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sexta-feira, abril 19, 2024

Nota sobre Meloni ao Congresso da CGIL

“Fumaça branca, temos um papa”, “O rei é morto, viva o rei”… pode-se escolher de acordo com a vontade do leitor a melhor frase para aclamar a reeleição de Maurício Landini à direção da CGIL (Confederação Geral Italiana dos Trabalhadores). Por que estas fórmulas? Para melhor descrever o estado da luta sindical de hoje.

Departamento sindical do PdAC

Já é grave que um sindicato convide ao seu próprio congresso qualquer chefe de governo, que como tal é inimigo da classe trabalhadora, mas o maior sindicato italiano convidou ao palco “a presidente” Meloni, ou seja, a figura mais reacionária da política burguesa, com a qual deveria estar manifestamente em contraposição pela sua política de Robin Hood ao contrário, ou seja, tirar dos pobres para dar aos ricos.

É de praxe, explicam… os primeiros ministros sempre foram convidados. O sim de Meloni é bem-vindo: serve para demonstrar que a CGIL é um interlocutor do Palácio, mesmo em épocas da direita mais reacionária. E Meloni por que aceitou? Para demonstrar, diz, que está à altura da sua tarefa, mesmo diante dos setores sindicais mais distantes. Em suma, a legitimação e aprovação são recíprocas: mas será ela a levar para casa a maior vantagem: enquanto a direção da CGIL declara o seu voto de cumplice e de conciliação, Meloni e os partidos que apoiam o seu governo levam para casa uma legitimação aos olhos dos trabalhadores, que, somado às contínuas traições de classe da centro-esquerda e da esquerda reformista, explica os êxitos eleitorais da direita.

Mas para o mesmo palco também foi convidada a chamada oposição ao governo, os “esquerdistas” e os “Cinco Estrelas” – de Schlein a Conte até Calenda – que levaram Meloni à vitória, no fundo lançando receitas liberais parecidas com as mesmas deste governo, sem uma real dicotomia entre as partes. Calenda contestou, chamou de ovelhas aqueles que o contestam, muito para dar a entender o quanto a base é importante para estes burocratas político-sindicais… Enquanto na sala ocorre o protesto contra a presença de Meloni pela minoria da CGIL, dirigida por Eliana Como, que deixa a sala de punho fechado e erguido ao som de “Bella Ciao”, colocando em seus lugares bichinhos de pelúcia, símbolo da “tragédia de Cutro” [provocada pelo naufrágio de embarcação cheia de imigrantes no litoral da região, ndt], do palco ela ironizava debochando, desacreditando e desafiando aquele sentimento de indignação comum a tantos trabalhadores. Um protesto, disseram, meramente midiático, ainda que moderado com relação àquilo que teria sido necessário: os delegados do congresso da CGIL deveriam ter seguido o exemplo dos operários franceses que estão fazendo greve até as últimas consequências e ocupam fábricas, ameaçando derrubar Macron e todo o seu governo com um chute na bunda se não saírem por conta própria…

Uma presença, aquela de Meloni, que deveria ter indignado sobretudo as mulheres presentes na sala: “a presidente” Meloni, que não deixa de reivindicar posições machistas e homobitransfobicas, é a demonstração de que não serve para nada ter mulheres no poder se estas mulheres são conservadoras e não trabalham para melhorar a condição feminina, que é sempre um índice de evolução ou de atraso da sociedade.

Georgia Meloni fala diante da plateia – composta principalmente por quadros e dirigentes sindicais – que a escuta com rigoroso silêncio. Há inclusive um tímido bater de mãos quando a primeira ministra cita “o desprezível” ataque à sede romana da CGIL por parte da “extrema direita”… como se ela nunca tivesse tido nada a ver com Casa Pound, Força Itália ou espaços similares.

Prossegue com: “Nós pensávamos que o tempo da contraposição ideológica feroz estivesse para trás das nossas costas – disse – mas ao contrário, nestes meses me parece que está cada vez mais frequente os sinais de retorno à violência política”. Estas palavras deveriam fazer a CGIL tremer, pois revelam a intenção repressiva contra as lutas operárias no futuro, no entanto, nenhum dos burocratas sindicais teve sequer um calafrio percorrendo a coluna… “A presidente” reprova toda a linha do sindicato sobre o desemprego, salários de fome e reforma fiscal e renda básica. Do palco se escuta as seguintes palavras: “com esta presença acredito que podemos tentar celebrar a unidade nacional. A unidade não é anular a contraposição que tem um papel positivo e educativo para a comunidade”: veja como anular anos de luta de classes fazendo passar a unidade como algo que pode caminhar de braços dados com a contraposição…

Para concluir esse teatro de marionetes sicilianas entra em cena o líder máximo Landini, que anuncia estar disponível “inclusive” a uma greve geral junto com CISL e UIL… a mesma CISL que, inclusive, ao invés de manifestar-se com a CGIL e UIL na última greve nacional – que, diga-se de passagem, foi uma greve de fachada chamada por pressão da base combativa, mais para enfraquecê-la do que outra coisa – foi às ruas alguns dias depois ao lado do governo. Acrescentamos que, por ora, a perspectiva da greve geral parece muito distante…

Resumindo, a base está cada vez mais distante dos dirigentes sindicais, aquela base que garante o lugar que ocupam, mas que permanentemente é traída.

Meloni apareceu como um colosso porque reivindicou a sua guerra aos pobres e tem, de modo pouco velado, deixado clara a sua mensagem, isto é: ou o sindicato faz aquilo que diz o seu governo ou será inútil já que o governo não mudará sua trajetória… segura di si, já que os delegados foram dóceis em escutá-la, quase como quando os dirigentes se sentam nas mesas de conciliação para as negociações.

Depois desse espetáculo absurdo, as trabalhadoras e trabalhadores têm um único caminho para melhorar a própria condição: o único caminho é o da luta de classes que pode levar a uma verdadeira e real mudança do sistema econômico e social predominante até hoje, e recordando as palavras de Gramsci: “Ao discutir com um oponente, tente se colocar no lugar dele. Você vai entendê-lo melhor e talvez acabe percebendo que ele tem um pouco, ou muito, de razão.  Segui por algum tempo esse conselho dos sábios. Mas me colocar no lugar dos meus adversários era tão nojento que concluí: às vezes é melhor ser injusto do que tentar novamente esta imundície que faz a gente passar mal”.

Tradução: Nívia Leão.

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