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sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Palestina: as diferenças entre revolucionários e reformistas

No momento em que escrevo este artigo, é muito cedo para fazer previsões. É muito cedo para dizer se um novo movimento de massas nasceu em todo o mundo. Mas certamente há sinais disso.

Por: Francesco Ricci

A faísca é a luta heroica do povo palestino, neste momento, sob bombardeio israelita contra casas, escolas, hospitais e ambulâncias, que já causaram pelo menos 10.000 mortes.

Enquanto Israel ataca a Faixa de Gaza também por terra, protegida por porta-aviões estadunidenses e duas fragatas italianas, as praças de todas as capitais ocidentais se enchem de manifestantes em solidariedade com os palestinos que não são freados pelas tentativas repressivas dos governos burgueses que revelam  a verdade da sua “democracia”.

O que impressiona é, sobretudo, o retorno das novas gerações às ruas. Jovens que não viveram nas últimas décadas as derrotas causadas e impostas em todo o mundo pelos líderes reformistas.

A história oculta

Há uma grande ausência em todos os debates sobre a Palestina: a história desse país e do seu povo.

Não é uma ausência casual nem simplesmente devido à ignorância (embora a maioria dos comentaristas dos meios de comunicação social sejam, sem dúvida, ignorantes). A razão é que, se for fornecida informação histórica básica, desmoronam todos os argumentos, tanto daqueles que estão do lado de Israel como daqueles que aparentemente estão do lado dos palestinos, mas com uma lista de distinções.

Ocultar a história é uma necessidade do imperialismo e dos seus seguidores reformistas, razão pela qual os textos históricos sérios sobre a Palestina são raros.

De particular interesse são os livros de Ilan Pappé(1), historiador, judeu nascido em Haifa (onde lecionou na universidade), que hoje vive exilado na Inglaterra, tendo tomado partido contra o sionismo.

Em A Limpeza Étnica da Palestina, Pappé, recorrendo a centenas de fontes, descreve detalhadamente como ocorreu a fundação de Israel em 1948, o que os palestinos chamam de Nakba (“catástrofe”).

A destruição das aldeias e a expulsão dos habitantes palestinos tinha sido meticulosamente preparada já na década de 1930, catalogando cada aldeia e os sujeitos considerados potencialmente “rebeldes” (por terem participado nas lutas contra o ocupante britânico na revolta de 1936-1939). Este trabalho foi realizado pela Haganah, a principal entre as milícias sionistas, formada em 1920 (e apoiada pelo Irgun e pela Banda Stern).

A limpeza étnica da Palestina, a “desarabização”, para usar o termo usado pelos sionistas, ocorreu segundo um plano preciso. Pappé relata a gênese da seguinte forma: «(…) em 10 de março de 1948 (…) um grupo de onze homens, veteranos líderes sionistas juntamente com jovens soldados judeus, deram o toque final ao plano para a limpeza étnica da Palestina. Nessa mesma tarde, as ordens foram transmitidas às unidades em campo (…) acompanhadas de uma descrição detalhada dos métodos a serem utilizados para a expulsão forçada da população: intimidação (…) assédio e bombardeio de cidades e centros habitados; incêndios de casas (…); expulsões; demolições (…). Cada unidade recebeu uma lista de cidades e bairros urbanos com objetivos do plano geral. Denominado em código Plano D (…). Depois de tomada a decisão, foram necessários seis meses para concluir a missão. Quando isto foi alcançado, mais de metade da população palestina original, quase 800.000 pessoas, tinha sido erradicada, 531 aldeias tinham sido destruídas e 11 bairros urbanos tinham sido esvaziados de habitantes” (2).

E é assim que Pappé descreve as operações de “limpeza étnica” numa destas aldeias, Deir Yassin, a leste de Jerusalém: “Quando invadiram a aldeia, os soldados judeus crivaram as casas com metralhadoras, matando muitos habitantes. Pessoas que ainda estavam vivas foram reunidas num só lugar e assassinadas a sangue frio, os seus corpos torturados, enquanto muitas mulheres foram estupradas e depois assassinadas” (3).

O mesmo foi feito em centenas de aldeias. Pappé relata dezenas de episódios semelhantes nas páginas de seu livro.

