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sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Ucrânia: “Estamos criando sindicatos independentes nos hospitais”

Há vários meses, em Kiev, Lviv e outras cidades ucranianas, os trabalhadores e trabalhadoras de hospitais, especialmente enfermeiras, se mobilizam para defender seus direitos. O que está em jogo são salários não pagos, as condições de trabalho e fechamento de hospitais. Surgiram sindicatos de base independentes. Oksana Slobodiana, do movimento “Sé como Nina” (Seja como Nina) , teve a gentileza de responder às nossas perguntas sobre esta situação.

Por: Patrick Le Trehondat

Você poderia se apresentar aos nossos leitores?

Meu nome é Oksana Slobodiana. Sou animadora do setor de saúde do movimento “Sé como Nina”, um sindicato independente da região de Lviv, e trabalho como enfermeira em um hospital infantil. Também sou mãe de quatro filhos, três dos quais ainda menores de idade.

Você poderia nos apresentar o movimento “Sé como Nina”, sua história, seu papel e por que do nome?

Nosso movimento nasceu de uma iniciativa popular de trabalhadoras e trabalhadores da saúde (enfermeiras) em 2019. Desde então, protegemos os direitos desse setor de trabalhadores. Se não conseguimos resolver os problemas pelo diálogo, organizamos manifestações. A nossa principal tarefa é melhorar as condições de trabalho e de formação das trabalhadoras e trabalhadores de saúde. Para tanto, utilizamos todos os meios, evidente, dentro da lei. O nome do movimento “Sé como Nina” vem do nome da iniciadora da primeira manifestação de enfermeiras, Nina Bondar. Nina, que trabalhava em um hospital de Kiev, decidiu uma noite expressar sua insatisfação com as condições de trabalho, salário e atitude da gerência em relação às enfermeiras. Postou uma mensagem – que foi um grito do coração – no Facebook. De um dia para o outro, teve mais de 20.000 visualizações. Desde então, as trabalhadoras e trabalhadores da saúde se uniram para defender seus direitos profissionais. Como Nina, todos querem parar de ignorar todas as violações com as quais têm de lidar no local de trabalho.  

O setor hospitalar e de saúde é estratégico, principalmente para um país em guerra. No entanto, vemos que as trabalhadoras e trabalhadores do mesmo encontram muitas dificuldades.

Você pode nos contar sobre a situação atual de médicos e enfermeiras e o estado do setor de saúde na Ucrânia em geral?

A partir de 2018, uma reforma da saúde vem sendo aplicada na Ucrânia. Desde então, as instituições médicas fecham regularmente, há um objetivo de otimização e fusão de hospitais. Isso tem um impacto significativo sobre as trabalhadoras e trabalhadores da saúde, que perdem seus empregos. Este processo não parou durante a guerra. A situação piorou consideravelmente: muitas instituições médicas foram fechadas como resultado de bombardeios e tiros de artilharia. Em consequência disso, seria oportuno acabar com a chamada “otimização”. Mas o principal erro da reforma foi a decisão de transferir a gestão do setor saúde para as autoridades locais. Hoje, são as autoridades locais que decidem se um centro de saúde é necessário ou não. As autoridades municipais tornaram-se os proprietários de fato dos hospitais. Pessoas sem treinamento especial, que não entendem como funcionam na prática, decidem sobre o destino das instalações médicas e, ao mesmo tempo, sobre seus funcionários e pacientes.

Vimos manifestações de funcionários de hospitais em Kiev e em Lviv. Acho que sindicatos também foram criados nessas cidades. Você poderia nos falar sobre essas manifestações e as demandas que elas levantam? Quais são os novos sindicatos ou organizações que existem nos hospitais para proteger os funcionários e sua saúde?

Devido à “lei marcial”, as manifestações estão proibidas na Ucrânia. Mas os profissionais de saúde não dormem sobre os louros e estão começando a criar sindicatos independentes no local. Até então, os “sindicatos estatais” funcionavam em centros médicos, amparados por recursos “administrativos”, ignorando as opiniões e interesses de seus membros.

