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quarta-feira, fevereiro 21, 2024

O governo Lula, as privatizações e a ultradireita

A eleição do ultradireitista Javier Milei, na Argentina, trouxe preocupações aos trabalhadores do Brasil. Não é para menos. Afinal, ele é parte do fenômeno da ultradireita mundial que, apesar das diferenças em cada país, tem muitas coisas em comum.

Por: PSTU Brasil

Este setor defende terra arrasada, acelerar e aprofundar, sem dó, os ataques à classe trabalhadora, aos setores oprimidos, ao meio ambiente e à soberania dos países, como também atacar as liberdades democráticas. Tudo em nome do lucro dos capitalistas. Para isto, também promovem o ódio contra negros, mulheres, LGBTI+ e imigrantes.

O projeto defendido por Milei inclui privatização geral das estatais argentinas, a dolarização da economia e conta com uma vice negacionista dos mortos da ditadura militar daquele país.

“Esquerda” reformista e neoliberal pavimenta o caminho para a ultradireita

A situação argentina traz dois alertas. O primeiro é que a ultradireita não está morta e está à espreita para voltar ao poder. O segundo, que não adianta os governos capitalistas que se dizem de esquerda governarem o capitalismo em um modo neoliberal mais lento, pois isso não impede o fortalecimento da ultradireita.

Na verdade, o caminho da direita é pavimentado porque “governos de esquerda” defendem medidas que interessam aos monopólios capitalistas e terminam desgastados, piorando as condições de vida do povo, precarizando o trabalho, não enfrentando a pilhagem e a subordinação aos imperialismos; sem conseguir, assim, resolver as necessidades mais básicas.

E isso aduba o solo onde viceja a ultradireita. Milei ganhou a eleição depois da derrocada do “governo de esquerda” do peronista Alberto Fernandez.

Não há “mal menor”

Neste momento, isso é muito importante. Há uma grande parcela da esquerda que defende que, para derrotar a ultradireita, é preciso apoiar e defender o governo Lula. Mas, quando vemos o que está sendo feito pela ultradireita e pelo Governo Federal, vemos como esta posição, na verdade, leva ao fortalecimento das pautas e demandas da ultradireita.

Há, por exemplo, uma luta em curso contra as privatizações promovidas pelos governos estaduais de São Paulo e de Minas Gerais, nas mãos do Republicanos e do Novo, respectivamente. As mobilizações contra as privatizações, marcadas para o dia 28, em São Paulo, e que estão ocorrendo nestes dias 21 e 22, em Minas Gerais, são importantes. Com a luta, é possível derrotar os planos privatistas dos governos estaduais e, também, exigir de Lula a reversão das privatizações já feitas, como a da Eletrobras e impedir novas privatizações.

Ocorre que o governo Lula não é um contraponto aos processos de privatizações dos governos estaduais da ultradireita. Pelo contrário, vem fazendo parcerias nas privatizações promovidas nos estados, como demonstram o financiamento que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dará para a privatização das escolas paulistas.

Pretendem induzir um suposto desenvolvimento do país, injetando dinheiro público na iniciativa privada. Por isso, o governo anunciou um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) recheado de recursos públicos e baseado na proliferação de Parceria Público Privadas, que nada mais são que um tipo de privatização, com a diferença que os custos e riscos são assegurados pelo Estado, enquanto os lucros são privados. As multinacionais recebem todo tipo de incentivos e benefícios para abocanhar empresas, se instalarem no país e enviarem seus lucros para o exterior.

Há setores de direita que defendem, abertamente, privatizar tudo, cortando gastos públicos e criando o tal “Estado mínimo”. E há aqueles que se dizem de esquerda, mas que, na prática, também privatizam, só que de maneira diferente. Ao invés de venderem, fazem PPPs. Também defendem uma política fiscal neoliberal; mas, ao invés de cortes diretos dos gastos públicos, como fazia Temer, fazem a mesma coisa através do novo Arcabouço Fiscal. Defendem até aumentar um pouco os gastos, mas para tentar gerar algum crescimento econômico, remunerando os capitalistas com o orçamento público.

São duas faces da mesma moeda. Embora sejam diferentes, com ritmos diferentes, chegam ao mesmo lugar: um país mais subordinado, desnacionalizado, privatizado, com trabalho precarizado e alguma renda mínima.

Oferecem o mal menor: liberalismo em doses homeopáticas, com pequenas concessões no varejo. Mas, fazem o mesmo jogo do capitalismo em defesa dos interesses dos lucros privados dos bilionários brasileiros e internacionais. Mas, quem se diz de esquerda e, mesmo num ritmo mais lento, faz o jogo da burguesia e do capitalismo, alimenta a ultradireita!

Alternativa revolucionária, de classe e socialista

Para acabar com a desigualdade social brasileira é preciso enfrentar os grandes grupos capitalistas. Este é um problema histórico, que remonta à própria origem do país.

Inclusive, o fato do Banco do Brasil ter, comprovadamente, atuado centralmente na escravidão, possibilitando que acumulasse lucros e capitais, é só a expressão de uma responsabilidade que envolve todos os capitalistas brasileiros e o próprio Estado, submetidos ao imperialismo. Inclusive, não há reparação para o povo negro que não passe por enfrentar os interesses dos ricos e pela expropriação dessas riquezas que nos foram roubadas.

A dominação dos países imperialistas no Brasil é a base da nossa condição de pobreza, atraso tecnológico e desigualdade social. Da nossa condição de subdesenvolvimento e subalternidade econômica, política e social.

Por isso, também é tão importante a luta em defesa do povo palestino. Lula deveria romper relações diplomáticas, econômicas e militares com Israel, que está promovendo genocídio e apartheid. O que o impede de fazer isso não é uma movimentação tática para repatriar os brasileiros. Na verdade, este episódio comprova a subalternidade do Brasil aos interesses dos imperialistas. Esta luta é também parte da libertação do próprio Brasil do domínio do imperialismo.

O desafio político do nosso tempo é que, para enterrar de uma vez por todas o perigo de Mileis, Bolsonaros e Trumps, é preciso superar o programa, a estratégia e as táticas desta esquerda capitalista, liberal e defensora da ordem burguesa, que têm hegemonizado o cenário político, até o momento.

É preciso construir uma alternativa dos trabalhadores e das trabalhadoras, que vá à raiz dos problemas; ou seja, o capitalismo, e que signifique não só uma mudança de governo, mas também de sistema. Enquanto a esquerda ficar refém de um campo burguês e da defesa da ordem, cairá no colo da ultradireita a possibilidade de capitalizar este sentimento, ainda que ela seja a parte mais perversa deste sistema.

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