seg jul 15, 2024
segunda-feira, julho 15, 2024

A Fração Trostskista e sua postura na guerra de Gaza

Este texto é a primeira parte de um trabalho mais amplo. Neste primeiro artigo vamos polemizar com os companheiros da Fração Trotskista (FT) sobre vários aspectos fundamentais de sua postura frente à guerra genocida de Israel contra Gaza.

Por: Víctor Alay

Em um segundo artigo, tentaremos colocar em destaque o exasperado contraste entre a justa e dura crítica que a FT realiza ao neutralismo das organizações francesas Lutte Ouvrière (LO) e NPA-C (Novo Partido Anticapitalista-Plataforma C) na guerra de Gaza e o desdenhoso abstencionismo que a FT aplica na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia.

Uma justa crítica da FT ao LO e NPA-C

Começamos este artigo fazendo nossa, a severa crítica que a seção francesa da FT, Revolution Permanent, faz ao LO e ao NPA-C, cuja posição frente à barbárie sionista em Gaza é uma verdadeira indecência, tratando-se de organizações que ainda se reivindicam trotskistas.

Estas duas organizações da extrema esquerda francesa, cedendo à brutal campanha de propaganda sionista por conta das mortes de civis israelenses na ação militar de 7 de outubro, chegaram ao extremo de equiparar a principal organização da resistência palestina, Hamas, com o Estado sionista.

Paul Morao[1] tem toda razão quando escreve:

“’Contra Biden e Macron, contra Netanyahu e Hamás. Proletários da França, da Palestina, de Israel… Unamo-nos!’ podia ser lido nos cartazes exibidos pelos camaradas do LO no domingo 22 de outubro na Praça da República [Paris]. (…) Em um artigo editorial, LO explica que seu projeto ‘é o oposto às políticas nacionalistas destinadas a defender os interesses de um povo em detrimento de outros. Em contraste com a política de Netanyahu em Israel e a política do Hamas na Palestina’. Em outro editorial, afirma que o Hamas e Israel estão no mesmo ‘campo’, oposto ao dos oprimidos.

Uma posição que gera grande confusão, já que mistura uma organização que dirige em grande medida a luta de libertação nacional palestina e o governo do Estado colonial contra o qual luta. Os camaradas do LO, apesar de sublinhar a responsabilidade central do Estado de Israel e seus aliados imperialistas na situação, não param de retornar à responsabilidade conjunta dos dois campos”.

LO- continua Morao – “escolhe ocultar sob o tapete, em seus textos e intervenções públicas, a questão da resistência palestina. É difícil encontrar referências a esta ideia, assim como à “luta” do povo palestino. Uma atitude que parece ser, além disso, a do NPA-C[2], que também insiste unicamente na “solidariedade com o povo palestino”.

Paul Morao confronta esta posição com os critérios básicos que guiaram a atitude dos marxistas revolucionários ao longo da história:

 “a solidariedade revolucionária elementar não pode se contentar com denunciar os massacres ou apoiar os direitos dos povos oprimidos, implica colocar-se resolutamente em seu campo quando há um conflito militar com os opressores. Historicamente, os marxistas revolucionários consideraram, longe de qualquer pacifismo, que deviam apoiar o campo progressista nas guerras justas sem conceder, não obstante, apoio político à sua direção”.

Morao, após citar Lenin[3] (“todo socialista deseja ardentemente a vitória dos Estados oprimidos, dependentes, violados em seus direitos, sobre as ‘grandes’ potências opressoras, escravistas e espoliadoras” ),  prossegue dizendo que esta posição:  

 “está inscrita na continuidade das batalhas travadas por Marx e Engels na Primeira Internacional a favor do apoio à autodeterminação da Irlanda e Polônia e se baseia no princípio de que a vitória dos oprimidos no quadro das guerras justas contribui para debilitar o imperialismo, qualquer que seja a natureza de seus dirigentes. Prolongando provocativamente o discurso de Lenin, durante uma discussão sobre o anti-imperialismo em 1938, Trotsky destacou que, em caso de guerra entre um Brasil fascista e uma Inglaterra democrática, ‘eu estarei do lado do Brasil ‘fascista’ contra a Inglaterra democrática. Por quê? (…) Se a Inglaterra ganha, instalaria outro fascista no Rio de Janeiro e submeteria duplamente o Brasil. Se, pelo contrário, o Brasil ganha, este poderia dar um impulso considerável à consciência democrática e nacional deste país e conduzir à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra seria, ao mesmo tempo, um golpe contra o imperialismo britânico e daria impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês”.

