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terça-feira, abril 23, 2024

Mulheres palestinas, sua luta não nos é indiferente

No último dia 25 de novembro, foi realizada uma ação feminista global em defesa da Palestina. Atendendo ao apelo das mulheres palestinas “Acabar com o genocídio em Gaza é uma questão feminista!”, atos e iniciativas de solidariedade foram organizados por movimentos de mulheres de vários países. Achamos a iniciativa muito importante. Não por acaso, a data é também o dia internacional pela eliminação da violência às mulheres. Como mulheres, sabemos muito bem o que é ser vítima da opressão. Como trabalhadoras e duplamente oprimidas e exploradas, não devemos e não podemos ficar indiferentes frente ao massacre que o Estado sionista e genocida de Israel está cometendo contra o povo palestino e, em especial, contra as mulheres palestinas.

Por: Érika Andreassy

75 anos de opressão e violência

Há 75 anos, as mulheres palestinas são vítimas da opressão colonial israelense. Em todos esses anos de ocupação sionista, com o apoio e a cumplicidade dos países imperialistas, os estupros e a violência machista foram usados como arma de guerra para humilhá-las e forçá-las a sair de suas terras; sofrem com ataques violentos de colonos israelenses e vivem sob a constante ameaça de terem suas casas destruídas e serem deslocadas; são afligidas pelo temor de que seus pais, maridos e filhos sejam presos, feridos ou mortos e, quando não, pelo próprio luto pela perda de seus entes queridos pelas forças de repressão.

O confisco de bens e terras e os bloqueios econômicos aos territórios onde a maior parte dos palestinos foram confinados (Gaza e Cisjordânia) elevam a pobreza feminina e a falta de acesso a recursos básicos para a sobrevivência a níveis dramáticos, o que é agravado pela impossibilidade de acessar o mercado de trabalho, devido às restrições ao movimento entre cidades. À sobrecarga pelas tarefas domésticas e de cuidados não remunerados que enfrentam as mulheres pobres da classe trabalhadoras, se combina a dificuldade de manter suas famílias em condições extremamente hostis, pois mesmo com o acesso ao trabalho restringido, são obrigadas a sustentar suas famílias sozinhas quando seus maridos são encarcerados, feridos ou mortos.

O Estado de Israel viola impunimente as mais mínimas normas internacionais, sujeitando as prisioneiras políticas palestinas a condições desumanas e degradantes.  As mulheres detidas muitas vezes passam semanas ou meses na prisão, sem direito a defesa e são submetidas às piores formas de humilhação, como revistas invasivas, violência sexual, tortura psicológica, espancamentos e confinamento solitário.

Para justificar seu atual ataque a Gaza, o governo israelense vem usando a desculpa (pouco convincente) de eliminar o Hamas, mas sabemos que não é verdade. O que está ocorrendo ali é apenas mais um capítulo da política de expulsão dos territórios ocupados e de limpeza étnica, que há décadas o Estado opressor de Israel impões ao povo e às mulheres palestinas.

Bombardear hospitais, mesquitas e centros de refugiados ou deixar civis sem luz, sem água potável e sem comida, impedindo inclusive que possam atravessar a fronteira para evitar a morte, não tem nada a ver com eliminar “terroristas”. É um genocídio deliberado e está longe de ser um caso isolado. Esse massacre, cometido deliberadamente pelas Forças de Defesa de Israel e cujo componente machista se expressa no fato de que são as mulheres palestinas (e seus filhos) os alvos principais, é parte do projeto sionista de expulsão dos palestinos de suas terras e precisa ser veementemente repudiado por nós mulheres trabalhadoras.

Pilares da resistência palestina

Mas as mulheres palestinas não são apenas vítimas do conflito. Parte integrante da luta pela libertação e emancipação do povo palestino e parceiras dos homens na resistência e luta contra a ocupação e colonização, historicamente elas têm sido protagonistas muito ativas na luta de liberação nacional. A história da resistência palestina está repleta de nomes de mulheres que ousaram enfrentar o exército invasor enquanto seu território era colonizado. O papel que cumpriram e seguem cumprindo como combatentes, organizadoras e líderes da resistência, demonstra tanto o potencial revolucionário das mulheres, como deve servir de exemplo para as/os lutadores do mundo todo.

Ainda no final do século XIX, lideraram os protestos contra as ondas inaugurais de imigração sionista com fins coloniais. Em 1903, fundaram a primeira associação de mulheres palestinas. Nos anos 1920, formaram vários comitês populares para articular protestos e demais ações de desobediência civil e garantir auxílio aos feridos nas manifestações. Em 1921, formaram a primeira União de Mulheres Árabes-Palestinas, que organizou protestos contra o mandato britânico e a Declaração Balfour – em que a Inglaterra, com anuência da França, Itália e Estados Unidos, expressava sua intenção de facilitar a constituição de um lar nacional judeu em terras palestinas.

Em 1936, foram essenciais na greve nacional contra o colonialismo britânico que favoreceu a migração dos judeus para o território palestino. Além de promoverem protestos e recolher fundos para assistência às famílias dos mortos e prisioneiros, fizeram parte das operações para transporte de insumos básicos e armas aos integrantes da resistência organizada. Em especial as mulheres camponesas e da classe trabalhadora palestina desempenharam um papel fundamental nesses processos, escondendo armas em suas roupas ou nos campos e percorrendo terrenos, compartilhando informações importantes com os guerrilheiros, como a localização das tropas britânicas e rotas de suprimento.

Já perante a consolidação do projeto sionista, em 1965, surgiu a União Geral das Mulheres Palestinas, ligada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Nesse período, diversas mulheres partiram para a ação direta, diante da omissão internacional à violação cotidiana de direitos humanos e a expansão israelense.

