dom jul 14, 2024
domingo, julho 14, 2024

8M: por uma luta unificada contra Milei e seu plano “motosserra”

Outro 8 de março, e a televisão começa sua campanha de presentes e flores, tentando, como sempre, modificar seu conteúdo como se fosse apenas um dia comercial. Esta data deve ser um dia de luta contra a opressão machista e contra a exploração que vivemos, que se aprofunda pela investida do governo de Milei, Villarruel e Bullrich contra todos os direitos conquistados. Temos que ir em busca por mais.

Por: Secretaria da Mulher do PSTU – Argentina

Uma data que reivindica a luta das mulheres trabalhadoras.

Embora a ONU e o imperialismo mundial tentaram apropriar-se deste dia, querendo convertê-lo em uma celebração para todas as mulheres, sua origem remonta sempre às lutas operárias femininas, tal como o famoso incêndio da fábrica Cotton em Nova York de 1908, onde a patronal matou 129 operárias. Mas foi a grande revolucionária Clara Zetkin que, em 1910, propôs e conseguiu instaurar entre os revolucionários e operários do mundo, que esta data fosse o dia onde seria comemorada a Mulher Trabalhadora, como uma jornada de luta do calendário do movimento operário mundial.

Atualmente, tenta-se vender a data como um dia de empoderamento individual, onde nós mulheres ocupamos postos importantes nas empresas, empreendemos projetos e sonhos rompendo o “teto de vidro” e superando as dificuldades de um mundo que está organizado sob a ótica masculina. Mas, para as trabalhadoras argentinas, as mulheres pobres nos bairros, as estudantes de cada escola no interior, as desempregadas, o teto é uma laje sobre nossas cabeças. Não há sequer como pensar em “empoderar-se”, realizar sonhos, pensar em profissões bem sucedidas, quando não se pode garantir o prato de comida, quando temos que escolher qual filho mandar para a escola, ou como sobreviver todos os dias para ter pão e leite em casa. Por isso, muitas mulheres ficam à frente das cozinhas ou refeitórios populares, ou são as que colocam as mantas nas praças do conurbano (24 municípios que rodeiam Buenos Aires, ndt.) improvisando feiras de usados para aqueles que vão comprar roupas ou calçados, já que, para elas, ir a uma loja acaba sendo uma tarefa impossível.

Esta é a verdade que nos atinge na Argentina, em contraposição a mulheres como Bullrich ou Villarruel, fiéis defensoras dos piores interesses dos setores patronais e repressores, que só estão no Governo para acabar de destruir o que nos resta. Outro grande exemplo de que, só pelo fato de serem mulheres, nada nos relaciona com elas. Estão no caminho oposto ao nosso.

O governo de Milei contra nós

São muito duros os golpes que estamos recebendo. Milei deu ênfase durante sua campanha eleitoral na retirada de todos os privilégios da famosa “casta”. Mas a primeira coisa que fez foi liberar os preços de alimentos, serviços, gasolina, roupas, material escolar, etc. Estas medidas não favorecem àqueles que trabalham dia a dia. Tudo sobe e os especuladores se enchem de dinheiro. Mas nossos salários permanecem inalterados, e cada vez mais o consumo diminui. No país do trigo e das vacas, um quilo de pão e um leite por dia implicam $3.000. Comer carne de qualquer espécie é um luxo. Continuarão a aumentar os níveis de pobreza, (que hoje é de mais de 57%), e devido à desnutrição infantil, cada vez mais crianças terão que abandonar a escola por não terem sapatos, material escolar ou porque terão que sair à busca de dinheiro com seus pais para que toda família subsista. Nós mulheres tomamos essas tarefas.

Longas filas nos refeitórios populares ou nas escolas para buscar as sacolas de mercadorias, onde também se vê pais sem trabalho. O desemprego continua aumentando: há demissões e suspensões por todos os lados. As mulheres são as primeiras a sofrer as consequências desta situação calamitosa. E as mulheres jovens pior ainda: o desemprego as atinge mais brutalmente. Nem sequer podemos garantir um teto digno, alugar é uma tarefa impossível havendo tantos terrenos ou casas em desuso, usados para a especulação imobiliária.

Nunca mais voltaremos à obscuridade

A violência machista não cessa: os feminicídios continuam aumentando, mas já não são notícia na mídia. As crianças órfãs desaparecem da vista daqueles que antes se indignavam quando uma menina aparecia em uma bolsa. Mas esta não é a única violência: a tentativa do novo Governo de querer eliminar a Lei IVE (Interrupção Voluntária da Gravidez) quer que voltemos a morrer na clandestinidade, e devolver o negócio às clínicas privadas que antes monopolizavam a decisão daqueles que poderiam sobreviver ante a necessidade de abortar. Por isso, as ricas abortavam em condições dignas, e as pobres morriam na tentativa.

