Um massacre para apagar o exemplo dos operários parisienses

É difícil encontrar, nos anos anteriores à Comuna de Paris, massacres semelhantes àquele em que a burguesia agiu ferozmente após a queda do primeiro governo operário da história. Teríamos que voltar no tempo, quando seis mil escravos do exército de Spartacus foram crucificados por Crasso na Via Ápia para servir de exemplo aos que tentavam se rebelar contra Roma.

Por: Francesco Ricci (*)

Nunca se saberá quantas foram, precisamente, as vítimas. Sabemos, entretanto, que de uma população de quase dois milhões, no final havia cem mil desaparecidos. Foram feitas fossas comuns e metralhadoras foram usadas para acelerar o trabalho. Após o banho de sangue, a repressão continuou com perseguições, julgamentos, deportações e anos de calúnias. Toda a imprensa burguesa internacional foi usada para retratar os operários parisienses como vândalos.

Por que tanta crueldade? A resposta é encontrada em uma das importantes cartas que Karl Marx escreveu (a de abril de 1871, quando a Comuna começou) ao Dr. Kugelmann: “Qualquer que seja o êxito imediato, um ponto de partida de importância histórica universal foi alcançado” (1). A burguesia queria liquidar este “ponto de importância histórica”.

Os bolcheviques estudaram e aprenderam muito com a Comuna

Os bolcheviques, preparando-se para uma nova revolução, estudaram profundamente os acontecimentos de 1871. O estudo da Comuna foi o centro de toda a preparação teórica de Lênin para Outubro. O “caderno azul” de citações de Marx e Engels sobre o Estado (que foi publicado depois da revolução com o título O Estado e a Revolução), e que foi a base das Cartas de Longe com as quais Lênin procurou orientar, da Suiça, ao grupo dirigente bolchevique, as Teses de Abril e toda a batalha para “rearmar” o partido nos frenéticos meses de 1917: tudo teve como centro o exemplo da Comuna.

Como escreve Trotsky (nas Lições de Outubro), sem o estudo da Comuna “não teríamos conseguido dirigir a Revolução de Outubro”. Trotsky escreveu sobre a Comuna ao longo de sua vida: do fundamental “As lições da Comuna de Paris” (prefácio de 1921 a um livro de Talés) (2), no qual desenvolve uma comparação entre a Comuna de Paris, derrotada, e a de Petrogrado, vitoriosa; até mesmo um capítulo inteiro de Terrorismo e Comunismo (escrito durante a guerra civil para defender a ditadura do proletariado da crítica “democrática” de Kautsky); e o esplêndido Sua Moral e a Nossa (na qual ele cita a Comuna para defender a necessidade do “terror vermelho” na guerra civil russa).

Por qual escola passou o proletariado francês?

Para estudar a Comuna, Lênin e Trotsky tiveram que combater as falsificações que a burguesia, os reformistas e os anarquistas haviam criado sobre o assunto. Eles tiveram que desmentir as visões da Comuna como um evento “espontâneo” e casual. Um mito alimentado pela historiografia burguesa para tentar mostrar que se tratava de um acontecimento que não se repetiria; mas também reforçada pela leitura dos anarquistas que assim buscavam encontrar a confirmação de suas teorizações sobre a inutilidade de um partido de vanguarda.

Na realidade, não havia nada de casual ou “espontâneo” na Comuna.

Os operários parisienses chegaram em 1871 com a experiência de um século de revoluções. Em uma rápida olhada nos dados históricos, vamos relembrar alguns fatos. A Grande Revolução Francesa do final de 1700, que expressou com o jacobinismo o máximo que a sociedade burguesa podia produzir para tentar anular as contradições de classe, mas na qual nasceu um primeiro programa proletário, expresso pelos “raivosos” de Roux e Leclerc, mestres de Babeuf: um movimento –como disse Marx– que, no entanto, ainda carecia de bases sociais para crescer; a revolução de julho de 1830 – na qual o proletariado teve uma participação ativa, mas subordinada à burguesia -, que a ajuda a se libertar de Carlos X para estabelecer uma monarquia constitucional (Luis Felipe de Orleáns); e, principalmente, a revolução de fevereiro de 1848, na qual o proletariado ajuda a burguesia a se libertar de Luís de Orleans e cai na armadilha de participar – pela primeira vez na história – de um governo com a burguesia, com um ministro ( Louis Blanc) que deveria representar os operários mas que, na realidade – como acontece hoje cada vez que se constitui um governo “comum” das duas classes inimigas – termina com o desarmamento dos trabalhadores. Operários que, finalmente, em junho de 1848, rompem a submissão à burguesia e se lançam contra ela com seus fuzis (pagando seu despreparo com dez mil mortos). Das barricadas de 1848 emerge a figura de Luís Bonaparte que, sob o nome de Napoleão III, governará a França até as vésperas da Comuna (3).

Assim, os operários parisienses não chegaram “acidentalmente” à revolução de 1871. Eles aprenderam através de suas lutas a necessidade da independência de sua classe da burguesia. Infelizmente, porém, o proletariado não aprende sozinho. Precisa que sua experiência de luta seja elaborada por aquela memória permanente que é o partido revolucionário. Sem este partido, os operários parisienses foram novamente enganados pela burguesia no final da guerra franco-prussiana.

