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terça-feira, julho 16, 2024

As mulheres palestinas e o genocídio em Gaza

Além das ameaças de abuso sexual e estupro instrumentais para tanto, balas e bombas genocidas miram nos corpos femininos, como se vê historicamente na contínua Nakba (catástrofe palestina cuja pedra fundamental é a formação do Estado racista e colonial de Israel em 15 de maio de 1948) e agora em sua nova fase: a limpeza étnica avançada na Cisjordânia e o genocídio em Gaza há cinco meses. Mas existência é resistência para o povo palestino, sob constante ameaça de apagamento. E as mulheres, ao lado dos homens, fazem jus a legado que levará esse projeto sionista inevitavelmente ao fracasso.

Por: Soraya Misleh

Al-Halabi observa que a ação e retórica genocidas são parte do projeto colonial sionista, mencionando a declaração do carniceiro Ariel Sharon ainda em 1956: “Mulheres e crianças palestinas são de longe mais perigosas que os homens porque a existência de uma simples criança significa a sobrevivência de diversas gerações futuras.” Em seus relatos, refugiados palestinos da Nakba em 1948 citam palavras de outra liderança sionista, Golda Meir: “Quando vejo uma mulher ‘árabe’ grávida tenho dor de cabeça.” É dela a célebre frase, repetida sem meias palavras hoje por seus seguidores: “Os palestinos não existem.”

Essa retórica para o genocídio norteou discursos de lideranças sionistas, inclusive mulheres, nos últimos cinco meses: “Matem todos! Estuprem! Gaza, um cemitério! São animais humanos!”. Essa desumanização é parte da incitação ao genocídio em Gaza cujo resultado são mais de 30 mil palestinos assassinados por Israel, sem contar os milhares de desaparecidos sob os escombros, dos quais 70% são mulheres e crianças, além de mais de 75 mil feridos. Na Cisjordânia, pogroms e bombardeios a campos de refugiados são parte da agressiva limpeza étnica que, somente nos últimos cinco meses, mataram mais de 500 palestinos, entre os quais cerca de 120 crianças, bem como feriram mais de 12 mil, entre os quais também muitas mulheres.

O número de presos políticos quase dobrou nos últimos cinco meses. Até o início de outubro eram 5 mil e hoje são assombrosos 9 mil palestinos, submetidos a torturas inomináveis. Testemunhos de mulheres encarceradas por Israel evidenciam o estupro como arma por parte do Estado racista e colonial de Israel, o que não é novidade: foi assim em genocídios como na aldeia de Deir Yassin e Tantura, no ano de 1948.

Alvo prioritário

Tudo isso levou organismos da ONU a declararem que esta é uma guerra contra crianças e também contra mulheres. O que ocorre na Palestina ocupada historicamente e sobretudo neste momento evidencia que os corpos femininos (e infantis) são alvo preferencial.

Consequentemente, pelo menos 9 mil mulheres palestinas foram assassinadas em cinco meses de genocídio israelense em Gaza. Uma mãe é morta a cada hora, e aproximadamente 180 dão à luz diariamente em meio à destruição resultante da ação terrorista sionista.

Com apenas 12 dos 36 hospitais na estreita faixa funcionando parcialmente, sem energia, combustível e insumos adequados, muitas enfrentam inclusive cesarianas sem anestesia, submetidas a condições propícias para infecções e risco de morte. Mais de 300 tiveram abortos espontâneos nos últimos cinco meses. Essa realidade assombra mais de 50 mil mulheres gestantes.

Muitas delas têm inclusive dado à luz num dia e no seguinte embalado os corpos sem vida de seus recém-nascidos. Uma criança palestina é assassinada pelas bombas e balas genocidas de Israel a cada dez minutos. Afora 10 mil desaparecidas sob os escombros, até o momento já se contabilizam mais de 17 mil assassinadas no genocídio – entre as quais 15 que morreram de fome no norte de Gaza recentemente, conforme o Ministério da Saúde local. Várias outras estão em estado crítico por falta de alimentos, ante o bloqueio criminoso imposto por Israel como parte da carnificina. A desnutrição aguda atinge uma a cada seis crianças palestinas na estreita faixa. E enquanto tentavam, homens, mulheres, idosos e crianças, se alimentar, cercando um comboio humanitário na cidade de Gaza, o Estado genocida de Israel promoveu o “massacre da farinha”.

