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sábado, fevereiro 24, 2024

Angola: MPLA e UNITA sentem o baque com juventude e setores populares nas ruas

A crise econômica mundial, a pandemia e a guerra da Ucrânia fragilizaram ainda mais a economia semicolonial angolana. Coube ao administrador colonial, João Lourenço, emitir duras medidas econômicas para salvar os bancos e grandes empresas estrangeiras. A UNITA, oposição bem-comportada e consentida pela ditadura faz o jogo parlamentar e se nega a incentivar a luta do povo angolano. Os jovens, os rappers, os moradores dos bairros populares e as zungueiras (vendedoras ambulantes) começaram a gritar basta. O primeiro grito foi no 17 de junho.

Por: Cesar Neto

A independência política de Portugal foi uma grande vitória. Foi uma grande vitória política, porém não foi uma vitória que decretou a independência econômica, financeira e de tratados internacionais que os atava às grandes potências capitalistas. Assim, as grandes empresas exploravam petróleo, diamante e outros minerais, seguiram sugando as riquezas nacionais. Os bancos seguiram cobrando juros extorsivos por empréstimos e a continuidade do endividamento do país.

Por esse motivo afirmamos que Angola é uma semicolônia e que é preciso seguir a luta pela Segunda Independência. É necessário a nacionalização das riquezas minerais, suspender o pagamento da dívida externa, romper com os tratados internacionais que só favorecem as grandes potências e impõe a miséria ao povo pobre de uma nação rica. Ah… e nada disso é possível sem dar uma basta nos governantes do país que são verdadeiros administradores coloniais.

17 de junho, o primeiro grande grito de basta

Os jovens, os professores, profissionais de saúde, as zungueiras, o povo dos bairros periféricos já vinha, cada um a seu modo, dizendo: basta! Dizia-se basta, mas não com a força necessária como se falou na semana de 12 a 17 de junho. Esses dias foram marcados por manifestação de força, de descontentamento e dos gritos: basta!

O estopim foi o aumento do combustível de 160 para 300 kwanzas. Aumentou a gasolina e imediatamente aumentaram os preços dos alimentos.

As pessoas dirigiam sua ira contra a ditadura do MPLA e estavam certas. E contaram com o apoio e simpatia dos trabalhadores e jovens de todos os países lusófonos.

A selvageria repressiva de João Lourenço, ditador e administrador colonial

O MPLA e seu ditador João Lourenço sentiram o impacto das mobilizações e, desde a segunda-feira (12), autorizou a repressão violenta contra os manifestantes. Foram 13 mortos, entre os assassinados está um menino de 12 anos. Uma selvageria.

As pessoas se perguntavam por que tamanha selvageria. Angolanos matando angolanos.

A explicação é simples. João Lourenço havia assumido com o capital financeiro que pagaria os juros da dívida e para isso deveria aumentar a arrecadação economizando nos subsídios dos combustíveis. Mesmo assim, o dinheiro era insuficiente, então a ditadura optou por atrasar os salários da função pública. Fica evidente a opção do governo, primeiro os banqueiros e depois o povo.

João Lourenço, também tinha assumido com o capital estrangeiro que iria destruir ainda mais a Sonangol e autorizar a construção de três novas refinarias nas quais o Estado praticamente perdia a soberania do país sobre a produção de derivados de petróleo.

O administrador colonial ditador não poderia permitir que manifestantes impedissem que ele entregasse o país ao capital estrangeiro. Essa é a razão da repressão e assassinato de ativistas.

A oposição parlamentar bem-comportada

Enquanto os manifestantes gritavam nas ruas as consignas contra a ditadura, a oposição parlamentar e bem-comportada da plataforma eleitoral FPU (Frente Patriótica Unida), composta pelo UNITA, BD e PRA-JA Servir Angola[1], “apelavam” ao presidente que não permitisse a repressão aos manifestantes e que o governo deveria “tirar as devidas lições para melhorar a governação do país”.

Apelar, em qualquer dicionário significa pedir, implorar. As massas estavam lutando contra Lourenço e a FPU apelando ao governo, reconhecendo sua autoridade. E para piorar acreditam que esse governo pode tirar lições de como melhor governar o país.

Quando a polícia acusou a UNITA de responsável pelas manifestações do dia 17, ao invés de se sentirem orgulhosos de defender o povo angolano, se sentiram ofendidos e admitiram a possibilidade de “mover um processo por calúnia e difamação”[2].

Na verdade, a oposição bem-comportada, encabeçada pela UNITA não diz uma palavra sobre a suspensão do pagamento da dívida externa. Não diz uma palavra em defesa do petróleo 100% estatal e consequentemente não defendem a soberania nacional. A declaração se restringe aos aspectos superficiais e não leva o povo a ver o fundo da questão.

