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Cuba

A crise em Cuba

Praça da Revolução, Havana

Eduardo Neto

abril 7, 2026

É preciso lutar de verdade contra Trump

Uma pequena delegação da LIT esteve em Cuba em março de 2026. Estávamos lá Hertz Dias (candidato à presidência do Brasil pelo PSTU), Gabriela (também do PSTU) e eu.

Queríamos, em primeiro lugar, demonstrar nossa solidariedade com Cuba neste momento em que o sórdido bloqueio imposto por Trump impede a chegada de petróleo e estrangula uma pequena ilha, a 140 km dos Estados Unidos.

Fizemos questão de estar lá no dia 21 de março, data de chegada da Flotilha de Solidariedade a Cuba, da qual participaram diversas organizações internacionais. Levamos o que pudemos em sinal de solidariedade, dentro das nossas possibilidades: alimentos e medicamentos.

O cenário internacional estava marcado pela agressão militar imperialista-sionista contra o Irã, imediatamente após a invasão da Venezuela e o sequestro de Maduro.

Todos sabem que somos críticos e opositores da ditadura cubana. Mas isso não altera nossa postura de defesa de Cuba, um país semicolonial, contra o ataque do país imperialista mais poderoso do planeta. Mais ainda quando esse país é governado por um governo de extrema direita que afirma descaradamente que vai “tomar Cuba”.

Enganam-se aqueles que acreditam que as intenções de Trump têm algo a ver com democracia. O imperialismo norte-americano apoia as piores ditaduras do mundo, como a Arábia Saudita, desde que sirvam aos seus interesses. Ele respalda a repressão brutal de Israel contra os palestinos.

Trump quer reverter a decadência do imperialismo norte-americano e, assim, enfrentar o imperialismo chinês em ascensão, utilizando abertamente seu poderio militar e econômico. Em um documento sobre Segurança Estratégica Nacional publicado em novembro de 2025, ele explicita o objetivo de impor governos títeres na América Latina.

Na Venezuela, com a invasão militar, ele conseguiu o que queria: o controle do petróleo e uma mudança no governo do país, com Delcy Rodríguez alinhada aos seus interesses.

O bloqueio norte-americano foi imposto por John Kennedy em 1962. Agora, Trump agravou brutalmente o bloqueio e quer estrangular a economia cubana, com a suspensão do envio de petróleo para a ilha.

A geração de energia elétrica em Cuba depende do petróleo entre 80% e 95%. O sistema, antigo e em mau estado, sustenta-se em oito usinas termoelétricas principais. Não houve modernização nem a manutenção necessária.

Cuba precisa de 110 mil barris de petróleo por dia e produz apenas 40 mil. A suspensão do fornecimento de petróleo venezuelano, que atendia entre 30% e 40% das necessidades de Cuba, é um golpe muito duro para a ilha.

Tem um caráter colonial tão sórdido quanto a apropriação do petróleo venezuelano, que Trump agora diz ser “dos americanos”. Esse tipo de atitude remete aos atos dos impérios coloniais sobre suas colônias nos séculos passados.

Trump declarou “emergência nacional” contra Cuba, ameaçando aumentar as tarifas sobre os países que fornecem petróleo à ilha. Isso foi aceito pelos chamados “governos progressistas”: nem Lula, nem Petro, nem Claudia Scheinbaum,  três governos de países exportadores de petróleo, não fornecem petróleo a Cuba, aceitando a imposição de Trump.

As consequências são graves. A constante falta de energia elétrica afeta diretamente também o abastecimento de água e gás em um país que já está em recessão. Há uma crise humanitária em curso.

Havia sido anunciado um ato público de recepção à Flotilha de Solidariedade a Cuba no dia 21 de março, que nunca aconteceu. Como a ditadura cubana tem muito medo de eventos abertos, pois podem se voltar contra ela, realizaram-se apenas dois eventos fechados, exclusivamente para delegações internacionais. Nenhum deles foi anunciado publicamente.

Tentamos por todos os meios saber quando seria o evento para ver se poderíamos participar. Só soubemos que houve um evento fechado na sexta-feira, 20 de março, no dia seguinte. Nesse evento participou Díaz-Canel, presidente de Cuba, que fez um discurso bastante de esquerda, contra Trump.

No sábado, estivemos duas vezes no Malecón (o tradicional calçadão à beira-mar de Havana), onde se supunha que a frota chegaria. Não havia nada, nem evento nem barcos chegando, pelo menos que pudéssemos ver.

Entregamos os alimentos que levamos a uma iniciativa dos ativistas cubanos com quem mantemos contato, de cozinha solidária.

Os medicamentos (antibióticos utilizados em hospitais brasileiros para infecções mais graves) foram entregues diretamente ao governo cubano, no Instituto Cubano de Amizade com os Povos, onde foram entregues as doações que chegaram na Flotilha. Hertz e eu nos apresentamos como membros do PSTU e da LIT e entregamos os medicamentos.

Ao sairmos do instituto, um dos ativistas presentes nos disse que, naquele breve período de alguns minutos em que estivemos entregando a solidariedade, havia ocorrido um ato, também fechado, com as cerca de cem pessoas que estavam ali, entoando “Cuba sim, bloqueio não”. Esse foi o segundo ato fechado, os únicos que ocorreram na semana em que estivemos em Cuba.