As intifadas (levantes) também ficaram muito conhecidas pelo envolvimento central das mulheres na sua ação (para se ter uma ideia, na primeira intifada entre 1987-1993, um terço das baixas foram de mulheres). E todos os anos, as mulheres se juntam aos protestos no aniversário da Nakba, exigindo o direito de retorno da população refugiada.

Um dos símbolos atuais da resistência palestina é Ahed Tamimi. A jovem ganhou repercussão em 2012, quando, aos 11 anos, foi filmada resistindo à prisão de sua mãe. Pouco depois, uma foto na qual ela aparece mordendo um soldado das Forças de Israel, que cumpria mandado de prisão contra o seu irmão mais velho, viralizou e ela se tornou mundialmente conhecida.

Em dezembro de 2017, Tamimi participou de manifestações contrárias à decisão do governo Trump (EUA) de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. O protesto no vilarejo palestino de Nabi Salih, na Cisjordânia, se tornou violento quando cerca de 200 ativistas palestinos começaram a jogar pedras contra soldados israelenses. Seu primo, Mohamed, de 15 anos, foi atingido na cabeça por uma bala de borracha disparada por um soldado israelense. Em resposta, Ahed e Nour Tamimi, (outro primo), revidaram, desferindo tapas nos militares israelenses. Por este crime (!), Tamimi foi condenada a oito meses de prisão. Com o acirramento dos conflitos contra as Forças de Defesa na Cisjordânia, pós ataque de Israel a Gaza, ela voltou a ser presa e permanece encarcerada.

Tamimi é presa por forças do Estado de Israel

Tamimi é presa por forças do Estado de Israel

Para além dos muitos nomes que estão registrados na história palestina, milhares e milhares de mulheres, dentro e fora da Palestina, na diáspora, lideram e sustentam a resistência de seu povo à opressão de Israel. São ativistas e lutadoras cujos nomes desconhecemos, que lutam pelo simples fato de que suas vidas e de seus filhos dependem disso, ou para exigir o direito dos refugiados de retornar à Palestina.

Nesse contexto, a maternidade tem um enorme significado de luta. Para muitas mulheres, ser mãe palestina significa não apenas constituir família, mas também manter o povo palestino vivo. Enquanto continuarem nascendo palestinos, a luta contra o Estado de Israel irá se manter e o território não será homogeneamente judeu. Para elas, isso é uma forma de resistir, de não deixar seu povo se extinguir. Não surpreende, portanto, que nos conflitos envolvendo Forças israelenses e palestinos (como no atual ataque a Gaza) os alvos preferenciais sejam mulheres e crianças.

Como exposto pelo jornal Haaretz sobre as t-shirts (camisetas que tem a forma de um T) utilizadas por soldados israelenses, que denotam a violência às mulheres palestinas. Dentre as t-shirts mais utilizadas e procuradas pelos soldados da unidade de atiradores, encontra-se a da mulher palestina grávida, com véu, no centro do alvo de um atirador com o famoso slogan: “1 tiro, 2 mortos”. Essa atitude, demonstra como a política de gênero molda as ações do Estado de Israel.

Por liberdade, igualdade e direitos

Isso não significa que na luta de libertação nacional, as mulheres palestinas renunciem à luta por seus próprios direitos como mulheres, pois elas sabem que a discriminação de gênero e a violência machista as colocam em piores condições para lutar contra o projeto sionista. Como explicou Khitam Saafin, presidente da União dos Comitês de Mulheres Palestinas: a ocupação “prejudica todo mundo, mas as mulheres carregam o fardo duplamente porque não têm poder suficiente para enfrentar as mortes, prisões e confisco de terras (…). A libertação é um passo, mas o outro é a igualdade social e a democracia interna na sociedade palestina”.

Um exemplo da luta das mulheres palestinas contra sua própria opressão foi a revolta pelo feminicídio da jovem Israa Gharave, em 2019, que levou milhares de mulheres às ruas exigindo justiça – resultando na acusação de três membros da família de Israa pelo crime –, bem como melhorias na proteção às vítimas de violência machista e a reforma do Código Penal de 1960, herdado da administração jordaniana, em que a “defesa da honra” é considerada atenuante em caso de homicídio. Tal ação gerou o movimento de mulheres Tal’at, que em árabe significa sair, cujas bandeiras de luta são principalmente o combate ao feminicídio, à violência doméstica, ao sexismo e à exploração assim como a emancipação dos palestinos e palestinas submetidas a opressão colonial.

Se bem o maior inimigo que enfrentam e a maior causa de sua opressão atualmente é regime sionista, ambas as lutas (contra as opressões colonial e de gênero) não estão dissociadas ou em contradição uma com outra, mas caminham juntas. Como disse Soraya Misleh, jornalista palestina-brasileira, coordenadora da Frente em Defesa do Povo Palestino no Brasil e militante do PSTU: “Não haverá paz, nem mulheres livres na Palestina, sem o fim da ocupação israelense ao território palestino e a destruição do Estado de Israel, mas como integrantes da resistência e parte fundamental da luta pela liberação de seus povo, as mulheres palestinas precisam ter seus direitos democráticos assegurados e poderem lutar nas mesmas condições que seus companheiros”.

Ao mesmo tempo, ambas as lutas, tampouco estão dissociadas da luta de classes em nível mundial e para serem vitoriosas precisam se travadas de maneira independente e sob uma perspectiva socialista e revolucionária, que tenha como estratégia a destruição do sistema capitalista, que, em última instância é o quem sustenta e reproduz todas as opressões. Isso nos leva a uma questão fundamental que trataremos em outro artigo, sobre quem é o sujeito social da luta pela libertação dos oprimidos, sejam os palestinos e/ou as mulheres.

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