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terça-feira, abril 23, 2024

O significado da queda do Muro de Berlim: debate aberto com Gustavo Petro

Em um discurso durante sua recente visita à Alemanha, o presidente Gustavo Petro lamentou a queda do muro de Berlim e apontou uma série de consequências negativas após o fato ocorrido há 33 anos em novembro de 1989.

Em seu discurso Petro afirmou que:

“A queda do muro de Berlim trouxe uma onda neoconservadora, uma destruição do movimento operário em escala mundial, um enfraquecimento impressionante e uma perda de alguns valores da esquerda”.

Por: Rosa Cecília do PST – Colômbia

Efetivamente a queda do muro simbolizou o encerramento de uma etapa de ascenso e conquistas da classe trabalhadora e a abertura de outra que trouxe consigo consequências nefastas para o movimento operário e para os trabalhadores a nível mundial. E mais que uma “perda de alguns valores da esquerda”, produziu uma adaptação gigantesca da esquerda à democracia burguesa e o abandono da estratégia revolucionária e socialista daqueles que ainda a reivindicavam um verdadeiro aluvião oportunista que dividiu ainda mais a chamada “esquerda”. O que não fica evidente é se com “destruição do movimento operário” Petro identifica o stalinismo e os estados operários burocratizados como os legítimos representantes da classe operária, do marxismo e do comunismo; ou faz eco às teorias pós-modernas que dizem que a classe operária desapareceu e que seu papel social e político é substituído por outros setores oprimidos, que o capitalismo demonstrou sua superioridade frente ao socialismo, o qual ficou enterrado definitivamente como estratégia dos explorados e oprimidos. Se lembrarmos o que Petro disse no passado recente, e por seu plano e exercício concreto de seu governo, a recusa em identificar-se como “esquerda”; pela defesa que faz do capitalismo, sua política de reformas do mesmo e sua auto localização em uma posição de centro no espectro político, acreditamos que suas afirmações estejam neste marco.

As declarações de Petro sobre o Muro de Berlim foram imediatamente tomadas pela burguesia de direita na Colômbia como María Fernanda Cabal ou Miguel Uribe com sua retórica anticomunista e defesa aberta da “liberdade” e da propriedade. Eles não perdem a oportunidade para apontar Petro como “esquerdista totalitário” tentando enganar os trabalhadores para que se posicionem contra tudo o que signifique uma mudança e mais ainda uma mudança verdadeiramente revolucionária.

É muito importante que a classe operária, que efetivamente continua existindo, apesar dos discursos do “fim da história”, tenha consciência do que ocorreu em fins dos anos 80 e inícios dos 90, porque esses acontecimentos explicam as dinâmicas da luta de classes atual.

Nós não lamentamos a queda do muro de Berlim porque foi o símbolo dos acordos entre as potências imperialistas vencedoras na Segunda Guerra Mundial que dividiram a Europa e o mundo de acordo com seus interesses, dividindo a classe operária. Nesta divisão da qual fez parte a burocracia soviética liderada por Stalin, se pactuou também a reconstrução capitalista da Europa ocidental, a dissolução da Terceira Internacional e o impedimento para que mais revoluções operárias triunfassem no mundo. O stalinismo apesar de sua política contrarrevolucionária, saiu fortalecido pelo papel determinante do Exército Vermelho na derrota dos exércitos imperialistas alemães. Não compartilhamos a divisão da Alemanha pois existiam condições para acabar de derrotar a burguesia europeia, ampliando o número de estados operários. Com a queda do muro, a Alemanha imperialista, acaba unificando o país, porém sob o capitalismo explorador.

Lamentamos a restauração do capitalismo

A restauração do capitalismo na República Democrática Alemã e no resto dos estados operários, equivocadamente chamados de “socialismo real”, constituiu uma verdadeira derrota histórica para o movimento operário mundial. Não porque o aparato stalinista mundial tenha colapsado, mas pela perda gigantesca das conquistas materiais que estes estados ainda mantinham como economias não capitalistas. Este salto para trás, deu impulso sem obstáculos à contraofensiva imperialista burguesa que nos países capitalistas se chamou neoliberalismo e assim como acabou com as conquistas da revolução, acabou também em seu próprio campo, com todas as conquistas trabalhistas e sociais alcançadas pela luta heroica da classe trabalhadora nos países capitalistas. Ou seja, foi uma derrota de conjunto para a classe operária mundial.

