sofrem com o desemprego, a morte em massa induzida por COVID-19 e outros efeitos da crise atual? Já na transição, Biden está se movendo decisivamente para a direita, abandonando suas promessas de tratar o clima, imigração, e o racismo. Sua administração promete uma restauração da ordem liberal que gerou as crises e a devastação que produziram Trump. No entanto, em vez de educar a classe trabalhadora sobre isso, a mensagem dos políticos endossados ​​pelo DSA, com o apoio tácito do SRS, é que os democratas precisam da esquerda e a esquerda precisa dos democratas.

Situação da estratégia de “Ruptura Suja”

As implicações para a estratégia de ruptura suja representam uma questão fundamental para a juventude recém-politizada e os estratos médios da classe que constituem a maior parte da base da DSA. Um segmento grande – muito grande – do movimento socialista está agora debatendo quem Biden deve indicar para seu gabinete e por que os democratas não estão jogando limpo. Em contraste com essas considerações de colaboração de classe, o movimento socialista deveria, em vez disso, extrair lições claras e precisas da experiência da campanha de Biden e, antes disso, da rápida derrota burocrática da campanha de Sanders e do subsequente apoio subserviente de Sanders a Biden. Se os expoentes da ruptura suja fossem sérios, essas experiências mais recentes não deveriam acelerar o ritmo da ruptura?

Infelizmente, a posição do SRS não mudou significativamente e o horizonte distante da eventual ruptura permanece apenas isso – um horizonte distante. Seth Ackerman, um dos principais teóricos do SRS cujo artigo no jacobin de 2016 , “A Blueprint for a New Party” (Um plano para um novo partido), é tido pelo SRS e por muitos do DSA como seu manifesto, recapitulou seu argumento original em uma entrevista ao Jacobin no Youtube em 11 de novembro. Enquanto para o lendário comunista italiano Antonio Gramsci, o marxismo era uma “filosofia de ação” – o credo combativo de uma classe trabalhadora consciente com o “dever de se defender e lutar contra todas as manifestações de oportunismo” – para Ackerman claramente não é. [1] O socialismo de Ackerman nada mais é do que uma ciência social tecnocrática, repleta de eleitorismo e a linguagem dos incentivos em vez da luta de classes e do poder da classe trabalhadora.

Tanto para o entrevistador quanto para Ackerman, os principais inimigos são os “democratas pró-corporações”, e não o Partido Democrata em sua própria natureza. Embora expressando ceticismo de que o DSA seja o novo partido idealizado em sua tese original, Ackerman vê os socialistas democratas votantes como fornecendo um modelo para um “novo polo”. À medida que a entrevista prossegue, fica claro que SRS é, na verdade, uma repetição de um mal menor: uma parte significativa da entrevista é sobre como o plano é recomendável, pois evita o risco de dividir o voto e, assim, ajudar os republicanos. Questionado sobre por que os democratas não mudam as regras do sistema de primárias que impedem a possibilidade de vitória da esquerda, Ackerman responde que as regras das primárias são estabelecidas pelos estados e não pela direção nacional do Partido Democrata, e que as primárias são administradas pelos governos estaduais. Se o partido nacional mudar as regras, ele “teria que lidar com as consequências”. Eles criariam um grande incentivo para que a esquerda assumisse o controle do partido. No momento não há interesse em assumir a organização partidária em nenhum estado porque os partidos estaduais não decidem muito, a organização partidária não é poderosa agora. Os democratas, nesta avaliação, preferem um sistema difuso porque enfraquece os militantes do partido. Para Ackerman, a resposta é meramente tecnocrática.

