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quarta-feira, julho 24, 2024

Como o golpe de Kornilov foi derrotado?

A “normalidade” capitalista não pode ser mantida indefinidamente… As revoluções são épocas em que as massas intervêm no curso dos eventos históricos, ao contrário das épocas “normais” em que a história é feita por monarcas, ministros, burocratas, parlamentares e suas instituições. Em todos esses períodos de agitação, a burguesia basicamente tenta impedir que a classe operária intervenha nos acontecimentos como uma classe independente.

Por: Murat Yakın

No processo da luta de classes, os trabalhadores trazem à tona suas próprias organizações, criando órgãos auto-organizados do tipo sovietes, que desempenham um papel fundamental nas revoluções. Entretanto, como vimos, esses órgãos podem ser dirigidos por partidos e direções que estão nas fileiras da classe operária, mas que, na realidade, estão comprometidos com os objetivos da burguesia e, portanto, podem ser deformados. Por isso, nos momentos críticos em que o destino da revolução deve ser decidido, a existência de uma direção e de um programa revolucionários torna-se um fator decisivo.

À medida que o processo revolucionário avança, surgem cada vez mais novas formas de organização. Mas isso não significa que o partido revolucionário seja construído espontaneamente. Essa é uma tarefa estratégica que, em tempos “normais”, já deveria ter sido realizada. 

As liberdades políticas, que haviam sido esmagadas pela autocracia czarista, foram recuperadas pelas massas com a derrubada do regime czarista no gelado fevereiro de 1917. No entanto, logo ficou nítido que, nessa primeira fase da revolução nenhum progresso poderia ser feito na resolução dos problemas urgentes dos operários, camponeses e soldados.  O povo russo exigia paz imediata, enquanto o Governo Provisório estava determinado a permanecer em guerra e a manter os tratados imperialistas.

Entre 3 e 7 de julho – de acordo com o calendário Juliano – os acontecimentos saíram do controle. Nas mobilizações centradas em São Petersburgo, soldados e operários industriais realizaram protestos em massa contra o “Governo Provisório”. As massas estavam gradualmente perdendo a esperança nos “conciliadores”. Tanto que a influência dos mencheviques e dos Socialistas Revolucionários (SRs) nos sovietes dos operários e dos soldados começou a diminuir à medida que aumentava sua responsabilidade no governo burguês, cada vez mais odiado pelo povo.

Em 21 de julho, Kerensky tornou-se primeiro-ministro. Quando os SRs e mencheviques na direção soviética também reconheceram a autoridade do Governo Provisório, os sovietes dos operários se submeteram formalmente. Com a supressão das manifestações, o período de poder duplo chegou ao fim e o poder do Governo Provisório tornou-se absoluto.

Entretanto, a “contrarrevolução” agora se sentia forte o suficiente para ganhar as ruas.  Havia chegado o momento de agir para paralisar o processo revolucionário.

Os primeiros objetivos da contrarrevolução foram proibir as manifestações, ilegalizar o partido bolchevique e prender seus principais dirigentes. O Governo Provisório estava sob pressão dos proprietários de terras e dos industriais (organizados no Sindicato dos Proprietários de Terras e no Sindicato Nacional do Comércio e da Indústria) e dos setores militares associados ao Sindicato dos Oficiais e ao Sindicato Militar para agir no sentido de restaurar a ordem política e o controle militar. Nesse momento de caos, diferentes opções bonapartistas competiam entre si.

Dessas opções, Kornilov era, sem dúvida, o mais determinado a acabar com a situação de duplo poder no país, a reforçar a autoridade do governo mediante a formação de um governo militar e a reorientar o envolvimento da Rússia na guerra.

Uma série de derrotas sofridas pelo exército russo em agosto de 1917 forneceu o pretexto para o golpe. A Alemanha havia capturado Riga. Os reacionários reclamaram da agitação bolchevique no exército. Um golpe foi planejado para 28 de agosto, o sexto aniversário lunar da revolução de fevereiro no calendário russo. No último momento, na noite de 27 de agosto, Kerensky percebeu que Kornilov estava planejando derrubá-lo. Então anunciou sua condenação ao golpe e destituiu Kornilov como comandante-chefe.