É igualmente justa a crítica de Morao ao LO e NPA-C por estabelecer como “condição de legitimidade da luta do povo palestino” a “confraternização dos povos israelense e palestino”, como se fosse classes trabalhadoras de dois países imperialistas em condições semelhantes. Só que Israel, um enclave militar imperialista no Oriente Médio, é um Estado colonial levantado sobre a limpeza étnica, o roubo violento das terras palestinas e um brutal sistema de apartheid. Por isso Morao tem toda razão quando escreve que:

 “A referência [da LO] a ‘políticas nacionalistas que procuram defender os interesses de um povo em detrimento dos outros’ resvala a indecência no contexto de uma luta anticolonial. Em 1872, Karl Marx já se enfrentava com os membros da Primeira Internacional que defendiam tais posições, explicando: ‘quando os membros da Internacional pertencentes a uma nação conquistadora pedem aos pertencentes a uma nação oprimida, não só no passado, mas também no presente, para esquecer de sua situação específica e sua nacionalidade, ‘apagar todas oposições nacionais’, etc., não demonstram internacionalismo. Simplesmente defendem a subjugação dos oprimidos tentando justificar e perpetuar a dominação do conquistador sob o véu do internacionalismo”.

Paul Morao também menciona a defesa que a LO faz da tese dos dois Estados. Com isso, a LO abandona a consigna histórica dos trotskistas de uma Palestina democrática, laica e não racista, em todo seu território histórico (do rio ao mar) e assume a posição imperialista dos dois Estados: uma posição que legitima a espoliação palestina e a limpeza étnica, nega o retorno dos milhões de refugiados e esquece que o Estado colonial de Israel só pode subsistir sobre a base de uma guerra permanente de desapropriação e genocídio do povo palestino.

Graves erros da FT

Porém, da mesma forma que compartilhamos as justas críticas da FT à LO e NPA-C, consideramos também que os companheiros cometem erros muito graves em sua política palestina, contraditórios, além disso, com sua própria crítica ao LO e NPA-C.

Matías Maiello[4] tem razão quando defende o critério geral de que apoiar incondicionalmente a resistência palestina e colocar-se em seu campo militar, não significa dar apoio político ao Hamas nem silenciar as profundas diferenças com tal organização. Nossas diferenças com a FT não são sobre este critério geral. O problema é se a FT aplica efetivamente tal critério e como o faz, pois nem toda crítica vale.

A crítica da FT ao Hamas

A FT rejeita, com razão, os métodos autoritários com os quais o Hamas governou Gaza. E quanto ao seu programa e estratégia, critica também, de forma justa, sua política de alianças com regimes reacionários como Qatar, Irã ou Turquia e o consequente abandono de uma política de impulso à mobilização independente dos povos da região. Na verdade, durante estas semanas de barbárie genocida israelense, vimos a passividade destes regimes, mais além de suas proclamações verbais. O chamado “Eixo da resistência”, articulado em torno ao Irã, no qual Hamas confiava, também mostrou que não está disposto a solidarizar-se de fato com o povo palestino nem se enfrentar com Israel.