Não há dúvida então de que mesmo um conhecimento superficial da história palestina levaria ao uso do nome “terroristas”, que ressoa em todos os debates referentes aos palestinos, para os sionistas. Israel é um “Estado” literalmente construído sobre o terror, com tiroteios, bombas, violações e tortura para aniquilar uma parte da população e assim induzir o resto a fugir.

Quatro falsificações

O mecanismo em que se baseia qualquer debate sobre a chamada “questão palestina” contempla, em regra, quatro passos: primeiro, a história das origens de Israel é eliminada no marco do projeto sionista; segundo, repete-se a ladainha de que Israel é o “único Estado democrático no Oriente Médio”; terceiro, consequentemente, o “direito de Israel de se defender” é invocado; em quarto lugar, é introduzido um paralelo com o Holocausto e se define como “antissemita”.  qualquer pessoa que, sendo antissionista, não reconheça o “direito de existir” de Israel.

Vejamos estes quatro falsos argumentos que o historiador (judeu antissionista) Ralph Schoenman definiu como “quatro falsos mitos”(4)

Primeiro, escondem a essência do projeto sionista

A história das origens de Israel é uma história sangrenta. O projeto do sionismo (corrente política que nasceu no final do século XIX)(5), desde as suas origens, era expulsar os palestinos para ocuparem suas terras. O slogan “uma terra sem povo para um povo sem terra” serviu precisamente para mascarar o fato de que um povo já vivia na Palestina há séculos: os palestinos.

Quando em novembro de 1947 a ONU, com o voto da URSS de Stalin (que também apoiava os sionistas enviando armas), dividiu a Palestina em duas, atribuindo 56% aos judeus (que possuíam aproximadamente 5% das terras), Ben Gurion (líder dos sionistas das décadas de 1920 a 1960) disse aos seus seguidores que exigiam mais: o que é importante por agora é o reconhecimento formal de um Estado, o resto tomaremos com as armas.

É o início da limpeza étnica da Palestina. Para isso, em anos anteriores, como vimos, a Haganà recolheu informações sobre todo o território e etiquetou a milhares de seus habitantes.

Desde então, a extensão deste Estado artificial (proclamado em maio de 1948) nunca cessou. Ao roubo original de terras, legitimado pela ONU, juntaram-se outras terras com guerras e massacres: a guerra de maio de 48 ao início de 49 entre Israel e os países árabes (Egito, Jordânia, Síria); depois, a guerra dos “seis dias” de 1967, quando Israel também tomou posse da Faixa de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental (além da Península do Sinai e das Colinas de Golã).

Foi assim que os palestinos foram expulsos e divididos: cerca de 2,3 milhões vivem em campos de concentração na Faixa de Gaza, rodeados por arame farpado. 3,5 milhões vivem na Cisjordânia, onde a Autoridade Nacional Palestina (ANP) de Abu Mazen colabora com as forças israelitas e só no ano passado, 150 palestinos foram assassinados. Outros dois milhões vivem sem direitos no território definido como “Israel” (que tem dez milhões de habitantes), que só reconhece plenos direitos àqueles que podem ostentar três gerações de ascendência judaica. Outros 6 milhões de palestinos vivem como refugiados no Líbano, na Jordânia, etc., sem possibilidade de retornar à terra de onde foram expulsos para dar lugar aos colonos judeus de todo o mundo. Colonos que, de acordo com leis específicas de Israel, estão autorizados a assumir as casas e terras daqueles que são definidos como “ausentes”, ou seja, daqueles que foram expulsos.

O sionismo é um colonialismo particular: não procura explorar a população, mas sim aniquilá-la para tomar posse da terra.

Segundo, apresentam a Israel como «Estado democrático»

O refrão dos defensores de Israel é que este seria um “Estado democrático”, o único no Oriente Médio.

Não dizem que é um Estado que se autoproclama “judeu”, com base em mais de 60 leis raciais que distinguem entre cidadãos (judeus) e habitantes árabes ou de outras etnias. Apenas os primeiros gozam de plenos direitos, enquanto os restantes são discriminados em todas as áreas do trabalho e da sociedade. Ou seja, não dizem que se trata de um Estado confessional, teocrático, integralista (na vulgata ocidental, “integralistas” são islâmicos).

