Palestina: “Dois Estados”, Estado Binacional ou Revolução Permanente?
Texto retirado do livro de F. Ricci, Dal fiume al mare. Do Lado da Resistência Palestina (Do Rio ao Mar: Do Lado da Resistência Palestina, Edições Rjazanov, 2025)
Costuma-se dizer que a chamada “questão palestina” é complexa. Na realidade, se aparece como complexa, é apenas porque a burguesia e as direções reformistas (que Lenin, não por acaso, definiu como “agentes da burguesia no movimento operário”) se encarregam que ela fique confusa.
Somente nessa confusão a falsa solução de “dois povos, dois Estados” pode parecer crível. E, de fato, quanto mais cresce o movimento de solidariedade com a luta palestina, quanto mais os debates se desenvolvem, mais livros, que antes não eram publicados, circulam (e que o mercado editorial agora imprime porque vendem), e mais a miragem de “dois Estados” se distancia do senso comum de muitos ativistas.
Assim surge (ou melhor, “ressurge”) a “solução de um só Estado”, isto é, a proposta de um único Estado. À primeira vista, pode parecer a mesma proposta que os marxistas revolucionários (isto é, trotskistas) sempre defenderam, mas não é.
Vamos examinar as três posições presentes no debate e as diferenças entre a solução dos “dois Estados”, a solução de “um Estado” e a perspectiva trotskista de revolução permanente.
Não existem “dois povos” e nunca existirão “dois Estados”.
No cerne da chamada solução de “dois povos, dois Estados” reside uma supressão semântica e histórica. Quando falamos de “territórios ocupados” (usando a definição da ONU), estamos nos referindo aos territórios ocupados pelos sionistas na Guerra dos Seis Dias de 1967, essencialmente a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e os territórios anexados por Israel no início da década de 1980, que se estendiam até Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã na Síria (a Península do Sinai, inicialmente ocupada, foi devolvida ao Egito após os acordos de 1979).
A partir de 1974, o Fatah (a facção majoritária da OLP, liderada por Arafat), embora ainda se recusasse a reconhecer “Israel”, começou a propor a criação de um Estado palestino exclusivamente nos territórios ocupados em 1967. Esta foi uma primeira concessão à perspectiva de coexistência com o assentamento colonial, embora inicialmente tenha sido apresentada como uma medida tática para fornecer um ponto de partida para a libertação de toda a Palestina. Esta proposta foi rejeitada pela FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina).
Essa posição da maioria da OLP, com sua mudança de um programa de libertação para um de “independência”, sofreu uma evolução ainda mais negativa no final da década de 1980, particularmente com a reunião do Conselho Nacional da OLP em Argel, em novembro de 1988, que proclamou a “independência” apenas de uma parte da Palestina, aceitando as resoluções da ONU (1) e, portanto, o reconhecimento de “Israel”, com apenas 15% dos membros do Conselho Nacional Palestino votando contra (incluindo os membros da FPLP). Finalmente, foram alcançados os Acordos de Oslo de 1993-1995, que constituíram uma verdadeira traição à causa palestina.
Os Acordos de Oslo estabeleceram a Autoridade Nacional Palestina (ANP), que deveria administrar a Faixa de Gaza e partes da Cisjordânia, divididas em três setores: um a ser administrado pelos palestinos, outro por “Israel” e um terceiro a ser compartilhado entre a ANP e os sionistas.