E incompleto: várias questões permanecem sem resposta. O SRS teve quase cinco anos para trabalhar e tirar lições com a aplicação do conceito de ruptura suja. E, no entanto, não conseguem tirar conclusões sobre as limitações das trajetórias eleitorais para o socialismo. Além disso, o que acontece quando a burguesia e seus políticos entendem que deixaram esse absurdo de socialismo ir longe demais e decidem contra-atacar? Se, como afirma o SRS, o Partido Democrata nacional realmente carece de poder e não age como um partido político típico, o que explica o rápido término da campanha de Sanders e sua subsequente submissão imediata à disciplina partidária? Torna-se cada vez mais evidente que o SRS é uma estratégia do socialismo que aceita as regras do jogo da política burguesa e do Partido Democrata.

Estudo de caso: as vitórias de candidatos endossados pelo DSA em 2020

Consideremos agora a principal evidência para a afirmação de que a esquerda esteve bem em 3 de novembro: o sucesso de políticos democratas endossados ​​por socialistas e os plebiscitos. Esses sucessos aumentam a consciência de classe proletária e a independência de classe? Eles avançam o movimento socialista para além do eleitoralismo? Ou é a mensagem deles é que os socialistas democratas serão apenas melhores administradores do estado capitalista do que os políticos burgueses? É possível que a eleição de socialistas democratas tenha aumentado a confiança da classe trabalhadora. Não oferecemos opiniões definitivas sobre essa questão, pois é muito cedo para dizer. Também é possível que o SRS esteja reavaliando internamente sua estratégia. Desde a eleição, eles ficaram estranhamente calados, pelo menos em termos de publicações na jacobin e similares. Se o SRS sair da experiência de 2020 com uma estratégia de “ruptura limpa” decisiva que centra a ação de massas da classe trabalhadora e uma análise de classe combativa sobre o estado capitalista, políticos burgueses e burocratas trabalhistas, isso seria uma contribuição bem-vinda para o movimento socialista.

Uma entrevista recente com o professor de sociologia Vivek Chibber, um pensador que o SRS segue, pelo menos em parte, deu uma dica nessa direção. Chibber rejeita as vitórias dos socialistas democratas nas urnas, dizendo que eles atolam os socialistas em um pântano. Ele também rejeita a possibilidade de que a socialdemocracia possa ser alcançada por meio de eleições nacionais. Deixando de lado a questão sobre se a socialdemocracia é mesmo objetivamente possível neste estágio de não-crescimento  abertamente predatório do capitalismo. O raciocínio de Chibber, pelo menos, indica que ele nutre muito menos ilusões do que seus camaradas socialistas democratas. A classe trabalhadora, diz ele, está deixando o Partido Democrata em massa e o partido agora estabeleceu uma estratégia de consolidar uma base suburbana suplementada por uma no establishment negro e latino. Um exemplo deste último é o Congressional Black Caucus (Grupo parlamentar negro) que ele corretamente chama de reacionário. Em vez de tentar ganhar eleições, os socialistas no próximo período deveriam se concentrar na construção de uma base na classe trabalhadora, nos locais de trabalho, nos sindicatos e nos bairros de minorias proletárias e raciais.

Embora nos opomos ao reformismo de Chibber, esta é, no entanto, uma crítica bem-vinda ao eleitoralismo, especificamente aos supostos benefícios para o movimento socialista de disputar eleições. Chibber, no entanto, parece ser um caso isolado a esse respeito. Se a análise que está sendo oferecida atualmente por outros socialistas democratas em jacobin e similares serve de indício, os sinais são de que o DSA, de maneira mais geral, permanece atolado nas próprias ilusões que Chibber está criticando.

