sex abr 12, 2024
sexta-feira, abril 12, 2024

Colômbia| O discurso de Petro aos trabalhadores: reforma ou revolução?

Este primeiro de maio na Colômbia foi diferente dos anteriores, é o primeiro que se comemora em meio a um governo de Frente Popular. O governo de Gustavo Petro, que disse ser “o primeiro presidente de esquerda da Colômbia”, usou a histórica comemoração do dia internacional da classe operária, para canalizar a mobilização em apoio ao seu governo, e em apoio aos seus projetos de reformas, especialmente da saúde, a trabalhista e a previdenciária.

Por: Comitê Executivo – PST/Colômbia

Neste primeiro de maio milhares foram às ruas, alguns que sempre, por costume ou convicção participam; e outros chamados pelo momento, pelas ilusões e expectativas no presidente caudilho que promete melhorar a vida das maiorias. Ao finalizar a manifestação, em Bogotá, do balcão da Plaza de Armas e acompanhado de sua esposa, Verónica Alcocer, Petro fez um discurso de cerca de uma hora, que emocionou seus fervorosos seguidores. Renovou as esperanças que setores das massas ainda mantêm nele e em seu governo, ao mesmo tempo em que indignou, escandalizou e preocupou todas as frações da burguesia. Desde os que dizem defender a democracia e as instituições, até a ala mais reacionária que não tardou a declarar presságios de ditaduras, pseudocomunismos e chavismos.

Petro, que tem se destacado por ser um político hábil, sabe interpretar seus auditórios, como demonstrou com seus eloquentes discursos na ONU, CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) OEA (Organização dos Estados Americanos) e com certeza, em seus já célebres “balconaços” (discursos na sacada do Palácio Presidencial, ndt.). Neste caso, colocando-se em sintonia com a data, faz um discurso mais vermelho, conscientemente elaborado para os trabalhadores no primeiro de maio.

O conteúdo e o tom do discurso finalizam uma semana protagonizada por abalos e crises na coalizão de governo, que produto das objeções e oposição dos partidos Liberal, Conservador e da U (Partido Social de Unidade Nacional) à reforma da saúde (a ponto de quase afundá-la por um voto), provocou a decisão de Petro de tirar os ministros incômodos e repreender seus aliados moderados. Assim, não somente se vão as cotas de Santos, César Gaviria e os conservadores, mas inclusive sacrifica sua ministra da Saúde, Carolina Corcho, para buscar salvar a reforma.

Este aparente giro à esquerda do governo, no fundo não é mais que uma nova, e mais veemente advertência à burguesia, de que se não aceitar o caminho das reformas, a missão de impedir uma nova explosão social será mais difícil, e as consequências imprevisíveis. Esta é a mensagem de fundo do discurso de Petro neste primeiro de maio.

A reivindicação das reformas pela via liberal  

Até agora para Petro, Francia Márquez e o Pacto Histórico, durante a campanha eleitoral, e agora, do governo, a classe operária tem sido sistematicamente ignorada, relegada e diluída como classe, em meio a termos amorfos de “os ninguém”, e só é digna de ser mencionada depois da longa lista de oprimidos do país. Por isso surpreende e emociona muitos operários ouvir um presidente falar deles, de suas lutas, de suas necessidades e do papel que os operários têm na produção da riqueza.

Porém, contraditoriamente, seus feitos (exceto o do primeiro de maio) não são os protagonistas de seu discurso. São os feitos da burguesia, seja da burguesia republicana da independência ou dos liberais do século XX, os que toma como exemplos históricos para, a partir das reformas liberais, justificar seu lugar na história.

Efetivamente, os grandes protagonistas das guerras de independência na América colonizada, foram as massas de indígenas, camponeses, artesãos e escravos, que protagonizaram as revoluções de independência. Porém, lamentavelmente, as traições da burguesia dirigente, só confirmam o que se tornou uma lei histórica no capitalismo: sem independência política de seus inimigos, a burguesia, toda luta dos trabalhadores estará, cedo ou tarde, condenada ao fracasso.

Chama a atenção que a principal referência histórica que reivindica é a do governo de López Pumarejo, governo liberal que trouxe para a Colômbia nos anos 30 as reformas do Estado de Bem-estar que a burguesia mundial se viu obrigada a assumir para evitar a extensão da revolução operária e socialista iniciada pelos bolcheviques na Rússia.