Em 2006, os sionistas retiraram-se da Faixa de Gaza, mas nas eleições da ANP, o Hamas venceu inesperadamente (ultrapassando o Fatah e conquistando 74 das 132 cadeiras), um resultado eleitoral que não foi aceito por Israel e pelas potências imperialistas. O Hamas continuou administrando a Faixa de Gaza, que foi colocada sob bloqueio por ser considerada “território hostil”, enquanto o Fatah, em colaboração com o exército israelense, ficou responsável pela administração da Cisjordânia, ou melhor, das poucas áreas não ocupadas pelos sionistas (hoje reduzidas a pequenos pontos no mapa, cercadas por 700.000 colonos). Assim, a adoção da expressão “territórios ocupados” (TO), usada por quase todos (“Israel” prefere falar em “territórios disputados”), esconde uma grande farsa: porque esses territórios compreendem aproximadamente 1/5 do território palestino, mas onde o imperialismo escreve “Israel” nos mapas geográficos, estão localizados os outros 4/5 da Palestina ocupada.
A expressão “territórios ocupados”, referindo-se apenas a uma parte da Palestina, revela, portanto, naqueles que usam essa definição, a aceitação implícita do “direito de existência” da colônia que chamam de “Israel”, batizada pela ONU (a mando do imperialismo) em 1947-1948 e gradualmente expandida, por meio de guerras sucessivas, para abranger toda a Palestina, exceto aquelas duas porções de terra (a Faixa de Gaza e a Cisjordânia) que os sionistas querem anexar completamente como parte do “Grande Israel”, que, por outro lado, deveria se estender em seus planos até mesmo para além da Palestina histórica.
A breve reconstrução que acabamos de realizar, juntamente com a mais abrangente apresentada em seções anteriores deste livro, deve ser suficiente para entender por que não existem “dois povos”, mas apenas um povo (os palestinos), enquanto o “segundo povo” mencionado na fórmula é, na verdade, composto por colonos. Também deve ficar nítido agora por que a proposta de “dois Estados” é inaceitável e, ao mesmo tempo, inviável — uma mera ilusão.
“Dois Estados”: Inaceitável e Inviável
O historiador e ativista Ilan Pappé, com sua nitidez característica, define a solução de “dois Estados” como “uma proposta imoral”. Como dizíamos, ela é inaceitável e, além disso, inviável.
Inaceitável porque excluiria implicitamente o direito de retorno dos 6 a 7 milhões de palestinos que vivem fora de suas terras e lares, por serem filhos e descendentes daqueles expulsos em 1948 e nos anos seguintes. Na verdade, essa hipótese (reiteramos: inteiramente abstrata) propõe deixar os palestinos com um mini-Estado compreendendo menos de um quinto da Palestina, sem contiguidade territorial, dividido entre a pequena porção de terra na Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Em última análise, seria um cenário ainda pior do que a injusta partilha realizada pela ONU em 1947, que deixou os palestinos com pouco menos da metade de suas terras.
Ao mesmo tempo, os quase dois milhões de palestinos que vivem na parte da Palestina chamada “Israel” continuariam privados de todos os seus direitos, como acontece atualmente, já que são registrados no censo como “não judeus” e, portanto, não são considerados (de acordo com a lei) cidadãos do “Estado do povo judeu” e estão sujeitos a mais de 60 leis raciais que restringem seus direitos políticos e civis.
Além disso, não se deve esquecer que na Cisjordânia (que deveria constituir a maior parte deste mini-Estado) existem colonos sionistas que continuam a limpeza étnica diariamente, destruindo casas palestinas com tratores e matando-os nas ruas e nos campos.
Isso é inviável porque, mesmo que se aceitasse essa “solução” injusta, ela não só entraria em conflito com o desejo do atual governo israelense de estender seu domínio “do rio ao mar”, excluindo até mesmo um mini-Estado para os palestinos, como também entraria em conflito com a própria natureza do projeto sionista, independentemente do governo no poder, seja de “direita” (Likud e seus aliados) ou de “esquerda” (os Trabalhistas, agora chamado de Democratas).
Portanto, propor novamente essa “solução” 30 anos após os Acordos de Oslo é agir de má-fé ou (como acontece com muitos ativistas de esquerda) ser enganado pela própria direção reformista, que continua apoiando essa fantasia reacionária porque, na realidade, não tem intenção de questionar a existência de “Israel”, já que não quer questionar o sistema social (capitalismo imperialista) que usa “Israel” como sua indispensável base militar para dominar uma área geográfica que fornece ao mundo grande parte de seus combustíveis fósseis.