As análises em jacobin e em outros lugares se concentram principalmente no fato de que de 29 candidatos endossados ​​pelo DSA e 11 iniciativas plebiscitarias, a 20 e a 8, respectivamente, venceram na noite da eleição. Atribuem esse sucesso ao apelo das políticas que esses candidatos prometeram adotar, mas não oferecem nenhuma análise da natureza de classe do Estado ou do Partido Democrata. Alguns até deixam de mencionar a classe completamente. Por exemplo, um líder nacional do DSA escreve : “A ideologia do DSA, focada em uma sociedade que trabalha para todos nós em vez de para uns poucos ricos, é muito mais inspiradora para os jovens e trabalhadores do que para alguém que está concorrendo a um cargo só por oposição ao Trump.” Outra artigo, em jacobin, faz um gesto em direção aos movimentos que estão tomando as ruas recentemente, mas argumenta que o papel da ação de massa é ajudar a eleger políticos progressistas. O artigo também falha em esclarecer as diferenças entre movimentos de luta de classes conscientemente liderados, rebeliões espontâneas e organizações sem fins lucrativos, combinando tudo no último. Um exemplo notório , também de Jacobin, citou a eleição de 8 procuradores distritais – figuras-chave no aparato repressivo do estado – como prova de que a “esquerda esteve bem”. Essas peças representam uma grande proporção da produção e um espectro típico do discurso entre as declarações pós-eleitorais dos socialistas democratas.  Ninguém disse uma palavra sobre como essas eleições aumentarão a confiança da classe trabalhadora, a militância e a vontade ou capacidade de se organizar de forma independente. Nenhum, para dizer o mínimo, introduz “a linha de delimitação de classe da militância” ou profere uma palavra crítica sobre os “amigos dos sindicatos” entre os democratas e a burocracia trabalhista pró-Partido Democrata. [2]

Ruptura Limpa

É importante fazer uma distinção entre o SRS de um lado, e o DSA mais amplo do outro. O primeiro tem sido mais reticente do que o último na análise eleitoral, e pensadores afiliados ao SRS como Chibber, indicam uma abertura para pensar além do eleitoralismo. No entanto, permanece o fato de que os artigos apresentados no Jacobin respondem por uma grande parte da análise superficial mencionada, quase indistinguível do que se lê no The Nation, Mother Jones e outros meios de esquerda liberal. Para dezenas de milhares de jovens movendo-se para a esquerda, Jacobin representa o “socialismo”. Esses escritores e esta revista tem surfado uma onda de movimentos radicais desde os dias do Occupy, disseminando uma mensagem acessível sobre sua versão do socialismo. Mas, ao fazê-lo, sua análise falha em responder a questões básicas sobre a relação entre os socialistas, de um lado, e as eleições burguesas, os partidos políticos e o estado capitalista, de outro. Nunca se entenderia, lendo jacobin, que socialistas e comunistas escreveram bibliotecas dignas de literatura sobre o parlamentarismo  revolucionário.

Repetidamente, nos últimos quatro anos, esses escritores preferiram confundir quantidade com qualidade: esses muitos milhares de membros ingressaram no DSA após esta ou aquela eleição, este ou aquele candidato endossado pelo DSA ter ganho uma eleição primária ou uma eleição para procurador distrital. O que esses políticos fazem após sua eleição para cargos públicos é uma incógnita: eles parecem nunca dizer as expressões socialismo ou classe, muito menos luta de classes, pelo menos não alto o suficiente para encorajar qualquer trabalhador a entrar na política. O SRS conta entre seus membros os quadros do DSA teoricamente mais sofisticados – aqueles membros aparentemente mais instruídos no marxismo. No entanto, eles conscientemente concordaram com as ilusões eleitorais e reformistas da organização e muitas vezes incitaram-nas. Este é um dos aspectos verdadeiramente intrigantes da história socialista recente nos Estados Unidos. Será que eles finalmente chegarão à conclusão inevitável a que Chibber parece estar chegando, de que um rompimento limpo com o Partido Democrata é o único caminho a seguir? O próximo período, em que, entre outras coisas, os novos políticos socialistas democratas provavelmente serão engolidos pelo pântano, oferecerá lições reveladoras e necessárias para o movimento socialista.

[1] Ver John Molyneux, Marxism and the Party (Haymarket Books, 2003), p. 36

[2] James P. Cannon, The History of American Trotskyism 1928-1938 (Pathfinder, 2002 [1944]), p. 198.