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Ilhas Maurícias

Ilhas Maurícias: A primavera da juventude chega ao paraíso

Cesar Neto e G. Hata

outubro 22, 2026

Introdução

A primavera da juventude que vem varrendo de Madrid a Paris, passando pelo Porto, Roma, Tirana, pela  Argentina, e outros países, inclusive no Brasil através da luta anti-Bolsonaro, está se espalhando pelo mundo.

As Ilhas Maurícias, um pequeno ponto quase imperceptível no meio do Oceano Índico, conhecida por ser uma paraíso fiscal, isto é, uma grande lavanderia de dinheiro, e também conhecida por suas belíssimas praias paradisíacas e lugar de turismo para os super ricos,  também está vivenciando a primavera da juventude.

Nesse paraíso, que tem uma área menor que o Distrito Federal (Brasilia), com um PIB per capita de 13.700 dólares e um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano,  perdido na imensidão do oceano, a juventude disse basta e saiu à luta.

Mauricia: um exemplo de modelo eficaz de capitalismo africano

As ilhas Maurícias se independizaram do Reino Unido em 1968 e sua economia que anteriormente era agrícola, em especial produção de açúcar, se transformou. Hoje é uma economia baseada no turismo e no setor financeiro, o que lhe valeu o estatuto de pais de alto rendimento em 2020. Centrada no turismo sua economia foi duramente afetada pela pandemia do Covid 19

Uma pesquisa conduzida pelo prestigioso portal Africa Report[1] analisa os países de melhor desempenho no continente no ano de 2025.  Em primeiro lugar está a África do Sul e em segundo lugar está Mauricio, bem depois vem a Nigéria e Egito. A pesquisa se assenta em três pilares  governabilidade, influência no continente e inovação tecnológica, sendo que cada um desses pilares é composto por 24 indicadores distintos.

No paraíso mauriciano também tem jovens em rebeldia

Apesar de ser apresentado como uma paraíso para turistas e para aqueles que querem lavar dinheiro, o país também tem uma juventude em rebeldia que disse basta ao aumento do custo de vista, a falta de água potável e seu respectivo encarecimento.

Carentes de organizações com forte presença na juventude e as redes sociais ajudaram a acelerar os protestos. O grupo de WhatsApp Burning Paradise (Paraiso em Chamas)  serviu como fórum de organização. Seu nome expressa a bronca e a rebeldia da juventude pobre e imersa em uma mundo de fantasia em uma país com sua economia dependente do turismo de luxo e das finanças internacionais.

Aumento do custo de vida

O aumento do custo de vida é o principal fator das mobilizações. Há uma combinação macabra que afeta todos os países e nem mesmo paraísos fiscais e para o turismo de altíssimo padrão se veem livre.

O primeiro elemento que salta a vista é a monopolização das distribuição de alimentos via as cinco grandes corporações mundiais: Archer-Daniels-Midland (ADM) uma das maiores processadoras e comercializadoras de alimentos do mundo; a Bunge líder no processamento e exportação de soja, trigo, milho e grãos em geral; Cargill,  norte-americana e líder mundial no processamento e comércio de grãos, oleaginosas e carnes; a Louis Dreyfus Company (LDC), grande comercializadora de grãos, oleaginosas e café. Além dessas quatro acima citadas, temos também a JBS, originalmente de capital brasileiro e líder mundial no processamento de carne bovina, suína e frango.

O segundo elemento é que as commodities em geral e os alimentos em particular estão perdendo seus preços de compra desde há cem anos, com alguns pequenos picos como entre 2004-2017, mas os monopólios impõe os preços[2]

Esses mesmo monopólios também impõe os preços de venda dos alimentos que a população compra e mostrando uma tendência de altista dos preços provocando uma alta recorde entre 2001-2022[3]

A esses elementos estruturais do capitalismo devem ser adicionados os efeitos da Guerra da Ucrânia e do Irã.

A falta de água potável e o seu encarecimento

Maurícias é uma ilha marítima que tem seus sistemas de captação e distribuição de água baseada nas fontes naturais que vem sendo sistematicamente destruídas pela construção de grandes empreendimentos imobiliários e pela produção de cana de açúcar.

 A escassez de água há anos vem sendo um problema crônico. Comunidades inteiras podem ficar sem água por semanas e, às vezes, até mesmo meses. Os protestos têm sido constantes, em especial nas pequenas localidades, porém desta vez os protestos começaram nas cidades maiores, em especial na capital St. Louis. Prévio ao início das grandes manifestações houve 15 manifestações isoladas e em quase todos eles houve enfrentamentos com a polícia.

A escassez de água vem acompanhada de aumento abusivo dos preços e este é o segundo grande motivo das maiores mobilizações dos últimos trinta anos.

As manifestações

As manifestações começaram na quinta feira dia 8 de outubro e ganharam um salto de qualidade na sexta feira quando uma jovem que voltava do trabalho, dentro de uma van, foi baleada no pescoço por um policial.

As manifestações foram retomadas na segunda-feira, com mais intensa extensão territorial, estradas foram fechadas com pneus e madeiras, saques a supermercados e lojas, destruição do ícone imperialista McDonald ‘s.  Oito delegacias de polícias foram incendiadas, assim como, mais de trinta veículos policiais foram destruídos. Nas ruas era possível ver focos de incêndio e veículos civis em chamas.

Entre os mais de 150 presos a sua grande e esmagadora maioria eram jovens e entre eles mais de vinte eram menores de idade.

O governo decretou toque de recolher e mesmo assim as manifestações continuaram ao mesmo tempo que se intensificava a repressão através das Forças Móveis Especiais.

Ao todo mais de cem presos foram indiciados na Lei de Terrorismo, lei essa tão em voga nestes de tempos de crise capitalista e distintos níveis de bonapartismo.

A ausência de direções classistas e juvenis no paraíso capitalista do Oceano Índico cobrou seu preço pois a pesar a forças do grupo de whatsapp Burning Paradise (Paraiso em Chamas), depois de uma semana de lutas nas ruas contra as Forças Móveis Especiais, o movimento reflui. As razões da bronca da juventude não foram resolvidas, sem dúvidas, a luta voltará.


[1] Ranking de 2026: Quais são os 20 países com melhor desempenho na África? – https://www.theafricareport.com/420559/2026-ranking-which-are-the-20-best-performing-countries-in-africa/

[2]   Preço internacional de commodities, mais uma preocupação para o Brasil. Disponível em:  https://www.valuup.com.br/preco-internacional-de-commodities-mais-uma-preocupacao-para-o-brasil/.

[3] Alta das commodities deve se manter até 2024, diz relatório. Disponível em: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/04/27/alta-das-commodities-deve-se-manter-ate-2024-diz-relatorio.ghtml.

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