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Itália

Potencialidade e limites deste novo outono de lutas

Diego Bossi

outubro 22, 2026

Um ano após o outono mais quente que a Itália viu nos últimos 50 anos – de tal modo que deu às massas populares em luta, com todo o mérito, o título de vanguarda europeia na luta em solidariedade ao povo palestino e a sua heroica e exemplar resistência – hoje assistimos às manifestações oceânicas que nesses dias estão enchendo as principais metrópoles francesas, espanholas e de outros Estados europeus. E na Itália? A situação também está se intensificando entre nós. Sábado, 10 de outubro as ruas das principais cidades italianas foram tomadas por grandes passeatas pela Palestina. Sexta-feira, 16 de outubro, foi a retomada das greves estudantis com passeatas, e são já dezenas os institutos ocupados em diversas cidades: como sempre são os jovens da geração Gaza a nos indicar o caminho. Dia 17 de outubro a juventude também saiu às ruas para lutar contra o desastre climático. Os operários da Ilva (complexo siderúrgico) estão em greve e mobilização tanto em Taranto quanto em Gênova (enquanto escrevemos está em curso a ocupação do aeroporto de Gênova). No sul do país as prateleiras dos supermercados estão vazias por causa do protesto dos caminhoneiros e dos agricultores.

A tradicional manifestação de outono da CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho) em Roma levou dezenas de milhares de trabalhadores para as ruas da cidade. O que une todos estes setores é a oposição a um sistema que torna impossível a sobrevivência: custo de vida, inflação, desastre climático, guerras, desemprego.

Nestes últimos dias também assistimos a protestos de jovens que resultaram em confrontos com a polícia e ações de expropriações em lojas: trata-se de protestos convocados nas redes sociais, sem uma orientação política precisa (o governo se aproveita disso para intensificar ainda mais a repressão).

Ainda estamos longe das grandes manifestações de massa na Europa ou das mobilizações do outono passado, mas mesmo assim, isso nos mostra que aqui também existe potencial para alcançar uma grande greve geral que possa parar o país e, desta vez, derrubar o governo Meloni.

De onde partimos no outono passado

“Façamos como na Itália”, este era o slogan dos companheiros do outro lado dos Alpes no outono passado, quando rodovias, estações de trem e portos foram tomados por marchas com dezenas de milhares de pessoas em uma grande sucessão de manifestações pela Palestina.

Na receita para aquele grau de crescimento da luta de classe estava a indignação com o infame genocídio sionista na Faixa de Gaza; o impulso emocional da Global Sumud Flotilha que procurou romper o boqueio das Forças de Defesa de Israel (ilegítimo mesmo para o direito burguês) em águas internacionais, com o objetivo de levar ajuda humanitária à população de Gaza;  esse impulso teve o efeito de um contagio global, quando o apoio à heroica Resistência do povo palestino encheu as praças ao redor do mundo; mas, sobretudo, havia o ingrediente mais importante: a unidade de ação, obtida quando colocaram de lado os dirigentes sindicais e políticos, geralmente empenhados a fragmentar e enfraquecer as lutas.

Foi assim o dia 22 de setembro de 2025, quando a tentativa fracassada de boicote da burocracia da CGIL, que chamou uma greve ridícula de 4 horas três dias antes, não conseguiu abalar a greve geral unitária de todos os sindicatos de base, que naquele dia levaram as massas para as ruas.

Foi assim em 3 de outubro de 2025, quando a pressão de muitos ativistas e sindicalizados da CGIL forçou o maior sindicato da Itália a chamar a greve geral junto com os sindicatos de base: a maior greve dos últimos 40 anos, um país inteiro paralisado.

Foi assim em 4 de outubro, dia da manifestação nacional pela Palestina: um milhão de pessoas invadiram a capital. Imagens impressionantes. “Façamos como na Itália”, clamava o mundo que olhava o nosso país; a despeito de quem teoriza sobre a incapacidade do proletariado italiano, ignorando uma gloriosa história de lutas operárias. Não é um erro de análise de boa fé, mas uma narrativa falsa, com interesses claros e consciente de quem quer diluir as responsabilidades das direções políticas e sindicais em uma suposta onda de massas fraca e estagnada. Um álibi para a traição de classe, apoiada por uma vil ausência de responsabilidade.

