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quarta-feira, maio 22, 2024

Extrema direita e teoria da conspiração: A teoria da grande substituição

A “Teoria da Grande Substituição ou Genocídio Branco” é uma teoria que afirma que há uma conspiração para substituir a população branca da Europa e de outros países ocidentais por meio da imigração em massa de pessoas não-brancas. De acordo com esta teoria, a elite “globalista” estaria por trás dessa conspiração, visando a destruição das culturas ocidentais e a dominação global.

Por: Shirley Raposo

É importante notar que as noções de substituição populacional e temores de perda de identidade nacional existem há muito tempo na história. Por exemplo, o pai do nacionalismo francês, Maurice Barrès, escreveu sobre a suposta ameaça de uma nova população que destruiria a identidade nacional francesa no início do século XX.

O escritor francês Renaud Camus popularizou o termo “grande substituição” em seu livro “Le Grand Remplacement” em 2011. Camus argumenta que a imigração em massa está levando à substituição gradual da população branca e cristã da Europa por uma população muçulmana não-branca.

Essa teoria racista e xenófoba ganha eco justamente num momento de piora das condições de vida da classe trabalhadora mundial e de uma intensa crise migratória onde os refugiados são vistos como uma ameaça e usados como bode expiatórios. O objetivo é causar medo e desconfiança em relação aos refugiados e imigrantes.

A consequência é a radicalização e a violência

Desde a criação dessa teoria, ela tem sido promovida por grupos de extrema direita em toda a Europa, EUA e em outras partes do mundo. A teoria tem sido associada a atos de violência, como o tiroteio em uma mesquita em Christchurch, Nova Zelândia, em março de 2019, onde 51 pessoas foram mortas.

No caso do atirador de Buffalo, um homem branco de 18 anos matou a tiros dez pessoas num supermercado da cidade de Buffalo, Nova York, no ano passado. Ele atirou em 13 pessoas, das quais 11 eram negras. “Este indivíduo veio aqui com o propósito expresso de tirar o maior número de vidas negras que pudesse“, disse o prefeito de Buffalo, Byron Brown.

Segundo as autoridades que investigaram o caso, ele pesquisou a demografia das cidades da região e escolheu a que tinha o maior número de pessoas negras possível. Ele morava em Conklin, também em Nova York, a 330 km de Buffalo. Era um adepto dessa teoria como consta no seu manifesto.

Bolsonaro e Trump fomentam o ódio racista e contra imigrantes

Durante seu mandato como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump fez comentários que ecoaram algumas das ideias centrais da “Teoria da Grande Substituição”. Em particular, Trump enfatizou a necessidade de reforçar as políticas de imigração e as fronteiras dos Estados Unidos, argumentando que a imigração descontrolada estava ameaçando a identidade e a segurança dos americanos brancos.

Embora Trump nunca tenha usado explicitamente o termo “grande substituição”, alguns de seus comentários e políticas estão alinhados com essa teoria conspiratória. Trump utilizou a questão da imigração como uma tática política para inflamar sentimentos nacionalistas e atrair apoio dos eleitores brancos conservadores.

Em sua campanha eleitoral em 2016, Trump afirmou que “[O México] está enviando pessoas com muitos problemas, e eles estão trazendo esses problemas para nós. Eles estão trazendo drogas, crime e estupradores”. Incitando o ódio e vendendo a “solução” de um muro para separar EUA e México.

Em entrevista para o Jornal Opção de Goiás em 18 de setembro de 2015, Bolsonaro fez fala xenófoba ao comentar sobre a verba para as Forças Armadas e uma possível redução de seu efetivo:

“Não sei qual é a adesão dos comandantes, mas, caso venham reduzir o efetivo (das Forças Armadas), é menos gente na rua para fazer frente aos marginais do MST, que são engordados agora por senegaleses, haitianos, iranianos, bolivianos, e tudo que é escória do mundo, né, e agora tá chegando os sírios também aqui. A escória do mundo tá chegando aqui no nosso Brasil como se nós já não tivéssemos problemas demais para resolver. Esse é o grande problema que nós podemos ter.”

Essas ideias visam mobilizar o apoio em suas bases para legitimar as políticas que criminalizam os imigrantes, que negam o acesso aos direitos e recursos básicos e que os colocam em situações de vulnerabilidade e exploração.

Crise migratória

Mais de 3 mil migrantes morreram em 2021 tentando chegar à Europa pelo mar. Famílias inteiras largaram seus lares e comunidades para enfrentar arriscadas travessias terrestres ou marítimas, com a esperança de encontrar segurança, emprego e comida.

A extrema pobreza gerada pelas políticas de espoliação aplicadas por governos aliados da China e dos países imperialistas na África Subsaariana leva milhares de pessoas a terem que recorrer às máfias para tentar chegar à Europa. Essas pessoas são forçadas a fugir de seus países em busca de uma vida melhor devido às circunstâncias em que se encontram.

Infelizmente, muitos desses migrantes são explorados por máfias que transformam o horror da guerra e da pobreza em um negócio altamente rentável. Essas imagens de medo e incerteza inundam as redes sociais, chamando a atenção da imprensa para uma das piores crises humanitárias desde a II Guerra Mundial, junto com a pandemia de Covid.