Além disso, nos “territórios ocupados” (Faixa de Gaza e Cisjordânia), este autoproclamado “Estado democrático” oprime cruelmente os palestinos: além da prisão, da tortura, da violação, há opressão econômica na Faixa de Gaza, formalmente não ocupada desde 2005, mas na realidade há vinte anos cercada e bombardeada periodicamente, privada de eletricidade e até de água. Segundo dados da ONU, 80% dos habitantes da Faixa de Gaza vivem em condições de pobreza extrema e 50% estão desempregados.

Terceiro, eles defendem o “direito de se defender” de Israel

Não só os comentaristas burgueses, mas também os dirigentes da esquerda reformista em todo o mundo, mesmo quando afirmam defender os direitos dos palestinos, são sempre rápidos a salientar que Israel “tem o direito de se defender”. Tentam ignorar que se trata de um assentamento colonial, construído através da destruição de cidades e vilas que ali existiam há séculos. Desta forma, ignoram inclusive o seu direito internacional (burguês), que também reconhece que as populações dos países ocupados se oponham aos ocupantes. Além disso, para os reformistas apenas a dos Territórios é considerada “ocupação”, ao mesmo tempo que legitimam os assentamentos que ocupam grande parte da Palestina, já que foram construídos em 1947 com o selo oficial da ONU: assentamentos coloniais que hoje levam o nome de “Israel”.

Quarto, eles equiparam o antissionismo e o antissemitismo

O leitmotiv mais difundido, contudo, é a equação entre antissionismo e antissemitismo.

Em virtude desta falsificação, várias “democracias” ocidentais (nas últimas semanas França e Alemanha, por exemplo) tentaram proibir e reprimir manifestações pró-Palestinas.

Mas a realidade é que existem dezenas de associações judaicas antissionistas que se mobilizam em todo o mundo.

Para completar a acusação de antissemitismo, é também feita uma referência indevida ao Holocausto perpetrado pelos fascistas de Hitler (nazis). Mas mesmo neste caso têm que esconder o fato de que na realidade histórica (como bem documenta Schoenman) os sionistas se aliaram e realizaram comércio econômico, paradoxalmente, em diversas ocasiões, com os fascistas alemães e com Mussolini: vendo nas perseguições antissemitas na Europa, um estímulo à emigração que poderia favorecer o projeto sionista(6). Não só isso, Schoenman demonstra como os sionistas foram silenciosamente cúmplices do próprio Holocausto, recusando-se a apoiar os judeus que pediam ajuda para organizar a resistência dentro e fora dos campos de extermínio de Hitler.

Por que o imperialismo apoia Israel

Alguns questionam-se por que é que os governos ocidentais, sem exceção, defendem Israel apesar dos massacres que tem levado a cabo. A razão é simples: Israel é o reduto do imperialismo no Oriente Médio. É graças a Israel que mantêm o controle militar de uma área crucial pelas suas riquezas naturais e localização geográfica.
É por isso que os Estados Unidos compensam todos os anos o déficit permanente de Israel com injeções de milhares de milhões de dólares.

A verdade é que Israel é uma gigantesca base militar imperialista, que produz e exporta principalmente armas e ferramentas de inteligência também utilizadas pelas forças policiais ocidentais para a repressão das lutas nos seus respectivos países.

Por que a esquerda reformista defende a miragem dos Dois Estados

Toda a esquerda reformista internacional defende o alegado direito de Israel existir e, portanto, de se defender. Os líderes do Syriza na Grécia, do Die Linke na Alemanha, etc. Eles também reiteraram isso nos últimos dias, chegando ao ponto de expressar solidariedade… a Israel pelos ataques palestinos.

Esta posição está articulada na proposta miragem dos Dois Estados (Israel e Palestina) que deveriam coexistir na terra da Palestina.
Esta é a posição que, independentemente das nuances, a Rifondazione Comunista, Potere al Popolo, etc. partilham na Itália(7).

Às vezes, alguns (por exemplo, Pap) falam de um futuro “Estado multiétnico”, mas isto é um jogo de palavras porque nunca é especificado onde e como poderia surgir se ao mesmo tempo se pretende defender a existência do estado colonial.
A fábula dos “Dois Estados” foi adoptada desde meados da década de 1980 pela componente majoritária da OLP, a Fatah (então liderada por Arafat). E depois foi oficializado com os Acordos de Oslo 1 e Oslo 2 (1993 e 1995) entre Arafat e Rabin. Estes acordos previam o estabelecimento da autonomia palestina (ANP) numa pequena parte do território da Palestina (partes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza) em troca do reconhecimento de Israel pela OLP. Foi a capitulação definitiva da direção burguesa palestina e a renúncia ao programa original da OLP, um programa não socialista que, no entanto, previa a libertação de toda a Palestina histórica, “desde o rio (Jordão nda.) ao mar “.

