Para onde vai a Síria?
Em 18 de março de 2011, o povo trabalhador sírio tomou as ruas e se uniu a uma onda de revoluções sociais que ficou conhecida como Primavera Árabe. Catorze anos depois, em em 8 de dezembro de 2024, após enormes sacrifícios humanos (mais de 500 mil mortos, 200 mil desaparecidos na rede prisional da ditadura, e sete milhões de exilados) o povo sírio conquistou a queda da ditadura Assad, a dissolução das forças armadas do regime e de todos os seus serviços de segurança, e a libertação de todos os presos políticos. Além disso, foi conquistado, a princípio, um nível amplo de liberdades democráticas nunca visto em 50 anos. Essas conquistas representaram o primeiro passo na luta pelas reivindicações da revolução: pão, liberdade e justiça social.
Pão
Em agosto de 2026, ocorreram protestos nas ruas de várias cidades contra o aumento do preço dos combustíveis. O governo de transição, liderado por Ahmad al-Sharaa, anunciou um aumento médio de cerca de 40%, impactando o conjunto da atividade econômica: calefação, transporte e preço dos alimentos. O governo de transição responsabilizou a manutenção na principal refinaria do país, localizada na cidade de Baniyas, e o aumento do preço internacional do petróleo e gás. Posteriormente, sob pressão das mobilizações, reduziu o aumento de alguns combustíveis.
A questão é que, após um ano e dez meses da queda da ditadura, a situação de pobreza no país não diminuiu e se manteve em cerca de 90% da população. Isso se deve ao modelo econômico de reconstrução do país adotado pelo governo de transição, que é um modelo capitalista no qual são favorecidas as grandes empresas internacionais, os milionários e os amigos do novo governo.
As grandes empresas e os milionários não têm objetivos sociais, apenas querem lucro fácil e rápido às custas do povo. É o caso dos megaempreendimentos imobiliários de luxo de “Marota City” e “Basilia City” no distrito de Mezzeh, para os quais foram despejadas cerca de 30 mil pessoas em base ao decreto legislativo 66 de 2012 emitido pelo antigo regime.
Essa política favorece uma nova burguesia capitalista em substituição a Rami Makhlouf, composta por alguns milionários do antigo regime como Mohammad Hamsho, outros ligados ao governo de transição, como é o caso de Jamal al-Sharaa, irmão do atual presidente, e ainda outros associados diretamente ao capital internacional, como é o caso da família Khayyat, amigos da família Trump.
Liberdade
Quanto às liberdades democráticas, que são a principal conquista da queda da ditadura, o governo de transição busca limitá-las, como ocorre no caso da exigência de autorização do Estado com aviso antecipado de cinco dias para a realização de manifestações de rua. Quem decide essas limitações é um governo não eleito, que formou um novo parlamento não eleito a partir de integrantes indicados direta ou indiretamente pelo governo de transição. Esse governo e esse parlamento não tem qualquer legitimidade para limitar os direitos democráticos da população.
Além disso, a legalização dos partidos políticos até agora não foi regulamentada, muito embora existam cerca de 70 partidos organizados ansiando por essa legalização.
Justiça Social
Quanto à justiça social, há uma luta em curso liderada por associações de vítimas da ditadura exigindo a investigação e a punição para os criminosos do antigo regime. Sob pressão de uma onda de mobilizações ocorrida em junho que veio desde Deir ez-Zor até Damasco, o regime começou a julgar alguns desses criminosos: o ex-ditador Bashar al-Assad, que se encontra em Moscou sob a proteção de Vladimir Putin, já foi condenado à morte. No entanto, há criminosos do velho regime que passaram a ser protegidos pelo governo de transição — o caso mais conhecido é o de Fadi Saqr, um dos responsáveis pelo famoso massacre de Tadamon.
Além disso, o assassinato de Mohammad Ghamira, um ex-integrante dos capacetes brancos, sob custódia da polícia em Latakia, levantou um alerta em toda a população sobre a possibilidade do governo de transição repetir as práticas repressivas do velho regime.
Somado a isso, no primeiro ano, as forças do regime promoveram dois massacres: um na região litorânea e outro na província de Suwayda, nos quais cerca de 1.400 pessoas foram assassinadas em cada um deles. Até agora, a investigação sobre os responsáveis caminha a passos lentos e quase ninguém foi punido.
Unidade nacional
O plano israelense de partição da Síria fracassou, o que representa uma conquista do povo sírio. Os curdos tiveram alguns direitos reconhecidos e o partido curdo PYD, sob pressão turca e estadunidense, passou a integrar o governo Sírio. No entanto, segue o avanço da invasão israelense no sul do país, onde realizam incursões diárias com prisões, agressões e bombardeios contra a população local. O Estado de Israel se articula ainda com o sheikh Hikmat al-Hijri em Suwayda (que se transformou no mais influente líder druso da província após os massacres do ano passado) para impedir a unidade nacional. A principal política do governo de transição tem sido se apoiar na diplomacia e nas boas relações com Donald Trump que, até agora, não resultaram na paralisação da agressão israelense.
Uma Síria livre dependerá da luta da classe trabalhadora
Está nas mãos da classe trabalhadora e da juventude síria se auto-organizar e lutar para que as reivindicações da revolução sejam totalmente atendidas. Essas reivindicações começam por uma reconstrução econômica popular voltada para atender as necessidades da população trabalhadora, e não aos interesses de grandes empresas internacionais e um punhado de milionários.
É necessário um plano para conquistar a soberania alimentar, produzindo alimentos baratos para atender toda a população, e um plano de obras públicas para a reconstrução de todas as áreas devastadas no prazo mais curto possível — seja por meio de empresas públicas de construção civil ou mutirões populares, com produção local de materiais de construção baratos. Esse plano se completa com a reconstrução da infraestrutura econômica do país, em particular um plano de geração de energia limpa e barata disponível 24h por dia para todas as residências.
Um segundo passo é a luta pela imediata legalização de todos os partidos políticos e a convocação de eleições livres para uma Assembleia Constituinte, que deverá discutir e definir uma nova Constituição para o país. Outro ponto importante é a formação de tribunais populares para levar a julgamento todos os criminosos do velho regime.
Para enfrentar Israel, é necessária a organização de um exército popular armado e com as novas tecnologias baratas como drones e mísseis para, junto com a pressão diplomática, obrigar as tropas israelenses a se retirarem de todo o território sírio, incluindo todas as áreas tomadas em 1967. Além disso, o governo de transição tem que se posicionar contra a agressão militar israelense e estadunidense contra os palestinos, o Líbano e o Irã.
Infelizmente o governo de transição não tem nenhuma intenção de mudar seu modelo capitalista de reconstrução econômica, nem de expandir as liberdades democráticas. Por isso, todas essas propostas terão de ser arrancadas pela classe trabalhadora e a juventude síria, através de sua auto-organização em sindicatos operários e estudantis livres, além de associações feministas, de bairro, e de vítimas da ditadura.
É fundamental, ainda, construir um partido revolucionário de trabalhadores e jovens que possa liderar essa luta para que todos os ideais da revolução sejam conquistados, fazendo da Síria um ponto de apoio para que todos os povos da região se levantem para pôr fim ao colonialismo imperialista, ao Estado de Israel e a todas as ditaduras que comandam os países árabes.