A globalização da economia, a crise econômica, a ecológica e a polarização da luta de classes estão causando novas ondas migratórias e crises políticas importantes. A fuga de civis das guerras, da pobreza extrema e das catástrofes climáticas e naturais nos continentes africano e asiático são uma das principais causas dessas ondas migratórias.

A verdadeira raiz dos problemas socioeconômicos e migratórios enfrentados pelo mundo de hoje reside no sistema capitalista global, que perpetua a desigualdade e a exploração. A busca implacável pelo lucro e pelo crescimento econômico tem levado a uma distribuição desigual de recursos e oportunidades, criando uma disparidade entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento.

A crise migratória é inevitável no capitalismo imperialista

O capitalismo se espalhou pelo mundo através de guerras e colonização, criando um mercado mundial que coloca em contato trabalhadores de todo o mundo. Isso é diferente das formas de organização sociais anteriores, em que os povos estavam separados e incomunicáveis entre si. O desenvolvimento desigual em cada país causa um efeito de maior ou menor taxa de emprego e remuneração, o que é percebido pelos trabalhadores que agora estão em contato.

De um lado, estão os países imperialistas, onde se concentra a maior parte do Capital mundial, oferecendo as melhores condições de sobrevivência à sua classe trabalhadora. Do outro lado, estão os países que sustentam a riqueza dos mais ricos, que oferecem piores condições para sua classe trabalhadora. Os primeiros acabam atraindo trabalhadores de todo o mundo para si, perdendo poucas pessoas para outros países; enquanto os últimos perdem mais pessoas do que recebem. Quando um país sofre alguma calamidade, seja ela natural, econômica, sanitária ou militar, tendem a apresentar fuga em massa de pessoas.

Há ainda os países chamados de Emergentes que, ainda que subordinados ao imperialismo, possuem condições melhores que seus vizinhos. Esses países atraem povos em menor escala em relação aos imperialistas, e perdem em menor escala em relação aos seus vizinhos. Esse é o caso do Brasil, que vê parte de sua população migrando para EUA e Europa, mas que recebe venezuelanos, angolanos, haitianos, bolivianos, sírios, e povos de outras nacionalidades.

Os países que recebem imigrantes e refugiados lidam com eles de formas diferentes, cada um com sua própria legislação, com maior ou menor restrição. Em geral, submetem esses trabalhadores a duras condições de trabalho, piores do que a dos trabalhadores locais. Essas discriminações legais forçam os imigrantes a guetos, ficando com os postos de trabalho mais precarizados, aumentando a lucratividade do Capital de cada empresa que os contrata.

Solidariedade internacional e combate ao racismo

Como se não bastassem os problemas enfrentados pelas pessoas que estão buscando refúgio, os capitalistas se aproveitam dessas pessoas oferecendo a elas uma remuneração muito abaixo daquela praticada para os trabalhadores locais, pressionando para baixo os salários gerais de todo o país.

Os trabalhadores locais se incomodam ao ver sua renda sendo corroída como efeito colateral da superexploração dos refugiados. Os grupos de extrema direita utilizam ideologias xenófobas e racistas, como a da Grande Substituição, para canalizar essa indignação contra os trabalhadores vulneráveis que migram para seus países.

A “Teoria da Grande Substituição” é destinada aos brancos nascidos nos países que recebem imigrantes e refugiados para que eles sirvam aos interesses dos grandes empresários. É com o apoio desse setor da nossa classe que eles aprovam leis que aumentam a nossa exploração e rebaixam ainda mais nossos salários e direitos, especialmente dos oprimidos. É com a violência cada vez mais extrema praticada pelos brancos que a classe trabalhadora, que é diversa e plural, fica ainda mais dividida.

Os trabalhadores imigrantes, refugiados e racializados já resistem contra essas violências, tanto as da burguesia, quanto do estado e dos brancos que aderem a essas ideologias. É vital que os movimentos classistas se unam a essa resistência e combatam essas ideologias, inclusive seus membros brancos. Especialmente porque elas penetram nessas organizações, que passam a reproduzir tanto a ideologia quanto a violência.

Contudo, para que não haja mais a separação entre raças e nações, e para que não haja explorados e oprimidos, é preciso acabar com o sistema capitalista em cada país e no mundo como um todo. Somente uma sociedade socialista poderia, com efeito, eliminar essas contradições e unificar os explorados na construção de um mundo acolhedor para todas as nacionalidades.

Referências

https://www.brasildefato.com.br/2022/05/25/alimentada-por-republicanos-e-fox-news-tese-conspiratoria-racista-fomenta-violencia-nos-euahttps://news.un.org/pt/story/2022/04/1787722

https://g1.globo.com/mundo/noticia/trump-chama-de-buracos-de-merda-haiti-e-outros-paises-da-america-central-e-africa.ghtml

https://gq.globo.com/Prazeres/Poder/noticia/2018/01/antes-de-trump-bolsonaro-ja-se-referiu-imigrantes-como-escoria-do-mundo.html

https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2022/05/16/teoria-racista-da-grande-substituicao-motivou-autor-do-massacre-em-buffalo.ghtml

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/mexico-leva-drogas-crime-e-estupro-aos-eua-diz-pre-candidato-donald-trump-5mf12hs2fb5fw06hxl6q2jmok/

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