A Solução de Dois Estados, muitas vezes apresentada como realista, é na verdade uma fraude flagrante, por diversas razões. Em primeiro lugar, admite na premissa o primeiro roubo de terras palestinianas, o de 1947, aceitando que uma pequena parte das suas terras seja reservada aos palestinos, além disso, sem continuidade territorial. Em segundo lugar, deixa implicitamente de lado a questão do direito de regresso dos refugiados: para onde poderiam realmente ir? Em terceiro lugar, ignora que o próprio Israel corroeu progressivamente a parte da Cisjordânia que deveria constituir o Estado Palestino, ocupando-a com 700.000 colonos que, defendidos pelo exército israelita e pela polícia colaboracionista de Abu Mazen, expulsam sistematicamente os palestinos.

Ouvimos frequentemente que esta política de Israel deriva do fato de existir um governo de extrema-direita, o de Netanyahu. Na realidade, durante os primeiros trinta anos de existência de Israel, houve continuamente governos liderados pelo Partido Trabalhista(8), alternando posteriormente com o Likud, e isso não fez qualquer diferença substancial, precisamente porque é o projeto sionista, independentemente da cor do governo no poder, prevê a ocupação de toda a Palestina. Foi o líder trabalhista Ben Gurion quem organizou a primeira limpeza étnica; e foi o trabalhista Rabin (vencedor do Prêmio Nobel da Paz…) quem ordenou aos soldados que destroçasse as mãos dos adolescentes palestinos que atiravam pedras aos soldados durante a primeira Intifada que eclodiu em 1987.

Então porque é que as direções reformistas acreditam na ficção dos
“Dois Estados”, rejeitada pela grande maioria dos palestinos? Por que aceita a definição de “territórios ocupados” com referência apenas aos anexados por Israel em 1967, quando todo Israel está construído em território ocupado?

A resposta supostamente realista dos dirigentes reformistas (emuladores involuntários de von Bismarck, não exatamente um modelo revolucionário) é que “a política é a arte do possível”. Onde o “possível” implica o reconhecimento do sistema capitalista (que criticam nos sermões dominicais), enquanto o horizonte não contempla revoluções, mas apenas eleições, não o domínio da maioria (os proletários), mas apenas mudanças de governo para gerir de uma forma “mais humana” este sistema bárbaro (no qual, ao mesmo tempo, não desdenham de ocupar qualquer cadeira ou banco). Na Palestina, “o possível” se concilia na forma de um “apartheid” para os palestinos.

Para tornar uma perspectiva supostamente “realista” ainda mais implausível é a referência às Nações Unidas e ao enganoso “direito internacional”: como se ambos não fossem contidos por interesses dominantes. Uma recordação ainda mais grotesca, tendo em conta que o Estado colonial foi batizado pela própria ONU e pela ONU defendido até hoje, apesar de votar periodicamente resoluções humanitárias que têm o mesmo efeito que bater no peito e rezar três Ave-Marias para punir-se dos pecados.

É preciso acrescentar também que os planos do imperialismo, segundo as últimas declarações de Biden, contemplam a possibilidade, uma vez terminada a carnificina israelita, de usar o manto da ONU (e os capacetes azuis) para ocupar a Faixa de Gaza; confiando-o finalmente a Abu Mazen, que já se tinha distinguido pelo seu zelo colaboracionista na Cisjordânia.

A ladainha sobre os civis

Há um ponto que as organizações reformistas têm em comum com a maioria daquelas que definimos como “centristas” (isto é, aquelas que oscilam entre a embalagem revolucionária e o conteúdo reformista): é a retórica sobre as “vítimas civis”.

Dado que, como marxistas, distinguimos classes na humanidade, não civis de militares, e considerando que em Israel todos os civis (que são todos ocupantes ilegais) são periodicamente chamados às armas, ou vivem armados até os dentes como os colonos na Cisjordânia, a questão é que uma resistência popular, que não tem aviões, nem tanques, nem exército, não pode ater-se a um presunto código moral de combate na luta desigual com o ocupante.

