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sexta-feira, abril 19, 2024

Motim dos mercenários Wagner: o cozinheiro de Putin expôs a vulnerabilidade de seu patrão

O dia 24 de junho ficará marcado na história como o dia em que Putin sentiu, pela primeira vez em 24 anos, que seu poder estava vacilando e poderia cair.

Por: SI do LIT-QI

O que acontecerá no futuro próximo com esse poder? É difícil para nós prever isso com certeza. Mas é evidente que seu regime está fragilizado de cima a baixo pela derrota estratégica que está sofrendo na invasão, ocupação e guerra prolongada na Ucrânia. Fundamentalmente, porque esta agressão genocida da máquina militar russa foi e continua sendo afrontada pela heroica resistência das forças armadas ucranianas, constituídas na sua grande maioria por operários e trabalhadores da cidade e do campo.

Quem é Prigozhin e o que é a CMP Wagner?

Prigozhin é um ex-presidiário por roubo, que nos anos 90 “reiniciou” sua vida em liberdade vendendo cachorros-quentes e depois abrindo restaurantes em São Petersburgo. Putin encorajou seus talentos culinários e trouxe visitantes estrangeiros “ilustres” ao seu restaurante. O que é interessante é ver como o regime de Putin, centrado na instituição FSB (ex-KGB), conseguiu catapultar Prigozhin, por meio de relações com o aparato do Estado, para ser o provedor oficial de alimentação do Kremlin e do fornecimento de alimentos para todas as forças armadas da Federação Russa. E daí para a fundação de um verdadeiro império financeiro e midiático, onde a Companhia Militar Privada (CMP) Wagner é apenas uma das empresas do grupo controlado pelo oligarca Prigozhin, que pelo menos até o início da guerra fazia parte do círculo próximo de Putin.

Há anos a CMP Wagner contrata mercenários que intervieram e continuam atuando em vários conflitos militares em vários continentes: Síria, Mali, Sudão, Donbass, Ucrânia desde 2014… Entre seus contratados estão inúmeros ex-oficiais de todas as armas do Federação Russa e de outros países, envolvidos em ações contrarrevolucionárias do regime de Putin. Apesar do método de guerra civil usado para derrotar as massas, continua os saques e roubos para seus chefes.

O Estado e o monopólio da violência

A formação de empresas militares privadas não é exclusiva da Rússia ou do regime Putin-FSB. Essas “empresas” também operam em outras potências militares. O caso mais conhecido é o da Blackwater, subcontratada pelo imperialismo norte-americano para atuar no Afeganistão e no Iraque com milhares de soldados. Acusado de tortura e assassinato, mudou de nome, mas continua funcionando.

No caso da Rússia de Putin e suas muitas expedições contrarrevolucionárias, essas formações proliferaram ao extremo. Antes da guerra ucraniana, cada grupo oligárquico ostentava suas forças armadas privadas com seus milhares de efetivos. O Wagner, o mais numeroso, chegou a ter 50.000, mas não é o único; há também o «Potok», financiado pela Gazprom, o «Patriota», que pertence a ninguém menos que Shoigu, o Ministro da Defesa que assina os «contratos» com as CMP.

No entanto, o confronto entre essas organizações é fruto – nada menos – da resistência determinada das massas ucranianas, que paralisa as conquistas militares de Putin ao alterar a relação de forças no terreno. O moral da resistência contrasta com a desmoralização das forças armadas russas e de sua tropa terceirizada de assassinos, pois não conseguem convencer os soldados da justiça de sua guerra contra todo um povo.

Um confronto entre companhias militares pelo saque de guerras

Há muitos meses vemos a escalada desse conflito, que se tornou o centro da crise e do motim das tropas do CMP Wagner. Prigozhin, de Bakhmut, denunciava que não lhe enviavam munições e, diante de uma pilha de cadáveres, acusava o ministro Shoigu e o chefe do exército, Gerasimov, de serem os responsáveis ​​por aquelas mortes devido à sua conduta desastrada da guerra. Seus insultos cresceram, sem mencionar Putin, mas insinuando que do Kremlin a guerra poderia ser conduzida por um “avôzinho delirante”.