Este processo se deu quase simultaneamente na URSS, China e nos países da Europa do Leste naqueles anos. Vejamos: em fins dos 80 nos países socialistas ocorreram lutas operárias, de trabalhadores e da juventude, muito importantes contra as ditaduras stalinistas, verdadeiros regimes totalitários, liderados pelas castas burocráticas governantes que usurparam e se beneficiaram do triunfo dos trabalhadores quando, mediante revoluções, socializaram os meios de produção e expropriaram a burguesia. Este processo teve seus antecedentes na década de 70 do século XX na crise econômica após o que se chamou de boom econômico pós-guerra (depois da Segunda Guerra Mundial), que afetou todo o mundo, inclusive os estados operários conhecidos como países socialistas. Estas burocracias, em nome de sua política de coexistência pacífica com as potências imperialistas, endividaram os estados operários com o FMI e junto com a estagnação das economias, produto da burocratização dos planos quinquenais, começaram a aplicar, cada vez mais, medidas de cunho capitalista, deteriorando o nível de vida dos trabalhadores. Embora ainda conservassem a propriedade coletiva, o monopólio do comércio exterior e a planificação da economia, pilares fundamentais de uma economia de transição ao socialismo, eram minados dia a dia. Na década de 80, o ascenso da luta que ocorreu nos países capitalistas também alcançou os países socialistas, combinado com fortes movimentos contra as ditaduras totalitárias dos Partidos Comunistas governantes.

Em meados de 1989 na URSS ocorreram manifestações de descontentamento interno com greves de várias centenas de milhares de mineiros das regiões do Donbass, Kusbass e Vorkuta, configurando uma revolução política contra a burocracia stalinista. O mesmo ocorreu na Polônia e outros estados operários como a Romênia, onde a família Ceaucescu foi executada pelas massas enfurecidas; Checoslováquia, onde as gigantescas mobilizações levaram ao desmoronamento do governo do PC nas semanas seguintes à queda do Muro de Berlim. Na URSS, o monopólio do comércio exterior foi desmantelado em 1987, desde 1986 Gorbachov começou a autorizar a pequena propriedade privada, em 1990 o Soviete Supremo aprovou um plano para a economia de mercado e em 1991 foi abandonada a planificação da economia. Durante 1990 e 1991 as diferentes repúblicas que formavam a URSS foram rompendo com Moscou e em dezembro de 1991 é declarada oficialmente sua dissolução.

As lutas na China durante maio e junho de 1989 com a greve de fome dos estudantes na praça Tiananmen, manifestações massivas, protestos, uma verdadeira revolução política contra o regime totalitário foi esmagada pelo PCCH a sangue e fogo no que é lembrado como o massacre da praça Tiananmen.

Daí em diante, as velhas burocracias comunistas que administravam os estados operários e deles obtinham enormes privilégios, se transformaram em classe burguesa, tornando-se donos e rapinando a propriedade coletiva para seus interesses particulares, dando um enorme impulso ao capitalismo. Isto significou uma derrota da revolução política e uma contrarrevolução nas bases econômicas e sociais desses estados. Nos estados operários onde não houveram as revoluções políticas como em Cuba, a conversão da burocracia mãe em burguesia, os levou pelo mesmo caminho da restauração capitalista mantendo regimes autoritários de partido único e uma retórica socialista vazia. É como se a burocracia de um grande sindicato roubasse os recursos aportados pelos filiados e montasse uma empresa capitalista para explorar seus filiados como mão de obra assalariada.

Lamentavelmente as revoluções políticas, ou seja, revoluções para mudar o regime político e retomar o caminho do socialismo, foram derrotadas já que não conseguiram construir uma direção revolucionária, mas sim uma combinação de reação democrática, ou seja, utilização das demandas de liberdades democráticas contra os regimes totalitários para desviar as lutas, combinado com repressões violentas, não conseguiram reverter a restauração do capitalismo. O desenvolvimento das forças produtivas que a URSS, China e um terço da humanidade conseguiram graças à expropriação e nacionalização dos meios de produção e da planificação da economia, produto de profundas revoluções, foram convertidos em cota de rapina dos diferentes setores burocráticos, para se tornarem os novos burgueses donos privados dos meios de produção, de troca e dos recursos naturais.

A classe operária destes países, desprovida de uma direção revolucionária que dirigisse sua revolução política que barrasse a burocracia mantendo as bases econômicas e sociais, como propôs Leon Trotsky, perdeu as conquistas que havia conquistado com as revoluções, começando com a russa de 1917, a chinesa de 1950, a cubana de 1959, a iugoslava, a vietnamita de 1975. Também se perderam os estados operários criados a partir dos levantes da Europa oriental em meio à segunda guerra imperialista mundial pelo avanço do Exército Vermelho da URSS contra a invasão nazista dos exércitos de Hitler.