Aliás, se João Lourenço é um administrador colonial, a oposição bem-comportada se candidata ao mesmo cargo. Para JLO, Angola e EEUU “são parceiros em circunstâncias iguais, com uma colaboração direta florescente a todos os níveis e em todos os domínios”[3]. Adalberto Costa Jr. em um recente vídeo declarou[4] que “nos últimos tempos temos recebido uma solicitação bastante importante para nós de partilhas por parte do Corpo Diplomático [dos EEUU]” e que “EEUU são um país leal!” nesse sentido se mostra tão aberto ao capital norte americano quanto JLO.      

Podemos chamar de leal um país que de 2008 a 2020 tentara pelo menos nove golpes de Estado (e foram bem-sucedidos em pelo menos oito deles) em cinco países da África Ocidental?

As lutas seguirão na medida que a crise econômica e política segue viva

Sendo assim, estão colocadas três grandes tarefas:

* Basta de 48 anos de governo do MPLA a serviço do grande capital, dos banqueiros e contra a soberania nacional. Ditadura não!

* Nenhuma confiança na UNITA, pois são farinha do mesmo saco. Defendem o imperialismo, votam leis contra os trabalhadores e são parte do escândalo dos 25 mil dólares para os deputados.

* Nem MPLA e nem Frente Patriótica Unida/FPU (UNITA, BD e PRA-JA Servir Angola) por uma Assembleia Constituinte livre, democrática e soberana que seja o alicerce que poderá começar a reconstrução do país.

 E por que uma Assembleia Constituinte?

Em primeiro lugar por que todas as leis foram feitas ao longo dos 48 anos da ditadura do MPLA. Assim que, a Constituição, a maior de todas as leis respondem aos interesses dessa ditadura e do capital estrangeiro que eles representam.

* A constituinte tem que ser livre, democrática e soberana. Livre quer dizer que tenha total liberdade partidária e a possibilidade de candidatos independentes dos partidos; democrática pois quem deve financiar a campanha eleitoral serão os próprios candidatos. Financiamento por parte de bancos e empresas estrangeira é crime contra a soberania nacional; e deve ser soberana pois suas decisões não podem ser revogadas por nenhum outro poder.

* Nenhuma criança fora da escola. Educação pública e gratuita para todos. Merenda e material escolar financiado com o lucro da exploração minera e petroleira.

* Nenhum trabalhador sem casa. Nenhum camponês sem-terra.

* Direito irrestrito de organização e greve para todos os trabalhadores.

* Contra a opressão às mulheres. Machismo é crime.

* Todas as terras são do povo. O Estado não pode intervir e reprimir nas disputas entre pequenos proprietários e as empresas de mineração, petroleiras ou de loteamentos. Basta de repressão aos pobres e defesa dos ricos;

* O petróleo, o diamante e os recursos naturais são nossos. Fora as transnacionais.

* Reativar a Sonangol controlada pelos seus trabalhadores. Fora os ladrões e corruptos da principal empresa nacional.

* Suspensão imediata do pagamento da dívida externa. Auditoria independente da dívida.

* Na Assembleia Constituinte todos os membros eleitos poderão ter seus mandatos revogados a qualquer momento se for a vontade dos eleitores. Nenhum parlamentar constituinte poderá ganhar mais que um trabalhador especializado.

* Por uma Assembleia Constituinte que rumo a II Independência. Não queremos seguir sendo colônia disfarçada de país independente.

* Por uma Assembleia Constituinte que abra caminho para um governo de trabalhadores e do povo pobre.  

[1] Posicionamento dos Líderes Da FPU – UNITA – BD – Pra_Ja Servir Angola sobre as Manifestações de 17 de Junho – http://www.unitaangola.com/PT/affiartinouv4.awp?pArticle=15838

[2] UNITA diz que acusações da polícia angolana sobre manifestações são politicamente motivadas – https://www.asemana.publ.cv/?UNITA-diz-que-acusacoes-da-policia-angolana-sobre-manifestacoes-sao&ak=1

[3] Presidente da República assinala, em mensagem, trigésimo aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas com EUA – https://angola.org/presidente-da-republica-assinala-em-mensagem-trigesimo-aniversario-do-estabelecimento-de-relacoes-diplomaticas-com-eua/

[4] Adalberto Costa Júnior e o embaixador dos Estados Unidos da América em Angola, Tulinabo Mushingi                                                                                  https://www.youtube.com/watch?v=jylwP4TCnhY

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