Trump e Netanyahu fracassam, e cessar-fogo de duas semanas inicia
Depois de ameaçar “acabar com a civilização iraniana”, Trump recuou. Aceitou uma trégua de 15 dias que sinalizam a possibilidade da aceitação de uma derrota. Israel aceitou a trégua em teoria mas na prática já a rompeu ao bombardear a refinaria em Lavan. Como se trata de uma trégua, e não de um acordo que termine a guerra, tudo pode mudar. Além disso, o resultado dessa guerra pode influenciar direta e profundamente a crise da ordem mundial e as tendências da luta de classes em boa parte do mundo. Por isso, é necessário ver seus resultados definitivos para tirar conclusões. Mas é inegável que o conteúdo da trégua aponta a possibilidade de uma derrota do imperialismo.
Após 40 dias de agressão ao Irã, com mais de 15 mil bombardeios, ampla destruição e duas mil mortes iranianas, basicamente nenhum de seus principais objetivos imperialistas foi atingido.
Apesar de afirmações de Trump em contrário, o regime iraniano perdeu mais de 40 líderes, mas sobreviveu e se fortaleceu dentro e principalmente fora do país, além de consolidar o poder da IRGC sobre o conjunto do regime.
Os programas nuclear e de mísseis balísticos ainda serão negociados, mas é pouco provável que sejam extintos. Podem ser limitados em troca da suspensão total ou parcial das pesadas sanções e do descongelamento de milionários fundos iranianos no exterior.
Israel afirma que o Líbano não faz parte do acordo. Isso é um tema importante, e veremos como se concretiza ou não. A realidade é que a resistência do Hezbollah não foi derrotada até esse momento, e um recuo do imperialismo no Irã não favorece Israel, ainda que lamentavelmente esta não seja uma prioridade do regime iraniano nas negociações.
O controle estadunidense sobre o petróleo iraniano não se estabeleceu, ao contrário das declarações anteriores de Trump. Pode ser que isso mude nas negociações? Pode ser, na medida em que ao Irã interessa modernizar sua indústria do petróleo e vender o petróleo a preço de mercado, que são qualitativamente superiores em relação aos valores pagos pela China. Mas nada se parece ao exemplo venezuelano.
A total reabertura do estreito de Ormuz ocorrerá sob controle iraniano e, existe a possibilidade da instituição do pagamento de pedágio ao Irã e Omã, o que não ocorria antes da agressão.
Resultado provisório enfraquece as políticas imperialistas na região e em todo o mundo
O sonho imperialista-sionista de um novo Oriente Médio sob hegemonia israelense está mais distante. Irã emerge mais forte e mantém sob sua mira o principal aliado de Israel no golfo, os Emirados Árabes, e também outros signatários dos vergonhosos acordos de Abrahão, que normalizaram as relações com Israel às custas do sangue palestino.
Outra potência regional, a Arábia Saudita, se afasta da normalização com Israel e aposta suas fichas nos acordos militares com o Paquistão e a Turquia, além de construir rotas alternativas para a exportação de petróleo. É possível também que busque uma necessária acomodação com o Irã, apesar dos ataques iranianos ao país.
O futuro da expansão territorial israelense no Líbano e na Síria é incerto. Os líderes sionistas desejam seguir seus planos de tomar o sul do Líbano, expulsar a população e transformá-la em ocupação permanente. E também expandir a ocupação no sul da Síria, integrando os territórios ocupados no Golã até Sweida, passando por parte das províncias de Quneitra e Daraa. No entanto, Israel depende diretamente do apoio militar, político, financeiro e diplomático do imperialismo estadunidense, o que coloca o futuro da agressão nas mãos do presidente Trump mas também dependente da posição dos regimes árabes de resistir ou capitular. O exemplo do Irã fortalece a alternativa da resistência. O fracasso sionista na guerra contra o Irã deve enfraquecer Al-Hajri e os líderes drusos que apostam na relação com os sionistas.
Quanto à Palestina, o fim do genocídio em Gaza e da limpeza étnica na Cisjordânia e em al-Quds/Jerusalém não é certo. Apesar do enfraquecimento do imperialismo-sionismo, a questão palestina não foi pautada com centralidade nas negociações com os Estados Unidos. Questões como a retirada das tropas israelenses de Gaza, da Cisjordânia e de Al-Quds/Jerusalém, e o controle fronteiriço de Gaza com o Egito, e da Cisjordânia com a Jordânia seguem sem solução.
Por fim, Netanyahu sofrerá um duro teste eleitoral nas eleições que deverão ser chamadas até outubro, no máximo. O fracasso da agressão ao Irã enfraquece sua posição.
Impacto mundial
Na arena internacional, a economia mundial capitalista se enfraquece. O Banco Mundial prevê crescimento menor e inflação maior devido à guerra.
As relações transatlânticas entre os Estados Unidos e a Europa estão abaladas. É possível que o imperialismo europeu, golpeado pelas imposições norte americanas, tente desenvolver fontes de energia alternativa (nuclear e renovável) e suas próprias forças armadas (com ampliação do arsenal de bombas nucleares francês) para se relocalizar na disputa interimperialista internacional.
