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terça-feira, julho 16, 2024

Estado Espanhol: Não só no futebol há machismo

Foi preciso ver na televisão o beijo não consentido de Rubiales em Jennifer Hermoso para que as mulheres não sejam questionadas quando nos atrevemos a denunciar que dia após dia também sofremos toques, olhares obscenos, insinuações ou desrespeitos; para que desportistas, jornalistas ou escritoras denunciem, sob o lema “Acabou”, que também sofreram desde o assédio no trabalho a estupros, como a maioria das mulheres neste mundo.

Não se trata apenas de Rubiales, aqui tem mais “pano para manga”

Primeiro temos que contar as coisas desde o princípio. Isto, que há alguns anos seria apenas uma anedota, hoje não deixa de ter sua importância porque internalizamos que somos mulheres e não «barbies», por isso rompemos o silêncio que antes nos acompanhava. Um silêncio que era questionado por grande parte da sociedade, sobre se era ou não verdade que todas nós mulheres sofremos esses abusos nos locais de trabalho, nas escolas secundárias, nas universidades, etc. Já é hora que isto venha à tona e que todas sejamos capazes de dizer a verdade e não nos culparmos pelas agressões que sofremos. É ele o culpado, o machista, não nós.

O esporte ou o futebol

Neste momento, não podemos falar de desporte em geral, porque para a imprensa não existe nada mais que o futebol, o tênis ou o golfe. Destes desportes só se publicam as notícias que são impactantes e sensacionalistas, que não prejudiquem a imagem idílica que se tem deles. Até há pouco tempo, a mídia só transmitia as partidas de alguns times e sempre times masculinos e, sobretudo, nada a “dizer” nem tocar a “cúpula” mafiosa da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), organismo machista.

Por isso, é normal encontrar notícias como estas quando se trata de mulheres: “Motim na seleção feminina: 15 jogadoras se paralisam e não jogarão até que seu treinador Jorge Vilda saia”, assim é a notícia maliciosa, ante uma carta enviada a Rubiales, presidente da RFEF, as jogadoras solicitaram “não ser convocadas até que sejam revertidas as situações que afetam nosso estado emocional e pessoal, nosso rendimento e, em consequência, os resultados da Seção que poderiam derivar em lesões indesejáveis”.

Há um ano, estas companheiras alertavam de algo muito sério, uma mudança da direção desportiva do time, mas a imprensa chamou de “motim” e a RFEF não hesitou em responder-lhes e emitiu um comunicado no qual dizia que não iria permitir qualquer tipo de chantagem e que isto não tem precedentes na história do futebol, tanto masculino como feminino no âmbito espanhol e mundial: “ não será permitido que as jogadoras questionem a continuidade do selecionador nacional e seu corpo técnico, pois tomar essas decisões não é da sua competência. A Federação não vai admitir qualquer tipo de pressão por parte de qualquer jogadora na hora de adotar medidas de âmbito desportivo. Este tipo de manobras está longe da exemplaridade e fora dos valores do futebol e do desporte, são nocivas”.

Entretanto, a coisa não ficou por aí. A RFEF ameaça as jogadoras e lhes disse que “as jogadoras que apresentaram sua renúncia unicamente retornarão à disciplina da Seleção no futuro se assumirem seu erro e pedirem perdão”. Não poderia ser pior. Com estas palavras, que soam ao tom empregado agora por Rubiales ao “pedir” desculpas, Jorge Vilda saiu reforçado e as 15 jogadoras não selecionadas, encerrando assim a questão…até agora. Talvez se tenha que reconhecer que o que as 15 denunciavam naquele momento era o início do que afinal, por desgraça, está acontecendo, que a RFEF é um organismo machista, certamente que sim. Mais uma vez, tratam a nós mulheres com superioridade, com prepotência e misoginia, por isso não apenas Rubiales é culpado, Jorge Vilda e o resto da RFEF não são diferentes.

Não só o futebol é um setor machista

Quem não quer ver é porque não tem olhos na cara ou olha para o outro lado. Não vou dizer que tem que colocar os óculos lilás para ver o que acontece neste sistema capitalista e numa sociedade patriarcal, mas sim considero que seja importante ver as coisas de um ponto de vista não tão individual, mas mais coletivo, mais social, deixar de ser tão individualista, sair da nossa zona de conforto e nos importar com que o que acontece no mundo, assim talvez possamos entender o que acontece ao nosso redor.

