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terça-feira, maio 21, 2024

De que Estado palestino fala o governo de Sánchez?

A um mês para as eleições europeias, o governo espanhol continua anunciando “sua disposição para o reconhecimento unilateral do Estado palestino”, se a UE não der esse passo de forma conjunta. Este anúncio do governo espanhol, veio precedido de um giro europeu de Pedro Sánchez e do Ministro do Exterior Albares, para tentar angariar apoios para esse reconhecimento.

Por: Laura R.

Mas a promessa de Sánchez não é nova nem inédita. Somam-se quinze anos de compromissos similares não cumpridos pelos sucessivos governos espanhóis antes dele. Atualmente nove países da União Europeia JÁ reconhecem o estado palestino. Após sete meses do conflito entre Hamas e Israel, a pergunta se impõe: de que estado palestino nos falam?

Mais uma vez, a fábula dos dois estados

O reconhecimento do Estado palestino defendido por Sánchez e outros mandatários europeus, não é outra coisa que a velha e falida solução dos dois estados que 75 anos depois da criação do Estado de Israel, volta a colocar na mesa a diplomacia ocidental.

Um dos argumentos repetidamente defendidos por José Manuel Albares, é que a Palestina “tem direito a um futuro com esperança tal como o povo israelense tem direito a um futuro de paz e segurança”.

Bonitas palavras com as quais tentam ocultar que Israel não é um país. É uma ocupação sionista no território da Palestina histórica e um enclave militar a serviço do imperialismo estadunidense no coração do Oriente Médio. A razão pela qual todos os governos ocidentais a defendem sem exceção, é porque produz e exporta armas e ferramentas de inteligência, utilizadas pelas forças policiais ocidentais na repressão das lutas em seus respectivos países.

O mal chamado governo progressista do PSOE-SUMAR, enche a boca falando do direito dos palestinos. Mas não tem nenhuma intenção de romper relações diplomáticas, comerciais nem militares com Israel, ao qual reconhece “seu legítimo direito à defesa”.

Embora a Palestina não seja atualmente um estado de pleno direito na ONU pelo veto dos EUA, 139 países dentro dessa instituição a reconhecem como “país soberano”. Defendemos o direito democrático do povo palestino de exigir essa votação na Assembleia Geral da ONU. Mas não podemos esquecer que foi a própria ONU que, mediante sua Resolução 181 de 1947, formalizou com o voto favorável da URSS de Stalin, a partilha da Palestina e legalizou o direito de Israel de existir como Estado, portanto, mais além de seu rosto humanitário, é diretamente responsável pelo genocídio em curso.

Esse reconhecimento do estado palestino no marco da solução dos dois estados, que atualmente toda a esquerda reformista defende, não é outra coisa que manter o regime de apartheid que existe há 75 anos, agora em piores condições para os palestinos. Implica reconhecer o estado colonial, racista e sionista de Israel que, ao contrário do que Albares diz, não tem nenhum direito de existir. A defesa da solução dos dois estados que Israel nem sequer está disposto a aceitar, legitimaria o genocídio e o massacre atual que o Estado de Israel está levando a cabo.

Um estado palestino que, se antes não tinha nenhuma viabilidade econômica e política, agora teria que ser reconstruído depois que 80% do país foi bombardeado, 90% da população deslocada e 14.000 crianças assassinadas. Se antes de 7 de outubro, 2/3 de sua população vivia na extrema pobreza, após 17 anos de bloqueio, segundo declarações de funcionários das Nações Unidas, o devastador massacre israelense na Faixa de Gaza, deixou cerca de 37 milhões de toneladas de escombros, o que poderia levar em torno de 14 anos para eliminar. “Estamos falando de 14 anos de operação com 100 caminhões por dia”.

Gaza, que retrocedeu 40 anos em seu desenvolvimento, é a parte mais visível do genocídio, mas o massacre israelense também está afetando a Cisjordânia, que vive sua pior situação desde 1948, em que sua população sofre ataques diariamente, assassinatos, ocupações por parte dos colonos, ataques a casas, carros, plantações, etc., com uma violência desmedida.

Ocorre também nos territórios da Palestina ocupada, enquanto milhares de prisioneiros e prisioneiras palestinas, muitos deles menores, apodrecem nas prisões israelenses. Depois que Gaza fosse destruída, Rafah, cuja população poderá ser atacada pelo exército israelense nos próximos dias, passou a ser agora o maior campo de concentração do mundo, com um milhão e meio de pessoas tentando sobreviver em meio aos bombardeios, doenças e fome generalizada.

Por outro lado, a Autoridade Palestina, que é uma entidade extremamente corrupta, com laços muito estreitos com o governo de Israel, está mais deslegitimada do que nunca. A maioria dos cidadãos na Cisjordânia a veem como extensão de Israel na Palestina. Segundo algumas pesquisas, atualmente 71% dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia estão de acordo com a decisão da resistência palestina liderada pelo Hamas, de lançar o ataque, apesar do enorme custo material e humano. E 90% dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia, entendem que a resistência palestina não cometeu nenhuma atrocidade.

Estes dados indicam que a imensa maioria dos palestinos preferem lutar e arriscar-se a morrer do que conformar-se com os bantustões coloniais administrados pela OLP que, se antes não tinham viabilidade alguma, agora após a destruição massiva e o dano feito por Israel, são uma piada macabra.

A manobra diplomática de estabelecer uma falsa equidistância entre opressores e oprimidos, é acompanhada, além disso, da exigência do “cessar-fogo”, por parte dos governos, vinculando-o à libertação dos reféns retidos pelo Hamas.