A Guerra Franco-Prussiana. Outra traição da burguesia

Este não é o espaço para aprofundar o tema da guerra franco-prussiana (4). Basta dizer que a verdadeira causa da guerra foi a tentativa de Napoleão III de emergir da crise de seu regime com o que esperava ser uma vitória rápida e a convicção de Bismarck de que sua vitória facilitaria a unificação da Alemanha (que estava dividida em pequenos Estados) em torno da Prússia. A Associação Internacional de Trabalhadores (doravante AIT ou Primeira Internacional) se manifestou contra a guerra e a favor da confraternização do proletariado dos dois países. Ao mesmo tempo, não foi “neutra” diante da guerra que começou: a posição de Marx e Engels, por sua vez, era que uma vitória da Prússia facilitaria a unificação da classe operária alemã em uma Alemanha unida e abrir caminho para a República na França, libertando a classe trabalhadora do regime opressor de Napoleão III (5).

Suas previsões foram confirmadas: em poucas semanas, a França foi derrotada e uma revolta popular proclamou a República. Mas os operários confiaram na burguesia, entregando o governo (primeiro para Trochu e, depois do armistício com os prussianos, em fevereiro de 1871 para Thiers). O primeiro ato do novo governo republicano Thiers foi fazer um acordo com a burguesia alemã, descarregando os custos da guerra na classe operária.

Um obstáculo para a burguesia: Paris operária e armada

Mas a trama das burguesias francesa e alemã encontrou um obstáculo gigantesco: os operários parisienses armados. Na França existia uma milícia, a Guarda Nacional, formada por operários que, agrupados em batalhões, faziam periodicamente exercícios militares pagos pelo Estado. A Guarda Nacional era uma antiga instituição da revolução de 1789 e tinha servido à burguesia, desde junho de 1848, para reprimir os operários. Mas, em 1871 era composta quase exclusivamente por operários e não por burgueses. E desde a constituição da República foi reorganizada em Federação Republicana, com a eleição de seus oficiais pela tropa (6).

A classe operária havia se fortalecido muito desde a década de 1860. Tinha crescido numericamente e estava concentrada em algumas fábricas: setenta mil operários trabalhavam nos estaleiros de Paris, a fábrica metalúrgica Cail empregava três mil operários e outras grandes concentrações de operários estavam em Govin produção de locomotivas), na fábrica de armas do Louvre, entre outras. Portanto, havia trezentos mil operários treinados e armados que não estavam dispostos a cumprir a vontade da burguesia.

A tentativa de Thiers de desarmar a Guarda Nacional com a retirada dos canhões e metralhadoras abriu caminho para a insurreição de 18 de março: com uma confraternização entre a população do distrito de Montmartre (papel importante, como em fevereiro de 1917 desempenharam as mulheres, entre elas a professora Louise Michel) e os soldados. Restava ao governo burguês fugir de Paris e refugiar-se na vizinha Versalhes, enquanto o Comitê Central, direção da Guarda Nacional, completava a conquista do poder com a tomada indolor do Hotel de Ville (como em 1917 em Rússia, onde a conquista do Palácio de Inverno foi apenas o último ato da revolução).

A classe operária no governo

Pela primeira vez na história, a classe operária constituía “um governo da classe operária para a classe operária” (Marx). E descobria, para colocar nas palavras que Brecht fez Galileu Galilei pronunciar, que “não há diferença entre o céu e a terra, escrevendo em seu diário: o céu abolido”. Com a abolição da necessidade da burguesia e dos gerentes das fábricas, os operários passaram a administrar as fábricas e o Estado, dispensando esses parasitas. Governar não era mais assunto reservado ao “céu” burguês.

No entanto, o Comitê Central acredita (erroneamente) (7) que seu dever é ceder o poder a uma Comuna eleita e, portanto, indica novas eleições para formar uma assembleia de cerca de noventa membros, dentro da qual se constituiram comitês (delineados exatamente como os ministérios do governo nacional: Finanças, Exterior, Educação, Trabalho, etc., demonstrando que a Comuna aspirava governar toda a França).

Esse governo, que unia os poderes legislativo, executivo e judiciário, superando a divisão burguesa dos “três poderes”, durou apenas algumas semanas. No entanto, sua atividade foi tão intensa que seriam necessárias dezenas de páginas apenas para listar suas atividades. A dissolução da polícia e a substituição do exército permanente pela milícia operária (Guarda Nacional), com a destruição da máquina estatal burguesa (a maior lição da Comuna, segundo Marx, e que deu a Lênin o alicerce de todo o trabalho dos bolcheviques: os revolucionários não se limitariam a “reformar” a máquina estatal burguesa, mas deveriam destroçá-la, destruí-la e substituí-la pela ditadura do proletariado); assistência médica gratuita (com aborto livre e gratuito, algo que muitas repúblicas burguesas ainda hoje não assumem); aposentadoria aos 55 anos; a reforma da escola baseada no ensino “politécnico”, que unia pela primeira vez o que a burguesia queria ensinar separadamente aos filhos da burguesia e aos filhos dos operários: disciplinas e técnicas “humanistas” e “científicas”; a separação do Estado da Igreja, com a abolição dos tributos ao clero e a expulsão da religião da escola; um início de requisições das fábricas e a reorganização do trabalho operário sob o controle dos trabalhadores, reunindo-se em assembleias para decidir o que e como produzir; a requisição de casas desabitadas e sua atribuição aos sem-teto, etc.