Bombeiros em ação

As greves e mobilizações do outono de 2025 encurralaram as forças da ordem burguesa, que, em diversas ocasiões, se mostraram impotentes diante da força avassaladora das massas: a burguesia provou o amargo remédio da perda de controle e de seu poder de contenção da sociedade; o mesmo se aplica às lideranças sindicais, que não têm interesse em levar o conflito social às suas últimas consequências; no máximo, querem usá-lo para negociar privilégios com o Estado burguês dentro do capitalismo. Afrouxando as correntes nos tornozelos do proletariado sem quebrá-las.

Não é coincidência que, em vez de surfar na onda daquela mobilização maciça que derrubou leis antigreve e encurralou o aparato de repressão, o outono de 2025 tenha acabado com a fragmentação e o enfraquecimento das lutas: duas greves separadas, em 28 de novembro e 12 de dezembro.

Chegando a este ano, após a retumbante derrota do governo Meloni no referendo, nem os partidos da falsa oposição burguesa nem a liderança da CGIL moveram um dedo para desferir um golpe que derrubasse o governo. Tivemos que esperar até maio (dois meses depois!) por duas greves “gerais” separadas (18 e 29 de maio), convocadas por sindicatos de base diferentes, e de fato, se contrapondo.

Outono de 2026

Neste outono, os líderes sindicais na Itália, ao contrário de tentarem unificar os diversos setores para que a mobilização em curso se tornasse uma grande luta contra o governo, fazem todo o possível para fragmentar e enfraquecer a classe trabalhadora.

Os trabalhadores estão diante da perspectiva de três greves ditas “gerais”, mas separadas — repetimos, separadas! Se fossem três greves unificadas dentro de uma crescente onda de luta, ficaríamos muito satisfeitos. Assim, o cronograma de mobilizações é o seguinte: 30 de outubro, convocada pela USI, com a adesão da USB, onde também se mobilizarão estivadores, assim como trabalhadores de diversas categorias filiadas à CUB, incluindo trabalhadores da indústria química, da borracha, do plástico, da educação, da saúde, da universidade e da metalurgia; 20 de novembro, greve geral da CGIL com mobilização estudantil e manifestações locais (para evitar aglomerações que irritem o governo!); finalmente, a greve pré-natalina de 4 de dezembro, convocada em setembro pela CUB, SGB, Si.Cobas e outros. Essa data tardia não ignora nem as mobilizações europeias nem os protestos estudantis na Itália.

Um cenário desanimador: diante dos ataques de empregadores, governos e imperialistas, surge uma resposta sindical fragmentada e tardia, o que levou a Frente de Luta Contra a Austeridade a convocar imediatamente uma grande greve geral unificada.

O que fazer?

Os interesses gerais da classe trabalhadora exigem que os sindicatos unam suas lutas, organizando mobilizações conjuntas para tornar as greves mais eficazes. Lembremos que essas greves custam aos trabalhadores parte de seus salários já escassos, ao contrário dos burocratas oportunistas que lideram os sindicatos. Sem mencionar as centenas, senão milhares, de locais de trabalho com múltiplos sindicatos em greve em datas diferentes: com quem os trabalhadores devem entrar em greve? Quantas greves (pequenas e ineficazes) devem realizar?

Hoje, mais do que nunca, no âmbito sindical, é essencial fazer duas coisas importantes: 1) organizar a base em comitês, coletivos e órgãos de coordenação separados da liderança burocrática dos sindicatos; 2) travar uma luta interna dentro dos sindicatos, exigindo que os trabalhadores ativos e as vanguardas os liderem com base em seus interesses de classe, contra quaisquer impulsos sectários e autorreferenciais que são um fim em si mesmos.

Mas o plano sindical não basta: nenhuma conquista no capitalismo é segura; os patrões retomarão tudo com juros assim que puderem. Precisamos de uma liderança revolucionária que intervenha nas muitas lutas já em curso: as lutas de resistência dos povos atacados pelo imperialismo, as lutas estudantis e as lutas pelo direito à moradia que testemunhamos hoje na França e na Espanha, as mobilizações estudantis em curso na Itália, os protestos dos camponeses, etc.

É por isso que nos comprometemos a construir uma internacional revolucionária, a Liga Internacional dos Trabalhadores/LIT-Quarta Internacional, que, intervindo nas lutas diárias, as guiará rumo ao socialismo, libertando a humanidade das amarras do lucro. A Alternativa Comunista estará ao lado dos trabalhadores em greve, independentemente da organização que apoiam, convocando a construção conjunta de greves gerais, em unidade de ação com os estudantes e os setores pequeno-burgueses empobrecidos (como os camponeses).

Respondemos à burocratização dos sindicatos com a democracia operária, para que sejam os trabalhadores e estudantes que se mobilizam que tomem as decisões sobre o que os afetam.

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