A realidade é que não existe um sionismo bom ou um sionismo reformável, porque se trata de um projeto que, desde suas origens no final do século XIX, incorpora o colonialismo de assentamento e, portanto, seu objetivo principal não é explorar a população nativa (como foi o caso na África do Sul, onde os negros foram usados pelos colonos brancos, os africâneres, como mão de obra barata), mas sim expulsá-los e substituí-los em nome de uma “pureza de sangue” reconhecida apenas para os judeus.
Um único Estado: sim, mas em que tipo de sociedade?
Por que a “solução de um único Estado” não é uma alternativa?
Dada a evidente inviabilidade da “solução de dois Estados” e a rejeição mais ou menos consciente dessa consigna, mesmo em amplos setores do movimento pró-Palestina (apesar de ainda ser a perspectiva de grande parte da esquerda reformista), a chamada “solução de um único Estado” — isto é, a criação de um único Estado que abranja Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza — ganhou força novamente.
Na realidade, esta não é uma proposta nova. Já era defendida em 1947 por uma minoria de países (Iugoslávia, Índia, etc.) que, no debate da ONU que levou à criação da entidade sionista, não apoiaram a criação (decidida por voto da maioria) de um “Estado” separado para os judeus na Palestina.
Existem várias interpretações desta “solução”, com diversas formas de federação, diferentes combinações de instituições distintas ou partilhadas, e assim por diante.
Em particular, existem duas “escolas” de pensamento: algumas propõem um Estado binacional (cantonal ou federal), no qual palestinos e judeus mantenham um certo grau de separação étnica e cultural; e outras propõem o chamado “modelo democrático”, sem separações étnicas, multicultural e baseado no princípio de “uma pessoa, um voto”. (2) A chamada “solução de um só Estado” é defendida, por exemplo, por um historiador antissionista cujos textos são essenciais (e que, portanto, citamos diversas vezes neste livro), como Ilan Pappé. Nas últimas décadas, o renomado intelectual palestino Edward Said (falecido em 2003, autor do célebre Orientalismo) a adotou quando rompeu com o Fatah, pois considerava (com razão) os Acordos de Oslo de 1993-1995 (assinados por Arafat e Rabin sob pressão dos Estados Unidos) uma capitulação ao sionismo. Entre os que compartilham essa visão, encontram-se muitos outros intelectuais, como Rashid Khalidi e a eórica pós-moderna por exelência Judith Butler, mas a lista seria longa e incluiria, entre outros na esfera política, Muammar Gaddafi.
Entre os defensores dessa posição, havia também setores oriundos do trotskismo: considere Michel Warschawski e sua organização (o chamado Secretariado Unificado).
Warschawski defendeu-a como um possível desenvolvimento da independência (isto é, o estabelecimento de um mini-Estado palestino): “Uma vez que os dois Estados estejam estabelecidos e coexistindo pacificamente, o movimento nacional palestino deve convencer o povo israelense de que este poderia estar interessado em estabelecer uma estrutura unitária que combine cidadania única com autonomia política e cultural para ambos os componentes nacionais do Estado unitário.” (3)
Esta é uma posição que até mesmo alguns companheiros/as de absoluta boa-fé consideram uma alternativa à “solução de dois Estados”. Mas, em nossa opinião, eles estão enganados. Embora este seja um tema que exigiria mais espaço, limitar-nos-emos aqui a resumir os termos da questão.
Primeiro, esta posição reconhece (desde a proposta original da Iugoslávia em 1947) um “direito à autodeterminação” não apenas para os palestinos (como é justo), mas também para a minoria judaica que colonizou a Palestina, colocando, assim, colonos e colonizados em pé de igualdade, com base numa suposta igualdade como “cidadãos”. Como se pode ver, esta proposta tem algo em comum com a partilha realizada pela ONU em 1947, mas também com a proposta de um mini-Estado palestino: todas partem da ideia de que existem duas nações na Palestina, ambas com direito à autodeterminação nacional.