Muitas dessas medidas, devido ao tempo limitado que os operários parisienses tinham à sua disposição, permaneceram apenas nas intenções. No entanto eles indicam a vontade de destruir completamente a sociedade burguesa fundando uma nova sociedade, criada pelos operários.

Significativo é o fato de que em dez semanas da Comuna pelo menos cem jornais diários foram publicados. As bibliotecas ficavam abertas à noite porque os operários queriam se apropriar da cultura da qual estavam afastados há tanto tempo. Os debates eram tantos que as salas não davam para recebê-los (por isso as igrejas foram tiradas dos padres e usadas para atividades mais úteis do que a oração). Essa grandiosa experiência foi interrompida pela entrada das tropas do governo burguês (reconstruído com a ajuda de Bismarck) que, em 28 de maio de 1871, demoliu a última barricada erguida pelos trabalhadores. Uma vivacidade cultural semelhante só será encontrada na história cerca de cinquenta anos depois, com a nova época aberta pelo governo dos operários instituído pela Revolução de Outubro.

Lições e erros da Comuna na análise de Marx e Engels

Marx e Engels, que consideraram aquela breve experiência francesa muito importante para inserir sua lição principal (a ditadura do proletariado na “forma finalmente encontrada”) em todos os textos, não paravam de fazer críticas, identificando os erros e os limites, forjando uma lição de estratégia e tática que será de grande utilidade para os bolcheviques.

Criticaram os erros táticos: não ter atacado o governo de Versalhes; o exercício limitado do “terror vermelho” contra a burguesia reacionária (os operários parisienses eram, segundo Engels, “excessivamente afáveis”). Criticaram os erros programáticos: não ter completado a expropriação da burguesia, parando às portas do Banco Nacional.

Porém na Comuna, Marx e Engels viram uma grande lição: a necessidade do proletariado lutar pela independência de classe frente à burguesia e seus governos, como condição para conquistar, na luta da oposição, e posteriormente com a insurreição, o próprio governo. Ter negligenciado essa lição histórica é a base de toda a “teoria” do reformismo (continuada pelo stalinismo com participação em governos de “frente popular” de 1935 em diante).

Com base nesta lição, Lênin irá “rearmar” o Partido Bolchevique com as Teses de Abril, defendendo a necessidade de não dar qualquer apoio ao governo burguês (de “esquerda”) de Kerensky, como premissa preliminar para conquistar a maioria dos operários politicamente ativos, para derrubar esse governo e construir um governo operário.

Foi realmente a primeira ditadura do proletariado? A revisão de Trotsky

No prefácio de 1891 à Guerra Civil na França, Engels escreve: “Olhem para a Comuna de Paris. Esta foi a ditadura do proletariado.”

Na verdade, Engels enfatizava polemicamente um conceito para atacar as tendências revisionistas que já se manifestavam na social-democracia alemã. No entanto, Marx (inclusive na Guerra Civil na França) falou mais precisamente de uma “tendência” na direção da ditadura do proletariado.

Trotsky desenvolveu essa análise de Marx, fazendo o que Nahuel Moreno, precisamente, havia indicado como uma “revisão” da análise de Marx e Engels; obviamente uma revisão no sentido marxista, isto é, um desenvolvimento da concepção marxista em suas bases (8).

Trotsky, em alguns escritos importantes da década de 1930, citados por Moreno (9), especifica onde essa “tendência” ou embrião da ditadura do proletariado se encontrava: não no Conselho da Comuna (os 90 eleitos por “sufrágio universal” nas eleições realizadas pelo Comitê Central), mas no Comitê Central da Guarda Nacional. Por quê? Porque foi nessa estrutura que só incluía os que se organizavam para a luta – e não numa assembleia surgida das eleições, mesmo que fossem eleições muito particulares – que se podia ver o primeiro “soviete” da história. Moreno destacou a importância desse fragmento de Trotsky: “Quando dizemos Viva a Comuna, não estamos nos referindo à heróica insurreição ou às instituições da Comuna, ou seja, ao município democrático. Sua escolha foi, por outro lado, uma estupidez (ler Marx) e essa estupidez só foi possível, de qualquer maneira, somente após a conquista do poder pelo Comitê Central da Guarda Nacional, que era o ‘comitê de ação’ ou o soviete naquela circunstância.”

Mas, por que a ditadura era apenas potencial? Porque o “soviete” também era apenas embrionário. Isto porque o que faltou a este “soviete” para se transformar no pilar de uma verdadeira ditadura do proletariado era um partido marxista revolucionário. Trotsky escreve (já em Os Ensinamentos da Comuna de París, de 1921): “O Comitê Central da Guarda Nacional precisava ser dirigido.”

Aqui, a principal diferença entre 1871 e 1917: em 1917 havia esse partido (o Partido Bolchevique) que, inicialmente era uma minoria, em confronto com as direções reformistas (Socialistas Revolucionários e Mencheviques), alcançaria a maioria no soviete, transformando-o de apoio do governo burguês (fevereiro) na base do governo operário (outubro). Lênin e Trotsky nunca exaltaram o soviete em si: eles o verão como uma estrutura que pode servir a objetivos diferentes, dependendo de suas direções. Portanto, sem opor o soviete ao partido ou o partido às massas (Trotsky prefere usar a metáfora efetiva do pistão-partido e o vapor-as massas: dois elementos que se complementam mutuamente), Trotsky identifica o elemento central no partido. É o elemento central, tal como na abóbada existe uma pedra que sustenta todas as outras (a “chave da abóbada”): não as substitui, mas é a pedra mais importante.