Agora, tudo está mudando. Os trabalhadores estão se unindo para defender seus direitos profissionais. No passado, esses sindicatos independentes só existiam nas grandes cidades, mas agora estamos contribuindo para que surjam também em pequenas cidades e vilas. Os trabalhadores e trabalhadoras de pequenas cidades e vilas também devem se sentir protegidos.

Que tipo de apoio você recebe das pessoas?

A atitude das pessoas em relação aos médicos muda dependendo do momento. Às vezes, os pacientes podem censurar a equipe médica por alguma coisa. Então a pandemia de coronavírus chegou e as pessoas viram médicos, enfermeiras e funcionários em geral, sem proteção especial, colocarem suas vidas em risco para salvá-la. O pessoal de saúde então ganhou respeito. Hoje, as coisas são diferentes. Para ser sinceros, nem todos os ucranianos estão bem informados sobre a atual reforma do setor de saúde e suas consequências, por isso costumam reclamar de nós. Mas estamos realizando campanhas de comunicação ativa com a população, informando-a sobre a real situação. As pessoas estão começando a pensar mais profundamente sobre esse assunto e a apoiar os profissionais de saúde.

Você acha que os profissionais de saúde podem propor um plano alternativo à política de saúde do governo?

Com certeza, porque mudanças só podem ser propostas por quem trabalha nessa área e conhece os problemas por dentro. Na verdade, às vezes parece que pessoas aleatórias sem nenhuma experiência específica assumiram a reforma do setor de saúde na Ucrânia. Por exemplo, eles querem reformar o sistema de saúde na Ucrânia de acordo com o “modelo britânico”. Mas as nossas realidades, a situação econômica do país, a mentalidade das pessoas e a situação da saúde, que nunca foi devidamente financiada, são muito diferentes das do Reino Unido. Além disso, não podemos esquecer que nosso país está atualmente em meio a uma guerra.

Artigo retirado de: https://laboursolidarity.org (Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas), 04/04/2023

Ucrânia: “Estamos criando sindicatos independentes nos hospitais”

Há vários meses, em Kiev, Lviv e outras cidades ucranianas, os trabalhadores e trabalhadoras de hospitais, especialmente enfermeiras, se mobilizam para defender seus direitos. O que está em jogo são salários não pagos, as condições de trabalho e fechamento de hospitais. Surgiram sindicatos de base independentes. Oksana Slobodiana, do movimento Be Like Nina, teve a gentileza de responder às nossas perguntas sobre esta situação.

Por: Patrick Le Trehondat

Você poderia se apresentar aos nossos leitores?

Meu nome é Oksana Slobodiana. Sou animadora do setor de saúde do movimento “Sé como Nina”, um sindicato independente da região de Lviv, e trabalho como enfermeira em um hospital infantil. Também sou mãe de quatro filhos, três dos quais ainda menores de idade.

Você poderia nos apresentar o movimento “Sé como Nina”, sua história, seu papel e por que do nome?

Nosso movimento nasceu de uma iniciativa popular de trabalhadoras e trabalhadores da saúde (enfermeiras) em 2019. Desde então, protegemos os direitos desse setor de trabalhadores. Se não conseguimos resolver os problemas pelo diálogo, organizamos manifestações. A nossa principal tarefa é melhorar as condições de trabalho e de formação das trabalhadoras e trabalhadores de saúde. Para tanto, utilizamos todos os meios, evidente, dentro da lei. O nome do movimento “Sé como Nina” vem do nome da iniciadora da primeira manifestação de enfermeiras, Nina Bondar. Nina, que trabalhava em um hospital de Kiev, decidiu uma noite expressar sua insatisfação com as condições de trabalho, salário e atitude da gerência em relação às enfermeiras. Postou uma mensagem – que foi um grito do coração – no Facebook. De um dia para o outro, teve mais de 20.000 visualizações. Desde então, as trabalhadoras e trabalhadores da saúde se uniram para defender seus direitos profissionais. Como Nina, todos querem parar de ignorar todas as violações com as quais têm de lidar no local de trabalho.  