Cumprimos assim nosso objetivo de solidariedade com o povo cubano. Mas, além da denúncia do bloqueio imperialista e da solidariedade imediata com Cuba, é necessário debater como lutar realmente contra o imperialismo. Aqui se enfrentam duas estratégias opostas na realidade: a do governo cubano, apoiada pelo stalinismo em nível mundial, e a que nós defendemos.

Para entender esse debate, é necessário voltar no tempo, à história da ilha.

1959: a primeira revolução socialista na América Latina

Ao derrotar a ditadura de Batista e avançar para a expropriação das grandes empresas norte-americanas, a revolução liderada por Fidel Castro e Che Guevara conquistou enorme prestígio entre as massas e a vanguarda de todo o continente. Cuba foi o primeiro e único país da América Latina a realizar uma revolução vitoriosa em 1959, declarada como socialista em 1961.

A LIT (e a Fração Bolchevique, que a precedeu) sempre se opôs ao bloqueio norte-americano contra Cuba, desde sua imposição em 1962. Da mesma forma, nos opusemos à tentativa de invasão imperialista na Baía dos Porcos em 1961.

No entanto, o regime cubano nunca desenvolveu instituições da democracia operária como os sovietes da revolução russa de 1917. Desde 1959, sempre existiu um regime autoritário, controlado por uma burocracia, que posteriormente se vinculou ao stalinismo da URSS.

Mesmo assim, as conquistas da revolução cubana nas áreas da educação e da saúde mostraram ao mundo as possibilidades de avanço com a expropriação da burguesia e o planejamento da economia. As taxas de mortalidade infantil em Cuba eram menores do que as dos Estados Unidos.

Foi imposto um regime de partido único, que frequentemente perseguia e reprimia todos os opositores ou críticos, inclusive os de esquerda. Os sindicatos foram incorporados ao controle do Estado, fechando espaços centrais para a expressão das propostas de mudança da classe trabalhadora.

Em Cuba, existe racismo, machismo e LGBTQIfobia. Como parte do mesmo modelo stalinista, no reino da burocracia sempre houve a continuidade dessas opressões e a repressão contra os ativistas que se opõem a elas. Não é por acaso que a marcha de 2019 contra a opressão LGBTQI foi reprimida. Não é por acaso que a elite dirigente cubana seja branca, desde a família Castro até Díaz-Canel hoje.

A restauração do capitalismo em Cuba

O Estado operário burocrático cubano já não existe. Após a restauração do capitalismo na URSS, Cuba seguiu o mesmo caminho. Na década de 90 do século passado, o próprio regime castrista acabou com o monopólio do comércio exterior e o planejamento da economia, e começou a privatizar as empresas estatais.

A economia cubana abriu-se às empresas multinacionais, o que foi aproveitado pelo imperialismo europeu para ocupar a ilha.

A partir daí, começou a se gestar uma nova burguesia cubana, a partir do aparato estatal, em particular da alta cúpula militar, associada às multinacionais europeias.

Em setembro de 1995, a Assembleia Nacional aprovou a Lei de Investimentos Estrangeiros. Assim, o terceiro pilar da economia do antigo Estado operário, a propriedade estatal dos principais meios de produção, foi sendo destruído, setor por setor. As empresas estatais foram entregues ao capital estrangeiro europeu, em particular por meio de joint ventures (empresas mistas).

Também se impôs uma mudança no motor da economia, que passou a ser o turismo, com multinacionais espanholas como Meliá e Iberostar controlando os grandes hotéis de Varadero e Havana para turistas de classe média europeus, norte-americanos e sul-americanos. A ideia era ocupar um lugar no mercado turístico entre as praias do Caribe, disputando espaço com Punta Cana (República Dominicana) e Cancún (México).

O rum cubano é controlado pela empresa francesa Pernord Ricard. Os charutos cubanos são comercializados por uma joint venture entre a empresa estatal cubana e a Altadis, do grupo inglês Imperial Tobacco Group PLC.

Uma nova grande burguesia cubana surgiu na cúpula das forças armadas, a partir da GAE (SA) — Grupo de Administração Empresarial S.A.- motor da restauração do capitalismo. Esse centro foi dirigido por Luís Alberto Rodríguez López-Calleja até sua morte, há dois anos. Esse personagem era marido de Débora Castro, filha de Raul Castro.

O GAE (SA) associou-se as multinacionais europeias, criou empresas internacionais a partir de Cuba e hoje controla entre 40% e 60% da economia da ilha, segundo diversos estudiosos do tema.

Isso tem um significado profundo: a gestação de uma nova burguesia cubana a partir do aparato do Estado, mais precisamente dos altos comandos militares e da família de Raul Castro.

Essa nova burguesia cubana mantém o controle da economia e do regime em Cuba. Díaz-Canel é apenas uma figura pública, diretamente dirigida pela família Castro.

Tudo isso é embelezado pelo stalinismo, que afirma que as mudanças em Cuba são expressões do “socialismo moderno”, diferente dos tempos passados. Isso não tem nada de marxista.

A sociedade cubana funciona com base na lei do valor e não com base no planejamento da economia, nas empresas estatizadas e no monopólio do comércio exterior, como existia anteriormente no antigo Estado operário burocrático.

