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sábado, março 2, 2024

20 de novembro: Lições para aprendermos com nossos antepassados de Palmares

No dia 20 de novembro de 1695, Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, tombava pelas armas dos mercenários liderados pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. Com a queda de Zumbi, caía também a República de Palmares.

Por: Wagner Miquéias Damasceno

Zumbi havia assumido a liderança de Palmares ao destituir seu tio, Ganga Zumba, após este ter firmado um pacto com o governador da Capitania de Pernambuco. Zumbi sabia que não era possível estabelecer pacto algum com os escravocratas, afinal, a riqueza dos senhores de escravos exigia a escravização dos negros e negras.

Obstáculo ao escravismo colonial

De todos os quilombos que existiram no Brasil, Palmares foi o mais importante e um dos mais longevos: foram 60 anos de existência num território que abrangia os estados de Alagoas e Pernambuco.

Com uma população de aproximadamente 30 mil pessoas, Palmares havia se tornado, nas palavras do sociólogo Clóvis Moura, “no mais sério obstáculo ao desenvolvimento da economia escravista da região”. Sua forma de organização e a economia comunitária de Palmares desafiavam a desigual economia colonial. Por isso, a classe dominante mobilizou enormes esforços para destruí-lo.

A lembrança de Palmares não se resume apenas a Zumbi. Dentre suas lideranças estavam Acotirene e Dandara, líderes políticas e militares e expressões do elevado papel desempenhado pelas mulheres negras quilombolas.

Manipulação da história

A classe dominante escravocrata tentou, a todo custo, apagar por completo a memória de Palmares, destruindo o território originário, assassinando em massa os quilombolas e ocultando propositalmente sua verdadeira história. A classe dominante contemporânea, composta pelos modernos capitalistas, muitos deles herdeiros dos senhores de escravos, não faz por menos: elege os sanguinários bandeirantes como heróis nacionais e financia políticos e escritores para falsificarem a história da escravidão e das lutas negras pela liberdade.

Por isso, o 20 de novembro assume um significado muito maior do que um feriado para o povo negro e classe trabalhadora. É uma lembrança viva da luta dos explorados e oprimidos por sua liberdade e por uma outra sociedade.

Exemplo

Que lições podemos tirar de Palmares?

Uma das principais lições é que a conquista da verdadeira liberdade só pode vir através da luta daqueles que são explorados e oprimidos.

Uma segunda lição é que os interesses dos explorados e dos exploradores são sempre inconciliáveis. Por isso, os explorados devem zelar por sua independência de classe. Isso foi verdadeiro durante os quatro séculos de escravidão no Brasil, e segue sendo ainda mais verdadeiro hoje. 

No capitalismo, a fonte da riqueza dos burgueses advém da exploração dos trabalhadores. Os trabalhadores gostariam de viver de outra maneira e desfrutar de toda riqueza que produzem. Os burgueses querem manter as coisas do jeito que estão e seguir explorando os trabalhadores. São interesses inconciliáveis.

Concluir o legado 

Quem tem medo de novos Palmares?

Nem é preciso dizer que Bolsonaro e sua gangue tem um ódio mortal dos negros e negras. Porém, é preciso reconhecer que as coisas não mudaram profundamente com o governo Lula. Em março deste ano, Lula disse que a escravidão “causou uma coisa boa, que foi a mistura, a miscigenação”. Uma fala racista, afinal sabemos que a miscigenação foi resultado da violência sexual praticada pelos colonizadores contra as mulheres negras e indígenas.

E como se não bastasse esse tipo de declaração, o governo Lula vem produzindo uma série de medidas que atacam os trabalhadores, em especial, negras e negros. É o caso do Arcabouço Fiscal, que corta investimentos nos serviços públicos, prejudicando principalmente trabalhadores e negros, os que mais necessitam desses serviços. É o caso da Lei Antidrogas sancionada pelo próprio Lula, em 2006, e que hoje é a principal justificativa para a chamada guerra às drogas e chacinas que exterminam a juventude negra nas favelas e periferias. É o caso do Decreto Federal 11.498 de abril deste ano, que ampliou a privatização dos serviços públicos para a Educação, Saúde e Sistema prisional.

Se Bolsonaro é abertamente racista e não fazia questão de esconder que governava para os ricos, Lula age diferente. Enquanto aperta a mão da burguesia, dissimula esses compromissos acenando com a outra mão para os trabalhadores e para os negros. Se Bolsonaro personifica a sanha escravocrata, Lula personifica a traição daqueles que tentam desarmar os explorados e oprimidos em nome de pactos com a classe dominante.

Neste 20 de novembro, o povo negro e a classe trabalhadora devem tomar as ruas para denunciar toda a violência sofrida, exigir o fim do genocídio do povo negro e pobre, a revogação da Lei Antidrogas e do decreto 11.498/23.

Palmares, tombou. Mas seu legado e seu exemplo de luta seguem mais necessários do que nunca. Cabe a nós concluir a tarefa iniciada por nossos antepassados, derrubando esse sistema capitalista e construindo uma sociedade superior, uma sociedade socialista livre de toda exploração e opressão.

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