Porém Maiello não atualizou sua análise sobre o Hamas e, por conseguinte, sua crítica. É por isso que continua afirmando que o objetivo do Hamas é “estabelecer um Estado teocrático do tipo iraniano”. Mas esta é uma crítica geral, pois não leva em conta que o Hamas, desde 2004 deixou de falar de um “Estado islâmico palestino” para anunciar seu objetivo como “o estabelecimento de um Estado palestino em todo o território do antigo Mandato Britânico da Palestina”. Em sua nova Carta programática de 2017, o Hamas não reivindica um Estado teocrático e eliminou sua vinculação com a Irmandade Muçulmana. Afrouxando seus traços islamistas, passou a se autodefinir como um movimento nacional palestino “com referências islâmicas”.

Maiello não recolhe esta evolução do Hamas, mas o pior de tudo é que esquece de criticá-lo pelo seu maior pecado: o retrocesso histórico da Carta de 2017 ao admitir as fronteiras de 1967, abandonando a reivindicação histórica palestina e abrindo-se ao reconhecimento dos “dois Estados”.

Maiello define o programa do Hamas simplesmente como “reacionário” e Alcoy[5], menos diplomático, vai mais longe e diz que o Hamas, como tal, tem um “caráter burguês e reacionário”. Isto é uma mistura e uma unilateralidade enorme que esquece de destacar que o Hamas é um movimento de libertação nacional, o mais importante da resistência palestina, fortalecido ao calor da traição do Al Fatah e do enorme desprestígio da Autoridade Nacinal Palestina (ANP).

Maiello e Alcoy não dizem que, apesar das profundas diferenças com o programa e a estratégia do Hamas (começando pela reivindicação central de uma “Palestina laica, democrática e não racista, do rio ao mar”, que o Hamas não assume), sua luta contra o Estado sionista é enormemente progressiva. E que, nada nos impede, continuando a máxima de Lenin de “golpear juntos e marchar separados”, lutar junto com o Hamas e as massas palestinas contra o Estado de Israel e as potências imperialistas que o apoiam.

Paradoxalmente, Maiello falava em “apoiar incondicionalmente a resistência palestina e colocar-se em seu campo militar” e Philippe Alcoy se referia ao direito palestino de resistir “por todos os meios que se encontrem à sua disposição (…) inclusive a luta armada”. Isto, se for coerente, só pode significar apoiar incondicionalmente o Hamas (e as outras milícias palestinas) em seu enfrentamento militar com o exército sionista. A FT, entretanto, resiste a fazer esta formulação e também não chama a estabelecer a mais ampla unidade de ação com o Hamas na luta contra o Estado sionista.

O repúdio da FT aos “métodos do Hamas”

Na realidade, o centro absoluto da crítica da FT é aos “métodos” utilizados pelo Hamas em 7 de outubro, em particular a “morte de civis” e, em especial, ao caso do festival de música.

Porém os companheiros da FT esquecem de dizer, e isto é a primeira coisa que teria que ser pronunciada, que a ação de 7 de outubro – em seguida falaremos dos métodos – foi uma façanha espetacular que derrotou e humilhou um dos exércitos mais poderosos e criminosos do mundo, rompeu o cerco de 17 anos que este exercia sobre Gaza e lembrou a vulnerabilidade do Estado sionista e sua impotência para acabar com a resistência palestina.

Já entrando nos métodos, pensamos que não se pode abstrair que o Hamas é uma resistência popular sem aviões, nem tanques nem barcos, encerrada na maior prisão do mundo ao ar livre, submetida a um assédio criminoso e ataques atrozes durante 17 anos. Nestas circunstâncias não se pode exigir do Hamas ater-se a um suposto código moral de combate em sua luta, enormemente desigual, frente ao exército ocupante.

Também não se pode esquecer que as colônias israelenses no entorno de Gaza (e, em geral, todo o território de Israel, levantado sobre o espólio de terras palestinas e da limpeza étnica), não só são colônias construídas sobre terras roubadas pela violência, mas também desempenham uma função militar de cerco à Faixa, conectadas a uma ampla rede de instalações militares, atacadas por milicianos e em boa parte destruídas. Do mesmo modo, temos que ter em conta que Israel é como uma base militar gigante onde, além das tropas em serviço, há 400.000 reservistas e uma grande quantidade de civis armados.