Uma nova traição, divide ainda mais a “esquerda”

A primeira guerra mundial produziu uma profunda divisão no que popularmente se chama de esquerda, ou seja, os partidos e movimentos da classe operária e dos trabalhadores. A ala oportunista da socialdemocracia, que Lenin chamou de social chauvinistas, adotaram a política de conciliação de classes, contrária à independência absoluta da classe operária frente aos seus exploradores promovida pelo marxismo.  Agrupados na Segunda Internacional, passaram para o campo de suas burguesias imperialistas apoiando-as na primeira guerra de rapina que custou milhões de mortos ao movimento operário. A ala revolucionária, fiel aos princípios marxistas dirigiu em meio à guerra e contra ela, a classe operária e os camponeses na Rússia, tomando o poder e construindo o primeiro estado operário com o objetivo de estender a revolução mundialmente.

Esta traição da socialdemocracia marcou a linha divisória entre revolucionários e traidores oportunistas. Em meio ao processo de derrota da revolução europeia, a URSS fica isolada e ocorre um processo paulatino de burocratização do Estado operário, do partido bolchevique e com eles da Terceira Internacional. São muitas as traições à classe operária que a nova burocracia assentada nessa enorme conquista, o Stalinismo, comete nos 70 anos de existência da URSS e outros estados operários. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, fazendo um paralelo com a traição da socialdemocracia que já mencionamos, que a maior traição foi a restauração do capitalismo. Tanto o Stalinismo como o Maoísmo perderam seu caráter operário, para converterem-se em correntes que defendem as burocracias governantes e exploradoras tanto da Rússia como da China, Cuba, etc. Hoje são uma corrente que apoia não só a exploração capitalista como as políticas expansionistas, guerreiras e opressoras como por exemplo a guerra de Putin contra a Ucrânia; ou que, sob o nome de Partidos Comunistas, como na China, mantenham ditaduras totalitárias a serviço do capitalismo mundial. É uma vergonha que continuem se chamando comunistas, porque sua prática desprestigiou o nome do comunismo e do socialismo, levando à confusão primeiro e, depois ao desencanto, de milhões de trabalhadores na luta pelo socialismo, justamente porque entre o “socialismo” dos “comunistas” e o capitalismo dos empresários veem muito pouca diferença. Porque em nome do comunismo se perseguiu, massacrou, encarcerou e desterrou milhares de revolucionários honestos e entregaram conquistas e direitos valiosos da classe operária mundial. A “esquerda” reformista, não só como disse Petro perdeu “alguns valores”, perdeu todos e fundamentalmente sua estratégia de derrubar o capitalismo.

A alternativa continua sendo a revolução socialista mundial

Muitos trabalhadores e honestos lutadores que têm que enfrentar diariamente as privações e injustiças deste sistema capitalista, as consequências do aquecimento global, com seus desastres naturais que sempre atingem mais, os mais vulneráveis, a juventude que sofre por um futuro incerto sem garantias de trabalho, nem de estudo, pensam que não vale a pena lutar por um novo sistema social, que isso é muito difícil, senão impossível de se conseguir. Ou que uma alternativa ao capitalismo já existiu e fracassou e, portanto, o que se impõe é lutar por direitos concretos e parciais, por reformas “realmente realizáveis”.  Nós socialistas não nos opomos a lutar por reformas, e na verdade o fazemos permanentemente, a grande diferença com os reformistas é que nossa estratégia não se reduz às reformas; não enganamos os trabalhadores dizendo que somando uma reforma atrás da outra conseguiremos uma nova sociedade mais justa.

A história tem demonstrado que o que a burguesia concede com uma mão, produto da luta dos trabalhadores, imediatamente tira quando estes se desmobilizam. É só analisar os exemplos dos 90 ou dos governos progressistas. A burguesia não está disposta a entregar uma só migalha aos trabalhadores e usa o aparato do Estado que continua mantendo em suas mãos, apesar de não ter diretamente o governo, para impedi-lo. Por isso dizemos que o que não se ganha nas ruas, nenhum parlamento nos dará. Nesta luta permanente temos que conquistar o poder do estado para os trabalhadores, os camponeses pobres e setores populares, expropriando os meios de produção, para colocá-los a serviço das maiorias, e defender o planeta do capitalismo depredador, acabando com toda exploração e opressão. Nossa estratégia é o socialismo mundial.

Tradução: Lilian Enck

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