Foi sob a pressão do mercado e da lei do valor que o Estado burguês cubano optou pelo turismo como motor da economia.

Isso funcionou inicialmente, mas entrou em colapso com a pandemia. O turismo nunca mais recuperou os 5 milhões de visitantes anuais, chegando no ano passado a 1,8 milhão e, este ano, certamente, muito menos.

O Estado garante às multinacionais uma mão de obra qualificada sem qualquer possibilidade de se mobilizar contra os baixos salários. Também garante a possibilidade de repassar os lucros às suas matrizes sem restrições.

A desigualdade entre os cubanos, que já existia no Estado operário burocratizado, ampliou-se enormemente com a restauração. A nova burguesia cubana e o setor social ligado ao turismo têm grandes privilégios, e a miséria passou a ser a regra para os trabalhadores e o povo pobre de Cuba.

Por que a burguesia imperialista norte-americana não fez o mesmo que a europeia, sendo parte da restauração capitalista na ilha? A explicação está na burguesia cubana radicada em Miami, expropriada pela revolução em 1959. Essa burguesia integrou-se à burguesia imperialista norte-americana e não quer apenas retornar a Cuba, mas derrubar a ditadura castrista e recuperar suas empresas expropriadas.

Essa mudança provocou uma enorme confusão na vanguarda mundial. Cuba continua sendo governada pelo Partido Comunista, mas ocorreu uma transformação fundamental: antes, uma ditadura burocrática de um Estado operário deformado. Depois, a restauração do capitalismo, dirigida pelo próprio Partido Comunista. Mas, com o apoio do stalinismo em nível mundial, continua-se falando de “Cuba socialista”.

Por que Cuba ficou isolada?

O único caminho para que Cuba pudesse avançar em direção ao socialismo seria com o desenvolvimento da revolução mundial e, em particular, na América Latina. Mas isso não aconteceu. Não há nenhuma possibilidade de se avançar em direção ao socialismo em um único país, como ficou demonstrado na URSS. Muito menos em uma ilha, como Cuba.

O atual isolamento de Cuba não se deveu apenas ao fim do apoio econômico da URSS. Nem exclusivamente ao bloqueio norte-americano. Esses elementos são importantes, mas não se poderia esperar outra resposta da contrarrevolução imperialista.

Existe outro fator, a nosso ver decisivo: a política adotada pela ditadura castrista. O castrismo nunca buscou desenvolver uma estratégia revolucionária internacional apoiada nas lutas das massas.

Na década de 1960, o governo cubano fez uma tentativa desastrosa de expandir focos guerrilheiros na América Latina, isolados do movimento real das massas. Isso levou a derrotas sucessivas, com a morte de milhares de ativistas e facilitou a repressão dos governos burgueses contra o conjunto do movimento de massas.

Ainda mais grave, após integrar-se ao aparato stalinista em 1972, a burocracia cubana aderiu à política da burocracia russa de “coexistência pacífica”, buscando o apoio das “burguesias progressistas” latino-americanas.

Como exemplo máximo disso, diante do auge revolucionário de 1979 na América Latina, após a derrota da Guarda Nacional de Somoza e a tomada do poder pela Frente Sandinista, Fidel Castro se opôs a que a revolução na Nicarágua fosse uma “nova Cuba”.

Além disso, Castro apoiou os acordos de Contadora e Esquipulas no início da década de 80. Esses acordos canalizaram o auge revolucionário para o beco sem saída das eleições, derrotando o processo revolucionário em toda a América Central.

Ainda como parte da “coexistência pacífica”, a ditadura cubana apoiou governos burgueses, como López Portillo, Luis Echeverría (México) e muitos outros. Isso teve continuidade com os governos “progressistas” de Lula, Evo Morales, Michelle Bachelet, Cristina Kirchner, etc. Além disso, buscou uma aproximação com governos democratas nos EUA, como Carter e Obama.

Por fim, a ditadura castrista ajudou as ditaduras do MPLA em Angola e da FRELIMO em Moçambique a seguirem o mesmo caminho da Nicarágua. Nesses países, após a derrota das forças armadas portuguesas, impuseram-se ditaduras burguesas desses movimentos, com a formação de novas burguesias, que continuam governando até hoje.

Este é o principal motivo do isolamento de Cuba. A força do imperialismo sempre buscará a contrarrevolução. Mas a verdade é que a política do governo cubano, contrária aos processos revolucionários, foi a expressão da mesma política contrarrevolucionária do stalinismo em todo o mundo, que resultou na derrota de inúmeros processos revolucionários.

A política para romper o isolamento não é o apoio às “burguesias progressistas”, mas o apoio às lutas dos trabalhadores, independentemente desses mesmos governos, visando novas revoluções socialistas.

Quando ocorreu a queda das ditaduras stalinistas no leste europeu, Cuba sofreu as consequências dessa política, ficando extremamente isolada.

A restauração do capitalismo já se completou?

Ainda hoje existe um setor da esquerda mundial que é crítico ao castrismo e admite a existência de um processo de restauração capitalista em Cuba. Mas entende que esse processo não se concluiu e que Cuba continua sendo um Estado operário deformado. A partir daí, defende que é necessário “defender as conquistas da revolução cubana”.