Petro vê como seu grande exemplo quem “aparecia nas sacadas – não exatamente a mesma – para falar com o povo nos primeiros de maio e traçar essa aliança entre um governo e a classe operária”. A reivindicação que Petro faz de López Pumarejo, o “companheiro presidente” é a reivindicação aos governos de conciliação de classes, e por essa via, ao seu governo de Frente Popular, ou seja, à aliança entre a burguesia liberal “progressista” e a classe trabalhadora.

Petro defende seu reformismo como a continuidade do liberalismo burguês, truncado pela oposição violenta das elites latifundiárias e burguesas que se negam a ver os benefícios de conceder melhores condições aos verdadeiros produtores da riqueza.

E efetivamente, Petro reafirma uma verdade do capitalismo: “Um empresário não pode ter lucros se não há trabalhadores. Simples assim”.

Os lucros só vêm do trabalho. Essa é uma lei econômica no capitalismo, estudada há séculos. Ainda que se tente esconder, aparece sempre e de novo. Não há jeito de obter lucro a não ser através do trabalho direto dos produtores e produtoras da Colômbia, ou de qualquer outro lugar do mundo”.

A burguesia estremece ao ouvir esta verdade. Também é verdade que esta é uma realidade descoberta e estudada pelos fundadores da economia política clássica, base teórica da compreensão capitalista da economia.

Mas desde aquele tempo, há mais de dois séculos, quando esta verdade foi exposta, Marx e Engels, foram mais além. Não se limitaram a reconhecer o papel produtor da riqueza do trabalho humano, mas apresentaram a necessidade de superá-lo de forma revolucionária. Não se trata somente de melhorar as condições daqueles que, despojados dos meios de produção, são obrigados a vender sua força de trabalho, como qualquer outra mercadoria no mercado; sem questionar o sistema de exploração do qual os capitalistas obtêm (ou melhor dizendo: roubam) seus lucros. Trata-se de abolir esse sistema de expropriação. E é justamente onde – conscientemente – Petro não quer chegar.

A burguesia se escandaliza porque não quer que a classe operária, sequer, tenha consciência de seu lugar na economia, como verdadeiros produtores. É a ideologia astuciosa de que aqueles que produzem a riqueza e os empregos são os empresários que o conjunto da burguesia quer que prevaleça.

O próprio sistema capitalista, inclusive nos exemplos que Petro reivindica, dos governos reformistas e social-democratas mostraram a impossibilidade de garantir melhores condições para a classe produtora. Inclusive a glorificação que faz da Europa esconde a realidade desses países. Se nos aparentes paraísos do bem-estar europeus existem altos padrões de direitos trabalhistas, saúde e educação, é porque são países imperialistas que, mediante o roubo e a superexploração dos países coloniais e semicoloniais da América Latina, Ásia, África e inclusive alguns países da Europa, podem dar, à sua própria classe operária, privilégios em troca de não questionar os lucros bilionários do capital imperialista europeu. Porém esses paraísos imperialistas também estão em questão. O ataque às aposentadorias/pensões na França, e a crise econômica que não se consegue evitar, ameaçam permanentemente as condições de vida da classe operária europeia, que se vê obrigada a lutar, seja contra os governos de direita ou os governos social-democratas, “progressistas” que impõem medidas de austeridade.

A burguesia também se escandaliza porque Petro fala de que graças à explosão social ele é presidente. Inclusive porque reconhece o papel da juventude na Paralisação Nacional, e as primeiras linhas (primeira linha de defesa das manifestações, ndt.). Francia Márquez foi mais além, e de Cali, as reivindicou abertamente, o que desencadeou a fúria do uribismo.

Petro chama à mobilização e adverte que pode haver uma nova explosão social se as reformas não forem aprovadas, remete veementemente contra as AFP (Administradora de Fundos de Pensão) e a EPS (Entidade Promotora de Saúde). Mas isso contrasta com a realidade das reformas em que ambas são salvas. Por exemplo, na reforma da saúde as EPS mudam de nome e continuarão recebendo não os 8%, mas 5% do orçamento da saúde, sem serem investigadas nem obrigadas a devolver o que apropriaram e favorecendo o negócio privado ao manter o modelo de subsídio à demanda. Quanto à reforma previdenciária, o panorama é um tanto pior, tal como diz em seu discurso, Petro oferece uma verdadeira tábua de salvação aos fundos privados de pensões, obrigando os assalariados médios a contribuir acima dos 3 salários mínimos nestas entidades. Da mesma forma, ao mesmo tempo em que se fala de melhorar a qualidade de vida da população, na prática se compromete a aplicar a regra fiscal, assim como as demais recomendações do Fundo Monetário, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e outros organismos multilaterais imperialistas, mantendo relações fraternas e de colaboração com o imperialismo norte-americano.