O partido é a chave da abóbada ausente em 1871

Em Paris, em 1871, não havia um partido como o bolchevique.

Marx era consciente desta falta fundamental e é por isso que logo após a proclamação da República (setembro de 1870) ele sugeriu aos operários uma atitude de oposição ao governo burguês, mas não para derrubá-lo imediatamente: “Usem com calma e determinação todas as possibilidades oferecidas pela liberdade republicana, para trabalhar em sua organização de classe. Isso lhes dará novas forças hercúleas (…) para o nosso objetivo comum, a emancipação do trabalho”. (10)

Em Paris, na seção francesa da Internacional, havia várias correntes além da marxista: proudhonistas, proudhonistas de esquerda (ligados a Bakunin). Na Comuna prevaleciam as posições dos blanquistas e neo-jacobinos.

As tendências do movimento operário em Paris de 1871

Esses nomes pouco dizem ao leitor atual, pois são tendências que já desapareceram; e foi a própria experiência prática da Comuna que contribuiu para sua dissolução.

Os proudhonistas eram seguidores de Proudhon (pai do anarquismo e de tantas outras variantes do reformismo que somos obrigados a tolerar até hoje), contra quem Marx havia se confrontado por décadas, e com quem já havia polemizado em 1847 com A Miséria da Filosofia. Proudhon já havia morrido na época da Comuna (morreu em 1865), mas sua tendência ainda era muito forte na França e fortes eram suas posições contra qualquer ideia de centralismo e ditadura. A essência do proudhonismo consistia, segundo Marx, em acreditar poder remediar os males do capitalismo para garantir a sobrevivência do capitalismo, embora reformando-o.

De sua ala esquerda, as posições anarquistas dos seguidores de Bakunin estavam se desenvolvendo na França. Teorizavam como sujeito revolucionário à “canalha” em vez da classe operária, isto é, o subproletariado, e eram partidários da “extinção” imediata do Estado e adversários da ditadura do proletariado. Os bakuninistas apoiavam a “abstenção política” do proletariado e eram contra o conceito de um partido para a conquista do poder, definiam-se como “antiautoritários” e queriam uma Internacional federativa. Eles eram, em suma, o oposto exato dos marxistas.

Fora da Internacional, havia também os neo-jacobinos, que reivindicaram as posições de Robespierre e Marat e que se enfrentavam, mas em outras ocasiões concordaram, com os blanquistas (que preferiram se referir a outra figura da Revolução Francesa, Hebert), isto é, os seguidores de Auguste Blanqui, definido por Marx como a “cabeça e coração do proletariado francês”, um bravo revolucionário que passou metade de sua vida em prisões (foi preso ainda durante a Comuna) e que concebeu a revolução como a insurreição de uma elite de revolucionários (sendo os operários, segundo Blanqui, incapazes de se libertar culturalmente no capitalismo). Segundo Engels (que inclusive tinha estima pelo grande revolucionário francês), Blanqui foi “um revolucionário de uma época anterior”, ligado ao utopismo. Blanquistas e neo-jacobinos estavam mais próximos do que os proudhonistas da ideia de “centralização” e “ditadura” dos marxistas (embora de forma distorcida, não com base na classe), mas subestimando os aspectos “sociais” da revolução que, ao contrário, os proudhonistas colocaram em primeiro lugar (embora de forma distorcida).

Resumindo, as principais correntes eram cinco: neo-jacobinos, blanquistas, proudhonistas (federativos), bakuninistas (coletivistas), marxistas. Mas é uma classificação esquemática, já que os limites entre um grupo e outro não eram nítidos, e frequentemente formavam grupos transversais (não havia verdadeiros partidos): na Internacional havia vários blanquistas (embora esta corrente não tivesse aderido à AIT), entre os blanquistas que não eram membros da Internacional, havia alguns mais próximos de Marx do que muitos proudhonistas que faziam parte da AIT.

Existem vários estudos que tentaram classificar os protagonistas da Comuna. O mais documentado é o de Charles Rihs (11) que contradiz dezenas de outros estudos. Na realidade, não só não temos (ainda hoje!) uma documentação suficiente, mas, o exercício de “rotular” os vários tipos de comuneiros é parcialmente inútil, uma vez que, como comentou Engels, a maioria das vezes “uns e outros fizeram precisamente o contrário do que prescrevia a doutrina de sua escola”.

Muitos dirigentes da Comuna tiraram lições de sua experiência, aproximando-se do marxismo: vários líderes blanquistas apoiaram as posições de Marx no Congresso de Haia (12), no qual a maioria marxista expulsou os anarquistas de Bakunin da Internacional. Eles persistiram, apesar da Comuna, em negar a necessidade de construir um partido centralizado da classe operária para a conquista do poder.

Mas, naqueles meses, na França, os marxistas consistentes eram contados nos dedos das mãos. Por essa razão, Marx enviou um operário da AIT próximo a ele para Paris: Serraillier (13).

Infelizmente, não houve tempo para construir um partido marxista, porque os tempos de crise revolucionária foram decididos pela burguesia, que atacou em março, obrigando os operários a se defenderem para não serem desarmados e derrotados.