Esses setores cometem, em geral, três erros de análise. O primeiro é que centram o processo de restauração do capitalismo em Cuba no estudo das pequenas empresas de produção e comércio que crescem na ilha, mas que não controlam a economia.

Isso é um equívoco. Essa pequena burguesia não determina o rumo do Estado e da economia cubanos. Foi a nova burguesia, surgida a partir da GAESA (Grupo de Administração Empresarial S.A.), dirigida pela família Castro e formada a partir do Estado, que liderou a restauração do capitalismo e se beneficia dele. Não é por acaso que o turismo seja o motor da economia cubana atual, baseado em grandes empresas espanholas associadas às cubanas.

Em segundo lugar, esses setores argumentam que o capitalismo não foi restaurado porque ainda existem muitas empresas estatais em Cuba.

Trata-se de um erro teórico e de análise da realidade. Segundo Lenin e Trotsky, o caráter de classe do Estado é determinado por sua relação com os meios de produção, com as formas de propriedade que o Estado defende e preserva. Como definir um Estado que defende e preserva as empresas associadas ao capital europeu? A nosso ver, trata-se de um Estado burguês.

Existe uma desigualdade temporal entre a mudança de caráter do Estado cubano, que ocorreu na década de 90, e a da economia como um todo, que passou a ser essencialmente capitalista alguns anos depois.

Isso também ocorreu na URSS. Gorbachev mudou o caráter do Estado em 1985, quando chegou ao poder e iniciou a restauração do capitalismo. Mas a restauração só se concluiu na década de 90. Na China, Deng Xiaoping mudou o caráter do Estado em 1979, quando iniciou a restauração, que também só se concluiu muitos anos depois.

Como se pode definir um Estado como operário, se já não existe o tripé que o caracteriza? Ou seja, sem o planejamento central da economia, sem o monopólio do comércio exterior, sem as empresas estatais no centro da economia? Trata-se de um Estado burguês, que promove e desenvolve a restauração do capitalismo.

A existência de muitas empresas estatais em Cuba não é um critério marxista para definir o caráter do Estado. Em muitos e muitos países capitalistas existem empresas estatais, em quantidades variáveis. É fundamental responder se essas empresas estatais se regem por um planejamento da economia, ou se servem à acumulação capitalista, como nos demais países capitalistas.

Na China, por exemplo, ainda há muitas empresas estatais. Inclusive os grandes bancos chineses são estatais e servem diretamente ao processo de acumulação capitalista das grandes empresas privadas chinesas. E a China é um país imperialista.

Não se pode usar uma definição linear, quantitativa e mecânica para definir uma economia apenas pela quantidade de empresas estatais.

O critério marxista que define a economia em sua globalidade é que, se a economia é regida pela lei do valor, pelo mercado, pela oferta e pela demanda, trata-se de uma economia capitalista. Se a economia é regida pelo planejamento da economia estatizada, trata-se de uma economia não capitalista, em algum momento de sua evolução.

Hoje, Cuba é uma economia regida pelo mercado, com sua evolução determinada pela lei do valor. A opção de se concentrar no turismo foi determinada pelo “mercado”, pela lei do valor.

Durante a depressão de 1929, a economia da URSS — um Estado operário, embora dirigido pela burocracia stalinista — cresceu a taxas superiores a 10% ao ano. Em 2020, durante a recessão mundial, Cuba sofreu uma queda do PIB de 11%. Por quê? Por ter uma economia determinada pelo mercado, neste caso pela queda do turismo mundial, que afetou fortemente o principal setor da economia da ilha.

Em terceiro lugar, esses setores argumentam que ainda existem conquistas na educação, saúde, esportes, etc. Mas isso já não existe.

Existe uma crise brutal na saúde e na educação pública do país. Os ativistas cubanos denunciam uma forma brutal de privatização por meio da corrupção. Não se consegue nenhum atendimento médico decente em Cuba sem pagar “por baixo da mesa”, desde uma consulta até um medicamento básico.

Um exemplo da crise da saúde cubana foi a terrível situação de colapso da assistência médica em Cuba com o recrudescimento da pandemia, muito semelhante ao que ocorreu nos países latino-americanos.

A consequência programática dessa discussão teórica é enorme. Aqueles que caracterizam Cuba como um Estado operário têm como programa uma revolução política que apenas modifique o regime político. Aqueles que, como nós, caracterizam Cuba como capitalista, defendem uma nova revolução socialista, que exproprie as empresas privatizadas nas mãos do capital estrangeiro, retome o planejamento da economia e o monopólio do comércio exterior. E que rompa com a ditadura stalinista e construa uma nova democracia dos trabalhadores.

Queremos perguntar a esses setores que continuam defendendo Cuba como um Estado operário: O que acham que deve ser feito com o setor mais importante da economia cubana, o setor turístico, com os grandes hotéis privados? Devem ser expropriados ou não? Devem ou não ser estatizadas as outras empresas multinacionais que controlam o país? Deve-se retomar o planejamento da economia ou não? É fundamental voltar ao monopólio do comércio exterior? Se responderem afirmativamente a essas perguntas, isso significa que estão propondo uma nova revolução socialista em Cuba. Se negarem esse programa, estão apontando para a manutenção da miséria dos trabalhadores cubanos.