Deste modo, o chamado a um cessar-fogo que defendem sinceramente muitos ativistas horrorizados com o massacre de Israel, tenta-se utilizar para atacar e minar a legitimidade da resistência palestina. Lembremos que um cessar-fogo é um acordo entre dois adversários para depor as armas, o que sempre implica pelo menos uma exigência a ambas as partes. Neste caso, transmite a ideia de que Israel pode continuar bombardeando, disparando, torturando e matando de fome os palestinos até que todas as facções palestinas concordem em deixar de contra-atacar e aceitar os termos que Israel e os Estados Unidos coloquem sobre a mesa para tal acordo.

Embora o Hamas tenha aceitado nas últimas horas a proposta do Qatar e Egito para um cessar-fogo em três fases, Israel continua com seu plano criminoso de invadir Rafah, deixando sem refúgio os palestinos que conseguiram sobreviver à catástrofe desta nova Nakba.

Por uma Palestina sem muros nem campos de concentração. Qual é o caminho?

A LIT e CR não iguala a violência do opressor e a do oprimido, como a ONU e o governo progressista de Sánchez fazem. Há uma guerra e nela temos um lado, o lado dos palestinos. Nos situamos incondicionalmente do lado do povo palestino que tem direito a resistir e a lutar, inclusive com meios militares, para conseguir sua libertação, como qualquer outra população sob ocupação colonial e regime de apartheid.

Compreendemos as ilusões pacifistas daqueles que, embora concordando em exigir de Sánchez a ruptura de relações com Israel, pensam que seria melhor obter a igualdade para os palestinos, reformando o Estado de Israel. Isto é, pressionando-o para que este conceda igualdade de direitos a israelenses e palestinos e o direito de retorno para os refugiados palestinos. No entanto, é impossível mudar a natureza racista das instituições do Estado de Israel mediante sua democratização, porque como dissemos antes, Israel não é um Estado burguês normal; mas um regime de apartheid que se baseia na limpeza étnica permanente dos palestinos.

Que se apoia em mais de 60 leis, que distinguem entre cidadãos (judeus) e árabes ou de outras etnias. Só os primeiros que, como colonos habitam as terras e casas que, desde 1948, têm sido sistematicamente expropriadas aos palestinos, desfrutam de plenos direitos civis, sociais ou trabalhistas. Basta dizer que, apesar das mortes documentadas de menores na Faixa de Gaza por inanição, cerca de 75% dos israelenses continua defendendo que se mantenha a proibição de entrada de alimentos em Gaza. A única coisa que explica porque Israel dá as costas ao mundo e pretende avançar ainda mais no genocídio, não é outra que sua natureza racista.

Por isso continuamos defendemos a solução histórica defendida a seu tempo pela OLP de uma Palestina laica, democrática e não racista do rio ao mar, que foi confirmada pelos brutais acontecimentos nestes seis meses, como a única solução de fundo e justa. Uma Palestina à qual retornem os palestinos no exílio e na qual possam viver em liberdade aqueles que aceitem viver em paz com os palestinos.

Uma Palestina livre do rio ao mar, o que não será possível sem derrotar militarmente e destruir o Estado de Israel mediante uma nova Intifada e uma onda de revoluções nos países árabes, somado à solidariedade internacional. Muitos ativistas nos dirão, com justa razão, que é impossível derrotar o Estado de Israel, dada a militarização de sua sociedade, seu amplo poderio bélico e o amplo financiamento imperialista. O genocídio de Israel, além disso, conta com a cumplicidade passiva ou ativa de todos os imperialismos, incluindo China e Rússia. A isto se soma a passividade dos governos árabes do chamado eixo da resistência que, por enquanto, não movimentaram um dedo em defesa dos palestinos à exceção dos huties do Yêmen.

O movimento estudantil em solidariedade com o povo palestino aponta o caminho a seguir!

Entretanto, nas últimas semanas, estamos vendo como os protestos protagonizados pela juventude, especialmente no coração do imperialismo hegemônico, se reavivam em todo o mundo e apontam o caminho a seguir. Algumas mobilizações fortemente reprimidas pelos governos, revelando a falsidade de “sua” democracia e nas quais participam, além disso, dezenas de associações judaicas antissionistas, desmascarando a falsa equiparação entre antissionismo e antissemitismo. Algumas mobilizações que nos enchem de esperança porque mostram a firme determinação de uma nova geração, que não está disposta a ser cúmplice do sionismo nem a ser criminalizada por defender a causa palestina.

Nunca o sionismo esteve tão desprestigiado no mundo. Inclusive a corte penal internacional, está estudando a possibilidade de ditar uma ordem de detenção contra Netanyahu e outros altos cargos do Governo hebreu, para serem julgados como criminosos de guerra. Isso, embora seja improvável que ocorra, tampouco é impossível e temos que continuar lutando por isso.

A causa do povo palestino é a causa de toda a humanidade. Do CR apoiamos os acampamentos pró-Palestina que estão se estendendo pelos campus do Estado Espanhol. Chamamos especialmente a classe trabalhadora e a juventude dos países árabes, mas também do resto do mundo, a organizarem-se independentemente de seus governos, para promover a solidariedade com a Palestina. Mais do que nunca, é imprescindível que continuemos lutando até conseguir com que Netanyahu pague pelos seus crimes e o sionismo seja atirado ao lixo da história.

Tradução: Lílian Enck

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