 

O papel da Internacional e o papel dos marxistas

Em 14 de maio de 1872, foi promulgada a lei do Dafaure, que proíbe na França qualquer associação internacional “cujo objetivo seja promover greves, a abolição do direito à propriedade, família, religião”.

O alvo da burguesia francesa era a AIT dirigida por Marx. E a AIT foi “culpada” pela burguesia por ter organizado a Comuna.

O AIT realmente teve esse papel? Engels resume assim: “(…) a Comuna, do ponto de vista intelectual, foi absolutamente filha da Internacional, embora não tivesse mexido um dedo para fazê-la (…) ainda que fosse, justamente, considerada responsável”(14).

Que significa? A Internacional “não mexeu um dedo”; no entanto, ela foi “justamente considerada responsável”? A contradição é apenas aparente. Engels tenta dizer que a Internacional, considerada como o Conselho Geral liderado por Marx, teve poucas chances de liderança, mas ao mesmo tempo reconhece a importância que a seção francesa e seus militantes tiveram na Comuna.

A historiografia (mesmo marxista), em geral, se detém apenas em uma parte da afirmação de Engels (os marxistas eram fracos em Paris) e subestimou aquele reconhecimento da “paternidade” que Engels expressa aqui e em outros textos.

Os dirigentes marxistas conscientemente ligados às posições de Marx (e da maioria da AIT), eram muito poucos. Serraillier, representante direto do AIT, estava em Paris, enviado, como vimos, por Marx. No entanto, este sapateiro honesto e fiel não teve uma grande formação e não estava preparado para analisar a situação em profundidade, como fica claro pelos relatórios que enviou ao Conselho Geral de Londres. Outro deles, com quem Marx pôde contar em Paris, era o dirigente operário húngaro, Leo Frankel. E só. Havia algum outro marxista isolado, por exemplo, Elisabeth Dmitrieff, de vinte e poucos anos, militante da AIT de origem russa, incentivada por Marx a ir a Paris em março de 1871, e que se tornará dirigente da União de Mulheres. Sabemos, mais tarde, que Marx também se correspondeu com outro dirigente, Eugene Varlin (a figura mais interessante da Comuna) e que escreveu várias cartas a Varlin, Serraillier e Frankel, enviadas por meio de um comerciante alemão que viajava entre Londres e Paris. No entanto, a maioria dessas cartas foi perdida. As poucas cartas que restaram são, no entanto, significativas. Frankel (encarregado de dirigir a Comissão de Trabalho da Comuna) escreve a Marx (25 de abril de 1871): “Ficaria feliz se você pudesse, de alguma forma, ajudar-me com seus conselhos, porque no momento estou, por assim dizer, só (…). “Não temos a preciosa resposta de Marx. No entanto, temos uma carta de Marx, escrita em 13 de maio de 1871, para Frankel e Varlin: “Por vossa causa, escrevi umas cem cartas para todas as partes da terra com as quais temos relações. (…) Parece-me que a Comuna perde muito tempo com ninharias e disputas pessoais. (…) Mas tudo isso não faria diferença se o tempo perdido fosse recuperado.”

Mas por que Engels reivindica a “paternidade” da AIT sobre a Comuna? Porque, na verdade, a AIT na França havia criado uma organização muito importante na década de 1860. Inicialmente dirigida por representantes proudhoinistas, viu um grupo de jovens dirigentes operários crescer dentro dele, e entre eles especialmente Varlin, um operário encadernador autodidata. Em 1866, em Paris, a AIT tinha 600 membros; no início da Comuna tinha 70.000 (15). As outras federações, além de Paris, estavam em Marselha, Rouen, Lyon: isto é, os principais centros da luta operária na França. A AIT encorajou todas as lutas e greves importantes da década de 1860, que foram preparatórias para a Comuna.

O problema é que, com muitos afiliados (embora muitas vezes fossem afiliações coletivas), a Internacional não tinha um partido estruturado; até mesmo um jornal estava faltando. Mas não só: a direção desses militantes, inseridos nas principais lutas, mas freqüentemente não organizados entre eles, era composta por socialistas não marxistas.

Isso explica por que Marx estava tentando conquistar Eugene Varlin, que havia se tornado o principal dirigente da AIT. Foi um militante com grande capacidade de organização, tentando recuperar o tempo perdido pelos antigos dirigentes proudhonistas.

Varlin terá um papel fundamental na Comuna. Sendo “ministro” da Comuna (primeiro das Finanças e depois da Subsistência), será eleito para o Comitê Central da Guarda Nacional (que liderará em 18 de março a ocupação da Place Vendôme); irá inspirar a seção da AIT; dirigirá os trabalhos da Câmara Sindical; estará entre os principais líderes de um embrião de partido revolucionário, denominado Delegação dos Vinte Distritos (os distritos são os quartéis ou “arrondissements” em que Paris está dividida). É significativo que três dessas organizações estivessem localizadas no mesmo lugar: o número 6 da Place de la Corderie (em Paris, hoje rebatizada de Rue de la Corderie), que era a sede da Câmara Sindical da Delegação dos Vinte Distritos e seção francesa da AIT. Pelo que podemos compreender das atas da liderança francesa da AIT, o debate e a decisão muitas vezes foram norteados pelas intervenções de Varlin (16). E Varlin sempre foi apoiado por Frankel e Serraillier, ambos marxistas.

