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sexta-feira, abril 19, 2024

Qual o objetivo de Cristina Kirchner?

Entre a “Carta Aberta” e sua proposta de um “Pacto Parlamentar”.

Por: PSTU-Argentina

Interrompendo o silêncio público a que se submeteu desde 10 de dezembro, a ex-vice-presidente publicou uma extensa análise da situação em meados de fevereiro. Segundo rumores, ela a teria complementado semanas depois, em meio ao conflito entre Javier Milei e o governador de Chubut, Ignacio Torres, sugerindo um “pacto parlamentar” para proteger os cofres da província. Qual é o objetivo dessas iniciativas?

Em meio aos múltiplos esforços para reorganizar o peronismo e seus aliados, a presidente por dois mandatos lançou um longo e bem fundamentado documento político com um balanço do que considera serem as políticas centrais dos primeiros “kirchnerismos” peronistas. Criticando aspectos das políticas do atual governo e do próprio Milei, tendo como alvo o FMI, atacando duramente o Ministro da Fazenda, Luis Caputo, e Mauricio Macri, e propondo o que ela considera ser a saída para a atual crise que o país está sofrendo. E tudo isso, não em um tom de confronto com Milei, mas quase aconselhando.

Assim, o tom de sua mensagem deixa evidente que, com muita sutileza, dados e muitos parágrafos, Cristina consegue camuflar no texto uma concordância fundamental com muitas das políticas promovidas por Milei. Coincidências que poderiam servir de base para um pacto com o Governo. Por isso mesmo, vale a pena destacar alguns pontos de seu extenso texto.

A dívida e o Fundo

Uma das ideias centrais do texto é que a Argentina está mergulhando em uma nova crise da Dívida Pública, a terceira no último meio século. Explica de forma didática a evolução da Dívida Externa e a relação dos diferentes governos com o FMI e, e argumenta, para primeira afirmação de seu documento, da seguinte maneira: a causa da inflação não é a combinação de gasto público com mais emissão de notas, mas a falta de dólares como produto do endividamento. Junto com isso, aponta como exceção a política do governo de Néstor Kirchner, que conseguiu pagar toda a dívida com o FMI e reestruturar algumas outras, pagando menos.

Um relato que combina elementos verdadeiros (a Dívida Externa como ferramenta para o saque do país) com falsidades (os supostos “sucessos” das negociações de Kirchner com usurários estrangeiros). Mas o mais grave é que ela omite o fato de que a Dívida Externa é completamente ilegítima, fraudulenta e impagável, e que o único momento no último meio século em que a economia do país se recuperou foi quando esses pagamentos foram interrompidos. Cristina omite todas essas questões porque ela é simplesmente uma defensora ferrenha do pagamento da Dívida Externa… só que sem “tanto” ajuste. Lembremos de sua famosa frase: “…somos pagadores assíduos”.

“Dois modelos conflitantes”.

Além do endividamento, Cristina aponta o modelo agroexportador e financeiro (promovido pela Ditadura Militar, o menemismo, o macrismo e agora Milei) como responsável pelas crises crônicas sofridas por nosso país, em oposição a um modelo “industrial, exportador e de valor agregado”, supostamente promovido ao longo da história, pelos governos anteriores à Ditadura e pelo Peronismo “kirchnerista” durante 2003 a 2015.

A realidade é que, embora seja verdade que os setores industriais foram impulsionados durante esses governos, a Argentina nunca teve um modelo industrial real: sua industrialização foi sempre acidental, resultado de circunstâncias do momento (guerras mundiais, isolamento diplomático, políticas específicas das potências), e não de um plano sério. De fato, os setores que mais cresceram durante os primeiros anos kirchneristas foram os ligados ao agronegócio e, no final desse período, a eles se juntou o extrativismo mineiro, muito semelhante em termos de procedimentos. Lembremos os acordos para o projeto de mineração Pascua Lama com a Barrick Gold e o projeto de petróleo com a Chevron de David Rockefeller. De fato, onde fica mais evidente que a distância entre os dois modelos não é tão grande, é quando Cristina pondera sobre as “parcerias público-privadas”, que nada mais são do que meias-privatizações.