É compreensível que a retórica sobre os civis seja parte integrante da propaganda pró-sionista dos meios de comunicação burgueses. É menos compreensível que certos autoproclamados comunistas comecem cada discurso lamentando as “vítimas civis de ambos os lados”.

Se algum dia quiséssemos aplicar um código de combate ideal, deveríamos condenar o assassinato de reféns (civis, incluindo o bispo Darboy) pela Comuna de Paris; ou a utilização de reféns pelos bolcheviques durante a guerra civil na Rússia; ou a resistência operária na Itália; ou a luta de libertação liderada pela FLN na Argélia, etc. Damos estes exemplos não por acaso, pois são fatos reivindicados por organizações que se definem como “comunistas”. Mas é evidentemente mais fácil defender o uso da força quando se trata de acontecimentos históricos distantes do que entrar em conflito com a opinião pública burguesa e defender hoje o direito dos palestinos de lutar contra as forças de ocupação por todos os meios necessários.

Trotsky, naquele magnífico panfleto que é Moralistas e Bajuladores(9), sugeriu aos ancestrais dos atuais reformistas e centristas que escrevessem um código moral da guerra civil, que proíba o uso de reféns, rifles e granadas de mão e bombardeios de civis. … alertando, porém, que “enquanto este código permanecer inaceitável como regra de conduta para todos, opressores e oprimidos, as classes em luta tentarão obter a vitória por qualquer meio, enquanto os moralistas pequeno-burgueses (… permanecerão) prisioneiros da moral da classe dominante (…)». Santas palavras!

Os confusionistas que apagam a questão nacional

Alguns grupos que afirmam ser “internacionalistas”, e até mesmo “marxistas” (isto é abertamente um mal-entendido), sustentam que a chave é unir o proletariado israelita e palestino contra as suas respectivas burguesias.

São os mesmos que, convencidos de aplicar um mandamento marxista, definem todas as guerras como imperialistas e não reconhecem (não levem a mal, Marx e Lenin) guerras justas, e por isso repetem diante de qualquer conflito que se trate de ter uma posição de derrotismo bilateral (é o que fazem, por exemplo, face à invasão russa da Ucrânia, recusando-se a apoiar a resistência ucraniana).

Na Itália temos uma rica amostra destes grupos, que negam a questão nacional, que dizem ter sido superada na era imperialista, assim como negam qualquer outra reivindicação democrática(10). Ou seja, eliminam a necessidade de um programa de transição que inclua questões democráticas para construir “uma ponte” entre a situação atual e a revolução(11).

É a posição expressa (com indubitável coerência) por vários grupos que descendem, direta ou indiretamente, do Bordighismo. (ainda que compará-los com Bordiga é fazer um elogio).

São, voltando à definição irônica de Lenine, pessoas que não se levantam dos seus assentos até verem surgir uma revolução “pura”(12).

É a posição expressa (com indubitável coerência) por vários grupos que descendem, direta ou indiretamente, do bordighismo (embora compará-los com Bordiga seja elogiá-los).

Mas deve-se notar que uma variante semelhante também é encontrada em grupos que fazem referência ao trotskismo. É o caso do SCR e da IMT que, no que respeita à questão palestina, embora tomem o lado dos palestinos (ao contrário do que fazem com a resistência ucraniana), saltam de pés juntos a questão nacional e parecem considerar Israel como qualquer estado capitalista, em vez de uma entidade colonial; contrastam a exigência democrática de autodeterminação com a exigência socialista (a expropriação da burguesia), emitindo a solução da questão nacional ao socialismo. Diferente dos bordigistas, utilizam argumentos menos impopulares nas mobilizações que se manifestam pela Palestina. Argumentos que, além disso, coincidentemente têm a vantagem de não impedir uma acomodação com os reformistas, que não querem ouvir falar da destruição do Estado de Israel. Assim, o SCR prefere falar de “desintegração de Israel do ponto de vista de classe”(13).

Por trás da aparente radicalidade “classista” desta posição esconde-se o vazio típico dos sectários ou (e este é o caso do SCR) do oportunismo, como Lenin já demonstrou há cem anos na sua polêmica com posições semelhantes de Bukharin(14 ). O sectarismo e o oportunismo são frequentemente duas faces da mesma moeda.

