sex abr 12, 2024
sexta-feira, abril 12, 2024

Depois das eleições territoriais… organizar a luta

Com uma participação de 60% dos eleitores, as eleições terminaram deixando uma decepção no Pacto Histórico, que tinha a expectativa de repetir a experiência das eleições nacionais, nas quais as massas apoiaram o seu projeto político, mesmo sem saber como as listas estavam integradas. Desta vez, o Pacto Histórico não conseguiu obter nenhuma das prefeituras das grandes cidades, inclusive em algumas que tinham votado por candidaturas chamadas independentes ou alternativas, como Bogotá, Medellín, Cali e Cartagena.

Por: Antonio Romero

Quais as razões pelas quais o Pacto Histórico teve este retrocesso eleitoral? O resultado pode ser classificado como uma derrota para o Governo Petro? Estas são as questões que permanecem depois de os meios de comunicação burgueses terem mostrado as eleições territoriais como um referendo sobre o governo, e no qual foi derrotado.

Por trás dos números

A primeira coisa que devemos levantar quando fazemos análises eleitorais é que a democracia burguesa expressa a luta de classes de uma forma distorcida, porque as instituições do Estado burguês são concebidas para perpetuar a exploração e a opressão, quer participem candidatos revolucionários ou reformistas. Os resultados não mostram que a burguesia recupera ou toma o poder, mas sim que nunca o perdeu, apesar de não estar diretamente no Governo. Por isso dizemos que não é nas urnas que se buscam mudanças, mas sim nas ruas, e é por isso que depois de uma explosão social é provável que setores “progressistas” cheguem a altos cargos governamentais.

Contudo, os resultados eleitorais ajudam-nos a observar a resposta das massas e a situação da luta de classes. Por exemplo, os dez milhões de votos que levaram Petro à presidência foram resultado de uma mobilização social que levou inclusive setores da burguesia e da pequena burguesia a aderirem à sua proposta reformista para evitar que as massas continuassem a avançar nas ruas. Estes sectores apoiaram as candidaturas territoriais da chamada ‘centro-direita’ que hoje se opõe ao Governo.

Em Bogotá, a ampla vitória de Carlos Fernando Galán do Novo Liberalismo (derrotando Gustavo Bolívar, reflete o retrocesso dos setores “progressistas” do petrismo e mostra a frustração e o ceticismo das bases diante das mudanças que esperavam, para além das limitadas reformas que tramitam no Congresso da República.

As prefeituras que se apresentavam como “alternativas” – Jorge Iván Ospina em Cali e William Dau em Cartagena – passaram para as mãos de Alejandro Eder, de uma coalizão de partidos tradicionais, e de Dumek Turbay, do liberalismo, respectivamente. O mesmo acontece em Medellín, onde um dos aliados estratégicos de Petro é derrotado de forma decisiva pelas mãos do Uribismo. É preciso levar em conta que esses prefeitos enfrentaram a pandemia e a Paralisação Nacional, sendo cúmplices da repressão, por isso também há um voto castigo das massas.

Os pactos nas territoriais, a política do Pacto

As eleições territoriais, como já dissemos, são muito diferentes das eleições nacionais, onde o chamado voto de opinião tem mais peso. Nas eleições territoriais observa-se todo o peso da máquina eleitoral, do gamonalismo, do clientelismo, do nepotismo e outros. É comum que muitos votem em um amigo ou conhecido, independentemente do programa ou partido, e são impostas questões que afetam de forma imediata a população; como a segurança cidadã, que normalmente são as bandeiras dos candidatos de direita.

Mas os líderes territoriais do Pacto Histórico pensaram que havia uma oportunidade de ganhar algumas cadeiras e algumas prefeituras, e até que se repetisse a experiência do Congresso da República, quando as bases apoiaram massivamente as suas listas. Desta vez, mesmo em muitas cidades foi impossível organizar listas do Pacto Histórico, e cada partido da coligação acabou se tornando uma microempresa de endossos em que os lutadores e as lutadoras sociais tiveram que compartilhar listas, abrindo mão dos primeiros lugares, com aqueles que compram as vagas nesses partidos.

O resultado foi que os dez milhões de votos que se levantaram contra o Uribismo e o governo de Duque em 2022, que incluíam aliados da classe média que votaram em Petro apesar de acreditarem que ele é muito radical, desta vez votaram em partidos mais simpáticos ao liberalismo e mais confiáveis para a estabilidade burguesa. O golpe é também para o Centro Democrático e para os candidatos mais de direita, que apesar de celebrarem a sua suposta vitória obtiveram resultados bastante modestos, e na maioria dos casos graças a coligações onde os candidatos vencedores não concorreram diretamente em nome do Centro Democrático.

O grande erro do Pacto Histórico, somado ao seu programa reformista e às suas táticas burocráticas e conciliatórias com a burguesia, é a sua ausência de democracia interna, as decisões eleitorais foram tomadas pelos partidos com representação legal e na maioria dos casos se dispersaram devido à impossibilidade de acordo entre os mesmos. A proposta de realização de assembleias populares, de que as listas fossem integradas pelos líderes da explosão social e de que fosse retomado o programa de luta com que milhares de pessoas saíram às ruas, não foi acolhida pelas direções do Pacto Histórico e da burocracia sindical.