O antigo Estado operário burocratizado cubano desapareceu, restando apenas sua aparência, com o PC à frente, como na China.

O que existe em Cuba é uma ditadura burguesa

A consequência mais terrível da restauração do capitalismo é a miséria do povo cubano. Não existiriam as bases materiais para o 11 de julho de 2021 nem para a explosão que está se gestando em Cuba sem as consequências econômicas e sociais da restauração do capitalismo.

Ao contrário do que diz a propaganda stalinista, o povo cubano vive na miséria e odeia a ditadura castrista.

Em dezembro de 2020, o governo de Díaz-Canel, já expressando os interesses da nova burguesia cubana, impôs o plano “Tarea Ordenamiento”, muito semelhante aos planos neoliberais de todo o mundo.

O plano tinha como objetivo declarado a unificação das moedas em vigor em Cuba. Mas o resultado para os trabalhadores foi desastroso. O que ocorreu foi um enorme aumento nos preços do gás e da eletricidade, uma hiperinflação e uma terrível escassez. Tudo isso em plena pandemia de Covid-19.

Mas não é verdade que todos saíram perdendo. Os verdadeiros beneficiários desse plano foram as grandes empresas multinacionais instaladas em Cuba e a nova burguesia cubana a elas associada.

A verdadeira explicação para a explosão popular de 11 de julho de 2021 foi esse plano. O “11J” foi um fato histórico que expressou o profundo descontentamento das massas cubanas com a ditadura.

Nas ruas estavam os cubanos pobres, dos bairros dos trabalhadores. Tudo muito semelhante às mobilizações populares de 2019-2020 no Chile, na Colômbia e no Equador.

Nada a ver com as mobilizações da classe média de direita, dos bairros mais ricos, que às vezes ocorrem em nossos países, em apoio às propostas da burguesia e do imperialismo.

O regime foi duramente atingido por essa mobilização popular espontânea das massas e reagiu violentamente, com cerca de 1.500 detenções. A repressão contra os trabalhadores e os jovens foi apoiada pelo stalinismo mundial, com a calúnia de que se tratava de uma mobilização organizada pelo imperialismo.

Até hoje, existem cerca de 600 presos políticos do 11 de julho, entre eles muitos adolescentes com penas de 15 a 20 anos de prisão.

Apoiamos as lutas dos trabalhadores contra os planos neoliberais na Colômbia e no Chile e denunciamos a dura repressão dos governos. Apoiamos o 11 de julho e denunciamos a repressão do governo cubano.

A “democracia popular” de Cuba, propagada pelos stalinistas, é uma farsa. Esta ditadura sabe que é odiada e, por isso, tem medo do seu próprio povo. Não permite nenhum tipo de democracia, nem operária nem burguesa. A autodenominada “democracia popular” não é nem democracia, muito menos popular.

A população sofre perseguição e vigilância policial o tempo todo. Quem discorda perde o emprego, é vigiado e perseguido.

O salário-mínimo em Cuba hoje equivale a 3 dólares. E isso com os alimentos, quando se consegue comprá-los, custando um preço semelhante ao do Brasil. Pagamos 2,4 dólares durante nossa estadia em Cuba por uma dúzia de ovos — a fonte de proteína mais barata que encontramos. Ou seja, uma dúzia de ovos vale quase o mesmo que um salário-mínimo mensal.

A Libreta de abastecimento — a alimentação subsidiada garantida pelo governo cubano no passado — foi reduzida a apenas um pão pequeno por pessoa por dia. Havia filas enormes em frente às padarias oficiais em Havana para conseguir esse pão.

A repressão constante é a forma pela qual essa ditadura impede greves e manifestações contrárias.

Nas “eleições”, só são permitidos candidatos indicados pelo governo, e o PC é o único partido legal.

Por que não permitem a existência de nenhum partido de esquerda que não apoie o governo? Por que não existe nenhum sindicato livre em Cuba? A CSP Conlutas, central sindical e popular apoiada pelo PSTU, não seria legal em Cuba.

O regime reprime qualquer tipo de oposição. Reprimiu o 11 de julho, assim como a marcha LGBTI de maio de 2019, as manifestações artísticas independentes e todos os atos que o questionam. A dura repressão empurra aqueles que se opõem para o exílio ou para a prisão.

Desde 11 de julho, a crise tem se aprofundado cada vez mais, assim como o descontentamento com a miséria e a repressão.

A crise atual prepara uma nova explosão popular

Tudo isso se agravou muito mais com o bloqueio petrolífero imposto por Trump desde a destituição de Maduro. Com o fornecimento de petróleo venezuelano interrompido e a proibição de qualquer outro país enviar petróleo, Cuba está entrando em colapso.

Na semana em que estivemos lá, ocorreram dois apagões nacionais e outros locais. Apesar de estarmos hospedados em um bairro central de Havana, passamos mais tempo sem energia do que com energia.

A ruptura das massas com o governo é enorme. Conversamos longamente com os ativistas com quem mantemos contato. Eles falam do ódio do povo cubano pela ditadura, tanto pela miséria quanto pela repressão constante. O povo compara sua miséria com os conhecidos privilégios da elite governante, como os da família de Raul Castro.