No caso em questão, não se considera que o Estado israelita é um Estado sui generis com um proletariado sui generis, composto por colonos: e como colonos, devem ser considerados não só os procedentes da Cisjordânia, mas também aqueles que vivem dentro das fronteiras de Israel  gozando do estatuto de cidadãos únicos, com privilégios sancionados por leis raciais que defendem uma superioridade étnica dos judeus com relação aos árabes, e que, sobretudo, vivem nas terras e casas que foram expropriadas dos palestinos. Se, em nome de uma alegada análise de “classe”, isto não for levado em conta, não fica nítido por que razão (exceto em casos isolados) todas as mobilizações do proletariado judeu de Israel, incluindo as mais recentes contra Netanyahu, são impulsionadas com exigências contra medidas governamentais independentes, mas que nunca põem em causa a existência de Israel.

Portanto, falar de uma perspectiva de coexistência entre israelitas e palestinos significa, em geral, ter ideias confusas sobre a questão nacional e sobre a abordagem marxista da mesma; significa, em particular, ignorar a necessária destruição de Israel, um Estado colonial que sobrevive não só com a exploração “normal” dos proletários, mas como uma base militar financiada pelo imperialismo.

A necessidade de outra direção

A nossa posição – e a posição histórica do trotskismo original – baseia-se na rejeição da divisão da ONU em 1947 e, portanto, apoiamos o objetivo da destruição de Israel como um passo inevitável para a futura convivência da maioria palestina (incluindo os milhões de refugiados) com uma minoria judaica não-sionista (e portanto não-israelense) numa Palestina não-racista e única: do Jordão ao mar.

Obviamente, não se trata de dividir o processo em etapas, mas de incluir a questão nacional palestina num programa transitório cujo resultado seja a revolução e a construção de Estados socialistas no Oriente Médio. Para conseguir tudo isto, é necessário apoiar não uma pacificação, como querem os reformistas, mas uma extensão do conflito que envolva todo o proletariado árabe, com o apoio ativo do movimento operário e juvenil dos países imperialistas. Praças e ruas de todo o mundo mostraram nas últimas semanas que isto não é um sonho. É claro que o desenvolvimento do movimento dependerá em grande parte da intervenção coerente dos revolucionários.

Portanto, é necessária a construção de outra direção revolucionária do movimento operário internacional e na Palestina(15). Mas a construção desta nova direção não pode ocorrer no vazio. Envolve o apoio incondicional à resistência palestina e participação na luta para expulsar os sionistas daquela terra que hoje é indicada nos mapas geográficos como “Israel”.

(7 de novembro de 2023)

Notas:

(1) Entre os numerosos livros de Ilan Pappé traduzidos para o italiano destacamos em particular: La pulizia etnica della Palestina [A limpeza étnica da Palestina], 2006, ed. isto. Fazi, 2008; La prigione più grande del mondo [A maior prisão do mundo], 2017, Fazi, 2022; 10 miti su Israele [10 mitos sobre Israel], 2017, Nova edição, 2022; e uma gigantesca Storia della Palestina moderna [História da Palestina Moderna], 2003, Einaudi,

(2) I. Pappé, La limpieza étnica de Palestina, pp. 4-5.

(3) I. Pappé, ibid, p. 117.

(4) R. Schoenman, The Hidden History of Zionism, [La historia oculta del sionismo] 1988: há traduções em vários idiomas (também disponíveis em pdf na Internet), mas não em italiano.

(5) Qualquer pessoa que queira aprofundar as origens e a história do sionismo pode achar útil: N. Weinstock, Storia del sionismo [História do Sionismo], 1969, Massari editore, 2006 e A. Léon, Il marxismo e la questione ebraica [ Marxismo e a Questão Judaica], 1946, Samonà e Savelli, 1972. León, um judeu polonês, líder da Quarta Internacional, morreu quando tinha apenas 26 anos no campo de concentração de Auschwitz. Destacamos também uma importante pesquisa de Shlomo Sand, L’invenzione del popolo ebraico [A invenção do povo judeu], Rizzoli, 2010.

(6) R. Schoenman, op. cit.

(7) Sobre as posições da Rifondazione Comunista, ver resolução aprovada pelo Comitê Político Nacional (26 de outubro de 2023) http://www.rifondazione.it/primapagina/?p=54636

A posição de Potere al Popolo é expressa em “Che succederà adesso in Palestine e che dobbiamo fare noi” [“O que acontecerá agora na Palestina e o que devemos fazer”] (18 de outubro de 2023) https://poterealpopolo.org/ palestina- cosa-dobbiamo-fare/ em que Pap exige que Israel se retire “retornando às fronteiras de 1967” e que os acordos de Oslo sejam respeitados.

