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sábado, fevereiro 24, 2024

Israel no banco dos réus

Após ter sido condenado nas ruas de todo o mundo, agora é a vez da Corte de Haia colocar o Estado racista de Israel no banco dos réus. A partir de um pedido do governo da África do Sul, a Corte Internacional de Justiça, conhecida como a Corte de Haia, iniciou as audiências no último dia 12 de janeiro.

Por: Fábio Bosco

Nesta data, juristas sul-africanos, tendo por trás de si o peso moral de quem lutou por décadas contra o regime de apartheid em seu país, didaticamente expuseram o genocídio em curso em Gaza, através de milhares de mortes e feridos, destruição de grande parte de todas as edificações, incluindo residências, escolas e hospitais. Para demonstrar a intencionalidade, apontaram para o cerco à Gaza que já dura 17 anos com acesso restrito a alimentos, água potável, energia elétrica e combustível, e também incluíram várias declarações racistas de ministros do gabinete israelense que defendem a expulsão dos palestinos.

No dia seguinte, os representantes do Estado racista defenderam que não há qualquer intenção de aniquilar total ou parcialmente os palestinos apesar do corte de água e luz, do impedimento de ingresso de alimentos, remédios e combustíveis, e das declarações públicas de seus governantes e governados.

As audiências públicas no caso África do Sul contra Israel continuam na Corte Internacional de Justiça

A Corte de Haia deve demorar anos para chegar a um veredito, mas pode emitir uma decisão provisória em poucas semanas exigindo o cessar fogo. O Estado de Israel nunca cumpre qualquer determinação da ONU que não seja de seu interesse, e conta com o veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança para impedir qualquer resolução contrária ao Estado sionista, e também com a conivência dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança que são seus aliados.

Vários países declaram seu apoio ao pedido da África do Sul. O principal deles é o Brasil. O presidente Lula se reuniu com o embaixador palestino no dia 11 e soltou um relato da reunião. Neste relato, anuncia o apoio do Brasil à petição sul africana, mas, ao mesmo tempo, iguala as ações de resistência do Hamas denominadas de “terroristas”, com o genocídio israelense.

Além disso, Lula exigiu que o Hamas liberte os israelenses presos em Gaza, mas nada falou sobre a libertação dos dez mil presos políticos palestinos, inclusive de um brasileiro chamado Islam Hamed, mantido nos cárceres israelenses conhecidos pela violação de direitos humanos.

Blinken no Oriente Médio

O secretário de estado americano, Antony Blinken, viajou ao Oriente Médio no dia 5 de janeiro pela quarta vez em três meses. Ao longo de seis dias ele se reuniu com governantes da Turquia, Jordânia, Qatar, Emirados Árabes, Arabia Saudita, Autoridade Palestina, Israel, Bahrein e Egito.

Seu objetivo era salvar o Estado de Israel em meio à uma brutal crise política, social e econômica, e também a imagem bastante arranhada da administração Biden pelo seu apoio incondicional ao genocídio israelense em Gaza.

Um dia antes, o ministro da defesa israelense, Yoav Gallant, fez uma coletiva de imprensa, no dia 4 de janeiro, para apresentar suas propostas para o futuro de Gaza.

Naturalmente, ele omitiu a principal proposta israelense: a expulsão dos palestinos de Gaza. O governo israelense estava em negociações com países africanos como a Etiópia e a República Democrática do Congo para “receber” os palestinos expulsos. Esta proposta era defendida publicamente por vários ministros, não apenas pelos nazi-sionistas Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, mas também pela ministra de inteligência Gila Gamliel do partido Likud, além de constar em documentos oficiais vazados.

Gallant defendeu a manutenção do cerco à Gaza que já dura 17 anos; a livre movimentação de tropas israelenses dentro da região, a exemplo do que ocorre na Cisjordânia; uma solução definitiva para impedir qualquer trânsito de mercadorias na fronteira entre Gaza e Egito via túneis ou qualquer outro meio a ser implementada conjuntamente por Israel, Egito e Estados Unidos; e a formação de uma força tarefa multinacional para a “reabilitação” de Gaza composta pelos Estados Unidos, governos europeus e árabes (na prática isso quer dizer pagar pela reconstrução de Gaza sob orientação israelense). Para administrar as cidades e vilas palestinas sitiadas por forças israelenses, ele defendeu comitês locais civis formados por palestinos nomeados por Israel, sem qualquer conexão com a Autoridade Palestina sediada em Ramallah.

Os governantes árabes, pressionados pela população de seus países, rejeitaram a proposta de Gallant de uma força tarefa multinacional e se limitaram a pedir a Blinken um cessar fogo imediato e uma solução duradoura para a questão palestina, isto é, um caminho definido para a formação de um mini-Estado palestino baseado na Cisjordânia e Gaza. O príncipe saudita Mohammed Bin Salman aproveitou para incluir mais algumas reivindicações específicas: um tratado de defesa mútua entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, cooperação estadunidense para um programa nuclear saudita e a venda de mais armas modernas.

Assim, Blinken formulou a proposta dos Estados Unidos: fim da guerra em Gaza e um caminho para um mini-estado palestino na Cisjordânia e Gaza sob comando da Autoridade Palestina, em troca da completa normalização de relações com Israel e custeio árabe para a reconstrução de Gaza. Como primeiros passos, Israel deveria reduzir os ataques, liberar os fundos congelados da Autoridade Palestina e aceitar o retorno da população palestina para o norte de Gaza.

Mas o Estado de Israel não concordou com esse plano. Netanyahu apenas aceitou divulgar uma nota no dia 12 afirmando que o Estado de Israel não planeja expulsar os palestinos (que também lhe auxiliava frente às acusações na Corte de Haia) e que uma delegação da ONU visite o norte de Gaza.

Ataques militares ao Iêmen

Os Estados Unidos formaram uma coalizão de países para atacar os iemenitas Houthis, que são o governo de fato das principais áreas do país, e liberar o tráfego de navios pelo mar vermelho. Os Houthis realizaram dezenas de ataques a embarcações com destino à Israel em solidariedade à Gaza, e acabaram por limitar toda a navegação na área, que representa 12% do comércio global.

Antes de iniciar os ataques, os Estados Unidos e seus aliados votaram no conselho de segurança da ONU a autorização para o ataque. A Rússia e a China se abstiveram da votação e não vetaram a resolução, abrindo o caminho para a ação militar americana e britânica.

No dia 12, a coalizão americana atacou cerca de 70 alvos, e continuaram nos dias seguintes. Apesar dos ataques, os Houthis prometeram continuar as ações de solidariedade aos palestinos.

Dia global de solidariedade

No dia 13 de janeiro, foi realizado um dia global de solidariedade com a Palestina. Foram realizadas dezenas de manifestações com milhares de pessoas em todo o planeta.

Estas ações são fundamentais pois, aliadas à resistência palestina na Palestina ocupada, são os principais instrumentos para barrar o genocídio e conquistar o fim do cerco a Gaza, o que representaria uma derrota para o Estado de Israel e um passo em direção ao seu desmantelamento.

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