Em outro trecho de seu discurso, Petro menciona a máxima de: “a terra é para quem a trabalha”, o que somado à proposta de expropriação com indenização gera rechaço dos grandes latifundiários, que, tal como disse, são os herdeiros dos escravocratas. O terror à palavra expropriação, o discurso anticomunista e a política de conciliação colocaram grande parte da chamada esquerda na posição de defender-se da “calúnia de serem expropriadores”. A realidade é que estas “expropriações” incluem o pagamento das terras aos latifundiários, terras que eles se apropriaram na história recente e antiga através de saque e violência, expulsando os camponeses, indígenas e comunidades negras. São eles os verdadeiros expropriadores, e uma política consequente seria a expropriação, mas sem indenização.

Outra palavra que gerou a reação furiosa da burguesia, foi a palavra revolução, usada por Petro para dizer que a necessidade de mudança pode conduzir a uma revolução, no caso de o caminho da reforma ser bloqueado. A burguesia que, evidentemente, não quer ceder sequer parte de seus lucros e suas terras, e não quer ouvir de revoluções nem sequer de brincadeira ou sentido figurado, responde acusando Petro de incentivar a violência, e chamar à desordem. A realidade é que Petro não estava chamando à revolução, pelo contrário, está chamando a burguesia a manter-se no pacto para justamente evitar que ocorra a revolução.

Diante do escândalo que se apresentou, o petrismo e o coro reformista respondem, assinalando, que a revolução seria uma revolução não violenta, ou diretamente dizendo que não têm nenhuma intenção de fazer uma revolução na Colômbia. Mas, a pergunta que devemos nos fazer é se a via das reformas paulatinas pode realmente resolver as grandes contradições da sociedade em que vivemos, e desse modo é possível evitar uma revolução. Ou, o que é o mesmo, se reforma ou revolução são dois caminhos que podemos escolher para o mesmo resultado. Sustentamos que não, que através da conciliação com a burguesia e conciliação sobre reformas só se obterão mudanças mínimas, parciais, incompletas e que estarão sempre em constante ameaça de retroceder. Para que se resolvam as contradições fundamentais da sociedade, entre as quais está o problema da terra, e o problema do lucro versus salário, a realidade é que é preciso fazer uma revolução.

A defesa de que é preciso uma revolução, não é por vontade de recorrer à violência ou às vias de fato ou falta de espírito democrático e conciliador e, menos ainda, pessimismo ou falta de paciência. O motivo é que estas contradições estruturais são insolúveis no próprio marco do capitalismo, e nos limites do regime burguês. Toda a legislação e a institucionalidade estão desenhados para impedir que existam mudanças de fundo, da mesma forma, os partidos tradicionais conspiram no Congresso permanentemente para reduzir qualquer reforma, inclusive parcial, a uma mera sombra da proposta original, e inclusive para alterar a seu favor. A burguesia colombiana, sanguinária como nenhuma outra, que por anos defendeu seu poder através do terror paramilitar não cederá, nem sequer, uma parte de seus privilégios para que os de baixo vivam melhor.

A história do Primeiro de Maio justamente é a história da luta direta da classe trabalhadora, é a história de um dia em que ficou exposto o antagonismo irreconciliável entre burguesia e classe trabalhadora, e em que ficou evidente que só a luta direta leva à conquista dos verdadeiros direitos.

Por ora, não acreditamos que nem as mudanças ministeriais nem o discurso de Petro levem a uma mudança na política ou um giro à esquerda. O que vemos é um ajuste tático para pressionar os setores burgueses com os quais espera negociar as reformas, e como um salva-vidas à crise capitalista, que nos persegue em todas suas dimensões, econômica, social e ambiental.

Continuamos a reivindicar o Primeiro de Maio como o dia da classe operária mundial, e continuamos a insistir que sim, é preciso uma revolução, uma revolução operária e socialista, que exproprie os meios de produção, e produza em função das necessidades da humanidade e não do lucro.