Também temos que considerar que uma coisa é a falaz propaganda sionista, reproduzida massivamente e reiterada pelos governos e os meios de comunicação ocidentais, e outra os fatos reais, uma parte dos quais foram sendo revelados nestas semanas, embora tenham sido rapidamente silenciados. Sabemos que uma parte dos mortos no festival de música foram nas mãos dos disparos indiscriminados de helicópteros militares israelenses e que – como menciona Maiello – parte dos mortos nas colônias circundantes à Faixa de Gaza foram nas mãos das tropas israelenses combatendo os milicianos palestinos.

Os companheiros da FT, longe de contextualizar as “mortes de civis” do 7 de outubro, outorgam-lhes uma centralidade que só pode ser entendida devido à pressão brutal e sustentada da campanha dos meios de comunicação ocidentais. Alcoy chega a entrar em apreciações morais e a dizer que “rechaçar a qualificação de ‘terrorismo’ não é relativizar e menos ainda justificar os crimes do Hamas contra os civis palestinos[6]  e israelenses”. Mas nunca devemos igualar a violência do opressor com a do oprimido. Não podemos qualificar de “crimes” as mortes de civis israelenses, vítimas da resposta militar do Hamas à barbárie de Israel, o verdadeiro responsável pelas suas mortes. Entendemos que os companheiros argumentem que tais mortes de civis facilitaram ao governo israelense cerrar fileiras e lançar, em combinação como os governos imperialistas, uma brutal campanha de propaganda para justificar o massacre genocida contra os palestinos. Mas a crítica não chaga a muito mais.

Dúvidas também nos assaltam sobre o que Maiello quer dizer quando defende que a unidade dos palestinos de Gaza com os da Cisjordânia, os que vivem nas fronteiras de 1948 e “os trabalhadores israelenses que rompem com o sionismo”, “não se poderá ser feita a não ser com os métodos da classe operária, como a greve geral combinada com a Intifada e pelo desenvolvimento de “organismos de autodefesa capazes de unir todos os setores”. O que são estes “organismos de autodefesa capazes de unir todos os setores” que menciona? Está propondo, como Gilbert Achcar, dirigente do Secretariado Unificado, que os palestinos devem renunciar à luta armada?

Um aspecto que Maiello critica com dureza é a tomada de reféns israelenses, levada a cabo pelos milicianos palestinos com o fim de contar com um elemento de pressão contra Israel e poder trocá-los pelos milhares de reféns palestinos presos nas prisões israelenses. Em 7 de outubro eram 5200 presos e agora, 10 semanas depois, são mais de 10.000, inclusive várias centenas de adolescentes e crianças, a maioria em “detenção administrativa” por tempo indeterminado e todos eles em condições desumanas.

A tomada de reféns ao longo dos anos tem sido um procedimento comum utilizado pelas organizações armadas palestinas para libertar presos palestinos. A importante crise política que ocorre atualmente em Israel, provocada pela mobilização dos familiares dos reféns, certifica a utilidade política de sua retenção pelos milicianos palestinos. É difícil entender a crítica da FT[7] nestas condições e queremos pensar que os companheiros se opõem às exigências dos governos ocidentais e forças reformistas para que o Hamas os liberte incondicionalmente.

Sobre a confraternização entre os palestinos e a classe trabalhadora israelense

Um dos grandes motivos da crítica da FT aos “métodos do Hamas” é porque os considera um grande obstáculo à confraternização da luta palestina com a classe trabalhadora israelense (“vítima em última instância” do sionismo (sic), segundo Alcoy).

Vimos antes como Morao rejeitava as posições do LO e NPA-C sobre a confraternização, criticando a falsa simetria que estabelecem entre os palestinos e os trabalhadores israelenses. Maiello também reconhece que a classe operária israelense é majoritariamente sionista, que desempenha um papel fundamental na colonização e no regime de apartheid e que sua colaboração de classe com a burguesia em torno ao sionismo é forte e tem raízes profundas.