Mas Varlin não era um marxista, ele era de origem proudhonista, contudo estava cada vez mais voltado para a esquerda. Os historiadores expressam definições discordantes: há quem o defina como um “proudhonista de esquerda”, quem diga que tinha concordância com Bakunin (é o caso de Carr) e quem (Nikolaevskij, e também Kaminski) (17) o define – erroneamente – como “bakuninista”. Na verdade, quem investigou mais, o historiador Bruhat, obteve cartas que provam que Bakunin tentou recrutar Varlin para sua seita, contra Marx, mas não teve sucesso e ficou muito decepcionado (18). O que é certo é que durante a Comuna, Varlin expressou posições muito distantes das de Bakunin (Varlin colocou a organização dos operários no centro da luta, e não a conspiração da “canalha”), e também estava longe dos proudhonistas, tanto que, como delegado das Finanças, chocou-se com o dirigente proudhoniano Jourde, porque Varlin (como Marx) gostaria que os comuneiros se apropriassem do Banco Nacional (19).

Em suma, Varlin se comportou de maneira um pouco diferente da doutrina não marxista da qual veio. Como vimos, muitos dos dirigentes da Comuna que sobreviveram ao massacre se prepararam para lutar na AIT junto com Marx, contra os anarquistas de Bakunin, no Congresso de Haia. Provavelmente Varlin teria feito o mesmo, mas foi preso (por denúncia de um padre) e fuzilado em Montmartre em 28 de maio de 1871, após ter substituído Cluseret (que morreu nas barricadas) como o último comandante da defesa operária.

Em todo caso, em 1871 os marxistas não tinham partido organizado em Paris. Foi a própria experiência da Comuna que permitiu a Marx e Engels vencer a batalha contra os anarquistas de Bakunin no congresso de Haia em 1872. Nesse congresso, que expulsou os anarquistas e decretou o fechamento da sede central da AIT, bem como sua transferência para Nova York, iniciando, de fato, a dissolução da Primeira Internacional, explode o “acordo ingênuo de todas as frações” (na expressão de Engels), sobre o qual a Internacional se conformava até aquele momento. A Comuna demonstrou que era necessário construir partidos organizados e independentes da burguesia, baseados no marxismo, isto é, no programa da ditadura do proletariado que havia feito seu primeiro teste em Paris. Como escreveu Engels: “Acredito que a próxima Internacional – depois de os livros de Marx exercerem sua influência por alguns anos – será puramente comunista e propagará diretamente nossos princípios” (20). Os últimos anos da vida de Marx e Engels foram dedicados à construção desta Internacional “puramente comunista” e dos seus partidos em cada país.

Devemos voltar a estudar a Comuna

Marx e Engels primeiro, Lênin e Trotsky depois, estudaram profundamente a Comuna. Infelizmente, eles tinham pouca documentação. A principal fonte de Marx está nas memórias de alguns membros da Comuna e, em particular, do livro de Lissagaray, que Marx até encorajou a escrever, e do qual solicitou e modificou em algumas partes a tradução ao alemão (enquanto, uma filha de Marx, Eleanor, trabalhou a edição inglesa) (21). Lissagaray era um excelente jornalista e participou na defesa da Comuna, mas sua história (publicada na Bélgica em 1876) reflete a formação não marxista do autor, um neo-jacobino (22). Lissagaray minimiza o papel dos dirigentes da Internacional: disse que na Comuna eleitos havia apenas 13 (número errado), mas não diz, números a parte, que eles desempenharam papéis importantes. Não só isso: para desenvolver sua polêmica contra o proudhonismo, Lissagaray rotula todos os dirigentes da AIT como “proudhonistas”, enquanto, como vimos com Varlin, frequentemente expressavam posições muito distantes do proudhonismo.

Lenin baseou-se no livro de Lissagaray (uma das poucas fontes disponíveis em sua época), e Trotsky usou o livro do historiador Claude Talés, que usa Lissagaray como sua única fonte e, portanto, enfatiza o aspecto de “caos” da Comuna e o peso do proudhonismo, sem individualizar o papel consciente (embora insuficiente por não estar organizados no partido) de tantos dirigentes revolucionários e dos poucos próximos a Marx.

Lenin e Trotsky querendo (justamente) sublinhar a principal causa da derrota da Comuna – isto é, a falta de um partido marxista – tenderam (equivocando-se) a diminuir o papel de “semeadura” que a AIT desenvolveu na década de 1860 e privados de documentação, nada escreveram sobre o embrião de partido que se estaba construindo naqueles meses em Paris.

Este embrião de partido, em cujo desenvolvimento Varlin e Frankel desempenharam um papel importante, foi a Delegação dos Vinte Distritos. Tanto Lissagaray quanto Talés dedicaram pouquíssimas linhas a ele. No entanto, os documentos encontrados pelos historiadores desde 1960, hoje fornecem um quadro muito diferente (23).

Não temos espaço aqui para aprofundar o assunto, que merece outro artigo. Basta dizer que Lissagaray se enganou duas vezes: primeiro, sustentando que a Delegação (Comitê Central Republicano dos Vinte Distritos) não estava ligada à AIT, embora saibamos que seus principais dirigentes eram membros da AIT (cinco em sete, incluindo Varlin); em segundo lugar, afirma que desapareceu antes do início da Comuna, no entanto hoje temos as atas das sessões realizadas pouco antes da queda da última barricada.

