qui abr 25, 2024
quinta-feira, abril 25, 2024

Uma política para a Ucrania: um desafio para os internacionalistas coerentes

Definir com precisão as apostas geopolíticas por parte de Putin

No momento em que estas linhas foram escritas a intensidade dos combates em Bakhmut está provocando baixas sem precedentes no conflito entre os ucranianos e o regime de Putin. Apesar da captura de algumas posições pelo grupo Wagner na cidade, seu líder declarou: “É necessário por fim definitivamente na operação militar especial… Hoje, a melhor opção é informar todo o mundo de que a Rússia alcançou os resultados a que tinha se proposto”. Esta declaração, aparentemente independente, de Yevgeny Prigozhin é bastante sintomática das dificuldades para fazer coincidir os objetivos políticos estabelecidos nos estados maiores politico e militar com sua realização na pratica. Os objetivos políticos parecem se redefinir constantemente em função do equilíbrio de poder.

Por: Lucas Peeters, França

Assim, mais de um ano depois da invasão russa na Ucrania, segue sendo difícil estabelecer os objetivos e as prioridades da invasão russa: contrapor-se ao desenvolvimento da OTAN na vizinhança da Rússia? Provocar o colapso do governo e estados ucranianos e substitui-lo por um governo mais propício para salvaguardar os interesses russos na região? Ou simplesmente assegurar o controle da Rússia sobre o acesso ao Mar Negro? Ou avançar finalmente na reconstrução de um império “tzarista”?

Por parte da OTAN

A hipótese de que a OTAN arme a resistência ucraniana para permitir-lhe derrotar rapidamente a Rússia é pouco provável, principalmente se observamos a gradualidade e a insuficiência da ajuda militar enviada à resistência ucraniana: misseis cujo alcance não permite atacar as bases de lançamento russas, anúncios de envios de tanques ou baterias antimísseis que requerem infraestruturas que levarão meses para serem montadas e que não respondem de fato à emergência militar… Os anúncios de apoio militar à Ucrania parecem assim mais um pretexto da parte dos países implicados para aumentar seus próprios orçamentos militares e justificar suas politicas de segurança internas, assim como suas aspirações imperialistas. Cabe ressaltar que não acreditamos que a guerra na Ucrania seja principalmente o terreno de uma confrontação militar inter imperialista, que se trata principalmente de uma guerra de libertação nacional, mas a exacerbação das tensões econômicas inter imperialistas aumenta a possibilidade de uma guerra inter imperialista a longo prazo.

Na situação imediata, este cenário serve principalmente ao regime de Putin, já que coloca limites aos envios de armas à resistência ucraniana, sem evitar a escalada, já que uma vitória russa reforçaria a capacidade do agressor para repetir este tipo de operações, especialmente por sua maior capacidade de obter matérias primas através das minas do leste da Ucrania ou apoderando-se de uma parte da produção agrícola ucraniana.

Alguns eixos e contradições geopolíticas gerais a serem levados em conta pelos revolucionários internacionalistas:

Nesta configuração, propor uma política internacional de apoio às forças progressistas dos diferentes países afetados é um desafio importante para derrotar os que buscam se aproveitar da guerra nos distintos países. Esta política deve-se dirigir em primeiro lugar, é claro, aos proletários implicados na resistência civil e militar ucraniana, mas também aos opositores russos e às redes militantes que se reivindicam anti-imperialistas nos países da OTAN. Este último ponto é tão ou mais importante quando uma parte do apoio a Putin é o resultado das políticas neocoloniais de alguns destes países ex-OTAN, como demonstram as manifestações pro-russas na República Democrática do Congo durante a visita do presidente francês no mês passado, com dezenas de manifestantes que carregavam bandeiras russas. Estas reações, que devem ser “compreendidas” além de combatidas, também podem permitir compreender melhor as tendências opostas pró-OTAN ou pró-UE que se desenvolvem na Ucrânia desde 2014. De fato, entre as aspirações do movimento Maidan, além das reivindicações sociais, estava a vontade de se emancipar da ingerência russa multiforme na vida política e econômica da Ucrania.

Que pontos de apoio para que margem de manobra na situação?

Na Rússia

A situação social na Rússia está marcada no momento principalmente por um movimento social contido há anos pela repressão governamental e também para-governamental. O encarceramento ou envenenamento de opositores “democratas liberais” ou os assassinatos de jornalistas ocupam frequentemente o espaço midiático fora do país, mas além dos “exemplos”, é o conjunto do movimento social que é atacado em profundidade.

A eficácia dos métodos de repressão também vem acompanhada, no momento, de uma sensação de estabilidade interna para as classes sociais que viveram o caos da restauração capitalista nos anos noventa. No momento, o cenário de um colapso imediato do regime de Putin através de uma revolta popular parece, consequentemente, muito pouco provável. No entanto, o custo humano e material da invasão russa, e, portanto, indiretamente da resistência ucraniana, está produzindo tensões sociais que devemos esperar que se desenvolvam com o prosseguimento e o endurecimento do conflito.