Avanço do Wagner rumo a Moscou / Foto: Reuters

Nesse quadro, ele conseguiu aparecer como aquele que conseguiu tomar a cidade de Bakhmut, obrigando Putin a dar reconhecimento à Wagner. Encorajado por essa correlação de forças, Prigozhin, nas últimas semanas, diante de sua massiva audiência na Rússia, chegou a questionar os argumentos fundamentais com os quais a invasão foi armada, negando que o governo Zelensky ou a própria OTAN estivessem preparando uma agressão.

O pano de fundo do conflito entre Prigozhin e o alto comando das forças armadas russas residia na obrigação de Wagner de assinar um “contrato” com o Ministério da Defesa para continuar suas operações de saque, o que acabava com sua autonomia no terreno, para assinar acordos com os governos locais e sua total submissão à cadeia de comando das forças armadas. O que Prigozhin entende como a decisão da cúpula do poder político e militar de tirá-lo do jogo. Em outras palavras, dissolver seu negócio multibilionário com a Wagner. Há algumas semanas foi decretado que a partir de 1º de julho todos os contratos de serviço militar passariam para o controle de Shoigu, o ministro da Defesa (que também tem seu CMP). É claro que este foi o estopim para a preparação do abandono dos acampamentos na Ucrânia e a marcha “Pela Justiça” a Moscou.

O suposto “ataque” ao acampamento da Wagner

Prigozhin denunciou com vídeos bastante confusos que a artilharia das forças regulares do exército russo havia atingido sua retaguarda, causando baixas e destruição. A partir disso, começou a marcha, que começou tomando o aeródromo e a cidade de Rostov, onde funciona o Comando Sul do Exército da Federação Russa, e onde Shoigu estava visitando. Quando Prigozhin chegou, Shoigu já havia saído. Com isso, Prigozhin se reuniu com os chefes militares do distrito sul e exigiu que Gerasimov e Shoigu viessem falar com ele. Sem resposta, ele deixou Rostov bloqueado e rumou para o norte, onde assumiu o controle de Voronezh. De lá continuou sua marcha “pela justiça” em direção a Moscou, parando primeiro em Lipetzk, e depois, antes de chegar a Tula, a pouco mais de 200 km de Moscou.

“Para que serve a guerra? A guerra precisava que Shoigu recebesse uma estrela heroica… O clã oligárquico que governa a Rússia precisava da guerra”, disse. Contradizendo diretamente as afirmações de Putin de que Moscou se defendeu contra o contra-ataque de Kiev, Prigozhin também acusou a liderança militar russa de mentir ao público sobre a escala de suas perdas e reveses na Ucrânia. “O exército russo está recuando em todas as direções e derramando muito sangue… O que eles nos dizem é o mais profundo engano.”

O presidente da Belarus Aleksandr Lukashenko, um fantoche de Putin, reivindicou a mediação e garantiu em um comunicado que chegou a um acordo “absolutamente lucrativo e aceitável” para a Wagner e que lhe dava “garantias de segurança” sem especificar quais. O movimento de Prigozhin era extremamente arriscado, se apoiava na quebra da cadeia de comando do Estado-Maior.

Durante a noite de sexta-feira e o dia de sábado, Prigozhin cruzou seu Rubicão privado, encurralado pela espiral de sua luta com Shoigu. Lançou seu motim. O presidente Putin, que até este sábado havia permitido os deslizes de Prigozhin e suas desavenças com seu ministro da Defesa, acusou o chefe dos mercenários de traição, de “apunhalar o povo russo pelas costas”. E prometeu esmagá-lo: “Nossa reação será contundente”, disse em mensagem à nação.

