ter jul 16, 2024
terça-feira, julho 16, 2024

Rússia em guerra, uma visão de dentro

Avaliar a consciência das massas sob uma ditadura é uma tarefa difícil. Na Rússia, as massas estão em silêncio. O povo trabalhador e os setores explorados e oprimidos não têm suas próprias organizações, não têm seus próprios líderes.

Por: Masha Chaykina, operária fabril, correspondente

Não há nada que possa servir para expressar coletivamente não apenas seu descontentamento, mas também sua opinião. Impera o temor à máquina de poder do estado, que mostrou sua crueldade na Chechênia, Geórgia, Síria e…agora na Ucrânia. Numerosíssimos processos penais “fabricados” e condenações excessivas com falsas acusações são demonstrativos dessa perversidade do regime dentro do país.

E, com certeza, duas décadas de propaganda chauvinista raivosa e demente também fizeram seu trabalho sujo: ainda há uma parcela significativa de trabalhadores e pessoas comuns que aprovam a guerra com a Ucrânia. Entretanto, segundo estimativas muito aproximadas, derivadas de dados indiretos e inclusive de sensações – pois os que aceitam responder às pesquisas de opinião são muito escassos – cerca de 20% dos russos se opõem firmemente à guerra e condenam a agressão do regime. Além disso, segundo os mesmos dados indiretos, a maioria dos jovens e dos trabalhadores com baixa renda, estão contra a guerra. Por outro lado, a proporção de apoio ao regime é maior entre os idosos e, curiosamente, a classe média, aproximadamente os mesmos 20%. E digo que pode ser curioso porque muitas “figuras públicas” ou intelectuais, que se exilaram gostam de criticar e depreciar o povo “inerte, obscuro e amargurado”. Isso não quer dizer que todos os trabalhadores estejam contra a guerra e todos os habitantes dos distritos privilegiados das grandes cidades estejam a favor. A grande maioria dos russos comuns guarda silêncio e continua vivendo sua rotina, geralmente pobre, preferindo não pensar ou não falar sobre a guerra.

A guerra polarizou a sociedade

Entretanto, a questão da guerra esquentou e agravou a polarização extrema da sociedade. Os opositores à guerra nunca perdoarão Putin e o regime pelos seus crimes, para eles (para nós) a vida mudou e vivem com uma expectativa e um desejo: o colapso do regime e o castigo dos responsáveis pela guerra. Por outro lado, os partidários da guerra também consideram seus oponentes não apenas oposição política, mas verdadeiros traidores e criminosos. Esses são os polos extremos da sociedade, mas esta divisão existe e é profunda e irreconciliável. Isso dá motivos para falar da possível ameaça de uma guerra civil na Rússia. Esta divisão atravessa literalmente as famílias, e isto é uma verdadeira tragédia. Tendo em conta que cerca de um terço dos russos têm familiares -e frequentemente os mais próximos, irmãos/irmãs – na Ucrânia, esta divisão adquire dimensões de uma catástrofe para a sociedade russa.

A classe operária

É importante entender que os próprios operários russos estão extremamente oprimidos. Os anos de “estabilidade” do regime de Putin, foram e são anos de trabalho duro para os trabalhadores, com perdas de benefícios sociais. Os russos estão abandonando em massa os bairros e cidades pequenas onde não há trabalho, onde as escolas e os hospitais estão fechados. Para obter uma renda mais ou menos decente, temos que trabalhar até à exaustão os sete dias da semana, comer e dormir pouco, viver em apartamentos alugados, viajar em transporte lotado. Para as massas trabalhadoras, simplesmente não há condições físicas para pensar, analisar, planejar…

O regime destruiu todos os meios de comunicação mais ou menos independentes. Os serviços secretos impregnam toda a sociedade, suprimindo, controlando ou infiltrando a mais mínima auto-organização, que só ocorre quando consegue encontrar força e vontade necessária. Tudo o que fica é a televisão com o alienado e desenfreado chauvinismo ou os estúpidos vídeos do YouTube ou TikTok.

Portanto, é falso o que é difundido amplamente em todo o mundo: “os russos apoiam massivamente o regime e a guerra”. Não há apoio massivo. O que há são operários e povo trabalhador oprimidos até o limite. Como também povos originários oprimidos na plurinacional Federação Russa. É evidente que, em termos percentuais, a maioria dos recrutados da mobilização compulsória para a guerra são habitantes das repúblicas nacionais, como Buriatia, Yakutia, Daguestan… E não é casual que nestas repúblicas ocorreram os protestos mais significativos contra a mobilização em outubro do ano passado. E além das pessoas comuns, há intelectuais elitistas, que vivem acomodados nas grandes cidades, que durante anos montaram shows de moda ou publicaram revistas refinadas por migalhas das corporações de Putin. Alguns deles saíram do país para mentir sobre o “apoio massivo ao regime pelo povo”. Com certeza, uma grande quantidade dos intelectuais que foram embora da Rússia são verdadeiros fugitivos das permanentes repressões do regime.