Colômbia/ o discurso de Petro aos trabalhadores: reforma ou revolução?

Este primeiro de maio na Colômbia foi diferente dos anteriores, é o primeiro que se comemora em meio a um governo de Frente Popular. O governo de Gustavo Petro, que disse ser “o primeiro presidente de esquerda da Colômbia”, usou a histórica comemoração do dia internacional da classe operária, para canalizar a mobilização em apoio ao seu governo, e em apoio aos seus projetos de reformas, especialmente da saúde, a trabalhista e a previdenciária.

Por: Comitê Executivo – PST/Colômbia

Neste primeiro de maio milhares foram às ruas, alguns que sempre, por costume ou convicção participam; e outros chamados pelo momento, pelas ilusões e expectativas no presidente caudilho que promete melhorar a vida das maiorias. Ao finalizar a manifestação, em Bogotá, do balcão da Plaza de Armas e acompanhado de sua esposa, Verónica Alcocer, Petro fez um discurso de cerca de uma hora, que emocionou seus fervorosos seguidores. Renovou as esperanças que setores das massas ainda mantêm nele e em seu governo, ao mesmo tempo em que indignou, escandalizou e preocupou todas as frações da burguesia. Desde os que dizem defender a democracia e as instituições, até a ala mais reacionária que não tardou a declarar presságios de ditaduras, pseudocomunismos e chavismos.

Petro, que tem se destacado por ser um político hábil, sabe interpretar seus auditórios, como demonstrou com seus eloquentes discursos na ONU, CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) OEA (Organização dos Estados Americanos) e com certeza, em seus já célebres “balconaços” (discursos na sacada do Palácio Presidencial, ndt.). Neste caso, colocando-se em sintonia com a data, faz um discurso mais vermelho, conscientemente elaborado para os trabalhadores no primeiro de maio.

O conteúdo e o tom do discurso finalizam uma semana protagonizada por abalos e crises na coalizão de governo, que produto das objeções e oposição dos partidos Liberal, Conservador e da U (Partido Social de Unidade Nacional) à reforma da saúde (a ponto de quase afundá-la por um voto), provocou a decisão de Petro de tirar os ministros incômodos e repreender seus aliados moderados. Assim, não somente se vão as cotas de Santos, César Gaviria e os conservadores, mas inclusive sacrifica sua ministra da Saúde, Carolina Corcho, para buscar salvar a reforma.

Este aparente giro à esquerda do governo, no fundo não é mais que uma nova, e mais veemente advertência à burguesia, de que se não aceitar o caminho das reformas, a missão de impedir uma nova explosão social será mais difícil, e as consequências imprevisíveis. Esta é a mensagem de fundo do discurso de Petro neste primeiro de maio.

A reivindicação das reformas pela via liberal  

Até agora para Petro, Francia Márquez e o Pacto Histórico, durante a campanha eleitoral, e agora, do governo, a classe operária tem sido sistematicamente ignorada, relegada e diluída como classe, em meio a termos amorfos de “os ninguém”, e só é digna de ser mencionada depois da longa lista de oprimidos do país. Por isso surpreende e emociona muitos operários ouvir um presidente falar deles, de suas lutas, de suas necessidades e do papel que os operários têm na produção da riqueza.

Porém, contraditoriamente, seus feitos (exceto o do primeiro de maio) não são os protagonistas de seu discurso. São os feitos da burguesia, seja da burguesia republicana da independência ou dos liberais do século XX, os que toma como exemplos históricos para, a partir das reformas liberais, justificar seu lugar na história.

Efetivamente, os grandes protagonistas das guerras de independência na América colonizada, foram as massas de indígenas, camponeses, artesãos e escravos, que protagonizaram as revoluções de independência. Porém, lamentavelmente, as traições da burguesia dirigente, só confirmam o que se tornou uma lei histórica no capitalismo: sem independência política de seus inimigos, a burguesia, toda luta dos trabalhadores estará, cedo ou tarde, condenada ao fracasso.

Chama a atenção que a principal referência histórica que reivindica é a do governo de López Pumarejo, governo liberal que trouxe para a Colômbia nos anos 30 as reformas do Estado de Bem-estar que a burguesia mundial se viu obrigada a assumir para evitar a extensão da revolução operária e socialista iniciada pelos bolcheviques na Rússia.