O setor hospitalar e de saúde é estratégico, principalmente para um país em guerra. No entanto, vemos que as trabalhadoras e trabalhadores do mesmo encontram muitas dificuldades.

Você pode nos contar sobre a situação atual de médicos e enfermeiras e o estado do setor de saúde na Ucrânia em geral?

A partir de 2018, uma reforma da saúde vem sendo aplicada na Ucrânia. Desde então, as instituições médicas fecham regularmente, há um objetivo de otimização e fusão de hospitais. Isso tem um impacto significativo sobre as trabalhadoras e trabalhadores da saúde, que perdem seus empregos. Este processo não parou durante a guerra. A situação piorou consideravelmente: muitas instituições médicas foram fechadas como resultado de bombardeios e tiros de artilharia. Em consequência disso, seria oportuno acabar com a chamada “otimização”. Mas o principal erro da reforma foi a decisão de transferir a gestão do setor saúde para as autoridades locais. Hoje, são as autoridades locais que decidem se um centro de saúde é necessário ou não. As autoridades municipais tornaram-se os proprietários de fato dos hospitais. Pessoas sem treinamento especial, que não entendem como funcionam na prática, decidem sobre o destino das instalações médicas e, ao mesmo tempo, sobre seus funcionários e pacientes.

Vimos manifestações de funcionários de hospitais em Kiev e em Lviv. Acho que sindicatos também foram criados nessas cidades. Você poderia nos falar sobre essas manifestações e as demandas que elas levantam? Quais são os novos sindicatos ou organizações que existem nos hospitais para proteger os funcionários e sua saúde?

Devido à “lei marcial”, as manifestações estão proibidas na Ucrânia. Mas os profissionais de saúde não dormem sobre os louros e estão começando a criar sindicatos independentes no local. Até então, os “sindicatos estatais” funcionavam em centros médicos, amparados por recursos “administrativos”, ignorando as opiniões e interesses de seus membros.

Agora, tudo está mudando. Os trabalhadores estão se unindo para defender seus direitos profissionais. No passado, esses sindicatos independentes só existiam nas grandes cidades, mas agora estamos contribuindo para que surjam também em pequenas cidades e vilas. Os trabalhadores e trabalhadoras de pequenas cidades e vilas também devem se sentir protegidos.

Que tipo de apoio você recebe das pessoas?

A atitude das pessoas em relação aos médicos muda dependendo do momento. Às vezes, os pacientes podem censurar a equipe médica por alguma coisa. Então a pandemia de coronavírus chegou e as pessoas viram médicos, enfermeiras e funcionários em geral, sem proteção especial, colocarem suas vidas em risco para salvá-la. O pessoal de saúde então ganhou respeito. Hoje, as coisas são diferentes. Para ser sinceros, nem todos os ucranianos estão bem informados sobre a atual reforma do setor de saúde e suas consequências, por isso costumam reclamar de nós. Mas estamos realizando campanhas de comunicação ativa com a população, informando-a sobre a real situação. As pessoas estão começando a pensar mais profundamente sobre esse assunto e a apoiar os profissionais de saúde.

Você acha que os profissionais de saúde podem propor um plano alternativo à política de saúde do governo?

Com certeza, porque mudanças só podem ser propostas por quem trabalha nessa área e conhece os problemas por dentro. Na verdade, às vezes parece que pessoas aleatórias sem nenhuma experiência específica assumiram a reforma do setor de saúde na Ucrânia. Por exemplo, eles querem reformar o sistema de saúde na Ucrânia de acordo com o “modelo britânico”. Mas as nossas realidades, a situação econômica do país, a mentalidade das pessoas e a situação da saúde, que nunca foi devidamente financiada, são muito diferentes das do Reino Unido. Além disso, não podemos esquecer que nosso país está atualmente em meio a uma guerra.

Artigo retirado de: https://laboursolidarity.org (Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas), 04/04/2023

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