Em um discurso furioso sobre o que ele considerou como uma traição pessoal de Prigozhin – que até agora era leal ao chefe do Kremlin e o tinha deixado de fora de seus ataques a Shoigu, às elites de Moscou e aos “burocratas corruptos” – Putin não deixou espaço para dúvida. Sem mencionar o nome de Prigozhin, embora o tenha feito à la Wagner, ao mais puro estilo do Kremlin contra os seus inimigos, o dirigente russo comparou a revolta deste sábado com a revolução de 1917 que destruiu o Império Russo, “quando o país lutava contra a I Guerra Mundial, mas lhe roubaram a vitória”, disse ele. “Não vamos permitir que isso aconteça novamente. Defenderemos nosso povo e nosso Estado contra todas as ameaças, inclusive traição interna. Ambições desenfreadas e interesses pessoais levaram à traição de nosso país e nosso povo”, disse Putin em um discurso de cinco minutos gravado e transmitido na manhã de sábado nos canais estatais.

Finalmente, no sábado, Prigozhin dobrou a aposta, afirmando, em uma mensagem de áudio transmitida em seus canais do Telegram, que Putin estava “profundamente errado” e que os homens da Wagner não são traidores, mas verdadeiros patriotas da Rússia. “Ninguém vai se render a pedido do presidente, a FSB ou de quem quer que seja. Não queremos que o país viva no engano, na corrupção e na burocracia”, disse Prigozhin horas antes de anunciar a retirada, alimentando a retórica contra as elites do exército regular, a quem acusou de enviar homens mal preparados ao “moedor de carne” da Ucrânia enquanto eles se enriquecem.

Um fim que pode ser o começo

O motim dos mercenários do grupo Wagner ocorre em meio e devido ao fracasso da invasão russa em derrotar a resistência ucraniana 16 meses após o início da invasão. O grupo Wagner foi incorporado ao esforço de guerra russo após a derrota das suas tropas nos arredores de Kiev, para reverter a situação de derrota e impasse militar. Armado até os dentes e contando com 50.000 mercenários (muitos deles recrutados em prisões russas), o grupo Wagner levou oito meses para destruir totalmente e tomar a cidade de Bakhmut, com perdas enormes e humilhantes, estimadas em 20.000 mercenários. Durante a Batalha de Bakhmut, a força de resistência ucraniana forçou Prigozhin a questionar o comando da guerra e ameaçar se retirar de Bakhmut.

Os reveses no campo militar suscitam a necessidade de centralização das forças russas para enfrentar a resistência ucraniana, com a incorporação dos grupos mercenários às tropas regulares. Essa centralização não foi aceita por Prigozhin, que preparou o motim com a tomada de Rostov-on-Don, quartel-general do comando sul, e a marcha “por justiça” rumo a Moscou com o objetivo de negociar seus contratos com o Kremlin e, eventualmente, causar a mudança do comando militar russo. Este motim teve, pelo menos, a complacência de parte da hierarquia militar. Após 36 horas, o motim foi desmobilizado após um acordo secreto entre Prigozhin e o ditador bielorrusso Lukashenko. Enquanto o motim representou a falência do comando das forças russas, a negociação secreta expôs a fraqueza de Putin, que havia prometido esmagar os amotinados.

O motim expôs as dificuldades do esforço militar russo e abriu uma grande crise no regime político do país, com o enfraquecimento de Putin e do comando militar. Historicamente, os fracassos militares abriram crises no regime político e levaram até mesmo à queda de seus governantes. Foi o que aconteceu na guerra russo-japonesa de 1905, na Primeira Guerra Mundial, na guerra do Afeganistão e na primeira guerra da Chechênia. O fracasso militar na Ucrânia pode selar o futuro de Putin e do regime da FSB-oligarquia.