O machismo está instalado em nossa sociedade como uma praga social difícil de limpar e exterminar. Não precisamos remontar à pré-história, mas sim mencionar que o machismo conviveu e convive com todos os sistemas que nos precederam, para além de ter mais ou menos liberdades democráticas em alguns aspectos, como o direito ao voto, que as sufragistas pediam, direito ao aborto, que ainda hoje não é legalizado em todos os países ou leis como as que há em nosso país.

Fico somente no Estado espanhol e nas leis aprovadas pelos governos de Zapatero e Sánchez. Não podemos dizer que estas leis não sejam um avanço em relação à sua não existência, mas imediatamente temos que dizer que o papel admite tudo; no papel podemos colocar o que quisermos, se estiver dentro dos marcos da Constituição, portanto, dentro dos marcos burgueses. Por isso, não podemos deixar de fazer um pequeno balanço da implantação da Lei Orgânica de Igualdade efetiva de mulheres e homens de 2007, como poderíamos fazê-lo de outras.

Quais artigos foram implantados nas Instituições Públicas e também nas empresas privadas, que me perdoem se me engano, mas pouca tem sido sua implantação nas Administrações Públicas (AAPP) menos nas empresas privadas e menos ainda nos CLUB de elite, como são os desportivos de alta competição, não só do futebol mas em todas as disciplinas. E mais, quantos acordos existem que incluam a igualdade entre homens e mulheres? Poucos, ou muitos porque o papel admite tudo, mas não implantadas porque é sabido que a brecha salarial existe e mais ainda nas competições desportivas de elite. O Parlamento, o Senado ou inclusive as Prefeituras, as Administrações ou os Parlamentos Autônomos cumprem a Lei Orgânica de Igualdade?

É uma reflexão que venho ponderando há muito tempo e, sobretudo, desde que é permitido à VOX usar a tribuna do Parlamento, assim como ao resto das Instituições, para maltratar, difamar, ofender, com discursos de ódio, xenofobia, sexista, racista, homofóbico…; mas não só eles, também muitos e muitas militantes do PP-Partido Popular não ficam atrás, sobretudo na hora de não condenar o franquismo.

Estas Instituições do Estado permitem estes discursos, portanto, passivamente, são cúmplices de que “aqui vale tudo”. Se há um partido que fala assim, por que estranhar que haja pessoas que tenham essa opinião; frente à força da direita e da ultradireita, o governo responde com “flores”, de que servem então as leis se na hora da verdade, na prática, se permite todo tipo de linguagem contra as pessoas mais desfavorecidas do país, pobres, mulheres, imigrantes, etc? Por que quando estas pessoas falam e ofendem, o resto não sai do recinto? Temos que começar por limpar esta escória das Instituições.

Sim à demissão de Rubiales

Grande parte da sociedade saiu em defesa da companheira, o que demonstra que alguma coisa está mudando neste país: pelo menos se reaje a um fato visível, uma agressão vista em todo o mundo. Mas isto é só a ponta de algo maior da praga social que está embutida em todas as estruturas do sistema capitalista.
Me junto ao grito de: Demissão à Rubiales! E também à de Louzán (presidente da Federação de Futebol da Galícia) que justificou o ocorrido, “como erros que se cometem na vida”, mas considero que com estas demissões não se erradica o machismo, nem do futebol nem de qualquer desporte mais, nem ajudarão a assinar os Acordos Coletivos onde a igualdade entre mulheres e homens seja real e efetiva.

O machismo se combate dia a dia, nas ruas, com leis sim, com política de igualdade também, que vão mais além do papel, com uma educação 100% pública, gratuita, educação afetivo-sexual e laica, a depuração de juízes/as machistas e com a revogação de todas as reformas trabalhistas para acabar com a brecha salarial.

Machismo não se combate com notícias sensacionalistas uma semana, nem tampouco promovendo da acampamentos juvenis ultradireitistas da OJE-Organização Juvenil Espanhola, da Junta da Galícia na ilha de Ons, nem segregando por sexos nas aulas, nem subvencionando os centros que o fazem, nem pagando à Igreja mais de 4,866 milhões de euros de dinheiro público para seus centros educativos, em detrimento dos centros públicos.

Aí radica a hipocrisia desta falsa democracia, que não é mais do que a democracia burguesa onde vale tudo. E tenhamos nítido que isto dentro de um mês estará fora da mídia, estará fora da maioria das cabeças das pessoas e por isso voltará a acontecer algo parecido, pois não pensemos que com a demissão de Rubiales acabou o machismo da sociedade espanhola.

Tradução: Lílian Enck

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