Essa consciência antiditatorial é aproveitada principalmente pela direita. Existe um apoio político significativo a Trump entre as massas cubanas. Entre os ativistas, há diferentes estimativas sobre esse fenômeno: alguns falam de 60% de apoio a Trump, outros de 80%. Essa dura verdade é importante para compreender o retrocesso da consciência anti-imperialista, antes majoritária em Cuba, por culpa da ditadura.

O apoio ao “socialismo” cubano é muito minoritário, com uma presença ainda significativa entre os setores mais idosos, que viveram momentos melhores no antigo Estado operário. Quanto mais jovem é a população, maior é o apoio a Trump.

Alguns dias antes de nossa chegada, moradores de uma pequena cidade —Morón— atacaram e incendiaram uma sede do Partido Comunista de Cuba.

Durante o período em que estivemos lá, todos os dias houve protestos locais à noite, sem alcance nacional nem continuidade.

Está se desenvolvendo uma enorme revolta contra a ditadura burguesa que pode explodir em uma nova mobilização popular, semelhante ou maior do que a de 11 de julho de 2021.

O problema do campismo

O stalinismo, como aparato mundial, se enfraqueceu muito com a queda das ditaduras da Europa Oriental. Mas continua muito forte até hoje. Conta com partidos comunistas em muitos países, alguns deles com grande influência popular. Além disso, muitos partidos reformistas não estalinistas, como o PT e o PSOL no Brasil, apoiam a ditadura castrista.

Mas o estalinismo é muito mais do que o autoritarismo bem conhecido e repudiado. Possui uma ideologia reformista cujo alcance é muito maior do que o dos próprios partidos comunistas. Substituem o método de análise marxista das classes sociais pelo dos “campos progressistas”.

De um lado, estariam os “campos progressistas”, que incluem os “governos de esquerda” e as “burguesias progressistas”. Do outro, estaria o inimigo, o imperialismo norte-americano. Eles reconhecem apenas o imperialismo norte-americano, ignorando tanto o imperialismo europeu quanto o chinês e o russo.

Assim, todos aqueles que se opõem a esses governos progressistas são “agentes do imperialismo norte-americano”. Nesses países dirigidos por esses “governos de esquerda”, não existem as classes sociais, não se identifica a luta de classes. Existem apenas os governos progressistas e seus inimigos, os agentes do imperialismo norte-americano.

Para a propaganda de muitos partidos stalinistas, Cuba e a China, além de terem “governos de esquerda”, continuam sendo até hoje países “socialistas”. A partir daí, muitos PCs apoiaram o massacre da Praça da Paz Celestial em 1989. Mesmo diante de milhares de jovens mortos em uma manifestação pacífica em Pequim, o aparato stalinista continuou falando de “agentes do imperialismo”.

A China, ao contrário do que diz a propaganda stalinista, é uma potência imperialista. Com salários baixíssimos e uma ditadura que reprime qualquer ameaça de greve, o modelo chinês se impôs e foi propagado pelo imperialismo mundial como exemplo criando um novo paradigma salarial, o que contribuiu para reduzir o nível de vida dos trabalhadores em todo o mundo.

Com essa metodologia de análise dos “governos progressistas”, os PCs e seus seguidores apoiaram Assad, o ditador sírio, que matou 500 mil habitantes para se manter no poder. Apoiam a ditadura de Ortega na Nicarágua. Mas, ao contrário do que diz a propaganda stalinista, quem governa esses países são as novas burguesias surgidas do aparato do Estado. E nesses países há trabalhadores que lutam contra a miséria capitalista imposta por esses governos.

Em Cuba, o mesmo método campista do stalinismo serve para justificar toda a política do governo cubano como “progressista” e até mesmo como “último bastião do socialismo”. Por isso, também apoiaram a repressão do governo cubano contra o 11 de julho.

Assim, temos duas ideologias dominantes no mundo sobre Cuba. Uma do imperialismo norte-americano, de que em Cuba existe o socialismo e isso é uma demonstração de que o socialismo é igual a ditadura e miséria. Outra, do aparato stalinista, de que Cuba é “o último bastião do socialismo” e que os ativistas têm de defender o governo cubano, não apenas contra o imperialismo norte-americano, mas também contra seu próprio povo.

Mas essas duas ideologias colidem com a realidade. Em Cuba não existe socialismo de nenhum tipo. Existe uma ditadura burguesa, que se mantém por meio da repressão constante.

E a ideologia campista do stalinismo, que foi a base de inúmeras derrotas dos trabalhadores, está preparando mais uma para Cuba.

Nós combatemos o imperialismo. E também combatemos o stalinismo. Para isso, utilizamos o método marxista, que não substitui as classes em luta por “campos”. Avaliamos as relações entre as nações no sistema mundial de Estados. E analisamos as situações concretas da luta de classes.

Por isso combatemos o bloqueio imperialista contra Cuba. Por isso também podemos lutar contra a ditadura burguesa em Cuba, de forma independente do imperialismo.

É inegável que Trump quer tirar proveito da atual crise do governo cubano e que está disputando a consciência das massas cubanas.

Isso afetou parte da antiga vanguarda antiditatorial na ilha, como parte das direções do Movimento San Isidro, presente na cultura cubana, que se deslocaram para a direita.

