Mamdani, um “socialista democrático”, assume o cargo de prefeito da cidade de Nova York
Milhares enfrentaram temperaturas abaixo de zero em 1º de janeiro para participar da posse pública do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Apesar do frio intenso, o clima perto da Prefeitura era festivo, com a multidão “se aquecendo contra o frio de janeiro com a chama renovada da esperança”, como o próprio Mamdani disse.
Por muitos anos, houve pouca esperança de que os milhões de trabalhadores, os oprimidos e os jovens da cidade de Nova York pudessem lutar por uma cidade menos opressivamente cara. Os aluguéis e os preços de bens básicos dispararam, enquanto os proprietários de empresas e instituições financeiras sediadas em Nova York obtêm lucros enormes.
As promessas de Mamdani de congelar os aluguéis, fornecer creches e transporte gratuitos e estabelecer um salário mínimo de US$ 30 por hora encontraram eco em uma cidade cujos políticos capitalistas se recusaram a considerar até mesmo medidas básicas para reduzir o custo de vida. Além disso, o fato de ele ser um muçulmano nascido em Uganda e um defensor da impressionante diversidade da cidade de Nova York o tornou um poderoso símbolo de oposição ao nativismo racista e islamofóbico do presidente Trump.
No entanto, a importância de Mamdani não é apenas local. Sua campanha repercutiu entre trabalhadores de todo o país e ganhou manchetes internacionais. Embora sua campanha tenha se concentrado quase exclusivamente em questões de acessibilidade, sem abordar de fato a necessidade de uma reestruturação importante do sistema, a defesa aberta de Mamdani do “socialismo democrático” despertou o interesse na construção de uma alternativa ao lenta e dolorosa decaqdência do capitalismo global.
Embora a eleição de Zohran seja um acontecimento significativo na política americana, ela levanta questões fundamentais: como os trabalhadores da cidade de Nova York — e de outros lugares — podem garantir reformas básicas e ir além para alcançar novas vitórias? Em nossa opinião, será o movimento de massa dos trabalhadores, jovens e povos oprimidos que poderá gerar uma mudança social significativa.
A Estratégia de Mamdani
Apesar do seu dinamismo, a campanha de Mamdani teve dificuldades em unir duas forças opostas: os milhares de jovens radicalizados e outros que se mobilizaram para conseguir votos para ele, e a filiação da campanha ao Partido Democrata capitalista.
Durante a campanha, Hakeem Jeffries, o atual e pouco popular líder da bancada democrata na Câmara e representante do 8º distrito de Nova York, lançou uma ofensiva em grande escala contra Mamdani. Mesmo depois de Mamdani ter vencido as primárias democratas, Jeffries recusou-se a apoiá-lo durante três meses. Enquanto isso, a elite financeira de Nova York opôs-se a Mamdani desde o início, gastando mais de 40 milhões de dólares para sabotar sua campanha.
Apesar da hostilidade declarada, das calúnias anticomunistas e dos ataques islamofóbicos dirigidos a Mamdani e seu programa eleitoral pelas principais forças da direção do Partido Democrata, Mamdani e seus apoiadores estão sofrendo considerável pressão para se reconciliarem com a corrente principal do partido e seus financiadores ricos, e para, de modo geral, apoiarem as políticas do partido. Este é o caminho trilhado por seus colegas socialistas democráticos Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, que estiveram presentes na posse de Mamdani.
Até o momento, Mamdani parece ter conseguido firmar uma trégua com a liderança do Partido Democrata e os interesses econômicos que ela representa. Por exemplo, o ex-presidente Obama disse a Mamdani que sua campanha era “impressionante de se acompanhar”, enquanto o gestor de fundos de hedge e bilionário Bill Ackman parabenizou publicamente Zohran por sua vitória.
Talvez o mais surpreendente dos novos apoiadores de Mamdani seja o próprio presidente Trump. Em 23 de novembro, Mamdani se encontrou com o presidente Trump na Casa Branca. Depois de ameaçar prender Mamdani, Trump elogiou o prefeito eleito, dizendo: “Vou torcer por ele”. Zohran, por sua vez, retribuiu o tom amigável do presidente. Na verdade, ao refletir sobre a conversa, Mamdani afirmou que “foi uma reunião produtiva, centrada em um amor e admiração mútuos, o amor e a admiração pela cidade de Nova York e a necessidade de oferecer moradia acessível aos nova-iorquinos”.
Essa trégua não veio sem concessões por parte de Mamdani. Ele manteve Jessica Tisch como chefe do Departamento de Polícia de Nova York. Tisch, herdeira bilionária e tecnocrata defensora da lei e da ordem, tem sido uma escolha controversa entre a base ativista de Mamdani. Tisch é uma sionista convicta que supervisionou o
aprofundamento do aparato de vigilância da cidade. Tisch não foi a única nomeação controversa de Mamdani. Ele abriu as fileiras de sua equipe de transição para membros de alto escalão do Partido Democrata.
No entanto, em vez de acalmar a oposição, essas táticas conciliatórias apenas aumentarão a pressão das figuras da classe dominante para que “ceda” e “trabalhe com o sistema”. Enquanto Mamdani permanecer envolvido com o Partido Democrata e suas redes financeiras e sociais, a pressão para se conformar à política do partido só se intensificará. Quaisquer reformas mais ousadas que sua administração deseje empreender, sob pressão de seu eleitorado da classe trabalhadora, serão duramente combatidas pela classe dominante.
O Outro Caminho a Seguir
A história mostrou que o único método prático para alcançar reformas significativas é por meio de um movimento de massas da classe trabalhadora e dos oprimidos. Sem tal movimento, as reformas são ilusórias ou rapidamente desfeitas pelas forças capitalistas. Este movimento teria que mobilizar seus membros não como seguidores de Mamdani, mas como parte de uma classe trabalhadora capaz de articular e lutar por suas próprias reivindicações.
As declarações e ações de Mamdani não indicam que esse será o foco de seu mandato. No entanto, as possibilidades para um socialista na Prefeitura poderiam ser enormes. O novo prefeito ocupa um dos púlpitos mais influentes do país. Um socialista revolucionário de princípios nessa posição poderia defender a estatização da Con Edison e de outras empresas de serviços públicos, reduzindo as tarifas e caminhando rumo à descarbonização da produção de energia. Poderia colocar o governo municipal firmemente ao lado dos trabalhadores em suas lutas. Poderia oferecer instalações municipais aos grevistas e sediar um Congresso Nacional do Trabalho para organizar e apoiar as lutas dos trabalhadores.
É claro que a filiação ao Partido Democrata dificultaria seriamente qualquer esforço para implementar essas medidas ou quaisquer outras reformas importantes. A tarefa exigiria, portanto, um partido independente da classe operária organizada.
Os trabalhadores, os jovens e nossos aliados estão se conscientizando do poder que possuímos quando nos libertamos da pressão para agradar à classe dominante. Mamdani e seus apoiadores devem escolher entre apoiar o crescente desejo de independência da classe trabalhadora ou se interpor em seu caminho.
Foto: Mamdani discursa em sua cerimônia pública de posse em 1º de janeiro. (Spencer Platt/Getty Images)