Pelo Estatuto da Delegação (24) sabemos que eram necessárias três condições para inscrever-se: militância, adesão aos princípios do “socialismo revolucionário”, pagamento da taxa. O programa é a “destruição revolucionária” da democracia parlamentar burguesa, o reconhecimento “como o único governo da Comuna revolucionária, proveniente das delegações dos grupos socialistas revolucionários”.

Para a eleição da Assembleia Nacional (fevereiro de 1871), a Delegação apresenta um programa e candidatos juntamente com a seção francesa da AIT e a Câmara Federal da Sociedade Operária (Varlin era a alma de todas essas organizações!). O manifesto eleitoral afirma que o objetivo é “a organização de uma república que devolva as fábricas aos operários”, realizando assim “a liberdade política por meio da igualdade social”.

É verdade que a Delegação tinha dentro de si várias correntes em que se dividia o movimento operário francês e não havia tempo para se desenvolver: nasceu, logo após a proclamação da República, em 5 de setembro de 1870, com uma assembleia de 500 operários parisienses (aqui estava Varlin!). Mas em poucas semanas sairam as correntes mais moderadas e seus documentos estavam, dia a dia, mais próximos de uma posição marxista.

Se, como Marx esperava, os operários tivessem tido tempo para “trabalhar em sua organização de classe”, o curso da história teria sido diferente. No entanto, hoje é bem verdade que esta organização (cuja história ainda temos que investigar) e seus dirigentes desempenharam um papel central no desenvolvimento da revolução.

Os documentos históricos que temos hoje confirmam, indiscutivelmente, a tese fundamental de Lênin e Trotsky: sem um partido marxista não há possibilidade de uma revolução vitoriosa, isto é, que se desenvolva internacionalmente para o socialismo.

O que Lênin e Trotsky não sabiam quando escreveram sobre a Comuna é que o início de tal partido já existia, e foi graças a isso que a Comuna conseguiu ir tão longe. Portanto, em 1871 a revolução não foi o resultado da “espontaneidade”, mas da organização dos revolucionários. No entanto, esta organização não teve tempo de se consolidar como um partido marxista; por isso, o Comitê Central da Guarda Nacional não foi um verdadeiro “soviete” e, portanto, a ditadura do proletariado foi apenas uma tendência inacabada na Comuna.

Foi estudando os resultados e os erros dos valorosos operários franceses que os operários russos, liderados pelo partido de Lênin e Trotsky, foram capazes de vencer em 1917. Foi o rugido dos canhões da Comuna de Paris o que abriu o caminho para a Comuna de Petrogrado.

Notas

 (*) Este artigo foi publicado pela primeira vez em Marxismo Vivo n.° 16, 2007. Ao revisá-lo para esta nova publicação, o autor fez correções na tradução.

(1) Carta de Marx para Kugelman, 17 de abril de 1871, em K. Marx, Lettere a Kugelmann [Cartas para Kugelmann], Editori Riuniti, 1976, p. 166

(2) Claude Talés, La Commune de Paris, 1921, Ed. Spartacus, 1998.

(3) Para aprofundar esta situação, dois livros de Marx são fundamentais, nos quais o método materialista é usado com maestria: As lutas de classes na França de 1848 a 1850 e O 18º Brumário de Luis Bonaparte (há edições em todas as línguas, e pode se encontrado até mesmo no site Marxists Internet Archive, www.marxists.org).

(4) Para melhor compreender o assunto, recomendamos a leitura dos três textos da AIT escritos por Marx e publicados em várias línguas sob o título A Guerra Civil na França. Muito interessantes são inclusive os artigos de Engels (especialista em questões militares) sobre a guerra, publicados no jornal londrino The Pall Mall Gazette (em italiano, Notes sulla guerra franco-prussiana Notas sobre a Guerra Franco-Prussiana, Ed. Lotta Comunista, 1996) do qual Trotsky encarregou sua publicação na Rússia e os estudou quando lhe foi confiada a liderança do Exército Vermelho.

(5) Na primeira declaração da AIT escrita por Marx (ver nota 4), um apelo é feito aos operários alemães para não permitirem que Bismarck transforme a guerra em uma guerra de conquista. Quando a República nasceu mais tarde em Paris, na segunda declaração ele condenou o objetivo expansionista do governo prussiano e pediu aos operários alemães que defendessem a República Francesa junto com os operários franceses.

(6) No final de fevereiro de 1871, uma assembleia de dois mil delegados de batalhões da Guarda Nacional aprovou a constituição da Federação Republicana (apenas alguns batalhões, de quartéis burgueses, ficaram de fora desta estrutura). O primeiro item do programa foi a abolição do exército permanente e sua substituição pela milícia operária. É a proclamação da ruptura com o estado burguês e da vontade de dissolver o seu “bando armado”, proclamando-se como a única força armada.

(7) O erro da eleição será sublinhado por Marx em vários textos. Por exemplo, em uma carta a Liebknecht de 6 de abril de 1871, ele escreveu: “(…) por não terem a atitude de usurpar o poder, perderam um tempo precioso na eleição da Comuna (…) enquanto era necessário usá-lo para marchar sobre Versalhes (…) “. Kautsky agita este julgamento, tentando usar a Comuna” democrática “contra a ditadura dos bolcheviques. Lênin e Trotsky responderam com dois” anti-Kautsky “demonstrando que os operários parisienses eram contra a “legitimidade democrática burguesa: as eleições para a Comuna foram, com efeito, realizadas com sufrágio universal, mas, de fato, a burguesia já havia fugido e os poucos burgueses eleitos foram forçados a renunciar.