Os dados assombrosos, apresentados por instituições como a ONU, escancaram a dor que mulheres e crianças estão enfrentando na nova fase da contínua Nakba, em que Israel se sentiu à vontade para buscar sua “solução final”, avalizado pela cumplicidade internacional, armas e bilhões de dólares do imperialismo estadunidense e também europeu. As mulheres estão entre as que mais sofrem, mas como parte do povo palestino que não se curva, resistem a serem apagadas do mapa.

Sumud: resiliência e persistência

As cenas em Gaza são de desolação, dor, sangue, destruição, fome e sede, mas também persistência e firmeza (resiliência como resistência, em árabe sumud). É o que têm protagonizado inclusive mulheres palestinas, em meio ao medo de perderem mais do que já lhes vem sendo arrancado. Há aquelas que recusam as ordens das forças de ocupação sionistas para evacuar suas casas, porque não querem deixar para trás idosos, doentes e crianças. Assim, enfrentam o cárcere criminoso e torturas. Há aquelas que se empenham em diminuir o sofrimento em Gaza, transformando sua própria dor em força.

É o caso da jovem Roya, que distrai crianças palestinas num campo de refugiados de Rafah, sul de Gaza, ao som de seu alaúde em meio às bombas genocidas de Israel. A psicoterapeuta Amani fornece apoio em meio aos traumas emocionais e psicológicos, enquanto tenta proteger a própria família e enfrenta perdas pessoais. A jornalista Bisan se soma ao heroico exército de profissionais da comunicação para transmitir ao mundo o próprio genocídio, já tendo sido deslocada sete ou oito vezes, desde que sua própria casa foi bombardeada no norte de Gaza. Sua colega Noor Harazeen atravessou seus filhos gêmeos, de cinco anos de idade, na fronteira para o Egito e então retornou para retomar seu trabalho de cobrir a carnificina. Organizações de mulheres de Gaza redirecionaram todo seu trabalho para assegurar mínimas assistência humanitária, de higiene e de saúde, apesar dos enormes desafios para tanto, ante o bloqueio criminoso sionista e seus escritórios também destruídos parcialmente. Falta tudo, de alimentos a medicamentos e absorventes.

Estes são alguns dos muitos exemplos da resiliência como resistência da mulher palestina, que compõem relatos à ONU e podem ser encontrados nas próprias redes sociais. Uma resistência sob todas as formas e aspectos da vida que integra um legado daquelas que as antecedem desde os primórdios do projeto colonial sionista há mais de um século.

Luta anticolonial

Como expresso pelas jovens ativistas, a resistência das mulheres palestinas explicita ao mundo que elas não estão alheias às lutas anti-imperialistas, anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme escondida atrás de véus que lhe são impostos, como geralmente a mídia hegemônica nas mãos dos grandes capitalistas as apresenta – e parte do movimento feminista no “Ocidente” corrobora, ao fundar-se em estereótipos.

Sob o manto de que tais mulheres precisam ser salvas de sua sociedade e cultura natais, acaba por servir à dominação colonial. Um feminismo liberal que não enxerga a relação entre exploração e opressão de gênero. Que enxerga necessariamente um símbolo da opressão no véu islâmico (que apenas muçulmanas usam – e nem todas). O problema não é seu uso, mas sua imposição.

A ideologia que permeia essas ações contrapõe um “ocidente” de civilizados, lógicos, racionais e pacíficos a um “oriente” de bárbaros e violentos por natureza, como denuncia o intelectual palestino Edward Said (1935-2003) em sua obra “Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente”.

De acordo com essa representação, como povos atrasados, não podem se autogovernar, devem ser temidos e, portanto, controlados. Ou seja, colonizados. Contra tal caricatura, na Palestina e no mundo árabe como um todo, insurge-se o chamado “feminismo anticolonial”, que trava a luta contra a opressão machista e a colonização simultaneamente. Considera a emancipação de gênero inseparável da libertação da Palestina. Critica e desconstrói as representações orientalistas, reducionistas e generalistas, e preenche o vácuo de um movimento que desvia o olhar para as relações de poder que são fundantes à opressão de gênero. Parte da desconstrução proposta pelo “feminismo anticolonial” – que se coaduna com vertentes como os feminismos antirracista e islâmico – é resgatar o protagonismo das mulheres árabes e muçulmanas na História.