O imperialismo russo, um dos principais beneficiários da guerra, teve seus lucros com a exportação de petróleo e gás a preços maiores. O petróleo baixou com a trégua, mas é provável que se mantenha em um preço mais alto que antes da guerra por algum tempo. Mas os ganhos russos podem se manter limitados pela ofensiva militar ucraniana que reduziu a capacidade produtiva russa em 20% a 40%.
O imperialismo chinês se saiu bem. Escapou da inflação dos preços do petróleo e gás, fortaleceu alternativas energéticas (carvão e energias renováveis), pressionou o Irã para aceitar o cessar-fogo e fortaleceu seu perfil de previsibilidade em contraste com o imperialismo estadunidense. Se por um lado a agressão estadunidense ao Irã abre as portas para que outros imperialismos façam o mesmo, o dispendioso fracasso militar estadunidense afasta momentaneamente qualquer tentativa de tomar Taiwan pela via militar, e fortalecem os esforços de pressionar a burguesia taiwanesa e a população das “vantagens” da unificação (apesar da ditadura).
De forma geral, o fracasso estadunidense demonstra que nenhuma superpotência é invencível, repetindo o exemplo do imperialismo russo na Ucrânia. E fortalece as lutas dos povos oprimidos em todo o mundo.
Além disso, acelera a corrida armamentista interimperialista, a transição energética nas potências imperialistas que não são autosuficientes em petróleo e gás (China, Japão e Europa), e as novas técnicas de guerra convencional com o amplo uso de mísseis, drones, além de táticas de guerra assimétricas.
Trump sofreu um golpe. E deve tentar reagir
As negociações vão confirmar (ou não) as tendências que emergem do cessar-fogo de 14 dias. De toda a forma, Trump buscará na mesa de negociação o que não conseguiu pela via da guerra. Um exemplo é o petróleo iraniano, que é estratégico na disputa com o imperialismo chinês. Trump pode tentar trocar o fim das sanções por algum grau de acesso a este recurso energético estratégico.
Trump também deve buscar impôr seu ditame a outros países, em particular na América Latina, de forma a jogar uma cortina de fumaça no seu fracasso no Irã. Cuba, asfixiada pelo bloqueio energético imposto por Trump, possivelmente será o próximo alvo. Outros países que terão eleições como a Hungria, a Colômbia e o Brasil também devem ser objeto de ações para influenciar seus resultados em favor de candidatos da extrema-direita.
Internamente, nos Estados Unidos , sua situação está mais complicada com o resultado da guerra, prováveis crises interburguesas, e com a perda de popularidade devido à inflação, às ações violentas do ICE e ao escândalo de pedofilia e tráfico de influência de seu amigo Epstein. Tudo isso às vésperas das eleições de meio de mandato nas quais Trump possivelmente vai tentar interferir de forma autoritária, para evitar que uma derrota eleitoral inviabilize seu mandato.
A classe trabalhadora iraniana terá que retomar a luta contra a ditadura e o capitalismo
O cessar-fogo, se estendido indefinidamente, eliminará o cenário de destruição da vida e do país através da ação militar imperialista-sionista. Neste cenário, a classe trabalhadora se beneficiará do fim da intervenção militar, e com o consequente desgaste dos apoiadores da agressão militar imperialista entre a população e a diáspora. Reza Pahlevi e o MEK retornarão à justa irrelevância.
Mas hoje mesmo autoridades judiciais iranianos pediram a aceleração das execuções. Portanto a classe trabalhadora terá que retomar a luta pelo fim das execuções e pela libertação dos presos políticos (mais de 50 mil), como também por liberdades democráticas de expressão e organização, e por justiça social. Isto só será conquistado com o fim da ditadura e do capitalismo.
Para isso, será necessário fortalecer a organização independente da classe trabalhadora, através de sindicatos, do movimento estudantil, das organizações pelos direitos das mulheres, das nacionalidades oprimidas (curdos, balochis, árabes, …), além da numerosa diáspora que tem condições de construir uma solidariedade internacional a estas lutas democráticas e sociais.
Nossa posição
A LIT-QI apoia as lutas contra todos os imperialismos (estadunidense, europeu, chinês, russo ou japonês) e saúda a possível derrota militar do imperialismo-sionismo nas mãos das forças militares iranianas.
Se a relação de forças permitir ao regime iraniano uma posição clara nas negociações com Trump pelo fim das bases estadunidenses na região, pelo fim da agressão e pela retirada das tropas israelenses da Síria e do Líbano, e pelo fim do genocídio em Gaza e da limpeza étnica na Cisjordânia, uma derrota mais decisiva sobre o imperialismo e o sionismo seria conquistada.
Ao mesmo tempo, apoiaremos todas as formas de auto-organização da classe trabalhadora e dos movimentos sociais iranianos em sua luta pelo fim das execuções de presos políticos e sua imediata libertação, por liberdades democráticas e justiça social.
E por fim, reiteramos o chamado a retomar as ruas em solidariedade ao povo palestino. Teremos uma companheira da LIT presente na Flotilha Sumud à Gaza e fortaleceremos as atividades de solidariedade como o dia dos presos políticos palestinos (dia 17 de abril) e o aniversário da Nakba em 15 de maio.




