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domingo, julho 14, 2024

Peru: Quem divide e enfraquece a luta?

Não é um mistério para ninguém que esteve nas ruas, enfrentando o governo de Boluarte e o Congresso, que os grupos que se dizem “de esquerda” ou “progressistas”, tiveram uma atuação muito diferente da dos povos do sul que, tanto nas regiões como em Lima, se encontram na primeira linha da luta.

Por: Víctor Montes

Essa “esquerda” (Partido Comunista, Patria Roja, Nuevo Perú, os setores do magistério ligados à FENATE-Federação Nacional de Trabalhadores da Educação, etc) fugiram do enfrentamento aberto contra Boluarte, misturando convocações para “jornadas de luta” e inclusive uma superdimensionada “greve geral”, com a negociação com o mesmo governo ao qual tacham de “ditadura”.

A máxima expressão desta política ambivalente, que no fundo privilegia a negociação com o governo, foi a convocação à chamada “greve geral” da CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru), em 9 de fevereiro passado.

Depois de tramitar formalmente os prazos da greve, a direção da CGTP – dominada pelo Partido Comunista – esperou sentada que suas bases respondessem, sem sequer garantir uma potente paralisação a nível estatal ou de construção civil, para finalmente dar meia volta e se retirar da mobilização que ela mesma convocou.

Com esta atitude, coroou uma política de divisão da mobilização, que pôde ser observada desde janeiro, quando frente à chegada das delegações do interior, convocou a manifestação para marchar por um caminho diferente da que tais delegações, que já se encontravam na capital, tinham definido.

Esta política semeou, por um lado, desmoralização nas organizações populares das regiões, que veem na direção da CGTP – e nos partidos que se dizem “de esquerda” ligados a tal direção – uma camarilha “limenha”, interessada unicamente em salvaguardar seus próprios interesses.

Por outro, impediu de fato que as massas trabalhadoras das cidades, particularmente da capital, onde vivem um terço da população nacional e se encontram 80% das fábricas do país, assim como nas minas, nervo da economia nacional, entrassem na luta de forma unificada com os povos do interior.

Ou seja, atuou como uma cunha, separando os que lutam, enfraquecendo a mobilização, e com isso, afiançando a continuidade do governo.

Outro tanto fazem os dirigentes da FENATE – federação que Pedro Castillo outrora liderou – que nem sequer foi capaz de convocar uma greve ante o reinício dos trabalhos escolares.

Os “esquerdistas” do congresso

Por último, a chamada “esquerda parlamentar” também não tem brilhado por expressar as demandas do povo em luta, aferrando-se, majoritariamente, aos seus assentos, derrubando as moções de antecipação de eleições.

Essa “esquerda” tem priorizado, não os interesses de “seus representados”, ou “de Lima”, como sentem ou entendem alguns setores do interior. Essas organizações só estão pensando em seus interesses eleitorais, e com sua ação tem deixado evidente que são capazes de sacrificar a luta a fim de garantir suas candidaturas.

Por isso, nem sequer estiveram presentes nas mobilizações. Isso inclui os congressistas tanto de “Juntos pelo Peru”, o chamado “Bloco magisterial”, “Peru democrático”, e até “Peru livre”. Todos esses grupos de congressistas, que, além disso, deram os votos para o impeachment de Castillo após seu falido golpe de Estado, acabaram apoiando o mesmo governo que, de tempos em tempos, denunciam, ao impedir a antecipação de eleições.

Por isso, o desafio da classe trabalhadora, que ainda não entrou em cena, é romper com essas direções que têm preparado o terreno para que o governo se mantenha de pé. A política das direções nos levou a este ponto morto, dividindo a luta, e desarmando a classe trabalhadora frente a um governo assassino e repressor.

Tradução: Lílian Enck

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