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sexta-feira, julho 19, 2024

Peru: Sua estratégia e a nossa

Anunciada a “terceira ocupação de Lima”, o que constituiria o reinício da mobilização contra o governo assassino que Dina Boluarte lidera “em consonância “com o Congresso, é preciso perguntar: qual é o papel que a chamada “esquerda” tem desempenhado atualmente? Qual tem sido sua estratégia frente ao levante corajoso e combativo dos povos do interior, particularmente do Sul? Até que ponto seu posicionamento tem sido chave para que o governo e o Congresso se mantenham?

Por: Víctor Montes

A «esquerda» que o regime precisa

A verdade é que, desde o início dos protestos, as organizações que se dizem “de esquerda” se dedicaram a dividir a mobilização liderada pelos povos do interior, com a pretensão de acabar dirigindo a luta para seus próprios cálculos, que sempre são eleitorais.

Nuevo Perú, Juntos por el Perú, que inclusive têm representação parlamentar, brilharam por desaparecer de cena, e pela sua pouca combatividade. O mesmo fez o chamado “Bloque magisterial” e Perú Libre.

Na realidade, essa esquerda esteve calculando suas possibilidades eleitorais e convivendo vergonhosamente com o mesmo governo que supostamente denunciam como golpista. Carentes de candidatos, essas organizações especularam com a antecipação das eleições, ignorando as bandeiras de luta da população pobre que morria nas ruas.

Não é de surpreender que, indo até o final com esta atitude, “Chabelita”, a congressista nascida das lutas das operárias da limpeza pública, tenha aceitado, com um grande sorriso, a “Ordem do Trabalho”, das mãos de Boluarte.

A responsabilidade do Partido Comunista e a direção da CGTP

A direção da CGTP-Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru, controlada pelo Partido Comunista (PC), fez outro tanto. Ante a chegada de milhares de companheiros e companheiras do sul a Lima e iniciada a “ocupação de Lima”, este setor convocou marchas com destinos diferentes dos definidos certeiramente pelas delegações.

Com o passar do tempo, as convocações sem trabalho de base da direção da CGTP, primeiro para uma suposta paralisação nacional, e depois para uma menos credível greve geral por tempo indeterminado, que foram mobilizações caracterizadas pela sua pouca combatividade e acabaram por semear a desconfiança nas bases do interior em relação à atitude da classe trabalhadora, e de “Lima”, perante a luta empreendida. Depois da desconfiança, a desmoralização se propagou.

Não é de estranhar que hoje, essa mesma direção da CGTP, anuncie com grande alarde a assinatura de um acordo coletivo entre as centrais estatais e o governo, como se o de Boluarte fosse “um governo a mais”. Pelo contrário, coloca em evidência que, enquanto acusam Boluarte de ditadora, todo este tempo estiveram negociando e renunciando à luta direta para enfrentá-la.

Nossa estratégia

A política de todas essas organizações é a principal responsável de que o movimento operário, concentrado nas cidades e nas minas do país, e os povos do interior, não tenham constituído uma só força que derrube tanto o governo de Boluarte quanto o Congresso.

Por isso, a única estratégia que pode abrir o caminho para esta reivindicação, impor a antecipação das eleições imediatamente, e a convocação de uma Assembleia Constituinte, é justamente organizar e impulsionar a mobilização unitária e combativa das organizações do interior e da classe operária. Esse foi o ensinamento da poderosa paralisação nacional de 19 de julho de 1977, à qual tanto essas organizações que se dizem “de esquerda” fazem menção, mas que ignoram deliberadamente.

Esta é a estratégia que propomos às organizações operárias, estudantis e populares: construir um novo 19 de julho de 1977 organizando a partir das bases a paralisação real das fábricas, minas, portos e comércios, a autodefesa dos piquetes de greve e das colunas nas passeatas, o chamado à tropa da polícia e às FFAA a desobedecer a seus comandantes que os enviam para matar seus irmãos e irmãs, etc.

Isto significa fazer assembleias nas bases. Discutir e aprovar um plano de ação para retomar a mobilização permanentemente. Levantar como bandeira principal de toda luta, grande ou pequena, a queda do governo e do congresso, a antecipação imediata das eleições e a convocação à Assembleia Constituinte. E organizar comitês de luta onde as diversas organizações do povo pobre e trabalhador estejam unidas.

Construir uma direção para esta estratégia

Entretanto, garantir esta tarefa significa construir uma direção que a leve a cabo.

Uma direção revolucionária, classista, que levante o programa da luta que os povos do interior iniciaram contra este governo. E unificando com o das reivindicações mais sentidas da classe operária, se disponha a lutar, sem se submeter, até obter as demandas levantadas.

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A traição do Perú Libre e do Bloque magisterial

Se a chamada esquerda em geral é responsável, devido à sua capitulação, por a luta não ter continuado seu curso até a queda de Boluarte e do Congresso, o papel que Perú Libre e o Bloque Magisterial desempenham hoje a partir do congresso, é simplesmente rasteiro e traidor. Votam em algumas vezes, de acordo com seu interesse, com a direita mais rançosa, e outras vezes com o “centro”, negociando cotas e cargos como qualquer outro partido patronal.

Essa é a cara real da experiência perulibrista e dos dirigentes magisteriais que, junto com Castillo, foram às ruas em 2017 só para acabar no mesmo lodaçal dos demais grupos políticos desta democracia corrupta e assassina.

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Os setores médios e «democráticos»

Esta mesma política das direções, que levou a romper a possibilidade de concretizar a unidade entre a classe operária e o povo mobilizado para derrubar o governo e o Congresso, é a que entregou os setores médios das cidades à propaganda oficial, facilitando sua desmobilização.

Tanto a esquerda reformista, como as direções das organizações fizeram eco ao discurso que tachava de “violentas” a luta em curso para “justificar” suas convocações divisionistas e carentes de combatividade.

Com essa atitude, debilitando a luta e confundindo a estratégia, entregaram a consciência dos setores médios da cidade, muitos dos quais haviam adotado uma atitude anticastillista desde antes de dezembro, tanto pelos paupérrimos resultados do governo, como pela própria propaganda da direita política.

Tradução: Lilian Enck

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