O governo de Milei continua fazendo transações com as diferentes Igrejas na Argentina, e hoje inclusive são os intermediários frente à pobreza: a comida que o Governo não envia aos refeitórios populares desde dezembro, foi distribuída às igrejas para que administrem a pobreza. A tentativa de eliminar a IVE responde a estes mesmos negócios. Continuam de pé e bem firmes os interesses da casta eclesiástica, disso não há dúvida.

No mesmo sentido, já não há novas incorporações ao Programa Acompanhar, que o já desaparecido Ministério de Mulheres e Diversidades da Nação havia implementado, para “fomentar a independência econômica de mulheres e setores LGBTI” que haviam sido vítimas da violência de gênero. A ajuda equivale a um salário mínimo, que é uma miséria, mas para as vítimas hoje não há nada1. Se extingue o acompanhamento econômico por parte do Estado. A questão da violência machista seja física, psicológica, econômica ou em qualquer uma de suas facetas, não é um problema na agenda do Governo. Querem proibir o uso da linguagem inclusiva, como se alguma vez tivesse sido obrigatório ou imposto em algum lado, e só por isso nos mencionam publicamente. É uma barbaridade intolerável.

Enumeramos apenas alguns dos flagelos que temos que enfrentar todo dia no trabalho, nas casas, em nossos locais de estudo. É aí onde muitas vezes a solidariedade popular entra em campo para podermos resistir entre todes. Não é possível continuar aguentando esta situação.

Unir e coordenar nossas necessidades

A divisão que se manifestou nas eleições anteriores, continua existindo entre nós. Não é questão de atribuir culpa, mas de discutir como as medidas tomadas ou as que virão nos prejudicam a todes por igual. A CGT e as CTAs convocaram uma Paralisação Geral que não só não incluiu, entre suas demandas, nenhuma das nossas necessidades, como continuam sem propor sua continuidade. Os dirigentes sindicais esperam e tentam acordos com o novo Governo, mas nós não podemos esperar mais. É urgente uma Paralisação Geral com continuidade de medidas para elevar também as necessidades das mulheres trabalhadoras e as diversidades dentro da nossa classe. Tem que ser o começo da elaboração de um plano operário de emergência, que parta de um aumento salarial igual à cesta básica e acompanhe a inflação. Pleno emprego para todes. Saúde, educação, comida para todes.

Poderíamos afirmar que não há data no calendário “feminista” onde não haja mobilização. Nem uma a Menos, alinhada com o governo dos Fernández, há muito tempo abandonou a luta concreta fora dos dias de manifestação. Não basta mobilizar-se ao Congresso da Nação exigindo melhores leis, porque já vimos que as leis sobram, mas nunca as fazemos nossas e sempre vêm contra nós. O objetivo deve ser mudar tudo desde a raiz porque este mundo capitalista não tem acordo nem nada de bom para nós.

A Revolução não é uma utopia: só o socialismo pode salvar este mundo para nós

A mudança que precisamos começa por derrotar o projeto de país de Milei, Villarruel e Bullrich, de fome, de entrega dos nossos recursos e repressão que usam para evitar que lutemos pelo que é nosso. Não basta gritar “A pátria não se vende”. Temos que nos organizar em cada lugar para poder evitá-lo, mas também para nos defendermos dos ataques machistas, e da repressão que o próprio Estado e suas forças repressivas desatam sobre o povo trabalhador.

A história da humanidade nos demonstrou que quando os de baixo se movem para o mesmo lugar, os de cima tremem e caem. Nossa força deve se organizar para que no fim possamos governar, e nós mulheres que padecemos as consequências da barbárie deste sistema seremos a vanguarda dessas mudanças necessárias. Só um governo dos trabalhadores e do povo pobre pode fazer isto, aqueles de nós que não temos nada a perder exceto nossas correntes, podemos ir a fundo da questão. Uma Revolução dirigida pela classe operária e que instaure o socialismo é uma tarefa urgente para defender nossas vidas e a das nossas famílias.

Mulheres pelo Socialismo!

Em todo o mundo, as mulheres e a juventude lutam pelo direito de viver, contra os governos que esfomeiam os povos. Neste 8M marchamos pela liberdade das mulheres mapuches, presas por lutar. Marchamos pelo triunfo da resistência ucraniana. Viva a luta das mulheres na Ucrânia! Nossa luta é uma só: Marchamos pelas mulheres e jovens palestinas, que se encontram na primeira linha contra o genocídio televisado de todo seu povo. Por uma Palestina livre, laica e democrática! Destruição do Estado de Israel!

Extraído de https://pstu.com.ar/ 07/03/24

Tradução: Lílian Enck

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