A rebelião, motim ou “marcha” de Prigozhin

E a respeito do “apoio massivo ao regime”, que se viu em 24 de junho. Marcha «Wagner» a Moscou. Não houve uma só manifestação em apoio a Putin em nenhuma cidade russa quando denunciou a rebelião em sua mensagem à nação.

Muitos russos nem sequer sabiam o que era a “Wagner”.  Os idosos que seguiam as notícias pela televisão pensavam que Rostov havia sido capturada pelo exército ucraniano! E não conseguiam entender o que significava uma “Companhia Militar Privada”. Como assim “privada”?

Alguns veteranos se confundiram com a analogia feita por Putin: “que Prigozhin é como Lênin, que atacou pela retaguarda de um país em guerra”. “Ele (Prigozhin) é como Lênin, vai num carro blindado, a história se repete”, disse um, chocado ao ver e não entender também a lógica da rebelião.

Se Putin quisesse restabelecer a ordem, atacaria a Wagner!” – disse uma operária, que talvez falou pela primeira vez desde que começou a guerra. Outra companheira a observa calada, mas diz em voz baixa e quase em segredo, mas com contentamento no rosto: “que se arrebentem um ao outro”. Um programador de escritório, que está contra a guerra: “Será uma teatralização para mostrar Putin fraco”.

No geral, esse dia foi um feriado de verão. Mas no metrô, as pessoas olhavam o tempo todo seus telefones, acompanhando as notícias. Entretanto, não houve medo nem pânico. Isso contrastava marcadamente com o que estavam sentindo e refletindo as “autoridades”: Putin se dirige à nação com um discurso de emergência, às 10 da manhã de um sábado e fala de “um motim militar e que a Rússia está em perigo”. Há rumores sobre a partida de voos com conhecidos oligarcas e a fuga de altos funcionários. Postos de controle e barreiras nas proximidades da capital. Cancelamento da festa de formatura de estudantes (um evento importante para todo adolescente, quase tanto quanto um casamento) e também suspensão de todos os eventos públicos.

Mas o povo acompanhou os acontecimentos sem pânico, porém com interesse e excitação. Um pedreiro da construção, imigrante do Quirguistão, com um irônico sorriso comenta que seus pais telefonaram: «Talvez você tenha que voltar, é perigoso aí na Rússia agora»… Ainda que, quando não era “perigoso” para ele e para os operários imigrantes do Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão, que são a metade da classe operária das grandes cidades da Rússia, sofreram a permanente opressão e humilhações do estado através da polícia e do serviço de migração.

Um trabalhador, que apoiou a guerra desde os primeiros dias da ofensiva, está enviando memes e vídeos zombando da “rebelião russa”. Idosos aposentados do povo, opositores da guerra, tomam conhecimento com assombro e desconfiança que o presidente de Belarus interveio na rebelião para mediar “Lukashenko? Ops! Não pode ser!… O que ele está fazendo aqui?» Um gerente de Moscou, pai de três filhos, que simpatiza com a guerra de Putin, recebe uma chamada de seus pais de outra cidade porque estão preocupados com como estariam em Moscou. Ele responde: “Não se preocupem, vamos nos fechar em casa e assistir filmes!”

Assim estamos sob a ditadura de Putin. Os partidários da guerra de Putin, se fecham em suas casas frente ao primeiro motim. Opositores que desejavam que “tanto Putin como Prigozhin se arrebentassem”. Os idosos que não entendiam o que é uma “companhia militar privada”. E outros que insistem em perguntar: “Rostov é uma cidade russa ou ucraniana?” Os jovens cuja festa de formatura lhes foi roubada, mas sim receberam naquela noite a “saudação” tardia do presidente Putin que naquela manhã havia entrado em pânico. E tudo isso em meio a queixas e descontentamento da maioria da população, esgotada até o limite por uma vida pobre e rotineira.

Esta ditadura só é “forte” em seu aparato repressivo. E este aparato está a ponto de explodir a partir de dentro devido ao estancamento da guerra (e isso apesar da ofensiva ucraniana ainda não ter alcançado toda sua força). Não há um apoio massivo à guerra. É ilusório e alimentado freneticamente pela propaganda oficial.

Muitos partidários ativos da guerra simpatizaram com Prigozhin e agora estão extremamente amargurados, mas não têm medo. Viram que, depois de tudo, a rebelião não foi reprimida. Os ainda partidários de Putin só querem “estabilidade” embora seja aparente. Em suas palavras, podem ser “ferozes” chauvinistas, mas na realidade se escondem em suas casas ante o menor perigo. Entretanto, o mais importante é que há um amplo estrato silencioso do povo, mas que tudo vê, que odeia o regime, que quer a vitória da Ucrânia e que anseia preparar-se para a possibilidade de intervir ativamente. Assim vemos a situação na Rússia a partir de dentro.

Tradução: Lilian Enck

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