E, entretanto, apesar de suas próprias afirmações, Morao nos diz que a confraternização dos palestinos e os trabalhadores e a juventude israelenses é “a única possibilidade de emancipação para ambos os povos”. E Maiello martela na mesma ideia, fazendo, por exemplo, um paralelismo histórico com a ocupação nazista da França durante a 2ª Guerra Mundial, para reivindicar a confraternização entre palestinos e trabalhadores israelenses como uma tarefa essencial e para denunciar que, tal como então, todo ato que amplie o fosso entre ambos, é “diretamente contrarrevolucionário”.

O problema desta tese é que, se a FT estivesse certa, o povo palestino e todos nós estaríamos condenados a uma luta sem esperança. É como se a vitória da revolução argelina tivesse dependido da confraternização entre os argelinos e os “pied noirs” franceses, que foram à Argélia para apossarem-se das melhores terras, apoiados pelo Exército colonial francês.

O conhecido jornalista israelense Gideon Levi denuncia três traços sinistros que caracterizam a esmagadora maioria da população israelense, inclusive sua classe trabalhadora: 1/ se considera “o povo eleito, com direito a fazer o que quiser”; 2/ sendo o opressor, se apresenta como a grande vítima e 3/pratica uma desumanização sistemática da população palestina, um elemento comum a todas limpezas étnicas, da mesma maneira que os nazistas fizeram com os judeus[8].

O sionismo é muito mais que uma ideologia. É, sobretudo, um Estado colonial e terrorista criado sobre o espólio das terras dos palestinos e sua limpeza étnica, um Estado com um sistema de apartheid e uma falsa democracia corrupta. Grande parte dos israelenses, inclusive os trabalhadores, é uma população vinda do exterior que vive sobre uma terra roubada que não é sua. O Estado de Israel é um enclave militar dos EUA em uma região estratégica do mundo.

Uma Palestina laica, democrática e não racista, desde o rio até o mar, só pode ter lugar sobre a destruição do Estado de Israel (uma formulação necessária que não vemos nos textos da FT), o retorno de milhões de refugiados e a devolução da terra aos seus legítimos donos. Isto significa que muitos israelenses vindos de outros países ao longo destes anos para ocupar terras, lugares e casas palestinas se verão obrigados a marchar e só terão lugar no novo Estado palestino uma minoria judia que aceite conviver em paz e igualdade de direitos com os palestinos.

A vitória sobre o Estado de Israel virá da luta do povo palestino, inclusive a luta armada, da solidariedade ativa dos povos dos países árabes e islâmicos da região (que deverão enfrentar suas covardes burguesias) e da solidariedade massiva dos trabalhadores e da juventude dos EUA, da UE e do resto do mundo. Certamente, a colaboração de uma pequena minoria israelense antissionista será sem dúvida relevante, mas defender que a confraternização é “a única possibilidade de emancipação de ambos os povos” não apenas está completamente fora de lugar mas também é um grave erro.

A rejeição da FT em defender a consigna “Palestina laica, democrática e não racista, do rio ao mar”

A FT não está à vontade com esta consigna histórica e central do trotskismo diante do conflito palestino e a substituiu por uma “Palestina operária e socialista” (ou, na versão de Alcoy, uma “Palestina operária e socialista, laica, sobre o conjunto da Palestina histórica”). Esta substituição é um erro enormemente grave.

Os companheiros da FT pensam que defender a consigna “Palestina democrática, laica e não racista, do rio ao mar” equivale a defender uma “etapa democrática” e renunciar ao caráter socialista da revolução palestina. Mas se equivocam totalmente, porque tal consigna é atualmente a principal reivindicação do programa para a revolução socialista na Palestina e em toda a região. Ao invés de integrar tal consigna em um programa transicional, de combiná-la com demandas econômicas e sociais, transicionais e socialistas e de dar uma dimensão regional e internacional à revolução palestina (que culmina na luta por uma federação socialista do Oriente Médio e Norte da África), a FT a substitui pela consigna de uma “Palestina operária e socialista”.