E não poderia ser de outra forma: durante séculos, o mercado mundial atribuiu ao país o papel de produtor de matérias-primas, com um desenvolvimento industrial mínimo, especialmente aquele que é indispensável para tais tarefas. Não pode haver industrialização real na Argentina a menos que ela rompa com a ordem imperialista, e para isso é necessário sair da estrutura do capitalismo. E Cristina quer evitar isso a todo custo.

Cristina também não é contra a criminalização dos protestos. Em seu governo, os trabalhadores petroleiros de Las Heras foram condenados e a lei antiterrorista foi aprovada. E também não condenou a repressão de 18 de dezembro de 2017.

Evitar outro 2001

Se há algo que se destaca no texto de Cristina, é seu tom calmo e diplomático em relação ao Governo e a todo o arco político em geral. Ela se preocupa com a legitimidade de Milei, pede ao Poder Legislativo que desempenhe um papel mais ativo e menciona os episódios de luta e resistência de 2001 e 2002 com um tom de desaprovação.

E o fato é que, como uma figura-chave no poder político da patronal, Cristina é inteligente o suficiente para perceber as profundas mudanças no clima social. Ela sabe que Milei chegou ao poder devido ao desgaste dos partidos que surgiram depois de 2001. E essa rejeição que o levou à Casa Rosada pode acabar removendo-o antes do tempo, com outra explosão revolucionária de um povo cansado da miséria. E sabe que, para a burguesia que ele representa, estas explosões de raiva social são extremamente perigosas.

É por isso que a ex-vice-presidente acaba apelando para o diálogo e o consenso, para a ação parlamentar em vez da luta nas ruas.

A alternativa é outra

Embora possamos discutir com os companheiros que ainda apoiam Cristina sobre a história do FMI, dos governos e dos modelos, dificilmente podemos discordar de que Milei deve ser enfrentado com uma força proporcional à brutalidade de seus ataques. Mas as próprias palavras de seu texto mostram que CFK está em outra sintonia: enquanto nós saímos às ruas e exigimos que os dirigentes unissem as lutas para derrotar o plano de Milei, ela pretende fazer acordos parlamentares para debater com o libertário.

O que precisamos é justamente nos livrar de todos esses dirigentes que querem nos forçar a esperar e conversar com a gangue de saqueadores que está nos governando, e nos unir e nos organizar para lutar sem descanso até que o plano de Milei, Macri e do FMI seja derrotado. Até revertermos o desmantelamento, a entrega e as privatizações, e até conseguirmos aumentos salariais e das aposentadorias/pensões que nos tirem da pobreza.

Para isso, precisamos propor outro modelo de país. Expropriar as principais indústrias e recursos para colocá-los sob o controle dos trabalhadores. O petróleo, a mineração, o agronegócio, as siderúrgicas, a indústria de azeite e portos.

Nacionalizar os bancos e o comércio exterior para evitar a fuga de divisas e controlar o que sai e o que entra no país. E, ao mesmo tempo, acabar com a especulação e o tráfico de drogas.

Desenvolver um plano de industrialização com base nas necessidades do povo. Usar recursos científicos e tecnológicos para combater a fome, proteger o meio ambiente e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.

Tudo isso é impossível se não rompermos com o modelo econômico atual. E isso só é possível por meio de uma Revolução Socialista que coloque os trabalhadores no poder.

Propor, como faz Cristina, e como sempre fez o peronismo, uma aliança com os empresários nacionais e internacionais, é nos levar a um beco sem saída. O caminho da conciliação de classes foi o que levou Milei ao poder. Não podemos continuar com meias medidas.

Construir a saída de que precisamos exige uma organização que supere o peronismo e assuma essa tarefa. O PSTU e a LIT estão a serviço dessa construção.

Tradução: Rosângela Botelho

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