Por outro lado, o aparato stalinista também age para desmantelar essa vanguarda, com prisões, julgamentos e difamações. Além disso, exerce pressão ideológica, com a farsa de que todas as mobilizações que surgem “têm o imperialismo por trás”.

Felizmente, não existem apenas esses dois campos. Um setor da vanguarda cubana é contra as manobras imperialistas e contra a ditadura castrista, como é o caso do grupo Socialistas em Luta, que compartilha conosco a luta contra o imperialismo, contra a ditadura e a defesa do socialismo.

As negociações do governo cubano com Trump

Há alguns meses, existem notícias sobre negociações diretas entre o governo de Trump e o regime cubano. A imprensa fala abertamente da proposta em discussão, de uma saída “à la Venezuela” para Cuba.

Trump disse em fevereiro desse ano: “O governo cubano está conversando conosco. Eles têm um monte de problemas e nenhum dinheiro. Não têm absolutamente nada neste momento, mas estão conversando conosco, e talvez tenhamos uma aquisição amigável. Podemos acabar tendo uma aquisição amigável de Cuba”

Quem está negociando com Marco Rubio (secretário de Estado de Trump), por parte de Cuba, é Raul Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raul Castro, apelidado de “caranguejo”. Ou seja, trata-se de negociações diretas a partir dos centros de poder tanto do lado de Trump quanto do lado cubano.

A liberação por Trump de um cargueiro russo com petróleo destinado a Cuba deve ter sido parte dessas negociações. A porta-voz de Trump indicou posteriormente que o governo norte-americano analisará “caso a caso” a possibilidade de outras chegadas. De uma forma ou de outra, isso significa menos de dez dias do petróleo necessário para Cuba.

Exatamente no dia em que chegamos a Cuba, 16 de março, Díaz-Canel apareceu na televisão estatal para anunciar as negociações com Trump, “com responsabilidade e muita sensibilidade”. À sua frente, sentado, estava Raul Guillermo Rodríguez Castro.

Foi anunciada a liberação de investimentos em Cuba por parte dos “cubanos residentes nos Estados Unidos”, ou seja, da burguesia cubana radicada em Miami, nos setores energético, de infraestrutura em geral e financeiro.

Esses investimentos poderão ser realizados sem qualquer controle por parte do Estado cubano. Ou seja, foi anunciada a entrega da economia cubana ao imperialismo norte-americano por meio de negociações com Trump.

Foi nesse momento que Trump declarou que “seria uma grande honra tomar Cuba”.

No entanto, pouco depois, Marco Rubio, respondendo a Díaz-Canel, afirmou que essas medidas não eram suficientes e exigiu a abertura total do comércio e a renúncia de Díaz-Canel.

Posteriormente, Díaz-Canel respondeu a Trump, tanto nas redes sociais quanto no evento fechado com a frota, afirmando que era possível uma agressão militar contra Cuba e que “o país lançou um plano de preparação de defesa baseado no conceito de uma guerra de todo o povo”.

Paralelamente, realizou uma operação midiática. O cantor Silvio Rodríguez, que apoia o regime, mas critica abertamente a repressão, exigiu do governo um fuzil para defender Cuba contra Trump. Díaz-Canel entregou-lhe então um fuzil.

Foi tudo uma farsa. A arma entregue a Silvio Rodríguez, como ele mesmo disse depois, era uma réplica, não uma arma de verdade. Não existe qualquer preparação para uma operação popular de defesa de Cuba. Durante o tempo em que estivemos na ilha, não houve nenhuma mobilização de massas nem preparativos reais de armamento popular. Os ativistas com quem conversamos são unânimes em caracterizar como uma farsa essa fala sobre mobilização popular.

No entanto, existe a possibilidade de um impasse nas negociações em curso. É preciso levar em conta que a burguesia cubana de Miami faz parte da burguesia imperialista. Ela tem muito mais peso econômico e político do que a oposição burguesa venezuelana de Maria Corina Machado.

Essa burguesia pode ser contra uma saída “à venezuelana” em Cuba. Trata-se, portanto, de um processo aberto, que pode resultar tanto em uma invasão militar imperialista quanto em uma negociação real para manter uma parte do regime, mas subordinada a Trump (à venezuelana). Ou ainda, que ocorra outra hipótese.

Como defender realmente Cuba contra o imperialismo?

Em Cuba, está ocorrendo uma pressão brutal do imperialismo contra um pequeno país semicolonial. Esse é o elemento central da realidade neste momento.

Por outro lado, está se gestando uma grande explosão contra a ditadura burguesa cubana.

Não sabemos como esses processos desiguais se manifestarão nem como se combinarão.

As negociações de Trump com o governo cubano podem levar a uma nova alternativa semelhante à da Venezuela. Ou pode ocorrer um impasse nas negociações e terminar em uma invasão militar imperialista.

Também pode acontecer que uma explosão popular acabe sendo aproveitada por lideranças pró-imperialistas, ligadas a Trump. Ou podem ocorrer outras hipóteses mais ou menos combinadas, com resultados distintos.

O governo cubano, até agora, mantém uma estratégia de negociar com o imperialismo, reprimir seu próprio povo e não recorrer à mobilização de massas contra Trump. O raciocínio baseia-se quase sempre no mesmo argumento: a relação de forças desfavorável.

