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sábado, fevereiro 24, 2024

Não há justiça climática no genocídio do povo palestino

Enquanto o Estado terrorista de Israel avança com o genocídio em Gaza e a limpeza étnica na Cisjordânia, coloca o greenwashing em ação, encobrindo seus crimes contra a humanidade com a “lavagem verde”. Participa da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP 28) para, conforme divulgou oficialmente em seu site, “apresentar a inovação climática israelense, uma vez que a maior contribuição de Israel para a crise climática global está no fornecimento de tecnologias e soluções práticas”.

Por: Soraya Misleh

Um escárnio que não passou impune. Ativistas em solidariedade ao povo palestino têm realizado protestos na COP 28 exigindo o cessar-fogo imediato e o fim do apartheid e colonização sionistas. Durante as manifestações, também leram os nomes de vítimas do genocídio e denunciaram a contaminação da água em Gaza.

Após uma breve pausa na matança, são mais de 21 mil palestinos trucidados nos últimos 60 dias, dentre os quais aproximadamente 11 mil crianças. O povo palestino vive na pele as contribuições de Israel para a vida e o ambiente. O envenenamento das terras e a contaminação proporcionados pelos bombardeios assassinos deixarão um rastro de destruição que se prolongará por muitos anos e ainda matarão muitos dos palestinos que conseguirem sobreviver ao genocídio direto em curso neste momento.

Econormalização

A presença oficial sionista, ainda mais em meio a esta nova fase da contínua Nakba – catástrofe palestina cuja pedra fundamental é a formação do Estado racista e colonial de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada –, coroa a vergonhosa conferência que não à toa vem sendo apelidada de “COP do petróleo”, presidida por um magnata do setor: Sultan Al-Jaber, CEO da Adnoc, a estatal do petróleo dos Emirados Árabes Unidos (EAU), que sediou o evento em sua capital, Dubai.

O ultrage vai além dessa hipocrisia: os EAU jogaram papel chave no processo de normalização de estados árabes com Israel, nos denominados “Acordos de Abraão”. Firmados a partir de setembro de 2020, sob mediação do imperialismo estadunidense, estes incluem uma série de memorandos de entendimento para realização de projetos conjuntos em energia renovável, agronegócio e água.

“A econormalização reforça o papel do greenwashing israelense como máquina de fazer dinheiro para as empresas israelenses, ao mesmo tempo que mina a democracia energética e a soberania alimentar da Palestina, inextricavelmente ligadas à luta palestina pela autodeterminação”.

A reflexão consta de artigo dos pesquisadores e ativistas palestina Manal Shqair e argelino Hamza Hamouchene, e da jornalista tunisina Hafawa Rebhi. Vale lembrar que descobriu-se gás natural na costa mediterrânea, alcançando também Gaza, e o genocida primeiro-ministro sionista Benjamin Netanyahu concedeu no dia 30 de outubro, em meio aos bombardeios em Gaza, 12 licenças para exploração de gás natural na região a seis empresas, incluindo a British Petroleum e a italiana Eni.

A presença sionista na COP pode ter esse objetivo oculto de negociar com as petrolíferas, enquanto é também parte dessa “econormalização”, como denunciam ambientalistas palestinos, que se recusaram a participar da conferência. “Como podemos clamar por justiça ambiental quando o mundo está em silêncio sobre o que está acontecendo?” disse uma delas, Abeer Butmeh, em entrevista ao portal Middle East Eye.

Butmeh falou também ao Middle East Eye sobre as startups israelenses presentes​ na COP 28, que vai até 12 de dezembro,: “Eles se promoverão como empresas profissionais em reciclagem, energia limpa e gestão de água, além de agricultura sustentável e construção verde. Mas, para falar a realidade… venham ver o que está acontecendo na Palestina.”

Crime ambiental

O extermínio do futuro em Gaza, com a morte majoritariamente de crianças e mulheres em Gaza, aprofunda a dramática crise humanitária que vinha sendo enfrentada na estreita faixa sob cerco criminoso sionista há mais de 15 anos. O reconhecimento desse cenário trágico para seus 2,4 milhões de habitantes veio de um anúncio da ONU em 2015 de que Gaza se tornaria inabitável em cinco anos. Israel já vinha envenenando as terras agricultáveis dos palestinos, que dispunham, ainda antes do início de outubro deste ano, de 96% da água imprópria para consumo humano.

