qui jul 18, 2024
quinta-feira, julho 18, 2024

Chile| Eleições de 7 de maio: a extrema direita cresce, o descontentamento social continua

A jornada eleitoral do domingo (07/05) foi muito importante, apesar do pouco entusiasmo da maioria da população para votar. Seus resultados refletem, em parte, a realidade do país, mas não nos devem impressionar. Para os milhares de trabalhadores, jovens e ativistas que estão preocupados com o crescimento da ultradireita, o mais importante é que façamos uma profunda análise do que está acontecendo no país e do que aconteceu no domingo 7 de maio.

Por: MIT-Chile

Nos últimos 4 anos, o país viveu mais de uma dezena de processos eleitorais. Entretanto, nada mudou para melhor na vida da maioria da população. Desde o Acordo pela Paz de 15 de novembro de 2019, que abriu o primeiro processo constituinte, houve um grande pacto entre todos os principais partidos políticos (inclusive o Partido Comunista – PC, que não assinou o Acordo, mas depois o reconheceu) para canalizar o descontentamento social para a democracia burguesa e tirar das ruas os milhões que protestavam. O Partido Republicano se manteve fora desse acordo, já que sempre defendeu que o processo revolucionário aberto em 2019 deveria ter sido esmagado com ainda mais violência.

A estratégia de canalizar o descontentamento social para as instituições burguesas (eleições, Parlamento, Constituinte) até agora funcionou. O povo se desmobilizou e o selvagem capitalismo neoliberal chileno se manteve intacto. Aqueles que antes propunham reformas, como a Frente Ampla (FA) e o PC, hoje administram o país para os grandes capitalistas. Foram completamente domesticados pelos donos do país. Nesse contexto, a grande burguesia e seu setor mais reacionário já começam a entender que não precisam fazer mais concessões ao povo, nem aos setores que se dizem reformistas, como a FA e o PC. A extrema direita e a direita conseguiram capitalizar parte importante do descontentamento social e se propõem a esmagar de uma vez as possibilidades de mudanças e de mobilização popular. Por outro lado, a enorme quantidade de votos nulos demonstra que o regime político ainda continua sem legitimidade para um grande setor da população e que o descontentamento social se mantém vivo. Este é o contexto geral no qual queremos situar este balanço.

Eleições completamente controladas pelos grandes empresários e seus partidos

Em primeiro lugar, é necessário identificar que as eleições de Conselheiros Constituintes foram totalmente controladas pelos grandes empresários, que financiam a política, e pelos partidos do regime. O chamado “Acordo pelo Chile” deixou de fora a possibilidade de que entrassem candidatos independentes e inclusive que novos partidos se inscrevessem vários meses antes do processo eleitoral. Como resultado, somente os partidos já inscritos puderam participar. O segundo elemento fundamental é o financiamento das campanhas. Como sempre, existe uma enorme desigualdade nos gastos das candidaturas, os grandes empresários colocam rios de dinheiro em várias candidaturas de diferentes partidos. Um exemplo: a família Hurtado Vicuña, da alta burguesia chilena, financiou ao mesmo tempo a UDI-União Democrática Independente (que recebeu mais de 35 milhões de pesos), RN-Renovação Nacional (14 milhões de pesos) e Republicanos. Em relação às candidaturas individuais, os que mais receberam dinheiro dessa família foram Daniela Castro da RN e Luis Silva do Republicanos (eleito). A família Von Appen, da burguesia portuária, também realizou enormes contribuições, onde o principal beneficiário foi o Partido Republicano com 26,5 milhões de pesos, além de financiar a UDI, RN e Evópoli.

Das contribuições analisadas há alguns dias pela Fundação Sol (360 milhões vindos de algumas famílias burguesas), os partidos que mais receberam eram UDI (170 milhões), RN (84 milhões), Republicanos (34,5 milhões). Como sempre, a grande burguesia não põe todos seus ovos na mesma cesta e acaba financiando candidaturas de diferentes partidos. Outros partidos certamente receberam também grandes contribuições de setores burgueses, como o Partido Socialista, Democracia Cristã, etc.

Portanto, em primeiro lugar, não podemos dizer que as eleições são realmente democráticas e que todos concorrem com os mesmos direitos. A grande burguesia, além de financiar seus candidatos com enormes somas, também controla a grande mídia, oferecendo-lhes espaço permanentes na televisão, rádio, etc.

O crescimento da ultradireita

Sem dúvida, o resultado mais relevante foi a ampla vitória dos Republicanos, o partido do pinochetista José Antonio Kast. Os discursos dos candidatos Republicanos se basearam centralmente em 2 eixos: combater a delinquência e a imigração irregular. O crescimento da ultradireita no Chile não é uma exceção ou um caso particular. Em muitos países do mundo o aumento das contradições sociais resultantes do capitalismo fez com que cada vez mais setores da burguesia optassem por apoiar partidos da ultradireita. Isso aconteceu na Europa (Alemanha, Itália, Grécia, Polônia) e também na América (Estados Unidos, Brasil, El Salvador, Argentina).

