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O que é ser morenista hoje

A 21 de abril desse ano se completam cem anos no nascimento de Nahuel Moreno, Hugo Bressano ou simplesmente “o velho”, como o chamávamos. Moreno foi o fundador e mais importante dirigente de nossa corrente e da LIT.

Por: EduardoAlmeida

Em qualquer avaliação histórica séria, ele foi um dos grandes dirigentes do trotsquismo mundial. Não pretendo nesse artigo, contar a história de Moreno, o que será feito em outros textos.

Queria dar minha opinião sobre o que é ser morenista hoje, depois de 37 anos da morte do velho. Nada mais que minha opinião sobre o tema. Haverá outras, mas me pareceu importante nesse momento encarar esse tema.

A grandeza de Moreno se expressa em que imprimiu características definidas na corrente conhecida como “morenista”, presentes até hoje na LIT. Características próprias, bem distintas de outras vertentes do movimento trotsquista mundial. 

Alguns grupos, por fora da LIT, que se reivindicam “morenistas” reduzem essas características ao “aproveitamento de oportunidades”, a “busca de táticas para mobilizar as massas”. Na verdade, essa é uma caricatura equivocada e ofensiva a Moreno.

O trotsquismo operário

A primeira característica de Moreno, foi a estratégia de construção no proletariado. Isso foi marcante porque implicou em uma ruptura em relação aos pequenos grupos trotsquistas da década de 40 do século passado em Buenos Aires. Grupos de ativistas de classe média, que se reuniam nos bares e comentavam a situação nacional e internacional.

Moreno foi militar em Villa Pobladora, um bairro operário da grande Buenos Aires. No caso concreto sobre os grandes frigoríficos que concentravam parte importante do proletariado argentino, intervindo e aprendendo com as greves, como na do frigorífico Anglo-Ciabasa de 1945.

Não se tratava de algo episódico, ocasional, mas de uma opção estratégica. A revolução socialista tem um sujeito social determinado, o proletariado. Ou o trotsquismo poderá fundir o programa revolucionário com o movimento operário ou não haverá revolução vitoriosa.

Esse desafio balizou desde então a atividade de Moreno e as características de toda a corrente. E isso era todo um universo. Como acompanhar e saber dirigir as lutas mínimas dos trabalhadores. Como ouvir e saber formular palavras de ordem que, desde nosso programa, possam ser entendidas e assumidas pelos operários. Como utilizar as exigências e denúncias em relação as direções majoritárias. Só assim se pode disputar a consciência burguesa ou reformista presente no proletariado. Só assim, se pode combater as direções reformistas, as burocracias sindicais.

Desde seus inícios e até os dias de hoje, nossa corrente é distinta dos grupos que comentam a luta de classes, sem buscar uma via para as massas.

A formulação do programa revolucionário em palavras de ordem pressupõe um ir e vir com a agitação política para sentir a resposta das massas. Ir e vir com a propaganda revolucionária junto a vanguarda dos trabalhadores, para ajudar a precisar a melhor maneira de convencimento de nosso programa.

Moreno, assim como Trotsky, desprezava as seitas, dirigidas por alguns iluminados, que criam realidades paralelas que só existem em suas cabeças, ignorando a vida cotidiana dos trabalhadores.

Não é por acaso, que o PST argentino e depois o velho MAS tiveram bases operárias e em setores dos trabalhadores muito importantes. Não é por acaso o peso do PSTU brasileiro na base operária distinta e superior a todas as outras correntes trotsquistas no Brasil. Não é por acaso, que o partido colombiano tem um peso operário em Cartagena, que o partido italiano dirige No Austerity, uma corrente sindical com peso operário, que o partido espanhol é parte da direção de Cobas Madrid, que o partido nos EUA começa a desenvolver um trabalho operário, assim como outros.

O papel da teoria e do programa

A segunda característica de Moreno era sua relação séria com a teoria e o programa revolucionário.

Bem ao contrário da caricatura dos “partidos para a ação” ou “do aproveitamento de oportunidades”, Moreno antes que nada buscava a elaboração teórica e programática para entender e explicar o mundo, e a partir daí, poder intervir na luta de classes.

Não existem formas de entender o mundo sem a elaboração teórica e programática. Não há formas de combater as direções majoritárias reformistas sem elaboração teórica e programática.

Não apenas recuperar a teoria já acumulada pelos mestres do marxismo, como Marx, Lenin e Trotsky, mas também a elaboração sobre os novos fatos. Por isso o marxismo é vivo, se enriquece com a realidade.