De fato, em termos militares, existe uma relação de forças absolutamente desfavorável para Cuba. Mas a história cubana já demonstrou que é possível derrotar o imperialismo norte-americano. Em 1961, houve uma invasão dos Estados Unidos contra Cuba, na Baía dos Porcos. Uma mobilização popular e militar derrotou em 72 horas a invasão imperialista, garantindo uma vitória que consolidou a revolução em Cuba.

Estendendo os exemplos à realidade latino-americana: em 2002 uma mobilização popular derrotou a tentativa de golpe de Estado feito pelas forças armadas venezuelanas contra Chávez.

E, no exemplo mais conhecido de todos, em 1975 uma combinação entre a heroica resistência militar dos vietnamitas e a mobilização de massas contra a guerra nos Estados Unidos conduziu à maior derrota política e militar do imperialismo norte-americano até hoje.

Neste momento, a combinação entre a resistência militar iraniana e as mobilizações nos Estados Unidos pode levar a uma nova e grande derrota do imperialismo na guerra do Irã.

Não há nenhuma possibilidade de mudar essa relação de forças desfavorável sem a combinação da resistência militar e da mobilização de massas, dentro e fora de Cuba. Somente preparando efetivamente uma resistência armada popular em Cuba e se unindo as mobilizações às existentes nos Estados Unidos — como as que ocorreram em 28 de março, “No Kings”, e as próximas que acontecerão em 1º de maio — é possível alterar a relação de forças desfavorável.

Para isso, seria necessário que o regime cubano libertasse os presos políticos, convocasse a mobilização de massas e entregasse armas aos trabalhadores. Chega de farsas como a que ocorreu com o cantor Silvio Rodríguez. É necessário preparar seriamente uma resistência militar popular contra uma possível invasão imperialista.

Entendemos que a ditadura cubana, pelo menos até agora, está fazendo o contrário. Não há mobilização de massas dentro de Cuba, nem relação com as mobilizações nos EUA. Mantém-se uma postura repressiva perante o povo cubano, enquanto se dialoga e se negocia com Trump.

Como disse a mãe de um dos adolescentes presos políticos do 11 de julho em Cuba, impressiona que Díaz-Canel dialogue com o imperialismo e não com o povo cubano. Entre os 2.000 presos libertados pelo governo cubano por meio da negociação com o imperialismo mediada pelo Vaticano, não havia nenhum dos presos do 11 de julho.

O governo cubano quer o fim do bloqueio para que as empresas imperialistas norte-americanas venham para Cuba, como fazem hoje as espanholas, francesas e italianas. O governo cubano quer o fim do bloqueio para avançar na semicolonização da ilha. E agora, está negociando com Trump, o que pode significar ou não a possibilidade de uma saída “à la Venezuela” para Cuba.

Além de organizar uma verdadeira resistência contra o imperialismo norte-americano, propomos lutar contra a ditadura cubana como uma luta democrática, parte de uma estratégia socialista e anti-imperialista.

Defendemos uma mobilização e organização independentes dos trabalhadores e do povo cubano. Exigimos liberdade para os presos políticos e a livre organização dos sindicatos e das organizações políticas em Cuba, para podermos combater melhor o imperialismo.

Essa luta democrática é parte integrante de nossa estratégia para uma nova revolução socialista em Cuba, reestatizando as empresas privatizadas, incluindo aquelas que estão nas mãos do imperialismo europeu, com um planejamento da economia e um controle direto e real dos trabalhadores. Queremos uma democracia operária em Cuba, oposta à ditadura stalinista, que, de fato, tenha sua essência na participação dos trabalhadores em todas as decisões fundamentais e estratégicas da ilha.

Os ativistas de esquerda que defendem a ditadura cubana pensando que, apesar dos erros, o stalinismo defende o que resta da revolução cubana, devem refletir.

A ditadura castrista não está defendendo o Estado operário burocratizado que há muito tempo já não existe, mas sim sua aliança com as grandes empresas europeias, seus lucros e privilégios. É por isso que é odiada pelo povo cubano. A ditadura cubana não está enfrentando Trump, pelo menos até agora, mas sim negociando com os Estados Unidos.

Apoiar acriticamente a ditadura stalinista é fortalecer essa visão dos «campos progressistas ao lado da burguesia», que ignora as classes sociais e o marxismo. E prepara uma nova derrota em Cuba, agora nas mãos do governo norte-americano.

Nós, da LIT, não apenas defendemos Cuba contra o imperialismo norte-americano, mas apostamos na derrota do imperialismo juntamente com a mobilização de massas dentro de Cuba e nos Estados Unidos. Estamos dispostos a apoiar qualquer medida concreta do governo cubano para defender a ilha e enfrentar Trump. Com o que não concordamos é com sua estratégia de negociação com o governo norte-americano.

Defendemos o lado dos trabalhadores e da juventude em Cuba. Consideramos que sua luta é legítima, justa e necessária. Não se pode negar a realidade da profunda desigualdade econômica e a existência da repressão às liberdades democráticas. A verdadeira maneira de lutar contra o imperialismo é, como ensina a história, apoiando-se nas massas cubanas e no mundo, e não contra elas.

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