A votação no Republicanos expressa que a grande burguesia vem avançando em conquistar ideologicamente um setor da classe trabalhadora e das classes médias para seu discurso, que atribui o aumento das desigualdades, miséria e violência aos migrantes, aos narcos, aos ativistas de esquerda, aos Mapuche que lutam por suas terras com método de ação direta, etc.

 O crescimento dessa ultradireita tem relação direta com o fracasso dos governos de “esquerda” ou “progressistas”. No Brasil, os 14 anos de governo do PT (Lula e Dilma) foram a base para o surgimento de Bolsonaro. O mesmo está acontecendo no Chile. Os governos progressistas preparam o caminho para a extrema direita ao não solucionar os problemas das massas e fazer pactos permanentes que favorecem o grande empresariado. Boric é uma amostra disso. Enquanto a vida da classe trabalhadora piorou com o aumento de preços, os baixos salários, a crise na saúde e educação, etc; os lucros dos grandes empresários foram estratosféricos. Ao mesmo tempo, o governo assumiu toda a agenda e o discurso da direita, voltando a militarizar o território mapuche; decretando o Estado de exceção no norte do país contra os migrantes e aprovando a Lei Naín-Retamal para dar um cheque em branco aos Carabineiros. Entretanto, apesar de girar cada vez mais à direita, Boric nunca poderá ocupar o espaço dos tradicionais e novos partidos da extrema direita, que são os verdadeiros representantes da classe da grande burguesia.

Em relação aos números, a votação da ultradireita aumentou consideravelmente em comparação com as últimas eleições presidenciais e parlamentares. Nas presidenciais de 2021, Kast obteve 1,9 milhões de votos no primeiro turno (o outro candidato de direita Sichel obteve 900 mil) e 3,6 milhões no segundo turno. Nas parlamentares, o Partido Republicano obteve 666 mil votos (tudo isso sem o voto obrigatório). Agora, para as eleições de Conselheiros, os Republicanos apenas obtiveram 3,4 milhões e a direita tradicional 2 milhões. Somados, são 5,4 milhões de votos, 2 milhões a mais que no segundo turno presidencial. Isso demonstra que a direita e a extrema direita conseguiram capitalizar parte do sentimento de descontentamento que aumenta no país, agora sob o governo de Gabriel Boric. Sem dúvida, o fracasso do Partido de la Gente às vésperas das eleições, depois do escândalo de sua candidata narcotraficante, fez com que a direita ganhasse uma parte dos votos que iria para esse partido.

 O crescimento da direita não é só eleitoral. Nos últimos meses, principalmente depois do assassinato da carabineira Rita Olivares e do carabineiro Daniel Palma, a direita conseguiu realizar grandes mobilizações com milhares de pessoas, principalmente apoiadas nos familiares dos Carabineiros, militares e setores da pequena e grande burguesia.

Um golpe no governo

O governo de Gabriel Boric vem perdendo cada vez mais apoio desde que assumiu, pelos motivos que já escrevemos anteriormente. As eleições atuais foram outro duro golpe para o governo. Nas eleições presidenciais (sem voto obrigatório) Boric e a ex Concertação obtiveram mais de 4,6 milhões de votos. Para as eleições atuais de Conselheiros, o bloco mais governista FA-PC-PS obtiveram 2,8 milhões de votos e o bloco PR-DC-PPD obteve 877 mil votos. Somados, chegam a 2,7 milhões, quase 2 milhões a menos do que no segundo turno presidencial de 2021. Esses dados mostram uma perda de apoio importante ao governo.

O fracasso do governo e da Convenção Constituinte anterior têm relação direta com o crescimento da extrema direita.  Com a vitória do Rechaço no último Plebiscito, o caminho traçado pela Nova Concertação (Socialistas, Frente Ampla e Comunistas) fracassou completamente.  Ficou demonstrado que seu caminho de pactuar com a direita e o grande empresariado para “conquistar mudanças sociais” não era mais que uma cortina de fumaça. Inclusive se o Aprovo tivesse vencido, o que era praticamente impossível devido ao descontentamento com o governo e à campanha da direita, a Nova Constituição teria sido um fracasso a médio prazo, já que seus principais artigos mantinham o controle das grandes famílias sobre a economia do país e do Estado. O que está fracassando a cada dia que passa, é a estratégia reformista da Nova Concertação para mudar o país e solucionar os problemas das massas trabalhadoras e da juventude.

Voto nulo: como interpretá-lo?

Uma das grandes surpresas destas eleições foi a magnitude do voto nulo. Somados, os brancos chegam a quase 2,7 milhões de votos ou 21,54%. As abstenções (pessoas que não foram votar) chegam a outros 2,7 milhões. O MIT participou da campanha pelo Voto Nulo, já que denunciamos a falta de legitimidade do processo e não víamos nenhuma opção de voto que não representasse a manutenção do capitalismo neoliberal chileno.