Mais da metade da população, a maioria originalmente refugiada da Nakba de 1948, tem menos de 18 anos e já tinha vivenciado outros cinco bombardeios massivos nos últimos 15 anos, além dos frequentes bombardeios a conta-gotas – inclusive em 2023, antes do início de outubro.

Agora com Israel tendo se sentido à vontade para partir para sua “solução final”, exacerba-se a crise hídrica. Os habitantes de Gaza passaram a beber água contaminada com esgoto desde o início desse genocídio em 7 de outubro. “Qualquer que seja o destino político que o futuro reserve para Gaza, as consequências a longo prazo para o ambiente no território são claras: a poluição de uma guerra que dura há semanas, proveniente dos estilhaços de bombas dos aviões de guerra e dos barris dos tanques, durará anos e talvez uma vida”, aponta reportagem do The New Arab de 5 de dezembro último.

Em 20 de novembro, a agência de notícias turca TRT World trouxe o alerta de especialistas sobre as consequências ambientais com que irão se confrontar os palestinos de Gaza quando finalmente as bombas sionistas pararem de ser despejadas sobre suas cabeças. Eles destacavam sobre como o uso incessante de munições e explosivos em Gaza tem lançado partículas tóxicas no ar e na água, com potencial para envenenar os habitantes de Gaza nos próximos anos e mesmo décadas, causando câncer, doenças respiratórias e cardiovasculares, entre outras.

“Prédios residenciais, escolas, mesquitas e até hospitais foram transformados numa mistura de poeira e metal retorcido. Para as centenas de milhares de pessoas deslocadas internamente, o ar se tornou irrespirável, a água está contaminada e faltam alimentos, o que as expôs a diversas doenças”, continua a reportagem. Bombardeios indiscriminados como os feitos por Israel lançam na atmosfera grandes volumes de gases de efeito estufa. “As estimativas baseadas nas informações disponíveis mostram emissões substanciais de dióxido de carbono, o que representa graves riscos à saúde”, segue a reportagem.

Para completar, Israel tem também despejado sobre os palestinos de Gaza armas químicas como fósforo branco que, também conforme a matéria da TRT World, quando exposto à atmosfera, “queima a temperaturas extremamente elevadas – altas o suficiente para queimar metal e ossos – e muitas vezes provoca incêndios”. A mesma reportagem revela: “A Agência dos EUA para Registro de Substâncias Tóxicas e Doenças afirma que o fósforo branco pode se acumular lentamente nos corpos dos peixes que vivem em lagos ou riachos contaminados.” Ou seja, se os pescadores de Gaza não conseguiam garantir antes sua subsistência porque Israel vinha cada vez mais diminuindo as milhas para que pudessem pescar, com o cessar-fogo não terá sequer peixe para que alimentem suas famílias.

Os impactos ambientais aprofundam a catástrofe e já são percebidos. Os palestinos têm sofrido com infecções e já se registra epidemia de hepatite em uma escola onde se abrigam refugiados. Oitenta por cento dos 2,4 milhões de palestinos de Gaza foram deslocados internamente nos últimos 60 dias.

Nakba ambiental

A catástrofe ambiental não se limita a Gaza. Na Cisjordânia, em que avança a limpeza étnica, com Israel já tendo matado somente nos últimos 60 dias mais de 260 palestinos e feriu cerca de 3 mil, o Estado sionista pratica apartheid climático contra o povo palestino, tendo transferido as indústrias mais poluentes para lá e instalado lixões sobre aquíferos que abastecem famílias palestinas. Além disso, usurpa recursos naturais e desde 1967 já derrubou mais de 800 mil oliveiras, o equivalente a 33 parques, afetando a subsistência de milhares de famílias.

O genocídio em curso em Gaza e o salto na limpeza étnica na Cisjordânia são uma nova fase na contínua Nakba, que é também ambiental ao longo de mais de 75 anos. Uma das organizações fundantes do projeto colonial sionista, o Fundo Nacional Judaico, foi responsável por transformar a paisagem nativa em uma europeia. Nesse processo, derrubou milhares de árvores, destruiu a mata nativa, lagos e rios, enquanto cinicamente afirma ter feito “florescer o deserto”, num dos mitos sionistas vendidos ao mundo na limpeza étnica de 1948.

Como enfatizou a ativista Greta Thunberg, uma das vozes que tem denunciado o morticínio em curso contra o povo palestino, “não há justiça climática na ocupação”. Não há justiça climática no genocídio.

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