Ao contrário, optaram por fazer o mesmo que os políticos tradicionais (clientelismo, nepotismo, compromissos por cima), só que com menos dinheiro e menos experiência. Depois trouxeram o irmão do ministro, o libretista, etc. Tal como para o Congresso, embora dissessem que tínhamos que votar contra a direita e os partidos tradicionais, colocaram a direita e os partidos tradicionais nas listas, para que a burguesia ainda ganhasse as eleições, mesmo que fosse com um partido diferente.

Desta forma, a necessidade de expressões eleitorais que reflitam o descontentamento social, os processos e reivindicações de luta que restringe e impede o regime eleitoral colombiano, não encontrou no Pacto Histórico ou em endossos “independentes” o espaço para disputar a consciência e o voto das massas contra toda a máquina eleitoral burguesa.

A outra situação tem sido o desgaste do Governo Petro, o corte de projetos de reformas; alguns deles passaram de mornos a reacionários, como é o caso do projeto de reforma previdenciária; a subida constante e sustentada da gasolina e o incumprimento de promessas, como o desmantelamento da ESMAD (Esquadrão Móvel Antidistúrbios), que levou a que a juventude que se mobilizou com recursos próprios na campanha presidencial, que não foi cooptada nem institucionalizada, desta vez não ai se arriscar para a luta eleitoral, que continua a exprimir-se numa abstenção significativa.

O voto em branco

Os resultados do voto em branco foram heterogêneos a nível nacional e expressam alguns fenómenos particulares em cada caso. Porém, a nível geral com 4,4% do total, expressam um sector da população que opta conscientemente por não apoiar nenhum destes projetos políticos, e que se recusa a votar no “mal menor”, ​​o que o torna um voto de protesto.

A nível governamental, o voto em branco obteve um importante segundo lugar no Valle del Cauca com 27,6%, perto de deixar de fora Dilian Francisca Toro, que conseguiu vencer com 40%, mas muito pobre em legitimidade. Em Cundinamarca também ficou em segundo lugar com 12%.

Em duas prefeituras, em Gamarra e Maicao, o voto em branco venceu e, portanto, as eleições deverão ser repetidas. E em Bogotá, na cidade de Tunjuelito, onde um grupo de militantes de base do Pacto Histórico convocou o voto branco para a JAL, em protesto contra as práticas burocráticas de sua própria coletividade, o voto em branco venceu com 17%, e se bem, nos colegiados, a eleição não desqualifica os eleitos, a legitimidade será pouca e a mensagem das bases para as lideranças é mais que nítida. As bases do Petrismo não são bases cegas dispostas a simplesmente votar em quem Petro diz; e se as práticas atuais não forem alteradas, o caminho que os espera será difícil.

Em Bogotá, apesar das campanhas, 4,8% dos eleitores manifestaram a sua insatisfação nas urnas. A péssima gestão de Claudia López, e a fraca simpatia suscitada pelo candidato Bolívar, associado ao que foi mencionado anteriormente, levaram ao voto no golfinho Galán, com o seu perfil tecnocrático.

O que vem a seguir… organizar a luta

Do Partido Socialista dos Trabalhadores chamamos ao voto em branco como forma de protesto contra a falta de democracia (não foi feita nenhuma reforma política que permitisse a liberdade de participação eleitoral) e o distanciamento do Governo Petro do programa da explosão social que o levou ao Palácio de Nariño. Mas além disso, apelamos à organização da luta para tornar este programa uma realidade, porque estamos convencidos de que não é no Congresso da República onde poderemos fazer as transformações radicais que a classe trabalhadora e os setores populares necessitam.

As eleições territoriais não devem ser reduzidas a um referendo sobre o Governo Petro, nem devem ser feitas análises mecânicas das mesmas; mas refletem uma dispersão do movimento de massas que durante a Greve Nacional tentou criar espaços de coordenação das lutas, e em grande medida essa dispersão tem sido responsabilidade do Pacto Histórico que instrumentalizou a mobilização a favor de suas recortadas  reformas, que não cumpriu as promessas feitas à juventude, que cooptou lideranças e colocou essas bases na lógica das expectativas eleitorais, tentando renovar a confiança num regime político decadente.

Assim, podemos dizer que há uma derrota relativa do Governo, o que enfraquece a sua já diminuída capacidade de negociação com a burguesia pelas suas “reformas” e que o distanciamento das bases do Pacto Histórico. A saída para a classe trabalhadora e para as massas continua sendo a organização e a mobilização com a independência de classe e a luta pelas bandeiras hasteadas durante a explosão social, e não pelas tímidas reformas que o Pacto Histórico hoje negocia.

Os vitoriosos prefeitos e governadores de direita e “centro-direita” já alertaram o governo que usarão os seus governos como instrumento de chantagem e negociação com o governo, na luta pelas reformas, pela Paz Total, pelo Plano de Desenvolvimento e pelas verbas. Isto pressiona o governo pela direita, que terá menos margem de manobra com o seu apelo a um acordo nacional e à política de concertação com a burguesia.

Não será iniciando a campanha eleitoral de 2026 com algum candidato imposto que a contraofensiva da burguesia será derrotada. Estará nas ruas, nas assembleias, nas organizações de base, na recuperação das organizações sob o controle dos trabalhadores, fora da nociva cooptação e institucionalização em que se encontra atualmente uma grande maioria. Ainda que possamos ser vistos como repetitivos, a única saída será recuperar a rua. Será também necessário continuar lutando por uma reforma política democrática, que garanta a participação política da classe trabalhadora, onde desapareçam os limiares, as políticas e o mercado de garantias.

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