(8) Ver A Ditadura Revolucionária do Proletariado, texto escrito em 1978 por Nahuel Moreno em polêmica com a revisão (em sentido negativo, nesta ocasião) feita por Mandel.

(9) Estes são artigos e cartas de Trotsky contidos no livro, publicado pela Pathfinder Press (1977), The crisis of the french section (A crise da seção francesa). Na verdade, neste texto, Trotsky trabalha com um conceito que já havia começado a desenvolver nos anos 1920 em Terrorismo e comunismo. É neste livro (no capítulo VI) que, pela primeira vez, ele fala do Comitê Central da Guarda Nacional como o “soviete daquele período”. O mesmo conceito está contido na História da Revolução Russa: “A Guarda Nacional impulsionava os operários a uma organização armada, quase análoga ao tipo soviético, e a uma direção política, representada pelo próprio CC da Guarda Nacional” (p. 616 da edição italiana, Mondadori, 1978).

(10) Ver a segunda declaração do Conselho Geral da Internacional, escrita por Marx (9 de setembro de 1870). Citado aqui da edição italiana Newton Compton, 1978, p. 83

(11) Charles Rihs, La Commune de Paris, sa structure et ses doctrines, [A Comuna de Paris, sua estrutura e suas doutrinas], Ed. Du Seuil, 1973. De acordo com Rihs, entre os quase 90 eleitos, 40 eram novos jacobinos (Delescluze, etc.); 15 eram blanquistas (Rigault, Protot, Flourens, membros da AIT Duval e Vaillant, etc.); 23 eram membros da AIT (Frankel, Varlin, Vaillant, Malon, Serraillier, Longuet, etc.). Por outro lado, de acordo com um estudo de Jean Maitron (Hommes et femmes de la Commune [Homens e mulheres da Comuna, publicado na revista La Commune, n ° 3, 1976) sobre 89 membros do Conselho da Comuna, 45 eram militantes da AIT. Outros autores falam de 30 membros da AIT: os números são diferentes em cada estudo.

(12) Os blanquistas sobreviventes do massacre refugiaram-se em Londres, reagrupando-se em torno de Emile Eudes, condenado à morte à revelia, em Versalhes. Vaillant e outros entraram no Conselho Geral da AIT, mantendo as posições de Marx contra Bakunin e Guillaume.

(13) Marx escreve a Engels sobre a missão que encomendou a Serraillier, em uma carta de 6 de setembro de 1870 (VI volume do Cartas de Marx-Engels, Edizioni Rinascita, 1953, pp. 146-147).

(14) Carta de Engels a Sorge, 12 de setembro de 1874, em Marx e Engels, Lettere del 1874-1879 [Cartas de 1874-1879], Ed. Lotta Comunista, 2006, p. 35

(15) Esses dados, baseados em várias fontes, são citados no livro de Rihs (v. Nota 11).

(16) No site: http://gallica.bnf.fr/ existem dezenas de livros sobre a Comuna para download gratuito (em francês). Em particular, Les séances officielles de l’Internationale à Paris pendant le siège et pendant la Commune (1872) é importante.

(17) Os livros citados são: E.H. Carr, Bakunin, The Macmillan Press, 1975; B. Nikolaevskij, Karl Marx, 1937, Ed. Einaudi, 1969; H. E. Kaminski, Bakunin, 1938, Ed. Graphos, 1999.

(18) Jean Bruhat, Eugene Varlin, Editeurs Français Réunis, 1975. Bruhat coloca evidências da tentativa de Bakunin de fazer Varlin juntar-se à sua organização e, o que foi uma tentativa fracassada, de fazer Varlin subscrever um ataque a Marx (pp. 146-147 da biografia). Bruhat então cita uma importante carta de Bakunin (7 de julho de 1870) na qual o dirigente anarquista escreve: “(Varlin) é uma figura excelente e útil, mas está longe de ser absolutamente nosso.”

(19) Outro biógrafo fala sobre isso (Paul Lejune, Eugène Varlin, Pratique militante e écrits d’un ouvrier communard –Eugéne Varlin. Prática militante e escritos de um trabalhador da Comuna, Ed. Maspero, 1977) que revela o desacordo entre Varlin e Jourde sobre questões dos Bancos. Mesmo a biografia mais recente é interessante: Michele Cordillot, Eugene Varlin, chronique d’un espoir assassiné – Eugene Varlin, crônica de uma esperança assassinada, Les Editions Ouvrières, 1991.

(20) Engels, v. nota 14.

(21) V. Yvonne Kapp: Eleanor Marx Einaudi, 1977, vol. I, pp. 158-162.

(22) Para conhecer a figura de Lissagaray, ver René Bidouze, Lissagaray, la plume et l’épée –Lissagaray, a caneta e a espada, Les Editions Ouvrières, 1991.

(23) Para aprofundar o assunto, um livro publicado em 1960 é essencial: Jean Dautry e Lucien Scheler, Le Comite Central Républicain des vingt arrondissements de Paris – O Comitê Central Republicano dos vinte distritos de Paris, Editions Sociales, 1960. Dautry é, inclusive autor com Bruhat e Tersen (todos, é lógico, de orientação stalinista) do estudo mais documentado sobre a Comuna: La Commune de 1871, Editions Sociales, 1970.

(24) Extraído do livro de Dautry e Scheler (ver nota 23).