Alguns exemplos de Moreno podem ilustrar essa característica. Depois da segunda guerra mundial, o mundo estava profundamente mudado, pelo surgimento de novos estados operários que eram dirigidos por burocracias com características semelhantes ao estalinismo. Olhando para trás, essa caracterização parece fácil. Mas não foi nada simples chegar a essa caracterização no movimento trotsquista, ocasionando inúmeras polêmicas.

Esses novos estados não foram construídos por revoluções operarias dirigidas por partidos revolucionários semelhantes ao bolchevismo. Em geral, se apoiaram em outros sociais, como os camponeses ou outros. E foram dirigidos por exércitos guerrilheiros ou outras formações pequeno burguesas ou burocráticas.

Moreno se dedicou a explicar o mundo e, para isso, fez abertamente correções nas Teses da Revolução Permanente de Trotsky, que apontavam somente para revoluções socialistas que tivessem como sujeito social o proletariado, e como sujeito político um partido revolucionário. Fazer essa correção sem capitular a essas direções burocráticas foi todo um desafio de grande magnitude. Moreno esteve na vanguarda da luta contra a direção da IV Internacional daquele momento (Michel Pablo e Ernest Mandel), que capitulavam a essas direções burocráticas. No Terceiro congresso da IV Internacional em 1951, se discutiu o documento de Pablo “Aonde Vamos”, que previa uma nova guerra mundial do imperialismo contra a URSS, e que em função da guerra, os estados operários dirigidos pelas burocracias stalinistas se tornariam aliadas na mobilização revolucionária das massas. Isso teve severas consequências, com a dispersão da IV Internacional.  

Outro exemplo, muito importante, foi o aporte teórico de Moreno, ao polemizar com a desvio guerrilheirista do SU,  dirigido por Mandel, quando escreveu “O Partido e a Revolução”. Nesse livro, ele faz uma das melhores sistematizações de como elaborar as palavras de ordem desde o programa revolucionário e sua relação com o nível de consciência das massas. Não existem maneiras de ganhar a vanguarda para o combate contra as direções reformistas sem entender como elaborar nossas palavras de ordem.

Ao se enfrentar com a pressão do governo de frente popular de François Miterrand na década de 80  sobre a OCI francesa, Moreno elaborou dois textos “O governo Mitterrand,

suas perspectivas e nossa política” e “ A traição da OCI”. Esses documentos têm enorme importância até os dias de hoje, como uma armação básica no enfrentamento com governos de colaboração de classes como Lula, Petro ou Boric. 

O trotsquismo dedicado a construção de partidos revolucionários e a IV Internacional

A terceira característica de Moreno foi sua dedicação por toda vida na construção de partidos revolucionários e da IV Internacional.

Com 24 anos, ele foi ao segundo congresso da IV Internacional, em 1948. Desde então, esteve empenhado na construção da IV, sob distintas formas organizativas.

Isso incluiu a participação no Secretariado Internacional em 1953, no momento da dispersão da IV, junto com SWP (EUA), os trotsquistas franceses dirigidos por Lambert, ingleses (dirigidos por Healy) e otros grupos.

Em 1957, Moreno  formou, junto a dirigentes peruanos y chilenos o SLATO (Secretariado Latino Americano do Trotskismo Ortodoxo), em oposição a direção pablista, e para ajudar na intervenção do processo revolucionário peruano, junto a Hugo Blanco.

Em 1963, depois da revolução cubana, Moreno participou da reunificação que deu origem ao Secretariado Unificado da IV Internacional.  Mas logo após, foi parte da montagem da Tendencia Bolchevique e posteriormente da Fração Bolchevique para combater a direção de Mandel que capitulava as direções burocráticas e também guerrilheiristas do momento.

Em 1982, nasceu a LIT, depois do apoio da direção do SU a Frente Sandinista em sua repressão a Brigada Simon Bolivar, impulsionada pelo Fração Bolchevique

A LIT, fundada por Moreno, é um embrião de internacional, uma base para a reconstrução da IV Internacional. Na concepção de Lenin e Trotsky, a construção de partidos revolucionários estava sempre diretamente ligada a construção de uma internacional. Uma tarefa não existe sem a outra.

O socialismo é necessariamente uma construção internacional. Por mais forte que seja um partido revolucionário, caso ele não seja parte de uma internacional, inevitavelmente vai sucumbir as pressões nacionais.

