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sexta-feira, abril 12, 2024

Argentina: Recuperemos o 8M para a luta

Há alguns anos, o 8 de março deixou de ser um dia de presentes, chocolates e flores para transformar-se em um dia de luta. Até debatemos fazer greve nesse dia, entretanto, há pouco tempo voltou a passar para o calendário dos dias de festa e onde talvez até nos presenteiem com rosas “verdes”. 

Neste artigo, queremos debater sobre a urgente necessidade de voltar à luta e faremos então um trajeto histórico para entender como chegamos até aqui.

Por: PSTU Argentina

A origem do 8M

Dependendo de quem conta a história, este dia tem diferentes origens. Entretanto, todas e cada uma delas está vinculada à luta das trabalhadoras e as organizações revolucionárias.

É assim que se menciona o incêndio na fábrica têxtil Cotton, em Nova York em 1908, onde a patronal as deixou fechadas e morreram 129 operárias. Também é reivindicada a mobilização das operárias têxteis nos EUA em 1857, que demandava melhores salários e trabalhos, e que foram duramente reprimidas. E existe a versão de que a origem do 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no velho calendário russo) foi porque as operárias de São Petersburgo entraram em greve e saíram às ruas, o que detonou as lutas que culminariam na grande Revolução Russa.

Na II Conferência Nacional de mulheres socialistas, celebrada em Copenhague em 1910, a dirigente revolucionária Clara Zetkin apresentou uma resolução que foi aprovada para celebrar todos os anos o Dia Internacional da Mulher.

Embora tenha havido vários anos em que diferentes países celebravam este dia em datas diferentes e há debate sobre o fato histórico que deu origem, o que não há discussão alguma é que foi a classe operária e os revolucionários quem deram origem a este dia e não a ONU, como sustentam todos os governos e um setor importante do feminismo.

O primeiro roubo de nosso dia

Em 1975, a ONU celebrou o Ano Internacional da Mulher e desde então, acadêmicas feministas e os diferentes setores dos governos patronais se apropriaram da data. Tiraram todo conteúdo de classe e propuseram “celebrar” às mulheres em geral, afirmando que todas sofremos a mesma opressão e que devemos estar unidas.

A ONU e a intelectualidade feminista nos propuseram, e conseguiram, introduzir o conceito desse dia de celebração feminina como um todo igualitário. Assim, nos anos seguintes se saudava no 8 de março tanto a Margareth Tatcher como as Mães da Praça de maio, ou as operárias inglesas.

Durante anos, se aproveitou o dia para presentear coisas e “homenagear” o gênero feminino. Só um punhado de revolucionárias e algumas organizações feministas mais consequentes nos mobilizávamos sozinhas reivindicando direitos para as mulheres trabalhadoras.

 A maré trouxe o 8M

Já entrando no Século XXI, as lutas das mulheres começaram a aumentar. Começou na Índia e aqui na Argentina em 2015. Dissemos :Nem uma a menos! em um 3 de junho e a coisa não parou de crescer. Foram realizadas paralisações de mulheres e mobilizações contra os feminicídios, falava-se mais massivamente do direito ao aborto e os 8M começaram a se massificar. Esse fenômeno ocorreu em muitas partes do mundo e até houve um debate muito forte, de centenas de mulheres reunidas em dias anteriores a essa data, sobre o caráter de greve que precisávamos para esse dia.

A maioria do feminismo propôs “se nossas vidas valem, que produzam sem nós”, algo progressivo em relação a questionar a produção, mas insuficiente e mesquinho. A partir da LIT-QI e do PSTU reivindicamos a necessidade de fazer uma greve geral que reivindique nossos direitos, e em seu devido momento dissemos: “Seremos a vanguarda da luta, diremos o que necessitamos, quais são nossas demandas mais urgentes e decidiremos como encher as ruas nesse dia, mas não queremos que as fábricas, escolas, comércios e empresas trabalhem nesse dia sem nós, queremos que estejam paralisadas!”. Debatemos a necessidade de que a luta por nossos direitos seja tomada por todos os trabalhadores, porque entendemos que a luta não é de mulheres contra homens, mas de todes juntes contra o capitalismo que nos oprime, nos divide com o machismo e se aproveita disso para explorar com mais força as operárias e toda a classe em geral.

As que propúnhamos a necessidade de uma greve geral pelas mulheres, não pudemos nos impor às direções feministas que levantaram a greve de mulheres e expulsavam os homens das mobilizações. No entanto, o 8 de março se enchia de mulheres jovens, de mulheres adultas que saíam pela primeira vez, de alguns sindicatos organizados e também de companheiros homens que entendiam que a luta era comum.

Se tornou um dia de luta, e assim foi durante vários anos. Estas mobilizações fizeram parte de lutas docentes, de reivindicações pelas operárias demitidas da Pepsico, como tribuna de denúncia do pagamento da Dívida Externa e como expressão de raiva contra os governos. Serviam para denunciar voz alta o papel nefasto da Igreja Católica e o resto das igrejas que impedem o acesso à educação sexual, estão contra o aborto, protegem pedófilos e lucram com a mais atroz opressão sobre nós.

