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sexta-feira, julho 19, 2024

Nenhuma condolência pela morte de Sebastián Piñera

Sebastián Piñera, ex-presidente do Chile, morreu. Sua morte não poderia ter sido mais simbólica que sua vida: morreu pilotando seu próprio helicóptero, em uma das mais belas paisagens do país e voltando de um almoço com outro grande empresário. Piñera fazia parte da alta burguesia chilena, dono de uma das maiores fortunas do país.

Por: MIT-Chile

Sua morte causou comoção. Políticos de todos os matizes vieram expressar suas condolências, desde a direita até o Partido Comunista. Até Daniel Jadue, supostamente a figura mais radical do Partido Comunista, lamentou a sua morte, “apesar das suas profundas diferenças”.

Nós do MIT, não lamentamos a morte de Piñera nem expressamos condolências. Piñera não era um de nós, não era da nossa classe. Pelo contrário, nos seus dois governos, ele provou ser um inimigo cruel da classe trabalhadora e da juventude popular.

Piñera nasceu em uma família tradicional de políticos e aristocratas chilenos, em um setor pequeno-burguês bastante abastado. Seu pai foi um dos fundadores do Partido Democrata Cristão e diplomata durante o governo de Eduardo Frei Montalva. Ao longo de sua vida, Sebastián Piñera teve todos os privilégios das famílias dominantes chilenas, estudando nas melhores escolas, primeiro dentro e depois fora do país. Sua história de ascensão social veio principalmente de sua trajetória no sistema financeiro, onde trabalhou no Banco Mundial e no Banco Interamericano de Desenvolvimento. Durante alguns anos passou pelo mercado imobiliário, onde começou a ganhar muito dinheiro através da especulação imobiliária. Posteriormente, foi assessor do Banco de Talca, onde participou de um escandaloso caso de corrupção, sendo investigado e considerado culpado em primeira instância. Quando o declararam réu e lhe deram um mandado de prisão, ele fugiu do país durante 24 dias. Posteriormente, o processo foi vergonhosamente arquivado pela justiça burguesa, que mantém até hoje a tradição de proteger burgueses corruptos.

A ascensão de Piñera nas últimas três décadas foi estratosférica, sempre utilizando seu conhecimento do mercado financeiro e da especulação para investir em empresas e bancos. Do ponto de vista econômico, como burguês, Piñera quase não deixa legado ao Chile. O seu único interesse foi sempre multiplicar a sua fortuna, sem nenhum plano de desenvolvimento nacional que rompesse o caráter semicolonial da economia chilena, sem a criação de qualquer empresa ou indústria útil para a maioria da população. Um verdadeiro parasita do povo chileno, especialista em saquear o povo através de cartões de crédito, empréstimos e especulações.

Do ponto de vista político, Piñera era um criminoso. Durante o seu primeiro governo eclodiram as enormes mobilizações estudantis de 2011, que enfrentou com mão pesada, ordenando a repressão aos jovens, com torturas, prisões políticas e muito mais. Também enfrentou de forma muito violenta as manifestações de Aysén em 2012, enviando tropas de Santiago para pôr fim às mobilizações do povo patagônico.

Em 2019, foi responsável por declarar guerra ao povo após a explosão revolucionária de 18 de outubro. Foi o primeiro governo democrático a colocar os militares nas ruas contra as manifestações de massas, sendo responsável pelas dezenas de assassinatos nesse período e pelas centenas de mutilados, bem como pela morte do membro da Comunidade Mapuche Pablo Marchant, assassinado sob seu governo.

Encontrava-se no banco dos réus da Justiça burguesa, devido aos vários processos contra ele por violação dos direitos humanos, um deles patrocinado pela nossa companheira advogada María Rivera.

Os governos Piñera aprofundaram os problemas do país. Aprofundaram a privatização dos serviços públicos e das aposentadorias, continuaram a pilhagem de bens naturais como o cobre e a pilhagem de terras Mapuche para o negócio florestal-madeireiro. Vale lembrar que parte desse modelo econômico foi idealizado e implementado por seu próprio irmão, José Piñera, ex-ministro da ditadura e um dos ideólogos do sistema AFP (Administradoras dos Fundos de Pensões/Aposentadorias) e do maldito plano trabalhista de Pinochet.

Assim, o legado de Piñera para o Chile é desastroso, sob todos os pontos de vista, para o povo chileno. Um parasita, burguês e criminoso. Pela nossa parte, a morte de pessoas como Sebastián Piñera não nos causa nenhuma comoção. O que lamentamos é que ele tenha morrido impune, sem ir para a cadeia depois dos muitos crimes que cometeu.

Por fim, queremos lembrar que Gabriel Boric, atual presidente, em sua campanha eleitoral, ameaçou Piñera dizendo que ele seria perseguido por seus crimes contra os direitos humanos. Porém, depois que chegou ao governo, Boric não só não o perseguiu como também o levava em viagens e reuniões com empresários e políticos, dentro e fora do Chile. Hoje, enquanto lamenta a morte de Piñera, Boric e o Partido Comunista deixam os presos políticos Mapuche morrerem em greve de fome. Já entendemos de que lado eles estão.

A morte de Piñera não muda nada no Chile. Enquanto vivermos num Chile capitalista, muitos outros Piñeras surgirão e se beneficiarão da miséria e da exploração da classe trabalhadora.

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