Moreno concebeu a LIT com uma estrutura e funcionamento centralizada democraticamente. O modelo é a III Internacional, embora com algumas diferenças importantes em seu funcionamento por não ter uma direção provada em revoluções com era a III. 

Moreno sempre polemizou com outro tipo de estrutura, presente no Secretariado Unificado da IV de frações permanentes públicas. As frações permanentes são a negação do centralismo democrático.

O SU já não existe mais como corrente trotsquista real. Mantém apenas o nome da antiga organização. Depois dos acontecimentos do leste, o SU regrediu de uma corrente centrista para o reformismo. Suas organizações se dissolveram em partidos anticapitalistas reformistas, como a antiga Liga Comunista Revolucionária no Novo Partido Anticapitalista na França. Não foi, evidentemente, só a sua forma organizativa que levou a esse retrocesso, embora tenha ajudado. Hoje o SU é uma federação de partidos reformistas que realiza encontros internacionais.

A LIT realiza congressos regulares, com debates internos, eventualmente com tendencias com todos os direitos democráticos. Afinal, nos congressos se votam as posições interacionais da corrente, acatadas por todos os partidos. Não existe um “partido mãe” que impõe sua política para toda a internacional. O partido brasileiro, o maior da corrente, não pode estatutariamente ter maioria de delegados no congresso ou na direção da LIT. 

Até os dias de hoje, trata-se de uma experiencia única no trotsquismo. As outras correntes trotsquistas se apoiam em “partidos mães”, que realizam encontros internacionais que não são congressos democráticos para votar uma política unificada, mas a imposição da politica do partido principal. É assim com o PTS e a Fração Trotsquista. É assim com Isquierda Socialista e a UIT. É assim com o SWP inglês e sua corrente internacional.

E o morenismo hoje?

Resgatando essas características básicas do morenismo, podemos voltar, na minha opinião, a pergunta feita no início: o que é ser morenista hoje.

Sem dúvida, a primeira resposta é seguir na batalha pela construção da LIT. Nossa internacional não é a IV Internacional reconstruída. Trata-se de um embrião, que busca unificar revolucionários que tenham acordo com um programa e uma concepção de internacional centralizada democraticamente, aos moldes da III Internacional.

A segunda resposta é que é necessário avançar na construção desse programa revolucionário, que não está pronto e acabado.

O programa é a compreensão comum dos acontecimentos e das tarefas. E não é fácil compreender o mundo complexo de hoje.

Nos apoiamos nos documentos básicos do marxismo, como o Manifesto Comunista, os ensinamentos da III Internacional em seus quatro primeiros congressos, o Programa de Transição, assim como no acúmulo programático de Moreno e da LIT.

Essa elaboração tem de se apoiar também no legado inegável de Moreno, assim como ter a coragem de criticar Moreno. Uma das características marcantes do velho era sua capacidade de autocrítica, um instrumento herdado de Lenin, tão ausente nas demais correntes de esquerda. Ser morenista inclui, então, também ser críticos de Moreno.

Temos a obrigação de entender o mundo atual, como Moreno o fez depois da segunda guerra mundial. Um mundo complexo depois da restauração do capitalismo no leste europeu e seus reflexos no retrocesso na consciência das massas e com décadas de aplicação dos plenos neoliberais. Um mundo no qual os dois maiores estados operários dirigidos por burocracias se transformaram na China e Rússia imperialistas. Um mundo no qual governos de conciliação de classes seguem aplicando os planos neoliberais e a ultra direita se fortalece. Um mundo em que o capitalismo destrói a natureza, já ultrapassando pontos de não retorno de desastres ecológicos. 

Esse é o mesmo mundo em que essa brutal exploração capitalista provoca explosões populares como foram as do Chile , Colômbia e Equador, e no qual começam a se expressar novamente mobilizações operárias de peso como a greve geral argentina de fevereiro, as greves na Inglaterra, França e EUA.

Essas mobilizações contestam o ceticismo dos que abandonam as bandeiras da revolução socialista e a construção de partidos revolucionários. Como dizia Trotsky no Programa de Transição “Todas estas objeciones sólo demuestran que los escépticos no son buenos para crear una nueva internacional. En general, no sirven para nada.”

Entender o mundo para avançar em nossa elaboração programática é morenismo puro. Estar centrado na classe operária, disputando sua consciência e a direção de suas lutas, é morenismo das raizes.

Explicar nosso programa para a vanguarda e seguir construindo a LIT e nossos partidos é o morenismo hoje.

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