Trump ordena ataques aéreos ao território da Nigéria autorizado pelo ditador Bola Tinubu
A Nigeria é o maior produtor de petróleo da África subsaariana, com área igual ao da Venezuela, e população de 220 milhões da habitantes, enquanto os venezuelanos são 28 milhões. A densidade populacional é uma das maiores do mundo. No mês passado, o Ministro da Saúde admitiu que 850.000 crianças morrem todos os anos devido a doenças tratáveis. Este número é talvez 85 vezes superior ao número total de pessoas que morrem todos os anos devido à insegurança física. No estado de Katsina, estima-se que metade das crianças sofra de desnutrição crônica e 10% sofram de fome aguda com risco de vida. Todos os dias milhões de pessoas têm que procurar e se esforçar para encontrar dinheiro suficiente para comprar comida para seus filhos e outros itens essenciais. Nessas circunstâncias, não é surpreendente que algumas dessas pessoas sejam obrigadas a participar de grupos armados, seja para roubo, extorsão ou proteção.
A riqueza criada pelos trabalhadores nigerianos aumentou enormemente nos últimos 25 anos e continua a aumentar. Os números mais recentes relativos ao crescimento do PIB mostram que a economia nigeriana continua crescendo mais rapidamente do que a de muitos países. Toda esta riqueza está sendo apropriada pela burguesia nacional e estrangeira. Globalmente, entre 2000 e 2024, o 1% mais rico ficou com 41% do aumento da riqueza, enquanto os 50% mais pobres ganharam apenas 1% dessa riqueza.
Relatórios da UNICEF e do Banco Mundial mostram consistentemente que o norte da Nigéria é uma das regiões com maior concentração de crianças fora da escola no mundo. A privação educacional em massa não produz apenas analfabetismo, mas cria uma população politicamente manipulável e economicamente dispensável. No norte da Nigéria, crianças abandonadas se tornaram alvos fáceis para o recrutamento em movimentos extremistas, gangues criminosas, milícias que vendem proteção, não são motivados por ideologia, mas por fome, exclusão e desespero. Muitos outros, completamente inocentes, se tornaram vítimas de violência coletiva e operações militares por crises que não causaram nem compreenderam.
Ataque no Natal
No natal houve uma ataque aéreo à região do estado de Sokoto ordenado por Trump e com o apoio do Bola Tinubu, o governo ditatorial da Nigéria. Foram doze mísseis cruzeiro Tomahawk lançados desde navios ancorados no Golfo da Guiné em frente da costa nigeriana.
Trump já vinha denunciando o massacre de cristãos por parte dos chamados grupos islâmicos. Após o acordo com o presidente nigeriano na noite de natal foi realizado o ataque do qual Trump informou em sua rede social Truth Social: “Previamente, adverti aos terroristas que se não detinham o massacre aos cristãos pagariam um alto preço, e esta noite pagaram”. Assim, se na Venezuela o problema é o narcotráfico, no caso nigeriano é o problema da defesa dos cristãos.
A cara de pau de Trump ficou mais evidente quando parabenizou o Departamento de Defesa dos Estados Unidos pelos ataques e terminou dizendo: “Feliz natal a todos, inclusive aos terroristas mortos”
Um ataque orquestrado pelo EUA com apoio do ditador nigeriano, Bola Tinubu
Questionado sobre a possibilidade de novos ataques, o Ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Yusuf Maitama Tuggar, disse à emissora local Channels TV: “É um processo em andamento e estamos trabalhando com os Estados Unidos. Também estamos colaborando com outros países.” Foi a Nigéria que forneceu as informações a Washington, disse Tuggar, acrescentando que havia conversado por telefone com o Secretário de Estado americano, Marco Rubio. “Conversamos duas vezes. Falamos por 19 minutos antes do ataque e depois conversamos novamente por cinco minutos antes de ele começar”, disse Tuggar[1].
As ameaças de Trump e o alvo
As ameaças de Trump supostamnete se dirigiam contra o Boko Haram, ISWAP, e grupos menores como Lakurawa e Jenni. Acontece que todos esses grupos atuam e têm bases militares em outros Estados, inclusive não se tem notícia que tenham bases em Sokoto. Porém os misseis ultra modernos foram dirigidos e atingiram apenas o Estado de Sokoto.
A grande questão é porque atingiram Sokoto? Terá sido erro ou foi intencional?
Os motivos para os ataques por parte de Trump e Bola Tinibu
Trump e Bola Tinubu, ainda que, com objetivos diferentes estão tirando proveito da questão do Boko Haram e ISWAP para seus objetivos políticos.
Bola Tinubu governa com profunda instabilidade provocada pela crise econômica mundial que o obrigou a retirar os subsídios dos combustíveis e como consequência houve uma aceleramento da inflação. Ao mesmo tempo vem enfrentando diversas lutas, em especial da saúde, mesmo com o freio das centrais sindicais NLC e da TUC. A ira das massas é grande e a desculpa contra os grupos armados dá um fôlego importante ao governo. Há 16 anos o governo “tenta” derrotar esses grupos que em 2015 ajudou ao grupo de Bola Tinubu chegar ao poder.