No entanto, era tarde demais. Kornilov estava determinado a terminar o que havia começado. Ele tinha o apoio de todos os oficiais. Enviou alguns deles a Petrogrado para organizar um exército voluntário de dois mil homens e tinha o apoio dos governos britânico e francês. Em 28 de agosto, as forças contrarrevolucionárias avançavam sobre a cidade de todas as direções e, à tarde, algumas divisões estavam a 33 km da cidade.

Nesse momento decisivo, quando cada minuto contava, os bolcheviques, que haviam passado para a clandestinidade, decidiram basear sua linha principal em uma transformação tática. O que importava agora não era o que Kerensky queria, mas o que queriam as massas operárias, que ainda acreditavam nos mencheviques e nos social-revolucionários. Mas queriam defender a revolução.

Os bolcheviques chamaram uma ação conjunta desses partidos para derrotar Kornilov. Lênin deixou nítido que lutar contra Kornilov não significava apoiar o governo de Kerensky. O partido começou a explicar isso pacientemente às massas através de uma enorme rede de publicações clandestinas.

Sua política se concretizava em se opor à contrarrevolução com armas em defesa das conquistas da revolução, sem que isso implicasse apoio ao governo que representava a burguesia, o imperialismo e sua política belicista.

Quando os marinheiros, que retornavam a Petrogrado para defender a revolução, visitaram seus companheiros na prisão de Kresty, onde estava Trotsky lhe perguntaram se havia chegado o momento de derrubar o governo. Trotsky respondeu: “Não, ainda não chegou a hora; coloque seu rifle no ombro de Kerensky e dispare em Kornilov”. Essas palavras resumiam a política dos bolcheviques, que não abandonaram a luta contra o Governo Provisório, mas apenas mudaram o método de luta.

Nos portões de Petrogrado, se confrontaram dois programas diferentes;

O programa de Kornilov incluía a continuidade da guerra imperialista a todo custo, a restauração do antigo regime, a destruição implacável do processo revolucionário e a militarização das cidades e fábricas. Os bolcheviques se opuseram a esse programa com uma orientação diferente, cuja linha básica era a prisão de todos os oficiais que eram ou se suspeitava que fossem oficiais da Junta, o fuzilamento dos contrarrevolucionários, o armamento imediato de toda a classe operária, e as fábricas deveriam permanecer sob o controle operário para esmagar a contrarrevolução. O último ponto não veio dos bolcheviques, mas de Weinstein, um menchevique: a organização de um comitê militar revolucionário.

Os bolcheviques, cujos líderes continuavam presos ou na clandestinidade, concordaram em participar do Comitê Militar Revolucionário junto com os socialistas revolucionários e mencheviques com uma condição: A distribuição de armas para os operários. 40.000 rifles foram distribuídos aos operários, que formariam destacamentos organizados com os soldados em todos os distritos da capital.

Embora os bolcheviques estivessem em minoria nesse comitê, na prática eles o controlavam. O “Comitê Militar Revolucionário” desempenharia um papel fundamental na sobrevivência do primeiro Estado operário do mundo até o fim da guerra civil.

A aliança entre os Guardas Vermelhos dos Sovietes Operários e as fileiras do exército, formada principalmente por camponeses convocados para a guerra, começou a se fortalecer novamente.

Os operários se armaram rapidamente. As fábricas de armas trabalharam dia e noite para produzir as armas necessárias para a defesa de Petrogrado contra Kornilov. Os trabalhadores dos correios e das ferrovias foram mobilizados por meio dos sindicatos. Os trens eram desviados, os telegramas não chegavam ao quartel-general contrarrevolucionário, as locomotivas quebravam misteriosamente, os soldados que se perdiam ou se separavam de suas unidades eram recebidos por agitadores revolucionários que lhes explicavam o verdadeiro significado do que estava acontecendo. Em quatro dias, a força militar aparentemente invencível estava destruída.

Kornilov foi derrotado, mas Kerensky também. A política bolchevique tinha levado milhares de operários e soldados a romperem com os mencheviques e os social-revolucionários e passar para o lado deles

O historiador menchevique Nicolai Sukhanov escreveu mais tarde: “Depois do caso Kornilov, o bolchevismo começou a florescer em toda parte e a criar raízes em todo o país…”.

Tradução: Rosangela Botelho

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