Entre as resistências que provavelmente cresçam, está, como em muitos países, o movimento de mulheres, ativo desde o início da invasão, mas cujas manifestações foram reprimidas. Também há organizações da esquerda revolucionária ou da segunda confederação sindical do país, mas também são fortemente reprimidas. As redes anarquistas também expressam sua oposição à guerra, por exemplo, com a reivindicação dos atos de sabotagem nas ferrovias. Entre as forças que resistem aos esforços bélicos estão os soldados que desertam do fronte ou se levantam, suas famílias que os apoiam e os civis que protestam contra o serviço militar obrigatório imposto por Putin, dirigido contra as minorias étnicas e nacionais e que poupa os mais vulneráveis. Os grupos de direitos humanos também dão seu apoio. Como todas as forças mencionadas anteriormente, as mães dos soldados ainda não desempenham um papel de organização suficientemente importante para desestabilizar o regime. Esta situação não é estática: podem passar vários anos até que surjam forças antibelicistas significativas em um país agressor. Por exemplo, levou três anos para que tais forças desempenhassem um papel significativo na França durante a guerra da Argélia. Sem perder de vista estas forças e este cenário, devemos nos apoiar no momento em outras alavancas.

Na Ucrania

Assumindo que não existe uma perspectiva bilateral antibélica que possa conduzir ao fim do conflito e a retirada total das tropas russas, nossa atenção deve se centrar nas forças políticas e sindicais comprometidas com a resistência ucraniana que, combinadas ou não, lutam contra os ataques aos direitos sociais feitos pelo governo Zelensky. Portanto defendemos uma estratégia independente da classe operária ucraniana e seus aliados para ganhar esta guerra. Deste ponto de vista é importante deixar nítido que estamos na frente militar do exército ucraniano, ao mesmo tempo que nos diferenciamos politicamente do governo. Se a guerra impõe limites à frente militar e ao poder estabelecido, devemos evitar a armadilha da unidade nacional em que se baseia Zelensky. Tal unidade nacional serve para atacar os direitos sociais e democráticos a fim de garantir a rentabilidade dos investimentos dos imperialistas, que ajudam hoje para melhor colonizar economicamente amanhã. Os limites nem sempre são fáceis de serem determinados a partir do exterior, porque precisam levar em conta que as expressões críticas públicas não podem ser demasiadamente abertas com Zelensky, pois do contrário os militantes das organizações progressistas se expõem à repressão ou são enviados para operações militares especialmente arriscadas. Estas são as perguntas que se pode fazer ao Movimento Social (Sotsialnyi Rukh), porque, ainda que apoiem a resistência ucraniana, fazem reivindicações sociais progressistas e criticam todo o imperialismo, é difícil encontrar em seu programa elementos claros de rechaço à integração da Ucrânia à OTAN ou à União Europeia. Entre as demais organizações politicas ativas, também há redes anarquistas ou anarcocomunistas como a União Autônoma de Trabalhadores, mas os sindicatos parecem ser os pontos de apoio mais interessantes em escala massiva. A KVPU, a confederação dos sindicatos livres da Ucrânia, implantada nas grandes empresas (ferroviárias, transportes urbanos, metalurgia, mineração, energia…) se caracteriza principalmente por contar entre seus dirigentes, alguns que se posicionam em apoio à resistência ucraniana, mas também em uma linha anti-imperialista e contra os ataques ao direito ao trabalho.

Em relação às denuncias dos retrocessos sociais na Ucrânia, há que se colocar foco também no sindicato estudantil Ação Direta (Pryama Diva) que denuncia a politica do governo ucraniano frente aos estudantes. Realizaram campanhas de ação pacifica e se colocaram em contato com o movimento estudantil francês para desenvolver a solidariedade internacional.

O movimento feminista é outro componente do movimento social de resistência ucraniano que necessita de apoio para que as forças progressistas tenham uma voz mais forte no panorama politico ucraniano agora e no futuro. O grupo Bilkis vincula as questões feministas com o anticapitalismo.

Que redes e quais questões políticas requerem um apoio concreto?