Mas esta consigna representa um ultimato pretensioso e sectário que impede de construir a unidade da luta das massas palestinas e da região, a unidade destas com as massas pró-palestinas dos países imperialistas e, também, com a pequena e valente minoria judia israelenses antissionista. Equivale a impor-lhes como condição que estejam de acordo com uma Palestina “operária e socialista”, ao invés de dar passos juntos e conduzi-las pelo caminho da revolução socialista a partir da luta comum por uma Palestina democrática, laica e não racista, do rio ao mar. Na verdade, a posição da FT reflete uma profunda incompreensão do que significa a revolução permanente.

Este grave erro da FT choca-se com a metodologia com a qual nós trotskistas abordamos estes problemas ao longo da nossa história. Trotsky escreve no “Programa de Transição” que nos “países atrasados” temos que “combinar a luta pelas tarefas mais elementares da independência nacional e da democracia burguesa com a luta socialista contra o imperialismo mundial”. E acrescenta: “as demandas democráticas, as demandas transitórias e as tarefas da revolução socialista não estão separadas em épocas históricas distintas, mas surgem imediatamente umas das outras”.

Guardando a devida distância, foi esta mesma metodologia que Trotsky aplicou na Espanha em princípios dos anos 30 do século passado, em plena luta contra a monarquia, quando escrevia aos trotskistas espanhóis chamando-os para colocarem-se à frente da luta pelas reivindicações democráticas: “Não o compreender seria cometer a maior falta sectária. Colocando na frente as consignas democráticas, o proletariado não quer com isso dizer que a Espanha vá em direção à revolução burguesa. Só poderiam propor a questão assim frios pedantes repletos de fórmulas rotineiras”[9]. Sete meses mais tarde, lhes dizia: “Quanto mais valorosa, decidida e implacavelmente lute a vanguarda proletária pelas consignas democráticas, mais cedo ganhará as massas e privará de base os republicanos burgueses e os socialistas reformistas, de um modo mais seguro os melhores elementos virão para o nosso lado e mais rapidamente a república democrática se identificará na consciência das massas com a república operária.[10]

A desigualdade militar é esmagadora a favor de Israel. Mas, como mostrou o Vietnã, se irmanando a luta armada e a mobilização de massas na região, com uma nova Intifada, primaveras “árabes” e grandes mobilizações nos países imperialistas, em particular nos EUA e na UE, podemos derrotar o Estado de Israel e seus padrinhos. Para isso, a consigna de Palestina democrática, laica e não racista, do rio ao mar, desempenha um papel chave e imprescindível.


[1]Lutte Ouvrière, o NPA-C e a luta pela autodeterminação da Palestina”, publicado em Revolution Permanent em 30 de outubro de 2023

[2] NPA-C é uma organização resultante de uma cisão no NPA após o abandono do setor histórico

[3] “O Socialismo e a guerra”

[4] «Os meios e os fins: a propósito da posição dos revolucionários sobre a estratégia do Hamas”, publicado em 6 de novembro de 2023

[5] “Apoiar a resistência palestina é apoiar a estratégia e os métodos do Hamas?”, de Philippe Alcoy, publicado em 11 de outubro de 2023

[6] Nos perguntamos a quais “civis palestinos” se refere.

[7] A respeito dos reféns, nos parece recomendável a leitura do trabalho de Trotsky, “Moralistas e sicofantes”, de 9 de junho de 1939

[8] É importante destacar as sinistras relações de colaboração do movimento sionista com o regime nazista (ver os trabalhos de Brenner, Schoenman e Ilan Pappé, judeus antissionistas que estudaram esses vínculos). Também deve-se destacar a perfídia sionista de servir-se do Holocausto para justificar a limpeza étnica dos palestinos, aplicando os mesmos métodos dos nazistas.

[9]As tarefas dos comunistas na Espanha” (carta à redação de Contra la Corriente) 13 junho 1930

[10]A revolução espanhola e as tarefas dos comunistas” 24 de janeiro de 1931

Tradução: Lílian Enck

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