Petro vê como seu grande exemplo quem “aparecia nas sacadas – não exatamente a mesma – para falar com o povo nos primeiros de maio e traçar essa aliança entre um governo e a classe operária”. A reivindicação que Petro faz de López Pumarejo, o “companheiro presidente” é a reivindicação aos governos de conciliação de classes, e por essa via, ao seu governo de Frente Popular, ou seja, à aliança entre a burguesia liberal “progressista” e a classe trabalhadora.

Petro defende seu reformismo como a continuidade do liberalismo burguês, truncado pela oposição violenta das elites latifundiárias e burguesas que se negam a ver os benefícios de conceder melhores condições aos verdadeiros produtores da riqueza.

E efetivamente, Petro reafirma uma verdade do capitalismo: “Um empresário não pode ter lucros se não há trabalhadores. Simples assim”.

Os lucros só vêm do trabalho. Essa é uma lei econômica no capitalismo, estudada há séculos. Ainda que se tente esconder, aparece sempre e de novo. Não há jeito de obter lucro a não ser através do trabalho direto dos produtores e produtoras da Colômbia, ou de qualquer outro lugar do mundo”.

A burguesia estremece ao ouvir esta verdade. Também é verdade que esta é uma realidade descoberta e estudada pelos fundadores da economia política clássica, base teórica da compreensão capitalista da economia.

Mas desde aquele tempo, há mais de dois séculos, quando esta verdade foi exposta, Marx e Engels, foram mais além. Não se limitaram a reconhecer o papel produtor da riqueza do trabalho humano, mas apresentaram a necessidade de superá-lo de forma revolucionária. Não se trata somente de melhorar as condições daqueles que, despojados dos meios de produção, são obrigados a vender sua força de trabalho, como qualquer outra mercadoria no mercado; sem questionar o sistema de exploração do qual os capitalistas obtêm (ou melhor dizendo: roubam) seus lucros. Trata-se de abolir esse sistema de expropriação. E é justamente onde – conscientemente – Petro não quer chegar.

A burguesia se escandaliza porque não quer que a classe operária, sequer, tenha consciência de seu lugar na economia, como verdadeiros produtores. É a ideologia astuciosa de que aqueles que produzem a riqueza e os empregos são os empresários que o conjunto da burguesia quer que prevaleça.

O próprio sistema capitalista, inclusive nos exemplos que Petro reivindica, dos governos reformistas e social-democratas mostraram a impossibilidade de garantir melhores condições para a classe produtora. Inclusive a glorificação que faz da Europa esconde a realidade desses países. Se nos aparentes paraísos do bem-estar europeus existem altos padrões de direitos trabalhistas, saúde e educação, é porque são países imperialistas que, mediante o roubo e a superexploração dos países coloniais e semicoloniais da América Latina, Ásia, África e inclusive alguns países da Europa, podem dar, à sua própria classe operária, privilégios em troca de não questionar os lucros bilionários do capital imperialista europeu. Porém esses paraísos imperialistas também estão em questão. O ataque às aposentadorias/pensões na França, e a crise econômica que não se consegue evitar, ameaçam permanentemente as condições de vida da classe operária europeia, que se vê obrigada a lutar, seja contra os governos de direita ou os governos social-democratas, “progressistas” que impõem medidas de austeridade.

A burguesia também se escandaliza porque Petro fala de que graças à explosão social ele é presidente. Inclusive porque reconhece o papel da juventude na Paralisação Nacional, e as primeiras linhas (primeira linha de defesa das manifestações, ndt.). Francia Márquez foi mais além, e de Cali, as reivindicou abertamente, o que desencadeou a fúria do uribismo.

Petro chama à mobilização e adverte que pode haver uma nova explosão social se as reformas não forem aprovadas, remete veementemente contra as AFP (Administradora de Fundos de Pensão) e a EPS (Entidade Promotora de Saúde). Mas isso contrasta com a realidade das reformas em que ambas são salvas. Por exemplo, na reforma da saúde as EPS mudam de nome e continuarão recebendo não os 8%, mas 5% do orçamento da saúde, sem serem investigadas nem obrigadas a devolver o que apropriaram e favorecendo o negócio privado ao manter o modelo de subsídio à demanda. Quanto à reforma previdenciária, o panorama é um tanto pior, tal como diz em seu discurso, Petro oferece uma verdadeira tábua de salvação aos fundos privados de pensões, obrigando os assalariados médios a contribuir acima dos 3 salários mínimos nestas entidades. Da mesma forma, ao mesmo tempo em que se fala de melhorar a qualidade de vida da população, na prática se compromete a aplicar a regra fiscal, assim como as demais recomendações do Fundo Monetário, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e outros organismos multilaterais imperialistas, mantendo relações fraternas e de colaboração com o imperialismo norte-americano.