E neste momento, tem pautado a solidariedade internacional com o povo palestino como parte inseparável da luta das mulheres em todo o mundo, desmistificando as caricaturas em relação às árabes, muçulmanas e palestinas e exposto com veemência a mentirosa narrativa sionista para o genocídio que incluiu em sua propaganda fake news como estupros de mulheres israelenses pela resistência em 7 de outubro. Uma construção ideológica intrínseca ao projeto sionista de colonização por povoamento, que demanda o extermínio de nativos como o que ocorre na contínua Nakba e agora, brutal e aceleradamente, em sua nova fase.

Linha de frente

Como aponta a feminista egípcia Nawal El Saadawi, em “A face oculta de Eva – As mulheres do mundo árabe”, as mulheres palestinas foram pioneiras nos protestos contra os primeiros assentamentos sionistas ainda ao final do século XIX – a serviço da colonização de terras e conquista do trabalho, que integravam o projeto sionista de limpeza étnica para constituição de um estado exclusivamente judeu na Palestina (Israel). Já em 1903, período que marca o começo da segunda onda de imigração sionista, criaram uma associação de mulheres.

Nos anos 1920, sua atuação se fortaleceu e formaram vários comitês populares para articular protestos e demais ações de desobediência civil, bem como garantir auxílio a feridos em manifestações. Em 1921, constituíram a primeira União de Mulheres Árabes-Palestinas, que organizou protestos contra o mandato britânico, a colonização sionista e a Declaração Balfour – em que a Inglaterra garantia a constituição de um lar nacional judeu em terras palestinas.

Das letras aos campos de batalha, as mulheres utilizam as armas de que dispõem. Em 1948, Nariman Khorsheed (1927-2014) fundou na cidade de Yafa – juntamente com sua irmã Moheeba – a primeira brigada feminina palestina, denominada Al Zahrat al-Uqhuwan (Flores de Crisântemo), para lutar contra a expulsão pelas forças paramilitares sionistas de suas terras. No mesmo ano, surgiram outras brigadas femininas e inclusive um grupo misto, de 100 combatentes, liderado por Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh. Na revolução palestina de 1936-1939 contra o mandato britânico e a colonização sionista – cujas causas e análise da derrota estão explicitadas por Ghassan Kanafani em seu livro “A revolta de 1936-1939 na Palestina” (Editora Sundermann) –, ela esteve no comando do local de armazenagem das armas dos revolucionários.

No período, mulheres organizaram grandes marchas e comitês populares. Além de promoverem protestos, recolhiam fundos para assistência às famílias dos mortos e prisioneiros e auxiliavam no transporte de insumos básicos e armas. Nas aldeias, lutavam lado a lado com os homens para defender suas terras. Uma dessas heroínas é Fatma Ghazal, morta em combate no dia 26 de junho de 1936.

Já diante da consolidação do projeto sionista, em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas, vinculada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Ao final dos anos 1960 e início dos 1970, diversas mulheres partiram para a ação direta, diante da omissão internacional à violação cotidiana de direitos humanos e a expansão israelense, que em 1967 resultou na ocupação por parte dessa potência bélica de toda a Palestina histórica. A mais conhecida em todo o mundo é Leila Khaled. Então com apenas 24 anos, participou do sequestro de aviões em troca de prisioneiros políticos e colocou em evidência a causa palestina. Foi detida em uma das ações e saiu após outra operação do gênero.

Nas intifadas (levantes) de 1987-1993 e 2000-2004, novamente as mulheres foram às ruas. Na primeira, para se ter uma ideia, um terço das baixas era da parcela feminina. O número de mulheres detidas passou de centenas do início da década de 1970 para milhares nos anos 1980. Desde 1967, estima-se que 10 mil passaram pelas prisões políticas israelenses – e enfrentaram a tortura institucionalizada, com inclusive ameaças e violência sexual. Hoje são 70, incluindo jovens menores de 18 anos, conforme a Associação de Direitos Humanos e Apoio aos Prisioneiros Palestinos (Addameer).

São heroínas desconhecidas e em sua maioria invisibilizadas pela história, como ocorre em todo o mundo, em todos os processos de luta. A opressão ocorre aqui e lá, a serviço de um projeto de dominação capitalista/imperialista. Elas – assim como todo o conjunto da sociedade palestina – precisam da solidariedade internacional ativa, não de “salvamento”. Os movimentos de mulheres na região travam a dupla luta, contra a opressão machista, a colonização, o apartheid, a limpeza étnica, o genocídio. Para que todas sejamos livres. Que a bandeira palestina, símbolo das lutas contra a opressão e exploração, tremule no Dia Internacional da Mulher em todas as ruas, em todo o mundo.

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