 Um passo adiante, dois atrás

Não sem contradições, o país debatia sobre os direitos das mulheres, sobretudo contra a violência machista. Desse modo, a luta pela legalização do aborto obteve massividade e participação, assim como radicalizou os setores vinculados às igrejas e o mais rançoso da direita política.

A vitória demorou a chegar, porque as direções colocaram esse movimento numa camisa de força e disseram às milhões de pessoas que saíam às ruas que deviam confiar no Parlamento, nos deputados e deputadas. Que a luta era só das mulheres e se negaram a chamar um plano de luta da classe operária para conseguir o tão necessário direito ao aborto.

Nessa dinâmica de transformar a luta em “passeios e férias”, chamaram a confiar nas mesmas mulheres parlamentares que votavam a Reforma Trabalhista e o roubo dos aposentados/as, as mesmas que ordenavam as desocupações das fábricas ocupadas e dos terrenos às mulheres que não tinham moradias. Apoiaram suas campanhas eleitorais na necessidade de mais feministas nas bancadas e assim, depois de ganhar o governo, o kirchenerismo e suas correntes de mulheres negociaram uma lei que não era exatamente a mesma coisa que as ruas reivindicavam.

Entretanto, se obteve uma vitória inédita e muito necessária para as mulheres e as pessoas com capacidade de gestar. Um salto qualitativo na preservação da vida das mulheres, sabendo, evidente, a insuficiência do mesmo diante da decadência sanitária de nosso país. Uma saúde pública que é recortada e afogada orçamentariamente pelas mesmas deputadas que votaram a lei.

Este triunfo, teve o desdobramento da cooptação da imensa maioria das correntes feministas ao governo de Alberto Fernández, a consolidação dessas direções que chamaram a confiar nas instituições e a pandemia nos tirou das ruas aprofundando a institucionalização da luta feminina.

É lamentável, que as correntes que se autodenominam de esquerda ou feministas socialistas, seus parlamentares fizessem parte do mesmo plano, ainda que com um ou outro discurso mais incendiário. Apesar de falar em nome da classe operária, nem as organizações que pertencem à FIT-U, nem o resto propuseram um programa que rompesse com a institucionalidade e colocasse a luta operária à cabeça com seus próprios métodos.

Desde então, as ruas começaram a desaparecer e as propostas altamente majoritárias do movimento de mulheres são pela via da luta interna no regime e a confiança nos governos e instituições que só defendem os patrões e os lucros empresariais. Assim, voltaram a nos roubar o 8M como um dia de luta às operárias e setores mais oprimidos e explorados da sociedade.

 Recuperemos nosso dia!

Avançamos muito com o direito ao aborto, mas não estamos melhor. Apesar da campanha permanente do coletivo Nem uma a Menos ou as Mulheres sindicalistas da CGT, sobre que com elas temos aliadas que lutam por nós, os dados são estarrecedores.

O governo de Alberto e Cristina se reivindica feminista, tem mulheres em cargos públicos, usa a linguagem inclusiva nas declarações oficiais, e até tem um ministério de gênero e diversidade. Entretanto, não são mais que posturas teatrais e poses para a tribuna. A realidade de sua gestão mostra que nada sobre as mulheres mais pobres e trabalhadoras importa.

Começando pela brecha salarial e continuando pela terrível inflação que gera a violência econômica, passando pela distribuição das tarefas domésticas que continua com extrema desigualdade, a precariedade trabalhista, assim como a crise habitacional têm cada vez mais rosto de mulher. Só no ano passado na Argentina foram cometidos 307 feminicídios, uma morte a cada 28 horas! A violência machista não cessou.

Esta situação torna mais do que necessário sair novamente às ruas, retomar a luta e chamar essas jovens e trabalhadoras que estão questionando tudo a não confiar em seus verdugos.

O 8M foi imposto pelas operárias e organizações revolucionárias, voltemos a isso e recuperemos nosso dia aproveitando toda a experiência destes anos. Rompamos a imobilidade, questionemos aqueles que dizem lutar pelos direitos femininos e coloquemos as reivindicações daqueles que menos tem na ordem do dia. Nem confiança no parlamento e nas instituições, nem como fazem a partir da esquerda com rádios abertas e atividades formais para cumprir o calendário.

Lutemos confiando somente em nossas próprias forças, chamemos toda classe operária para que lute conosco, à auto-organização nos locais de trabalho e bairros. Para conseguir nossos direitos temos que enfrentar os governos e o sistema capitalista que nos oprime e explora. Conosco na liderança e os trabalhadores e setores populares tomando as demandas como próprias, começaremos o caminho para voltar a recuperar nosso dia e a luta pela nossa emancipação.

Tradução: Lílian Enck

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