Trump tem outra agenda. Tem dois temas imediatos e outro mais estratégico. Em primeiro lugar ele precisa desfocar dos ataques morais que vem sendo feito contra ele nos casos de pedofilia e se utiliza da defesa dos cristãos nigerianos para tentar mostrar uma cara de pureza cristã e ao mesmo tempo se aproveita para fazer ataques islamofóbicos. O outro interesse imediato está relacionado com a luta contra as gangues que desviam petróleo produzidos pelas transnacionais que atuam na Nigeria.
Mas acreditamos que o grande alvo não são os cristãos e nem o roubo do petróleo, o grande alvo é questão do Sahel. Esse é o tema estratégico para Trump e o imperialismo norte americano
A disputa pelo Sahel
A vitoriosa expulsão do imperialismo francês e das Tropas da Operação Barkane criou as condições para a entrada do imperialismo russo. Inicialmente os russos contavam com a empresa militar privada (PMC), Wagner Group. Após o desmantelamento da Wagner Group surgiu a Afrika Corps porém com maior controle do Estado russo que já estava tremendamente envolvido com a Guerra na Ucrânia. Com as dificuldades impostas pela resistência ucraniana, sem dúvidas houve um debilitamento da participação russa no Sahel e ao mesmo tempo o imperialismo europeu aumentou o financiamento dos grupos islâmicos na tentativa de recuperar o terreno perdido por suas empresas.
Esses debilitamento da participação russa propiciou que os grupos islâmicos avançassem sobre o território do Mali, inclusive chegando às portas de Bamako e, mais do que isso, impediu a circulação de mercadorias sendo o ponto alto a escassez de gasolina no mês de outubro e novembro. Segundo Assime Goita, o grupo Jama’atNusrat al-Islamwal-Muslimin (JNIM), um grupo ligado à Al-Qaeda, “Durante a escolta dos comboios de caminhões-cisterna, as pessoas estão morrendo; há emboscadas nas estradas e os caminhões-cisterna pegam fogo com pessoas lá dentro, que morrem queimadas”
Essa é a janela de oportunidades que vê o imperialismo norte americano para tentar ocupar o espaço com a saída da França e o fragilizado controle russo.
Transnacionais europeias e norte americanas procuram recuperar o peso que tinham no Sahel
No Mali, o novo código de mineração, em vigor desde 2023, elimina algumas isenções fiscais e alfandegárias para empresas de mineração, aumenta os royalties e permite que o Mali aumente sua participação em projetos de mineração, passando de 20 para 35%. A mina de ouro de Loulo-Gounkoto está inativa desde janeiro e sob administração provisória por parte do governo desde meados de junho. Essa é uma das maiores minas do mundo e representa14% do faturamento da Barrick Gold.
O fechamento da mina significou também a prisão dos executivos da empresa que ofereceu 370 milhões para suspender o processo. A auditoria feita pelo governo Goita obrigou a Barrick Gold recolher um US$ 1,2 bilhão de dólares.
Essa história não é uma exceção. A Anglo American, entre outras empresas, passou por processos parecidos no Mali.
No Níger, desde 1960 o urânio foi explorado pela gigante estatal francesa Areva, depois renomeada como Orano, em 2018. O contrato de exploração terminaria em 2007 a Areva era a única operadora de mineração de urânio no Níger. Através de suas subsidiárias, Somaïr e Cominak (esta última fechada em 2021 devido ao esgotamento de suas reservas). A produção anual era de 3.093 toneladas – cerca de 10% da oferta mundial, 30% do consumo francês e quase um terço das exportações do Níger. Ainda no governo Mamadou Tandja, em 2018, o Níger passou a reivindicar uma parte mais justa superior aos 5% das arrecadações da extração do urânio.
Areva não só explorava o urânio como também financiava os rebeldes tauregues no norte do país. Em julho de 2007, o governo expulsou o chefe da Areva Níger, Dominique Pin, e seu chefe de segurança, Gilles Denamur.
Em 2022, o Níger concedeu licença de exploração em Azélik à China Nuclear Engineering and Construction Corporation (CNEC). Foi o primeiro acesso de Pequim à exploração de urânio na África subsaariana. De fato, hoje, a Orano (ex Areva), frente a expulsão do imperialismo francês está praticamente fora do Niger e a empresa Rosatom, empresa estatal russa de energia elétrica iniciou negociações com Niamey para explorar as minas de urânio para capitais russos.
A questão mineral e a defesa das transnacionais, em especial o urânio, a nosso ver é a questão central dos ataques aéreos na Nigeria bem próximo a fronteira com o Níger.
Há outros elementos que indicam que os EUA pretendem se envolver nos conflitos no Sahel. Como exemplo podemos citar que o governo Trump proibiu a viagem de cidadões do Mali e Burkina Faso para os EUA. Em respostas ambos anunciaram a imposição de medidas equivalentes com efeito imediato.
– Abaixo a agressão norte americana a Nigeria
– Fora Bola Tinubu, ditador e aliado do militar imperialismo norte americano
– Pela autodeterminação dos povos do Sahel
[1] Intervention militaire des États-Unis au Nigeria : Abuja évoque d’autres frappes dans le cadre d’opérations « conjointes ». www.jeuneafrique.com/1752718/politique/intervention-militaire-des-etats-unis-au-nigeria-abuja-evoque-dautres-frappes-dans-le-cadre-doperations-conjointes/