A rede Sindical Internacional de Solidariedade e Luta

Com a organização de dois comboios no currículo, a rede RSISL é a que oferece melhores perspectivas em termos de orientação política: apoio material direto aos sindicatos independentes, denúncia das políticas antissociais de Zelensky e das depredações imperialistas ocidentais. No entanto, seus recursos financeiros, logísticos e humanos requerem um forte desenvolvimento que não será suficiente para responder às necessidades dos trabalhadores ucranianos em um futuro próximo. Também cabe mencionar, de passagem, que algumas confederações sindicais nacionais estão tomando iniciativas interessantes, mas sem assumir uma dimensão internacional e unitária que poderia ser assumida pelas bases destas organizações. A falta, no momento, de uma centralização das iniciativas independentes de governos, a participação em campanhas de apoio politico e material dirigidas diretamente aos trabalhadores da Ucrânia, tal como se apresentam, parece ser a melhor perspectiva, mas não a única. Por isso é necessário avançar na construção de uma frente sindical de unidade de ação com a resistência ucraniana na Europa e no mundo, coordenando e amplificando as iniciativas de solidariedade que desenvolvam a capacidade dos trabalhadores para atuar com independência da patronal e seus governos

A Rede Europeia de Solidariedade com a Ucrânia

Esta rede é formada por organizações de distintas naturezas políticas, sindicais, associativas… Em particular organizou um comboio de solidariedade em maio de 2022 e, desde então, organizou atos nos países em que está implantada. Ainda que esta rede defenda posições progressistas em questões sociais (leia-se a primeira página do site), as iniciativas que toma são menos exigentes que as da RSISL em termos de independência institucional. As atividades que aconteceram na França no primeiro aniversario da invasão russa foram inclusive problemáticas. Se é necessário explorar o desejo de desenvolver vínculos com a diáspora ucraniana, é problemático que se faça sem delimitar-se politicamente das posições abertamente pró-imperialistas das potências da UE e dos Estados Unidos, que também são uma ameaça potencial à soberania ucraniana. Ao aceitar personalidades pró-OTAN e muitos direitistas como Alain Madelin ou Bernard Guetta, ou ao deixar que a embaixada ucraniana financiasse a manifestação, as intervenções dos trabalhadores durante as reuniões e a manifestação em torno ao 24 de março serviram, de fato, mais como um respaldo dos trabalhadores a um marco cujo tom geral pode ser facilmente cooptado pelo governo ucraniano para suas necessidades em termos de unidade nacional ou inclusive pelos governos imperialistas que se fazem passar por salvadores do povo ucraniano. Além disso a prioridade dos principais atores desta rede parece, no momento, mais centrada na constituição de uma rede de parlamentares em escala europeia que na constituição de uma rede de solidariedade direta entre organizações do movimento social nos países europeus. Se a RESU segue sendo um lugar interessante para a circulação da informação e dos contatos, convém se envolver nela na medida que consiga precisar nos fatos sua atitude em relação à OTAN, à União Europeia e ao governo Zelensky.

Em todas as nossas organizações:

A questão da guerra na Ucrânia é debatida em todas as organizações e círculos nos quais intervimos. O apoio aos trabalhadores implicados na resistência ucraniana às vezes é descartado com o argumento do risco da escalada militar, já mencionado neste artigo.

Também se descarta frequentemente, em nome de vagos matizes, que poderiam se articular em torno ao pacifismo. O pacifismo não é uma estratégia que deva ser descartada por si, já que é potencialmente eficaz em um contexto determinado. Hoje em dia, na Rússia o pacifismo é progressista, mas no caso da Ucrânia e outros países é o contrário. A questão da paz na Ucrânia e o fim da guerra é cada vez mais premente, mas é importante considerar que este tipo de paz seja justa e duradoura. Uma paz que se impõe às custas de anexação de parte do território ucraniano é a institucionalização das conquistas militares da guerra dirigida por Putin, é uma paz que legitima a agressão e a violência. Defendemos uma paz sem anexações para uma Ucrânia plenamente livre e soberana e para conquistar esta paz é necessário apoiar militarmente as forças sociais que são capazes de consegui-la: a resistência operária ucraniana e seus aliados. Para desenvolver a “opinião” de apoio à resistência ucraniana devemos polemizar com aqueles que responsabilizam Rússia e OTAN igualmente pela guerra e que erroneamente estabelecem paralelos com o pacifismo da I Guerra Mundial, que se baseava na capacidade dos partidos socialistas da Europa de chamar a greve geral em caso de mobilização contra suas respectivas burguesias, segundo o princípio do derrotismo revolucionário. Na situação atual, este marco para analisar a guerra se traduz em uma ausência de política em relação à classe operária ucraniana, que se vê abandonada à sua própria sorte frente ao agressor russo e as depredações dos imperialistas do outro lado. Esta ausência de política é as vezes um sinal do desvio propagandístico de algumas organizações que podem estar esperando que os atores do conflito visitem suas páginas web ou planejando enviar alguns panfletos à Rússia ou à Ucrania por drone…, mas também é às vezes um sinal do que se poderia chamar de “campismo envergonhado”. Em alguns círculos, Putin é visto como um oponente ou inclusive como uma alternativa aos principais imperialismos e posicionar-se contra o armamento da resistência ucraniana escondendo-se atrás de um discurso pacifista permite evitar ter que assumir o apoio de fato ao agressor.   BAIXE A REVISTA AQUI

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