Nós, leninistas, ao contrário dos liberais, reconhecemos o direito à autodeterminação dos povos oprimidos (categoria que certamente não inclui os judeus que vivem hoje em Israel), mas não daqueles que oprimem. E para nós, este não é um direito abstrato, mas uma alavanca para o avanço da revolução socialista.
Vale ressaltar, contudo, uma contradição inerente a esta proposta (que se torna particularmente evidente na versão que propõe um modelo binacional): se aos judeus que colonizaram a Palestina for concedido o direito à autodeterminação nacional, isso implica também conceder-lhes o direito à separação estatal. Assim, nos encontraríamos de volta ao ponto de partida que se buscava evitar: ou seja, os “dois Estados”.
A natureza ilusória dessa perspectiva torna-se evidente quando consideramos que, por décadas, não foi possível construir sequer um mini-Estado palestino, precisamente porque os “israelenses” se recusam a ceder aos palestinos sequer um canto da Palestina. Por que aceitariam compartilhar toda a Palestina histórica com os palestinos em igualdade de condições? Por que aceitariam voluntariamente ser minoria em comparação com os palestinos que (incluindo o retorno dos refugiados) seriam quase o dobro em número de judeus neste Estado (seja dividido em cantões étnico-culturais ou multicultural) e continuariam crescendo a um ritmo demográfico mais acelerado?
Como marxistas, criticamos essa posição porque ela separa a solução da questão nacional, que é uma questão democrática, da questão social: ela prevê uma “igualdade de direitos” entre os cidadãos deste futuro Estado “democrático” — isto é, capitalista —, ignorando as divisões de classe; e também separa a questão palestina da questão de todo o Oriente Médio e da comunidade internacional, sem apresentar uma proposta de socialismo internacional.
Em outras palavras, trata-se de uma proposta que permanece nitidamente no âmbito do reformismo, mesmo em versões que não aspiram alcançar “um Israel reformado”, mas sim a “uma Palestina descolonizada” e a uma “transição do sionismo para a democracia” (como é o caso, por exemplo, do projeto de Pappé e da ODS para toda a Palestina histórica). (4)
É uma proposta que poderíamos definir como “iluminada”, que desloca o foco da urgência de derrubar o mundo existente, dominado pelo capitalismo em sua fase imperialista, para um mundo ideal em que as questões sejam resolvidas com base na racionalidade e não nas relações de poder entre as classes.
Com sua coerência interna (em relação a um projeto reformista) as diversas propostas para um único Estado indicam o objetivo, mas não os meios para alcançá-lo, uma vez que nitidamente não contemplam a construção de um partido revolucionário internacional.
Que programa, em vez disso, defendem os revolucionários?
Revolução permanente: combinar reivindicações democráticas e socialistas
Enquanto o stalinismo apoiava a criação de Israel (chegando a enviar armas aos sionistas), apenas os trotskistas se opuseram à “partição” da Palestina já em 1948.
Hoje, as coisas não mudaram muito: a maioria das direções reformistas apoia a farsa da “solução de dois Estados”, temperada com referências à ONU (como se fosse uma entidade a-histórica, acima das classes) e a um supostamente angelical “direito internacional”. Outros, como vimos, embora rejeitem corretamente a “solução de dois Estados” como uma farsa, buscam em vão soluções intermediárias. Mais uma vez, apenas o trotskismo oferece um programa que tenta trazer uma perspectiva revolucionária para a luta atual, unindo a reivindicação democrática à socialista e internacionalista.