A enorme magnitude do voto nulo expressa, que um setor não menor da população não acredita nos partidos e políticos que se apresentaram ou não estavam suficientemente informados para votar. Em nossa opinião, é um erro de alguns setores da esquerda, atribuir o voto nulo como um descontentamento que seria a base do “outubrismo” ou da “revolta social”. O voto nulo não é necessariamente um voto de esquerda ou revolucionário. Evidente que existe uma parte do voto nulo que vem de um setor mais consciente da classe trabalhadora e da juventude que foram vanguarda nas mobilizações nos últimos anos. Inclusive muitos de nós votamos contra Kast no segundo turno e agora não votamos na coalizão governista. No entanto, quanto este setor representa? É quase impossível medir. É possível que uma parte dos 2 milhões que votaram em Boric nas presidenciais e não votaram na coalizão governista agora tenham se tornado em voto nulo. Entretanto, também é muito possível que uma parte dos que iriam votar no Partido de la Gente tenha votado nulo. Para chegar a uma compreensão mais profunda do voto nulo, é necessário investigar os dados mais detidamente (por seções e comunas) e ouvir as e os trabalhadores em cada rincão do país.

O que identificamos é que existe um amplo setor da população que não acredita nos partidos atuais e não tem expectativas de mudanças a partir destas eleições.

É necessário construir um projeto político alternativo e revolucionário

O fracasso da coalizão do governo e o crescimento da ultradireita demonstram que até agora os milhares de trabalhadores, ativistas e jovens que são de esquerda e críticos do governo de Boric, não conseguiram construir um projeto alternativo que possa disputar o espaço com esses partidos.

Entre as diferentes agrupações de esquerda, como a Coordenadora de Movimentos Sociais, o Referente Político Social e outras, estão ocorrendo discussões sobre como construir uma alternativa à Nova Concertação. Entretanto, vemos que até agora todas essas agrupações repetem as fórmulas do Partido Comunista e da Frente Ampla: a luta pelos direitos no marco atual do Estado capitalista, através de uma “verdadeira” Assembleia Constituinte ou de algum tipo de mudança constitucional. Acreditamos que esse projeto leva exatamente ao que está ocorrendo com o governo de Boric.

Em nossa opinião, não é possível solucionar os problemas da massa trabalhadora se não rompermos com a dominação das grandes famílias burguesas sobre o conjunto do país e se não destruirmos o atual Estado, totalmente a serviço do empresariado. É necessário construir um novo partido dos trabalhadores, mas que tenha como eixo de seu programa a expropriação das 10 famílias mais ricas e transnacionais, para colocar a riqueza do país a serviço de solucionar os problemas do povo. E que coloque a necessidade de a classe trabalhadora organizada tomar o poder em suas mãos e não deixe pedra sobre pedra do Estado burguês que existe hoje. Esse projeto só pode ser construído a partir das bases, dos jovens e trabalhadores em cada bairro, fábrica, mina, supermercado, escola, etc. Não há forma de mudar o Chile que não seja através de uma revolução que varra os políticos e partidos tradicionais e questione a dominação da grande burguesia. Isso está cada dia mais evidente depois do fracasso da Convenção Constitucional e o crescimento da extrema direita. Nós, do MIT estamos dispostos a seguir por esse caminho, para construir um verdadeiro partido revolucionário da classe trabalhadora e da juventude.

Preparar contra a ofensiva do governo e da extrema direita

O avanço da extrema direita no Conselho Constitucional traz enormes perigos. Em primeiro lugar, a Nova Constituição poderá ser ainda pior que a Constituição de Pinochet, já que a direita conquistou a maioria dos assentos no atual Conselho. Isso coloca às e aos trabalhadores a tarefa de não permitir esses retrocessos, organizando mobilizações e também o voto pelo Rechaço no Plebiscito de saída. Também devemos estar atentos para o fato de que não seja realizado o plebiscito de saída, já que é possível que a direita (inclusive os republicanos) e o governo cheguem a um novo acordo para mudar a Constituição sem o perigo de sofrer um novo Rechaço no fim de ano. Não podemos ser ingênuos e acreditar que esses partidos não mudarão as regras do próprio jogo estabelecido por eles.

Por outro lado, não podemos esperar nada do governo de Gabriel Boric, que girará ainda mais à direita depois desta nova derrota. Os partidos do governo tentarão cada vez mais chamar as “forças democráticas” a unirem-se contra o suposto “fascismo” do Partido Republicano. Tentarão nos enganar para que defendamos seu governo e esta democracia burguesa, enquanto é o próprio governo e o Parlamento que mantêm a militarização da Araucanía, reforçam os Carabineiros, negam o direito aos trabalhadores de retirar seu dinheiro das AFPs, etc. Em segundo lugar, é necessário que a classe trabalhadora e a juventude se reorganizem para lutar em defesa de suas condições de vida, que pioram a cada dia. A CUT, as federações e sindicatos de trabalhadores por todo o país e as organizações da juventude, como a Confech-Confederação de Estudantes do Chile, devem colocar-se na liderança de uma lista de demandas que mobilize a classe trabalhadora de forma independente do governo de Gabriel Boric. A partir do MIT temos propostas em relação a essa lista que podem ler aqui  . Só com mobilização nas ruas e organização é possível enfrentar a extrema direita e exigir do governo medidas que beneficiem o povo trabalhador.

Tradução: Lílian Enck

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