Em outro trecho de seu discurso, Petro menciona a máxima de: “a terra é para quem a trabalha”, o que somado à proposta de expropriação com indenização gera rechaço dos grandes latifundiários, que, tal como disse, são os herdeiros dos escravocratas. O terror à palavra expropriação, o discurso anticomunista e a política de conciliação colocaram grande parte da chamada esquerda na posição de defender-se da “calúnia de serem expropriadores”. A realidade é que estas “expropriações” incluem o pagamento das terras aos latifundiários, terras que eles se apropriaram na história recente e antiga através de saque e violência, expulsando os camponeses, indígenas e comunidades negras. São eles os verdadeiros expropriadores, e uma política consequente seria a expropriação, mas sem indenização.

Outra palavra que gerou a reação furiosa da burguesia, foi a palavra revolução, usada por Petro para dizer que a necessidade de mudança pode conduzir a uma revolução, no caso de o caminho da reforma ser bloqueado. A burguesia que, evidentemente, não quer ceder sequer parte de seus lucros e suas terras, e não quer ouvir de revoluções nem sequer de brincadeira ou sentido figurado, responde acusando Petro de incentivar a violência, e chamar à desordem. A realidade é que Petro não estava chamando à revolução, pelo contrário, está chamando a burguesia a manter-se no pacto para justamente evitar que ocorra a revolução.

Diante do escândalo que se apresentou, o petrismo e o coro reformista respondem, assinalando, que a revolução seria uma revolução não violenta, ou diretamente dizendo que não têm nenhuma intenção de fazer uma revolução na Colômbia. Mas, a pergunta que devemos nos fazer é se a via das reformas paulatinas pode realmente resolver as grandes contradições da sociedade em que vivemos, e desse modo é possível evitar uma revolução. Ou, o que é o mesmo, se reforma ou revolução são dois caminhos que podemos escolher para o mesmo resultado. Sustentamos que não, que através da conciliação com a burguesia e conciliação sobre reformas só se obterão mudanças mínimas, parciais, incompletas e que estarão sempre em constante ameaça de retroceder. Para que se resolvam as contradições fundamentais da sociedade, entre as quais está o problema da terra, e o problema do lucro versus salário, a realidade é que é preciso fazer uma revolução.

A defesa de que é preciso uma revolução, não é por vontade de recorrer à violência ou às vias de fato ou falta de espírito democrático e conciliador e, menos ainda, pessimismo ou falta de paciência. O motivo é que estas contradições estruturais são insolúveis no próprio marco do capitalismo, e nos limites do regime burguês. Toda a legislação e a institucionalidade estão desenhados para impedir que existam mudanças de fundo, da mesma forma, os partidos tradicionais conspiram no Congresso permanentemente para reduzir qualquer reforma, inclusive parcial, a uma mera sombra da proposta original, e inclusive para alterar a seu favor. A burguesia colombiana, sanguinária como nenhuma outra, que por anos defendeu seu poder através do terror paramilitar não cederá, nem sequer, uma parte de seus privilégios para que os de baixo vivam melhor.

A história do Primeiro de Maio justamente é a história da luta direta da classe trabalhadora, é a história de um dia em que ficou exposto o antagonismo irreconciliável entre burguesia e classe trabalhadora, e em que ficou evidente que só a luta direta leva à conquista dos verdadeiros direitos.

Por ora, não acreditamos que nem as mudanças ministeriais nem o discurso de Petro levem a uma mudança na política ou um giro à esquerda. O que vemos é um ajuste tático para pressionar os setores burgueses com os quais espera negociar as reformas, e como um salva-vidas à crise capitalista, que nos persegue em todas suas dimensões, econômica, social e ambiental.

Continuamos a reivindicar o Primeiro de Maio como o dia da classe operária mundial, e continuamos a insistir que sim, é preciso uma revolução, uma revolução operária e socialista, que exproprie os meios de produção, e produza em função das necessidades da humanidade e não do lucro.

Tradução: Lílian Enck

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