A posição dos marxistas consequentes, a posição da LIT-Quarta Internacional, é retomar o antigo objetivo democrático abandonado pela OLP, ou seja, uma Palestina “única, democrática e não racista”. Isso implica a destruição do Estado colonial, isto é, Israel, e a expulsão dos colonos (isto é, os judeus que não querem renunciar aos seus privilégios coloniais) de toda a Palestina histórica, que deve ser devolvida aos palestinos, do rio ao mar. Somente assim será possível a autodeterminação do povo palestino e o direito de retorno dos aproximadamente seis milhões de pessoas que foram expulsas de suas casas e terras.
Ao mesmo tempo, acreditamos que esse objetivo democrático deve necessariamente fazer parte de um “programa de transição” que constitua uma “ponte” entre as lutas atuais e a perspectiva socialista.
Em outras palavras, é necessária uma estratégia orientada para uma revolução permanente. O que isso significa? Significa que é necessário um programa revolucionário que vincule a resolução da questão nacional na Palestina à questão social, de classe. E isso, ao mesmo tempo, vincula a luta dos palestinos à das massas do Oriente Médio pela derrubada revolucionária de seus respectivos Estados e pela expropriação das classes dominantes locais e das multinacionais. Uma nova “Primavera Árabe” é necessária, uma que desta vez não pare no meio do caminho. É preciso construir uma república socialista palestina como parte de uma federação socialista do Oriente Médio.
Nesse caminho, os únicos aliados potenciais dos palestinos são os trabalhadores e camponeses pobres árabes, bem como os proletários e a juventude dos países imperialistas.
Acreditamos que tanto a separação em duas etapas sequenciais dos objetivos democráticos e socialistas assim como o adiamento dos objetivos democráticos para depois dos socialistas devem ser rechaçados: esta última posição é típica de várias seitas ultraesquerdistas que acreditam que “o socialismo resolverá tudo” e que, em alguns casos, em nome de um suposto “critério de classe”, anseiam pela unidade entre o proletariado palestino e o israelense, ignorando que o caráter de casta deste último o leva a confrontar sua própria burguesia em defesa de interesses comuns e da terra usurpada dos palestinos.
Acreditamos também que a resolução da questão palestina não pode ser dissociada da perspectiva para o Oriente Médio e, de forma mais geral, da perspectiva internacional, pois todo processo revolucionário começa no cenário nacional, mas só pode se desenvolver e triunfar verdadeiramente no cenário internacional, destruindo todo o sistema imperialista, do qual “Israel” é um posto avançado na região.
Não se trata de convencer os “israelenses”, que são colonos em todos os lugares: tanto nos chamados “territórios ocupados” quanto no restante da Palestina histórica (que eles chamam de “Israel”). Trata-se de impor à força o desmantelamento da colônia “israelense” num processo que envolve todo o Oriente Médio. Isso leva em consideração que uma parcela significativa dos judeus que atualmente residem na Palestina não estará disposta a renunciar a seus privilégios e, portanto, terá que ser expulsa se não sair voluntariamente. Enquanto isso, apenas uma minoria provavelmente decidirá retornar para viver pacificamente ao lado dos palestinos (como era antes do imperialismo inventar “Israel”), com os direitos de uma minoria nacional.
Portanto, para nós, um único Estado palestino, laico e não racista (com plenos direitos de cidadania concedidos aos judeus antissionistas que desejam viver em paz) é uma reivindicação democrática que, como todas as reivindicações democráticas, não é totalmente alcançável dentro de uma estrutura capitalista. Como Lev Trotsky escreve nas Teses sobre a revolução permanente: “(…) a verdadeira e completa solução para os problemas da democracia e da libertação nacional só é concebível através de uma ditadura do proletariado, que assuma a direção da nação oprimida (…).” (5)
Construir a direção internacional que falta
Um programa revolucionário exige a construção de uma direção revolucionária, sem a qual nunca poderá ser realizado. Nenhuma das atuais direções palestinas, nem (obviamente) as colaboracionistas (como a Autoridade Palestina de Abu Mazen), nem aquelas que hoje fazem parte integrante da heroica Resistência, estão armadas com um programa semelhante. É por isso que lutamos para construir outra direção. Uma direção revolucionária internacional com as suas seções próprias em todos os países da região.
