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TEORIA

ILAESE: sobre a Indústria 4.0 e a Inteligência Artificial (IA)

Felipe Alegria

setembro 28, 2026

Temos diante de nossos olhos um trabalho de grande importância do ILAESE, dedicado à “nova fase” do capitalismo em que nos encontramos, caracterizada pela Indústria 4.0, associada à Inteligência Artificial (IA). Uma fase que podemos qualificar como a mais selvagem, radical, sistêmica e acelerada na história do capitalismo. Uma fase que está afetando todos os ramos da economia, reconfigurando globalmente o capitalismo e a ordem mundial. Uma fase que, na verdade, está em seus inícios.
É uma nova fase que segue ao que conhecemos como Indústria 3.0, que se caracterizou pelo toyotismo, a globalização (com a concentração da manufatura mundial na China e no Sudeste asiático) e o neoliberalismo.
A consolidação da fase Indústria 4.0 está intimamente associada e acelerada pela aplicação generalizada da IA. Ela faz isso: 1/ integrando a infraestrutura (“Computação em nuvem”) e as tecnologias de Big Data (processamento de volumes gigantescos de dados) à automação dos processos produtivos; 2/ provocando um impacto generalizado na classe trabalhadora em todos os seus setores, dando espaço a um forte desemprego e a um subemprego generalizado; 3/ digitalizando os valores de uso e mudando o próprio conceito de consumo, dando espaço à “servitização”, onde os produtos físicos são substituídos por bens digitais ou híbridos organizados a partir de aplicativos digitais; 4/ alterando a dinâmica de distribuição das mercadorias, agora através das plataformas digitais; 5/ afetando de cheio a matriz energética, como consequência da migração massiva para a economia digital: a IA e Big Data requerem quantidades elevadíssimas de energia, impactando de cheio na mal chamada transição verde e na crise climática; 6/ modificando substancialmente a matriz mineral (Terras Raras), com enormes consequências ambientais e conflitos geopolíticos.
É uma fase em que a monopolização capitalista se eleva a níveis jamais conhecidos, em um processo proporcional ao desemprego, subemprego e miséria que provoca na classe trabalhadora. A IA é um enorme motor de concentração e centralização de riqueza e poder. O próprio CEO da corporação Anthropic, Darío Amodei, chegou a comparar a chamada “Idade de Ouro” americana, na qual Rockefeller chegou a ter uma fortuna que equivalia aproximadamente a 2% do PIB dos EUA, com a riqueza que já hoje (nos primórdios do processo) acumula Elon Musk, entre 3,5 e 4% do PIB norte-americano, um montante que supera o PIB dos Países Baixos.
Todo esse processo insere-se totalmente na disputa inter imperialista entre os EUA e a China pela hegemonia mundial, reconfigura em profundidade a divisão mundial do trabalho e o papel dos Estados, incluindo os imperialismos menores.
O trabalho do ILAESE descreve em detalhe o enorme impacto da Indústria 4.0 + IA, nos diferentes setores econômicos e laborais: desde a indústria (modelo Hyundai e Fábricas Inteligentes) ao comércio, os transportes, a comunicação, a educação ou a saúde. O próprio CEO da Anthropic advertiu em 2025 que a IA destruiria metade de todos os empregos administrativos e profissionais norte-americanos em um prazo de até cinco anos. A IA opera como substituto geral do trabalho. As novas ferramentas da IA estão produzindo demissões em massa e vão produzir muitas mais, ao mesmo tempo que aumenta a exploração dos trabalhadores que permanecem. Ao contrário de outras revoluções tecnológicas, desta vez são todos os setores econômicos que se veem afetados desde as primeiras etapas. Da mesma forma, pela primeira vez, as faixas de trabalhadores altamente qualificados são diretamente atingidas. Além disso, amplos setores da pequena burguesia que até agora haviam mantido uma relativa autonomia em relação ao grande capital (pequenos comércios, taxistas fornecedores…) são abertamente deslocados.
Estamos indo para a formação de um exército industrial de reserva cada vez maior e mais desarraigado dos grandes centros de produção, com amplas camadas de trabalhadores subempregados, precarizados e superexplorados a quem governos e corporações apresentam como “empreendedores”, cujo salário é pago por peça ou serviço prestado, tal como acontecia nos séculos XVII e XVIII.
A Indústria 4.0 + IA é a expressão suprema do problema de fundo do capitalismo: uma revolução tecnológica como a atual, que permitiria um progresso substancial da humanidade, permitindo uma redução drástica do tempo de trabalho e de suas penalidades e possibilitando uma melhoria radical das condições de vida, ao estar subordinada ao processo de acumulação de capital, se transforma justo em seu contrário.
Essa maldição vai além dos efeitos econômicos: a generalização da IA comporta a automação da vigilância e do controle social e da repressão, a generalização da propaganda e do controle da opinião pública. Tem um impacto direto na implacável escalada militar, à qual incorpora novas armas mais letais, como chamadas “armas autônomas”. Fornece aos governos e às grandes corporações (ou, mais precisamente, à coalizão entre ambos) a infraestrutura adequada para avançar na implantação de sistemas autoritários e ditatoriais.
É vital contar com um programa concreto e avançado de reivindicações que nos sirva para fazer frente à ofensiva e nos permita abrir caminho à expropriação dos oligarcas, a um governo dos trabalhadores e à revolução socialista.

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