(8) De 1948 a 1967, em Israel, o governo foi presidido sem interrupção pelo Partido Trabalhista (Ben Gurion, Golda Meir, Yitzhak Rabin); depois, até 1984, pelo Likud (conservadores, com Menachem Begin e Yitzhak Shamir); depois, alternando entre um e outro, e, de 2009 até hoje, salvo breves períodos, por Benjamin Netanyahu (Likud).

(9) L. Trotsky, Moralisti e sicofanti contro il marxismo [Moralistas e bajuladores contra omarxismo],1939,https://www.marxists.org/italiano/trotsky/1939/6/moralisti.htm

(10) É a posição clássica de “ultraesquerda” com a qual tanto Lênin como Trotsky polemizaram. Este último, por exemplo, escreveu: «O direito à autodeterminação nacional é naturalmente um princípio democrático e não socialista. Mas os princípios autenticamente democráticos são sustentados e realizados no nosso tempo apenas pelo proletariado revolucionário: é também por esta razão que estão tão intimamente entrelaçados com os objetivos socialistas” (tradução nossa). In: «A independência da Ucrânia e os sectários confusos»,

1939, https://www.marxists.org/italiano/trotsky/1939/7/indUcraina.htm

(11) L. Trotsky, Programma di transizione [Programa de Transição], 1938, Massari editore, 2008. Aqui (pp. 126-127) Trotsky escreve: «Os sectários só veem duas cores: vermelho e preto. Assim, para não caírem eles próprios em tentação, simplificam a realidade. Recusam-se a distinguir entre os dois lados da guerra civil em Espanha devido ao fato de ambos os lados terem um carácter burguês. Pela mesma razão, acreditam que é necessário permanecer “neutro” na guerra entre o Japão e a China. (…) Estes políticos estéreis normalmente não precisam de uma ponte sob a forma de exigências transitórias porque não têm intenção de passar para o outro lado. Eles simplesmente saltam sem se mover, auto-indulgentes na repetição contínua das mesmas abstrações vazias. Os acontecimentos políticos são para eles uma ocasião para fazer comentários, não para agir” (tradução nossa).

(12) V. I. Lenin, “Resultados da discussão sobre a autodeterminação”, 1916, em Obras Completas. Aqui Lenin zomba daqueles que acreditam que “de um lado um exército se alinha e diz: “Somos pelo socialismo”, do outro lado, outro exército se alinha e diz: “Somos pelo imperialismo”, e esta será a revolução social (…) um ponto de vista pedante e ridículo (…). Qualquer um que espere uma revolução social “pura” nunca a verá. É um revolucionário de palavras que não entende a verdadeira revolução” (tradução nossa).

(13) Ver a declaração da IMT (da qual o SCR é a secção italiana): «Chega de hipocrisia! Defender  Gaza” (11 de outubro de 2023), em: https://www.rivoluzione.red/basta-ipocrisia-difendere-gaza-la-dichiarazione-della-tmi/

e que diz: “Em última análise, só a criação de uma frente unida entre o povo palestino e a classe trabalhadora e os sectores progressistas da sociedade israelita criará a possibilidade de dividir o Estado israelita em linhas de classe, abrindo o caminho para uma democracia duradoura e democrática para a questão palestina”.

(14) A polêmica de Lenin com Bukharin (e Radek, Piatakov e outros), que sustentava que a questão da autodeterminação dos povos já não estava na ordem do dia na era imperialista e, de fato, deveria ser rejeitada como inalcançável ou reacionário, está contido em alguns textos de 1916, em particular ver: “Resposta a Kievsky” [também conhecido como Piatakov, sd.], “Em torno de uma caricatura do marxismo” e “Sobre a tendência nascente do economismo imperialista”. Todos os três, contidos no volume 23 das Obras Completas, Editori Riuniti, 1966, pp. 9-74.

(15) Pretendemos dedicar um artigo futuro à análise das ldireções históricas e atuais dos palestinos: partindo da OLP e dos seus vários componentes, até chegar às forças que lideraram a acção de 7 de outubro, incluindo não só o Hamas, mas também a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e outros grupos.

Artigo publicado em www.alternativacomunista.it, 11/11/2023.-

Tradução: Néa Vieira

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