Esse partido revolucionário de vanguarda com influência de massas, que infelizmente ainda falta na Palestina como em outros lugares, só pode ser construído se os seus militantes participarem na Resistência Palestina tal como existe hoje, numa frente de luta que não implique partilhar as posições políticas do Hamas (que no seu programa defende a propriedade privada e certamente não o socialismo) nem de outras forças. Os sectários, que internalizam inconscientemente formas de islamofobia ou se submetem a preconceitos “progressistas” pequeno-burgueses, rejeitam ou se distanciam da resistência palestina, confundindo a luta com sua direção e tornando-se comentaristas passivos. A verdadeira luta não se encaixa no leito de Procusto de seus esquemas supostamente ortodoxos, então eles se retiram, excluindo-se da possibilidade de construir uma direção alternativa, e permanecem em vão esperando, como disse Lênin a respeito de posições semelhantes, por “uma revolução pura” que jamais virá.
Deixemos aos filisteus que se distanciem da resistência palestina, que expressem sua “indignação” com a ação militar de 7 de outubro ou seus lamentos pelas vítimas sionistas (os chamados “civis inocentes”): até agora, as massas em luta não encontraram outro caminho a seguir senão opor a violência dos opressores à dos oprimidos, a espada de Espártaco à dos centuriões romanos.
Por nossa parte, acreditamos que todas as forças que compõem a Resistência Palestina, sejam seculares ou religiosas, lutam com coragem exemplar e merecem o respeito dos revolucionários de todos os países.
(5 de novembro de 2025)
Referências:
(1) Refere-se à Resolução 181 (de 1947), que estabeleceu a partilha da Palestina; e à Resolução 242 (de 1967), que estipulou a cessação de todas as hostilidades em troca da retirada dos sionistas apenas dos territórios ocupados em 1967.
(2) Vários livros são dedicados a reconstruir a origem da “solução de um Estado” e as propostas parcialmente diferentes que foram formuladas ao longo dos anos. Para mais informações, consulte os seguintes textos: Virginia Tilley, The One-State Solution (University of Michigan Press, 2005); Jeff Halper, Decolonizing Israel, Liberating Palestine: Zionism, Settler Colonialism and the Case for a Democratic State (Pluto Press, 2021), ou o mais recente Israel-Palestine, la solution: un Etat, de Ghada Karmi (La fabrique editions, 2022), que examina as diferentes formulações e oferece uma extensa bibliografia sobre o assunto. O livro de Pappé, que citamos no texto (ver nota 4), também se dedica em grande parte a imaginar essa solução.
(3) Michel Warschawski, Israele-Palestina. La sfida binazionale (Sapere 2000, 2002). Sobre o partido de Warschawski, veja o artigo de Fabio Bosco que publicamos no apêndice deste livro.
(4) Ver o livro mais recente de Ilan Pappé, La fine di Israele (Fazi, 2025). ODS significa Um Estado Democrático, o movimento fundado na Grã-Bretanha em 2013, que é um dos vários grupos que apoiam essa posição. Quanto ao aspecto “internacional”, Pappé fala de uma futura Palestina descolonizada e integrada aos BRICS; e quanto ao aspecto social, ele se refere a uma “esquerda” genérica. ODS é apenas um dos muitos grupos que, com algumas diferenças, apoiam a “solução de um Estado”. Alguns desses grupos atuam na Palestina, embora a maioria esteja sediada na Europa e nos Estados Unidos.
(5) Leon Trotsky, “O que é, então, a revolução permanente? Teses”, em A Revolução Permanente (1929) (Mondadori, 1979).