A situação da contraofensiva ucraniana

A contraofensiva ucraniana, iniciada em 5 de junho, ainda está na fase inicial de identificação de flancos na linha de defesa russa, formada por trincheiras e campos minados. Foi precedida por uma série de operações ucranianas em solo russo, principalmente na região de Belgorod, para minar a confiança das tropas russas e de suas linhas de abastecimento. Até agora, as forças ucranianas recapturaram oito vilas na região de Zaporizhzhia e estão sitiando Bakhmut na província de Donetsk. No entanto, as forças ucranianas não têm hegemonia aérea e não possuem caças modernos.

As forças russas encontram-se enfraquecidas, com enormes perdas humanas e com dificuldades para recompor os estoques de armas e munições, e, portanto, impossibilitadas de promover ofensivas militares. Por isso, estão na defensiva, entrincheirados, mas o seu comando continua disposto a promover a destruição da infraestrutura ucraniana e provocar a fuga da população. Eles bombardeiam regularmente alvos civis nas principais cidades ucranianas. Em 6 de junho, as forças russas explodiram a barragem de New Kakhovka por dentro, causando violentas inundações a jusante e esvaziando a gigantesca barragem a montante, afetando o abastecimento de água para agricultura e cidades e impactando o meio ambiente. Além disso, a ocupação russa da usina nuclear de Zaporizhzhia coloca toda a população ucraniana, e até mesmo a população europeia, como reféns dos invasores.

A hipocrisia da OTAN

A OTAN conduziu o maior exercício militar aéreo de sua história montando 250 caças F-16 na Europa de 13 a 23 de junho. Os ministros da Defesa dos países da OTAN, reunidos nos dias 15 e 16 de junho em Bruxelas, decidiram não entregar caças modernos F-16 à Ucrânia, decisão que poderá ser revista no futuro. Esta decisão é consistente com a estratégia dos Estados Unidos e da União Europeia de enfraquecer, mas não derrubar, Putin e seu regime. A crise com os mercenários do grupo Wagner reforçou a necessidade de manter Putin, impedindo que líderes ultra belicistas ou aventureiros mercenários assumam o poder na Rússia.

As potências imperialistas promoveram em Londres, nos dias 21 e 22 de junho, uma Conferência para a Reconstrução da Ucrânia, com o objetivo de preparar desde já o controle da economia e riqueza da Ucrânia pelas grandes corporações ocidentais, política com a qual o governo Zelensky está sintonizado. Exemplo disso foi a decisão do governo ucraniano de proibir a população de perfurar poços de água em Kryvyi Rih, cujos bairros sofrem com a falta de água devido à explosão da barragem de New Kakhovka. Zelenski quer impor a privatização da água por meio do monopólio dos poços.

Todo o apoio à resistência dos trabalhadores ucranianos

O sofrimento infligido à população ucraniana é inestimável, mas não chegou a reverter o amplo apoio ao esforço de guerra para expulsar as forças russas. Milhões de trabalhadores e trabalhadoras participam do esforço de guerra, seja na linha de frente, seja na retaguarda, impedindo a conquista russa, apesar das políticas neoliberais do governo de Zelensky, que impõe privações à população. Para esta resistência operária devemos direcionar a solidariedade operária internacional, através de campanhas como a Ajuda Operária à Ucrânia, que recentemente enviou seu terceiro comboio. Quanto às massas russas, elas não temiam uma guerra civil, mas a chegada ao poder de um sádico que mata pessoas com um martelo.

Renovamos nosso CHAMADO À CLASSE OPERÁRIA E AO POVO RUSSO para se organizar e se unir contra a guerra, contra os oligarcas mafiosos e para acabar com a ditadura de Putin.

– Armas para a resistência ucraniana!

– Apoio às ações contra a guerra na Rússia! Liberdade aos presos políticos detidos nas prisões de Putin!

– Paz sem anexações! Pela expulsão das tropas russas de todo o território ucraniano, incluindo Donbass e Crimeia!

– Por uma reconstrução operária da Ucrânia! Pela socialização da água e de todos os bens básicos!

– Por uma Ucrânia independente! Por um governo dos trabalhadores e as trabalhadoras!

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