sex mar 01, 2024
sexta-feira, março 1, 2024

Atividades de apoio à resistência ucraniana na França

Em 23 de fevereiro de 2023, a RESU, a Rede Europeia de Solidariedade com a Ucrânia, organizou um ato público de apoio à resistência ucraniana com um nítido caráter de classe. Entre os oradores estava o camarada Yuri Samoilov, presidente do Sindicato Mineiro Independente de Kryvyi Rih no sudeste da Ucrânia, que representa mais de 2.000 trabalhadores, principalmente metalúrgicos, e que foi o primeiro a falar.

Por: Florence Oppen

A primeira coisa que Yuri enfatizou foi a diferença radical entre viver e trabalhar na Ucrânia hoje e fazê-lo em qualquer outro país europeu: “Saí da Ucrânia há uma semana e desde que saí tive três grandes choques: primeiro aqui não têm alertas aéreos, em segundo lugar, têm luz e eletricidade em todos os lugares e, em terceiro, quando participo desse tipo de reunião na Europa, temo que o toque de recolher vai acontecer em breve e tenho que me apressar para voltar para casa. Hoje na Ucrânia tudo é branco ou preto, não há tons de cinza”.

Em seu discurso, o dirigente mineiro enfatizou o envolvimento dos trabalhadores, e especialmente dos operários, na resistência ucraniana, já que ela vem de um dos centros operários do país, Kryvyi Rih, onde vivem 250 mil trabalhadores industriais. Dos 2.500 trabalhadores de seu sindicato, 300 foram mobilizados para a frente de batalha e hoje participam da resistência à invasão russa. Enquanto estão na frente, eles permanecem sendo membros do sindicato que organiza o apoio material e a ajuda à frente. Yuri explicou que o governo Zelensky fez ataques às condições de trabalho e aos direitos trabalhistas em plena guerra, mas que seu sindicato, como muitos outros, se mobilizou para impedir que esses ataques fossem aplicados na prática pelos patrões. Os efeitos da invasão e ocupação russa da Ucrânia têm um nítido caráter de classe, enquanto o povo trabalhador teve que migrar, ir para a frete de batalha, sofrer bombardeios, cortes de energia, privações e acima de tudo arriscar suas vidas na frente de batalha, muitos oligarcas russos , como vários oligarcas ucranianos e empresas estrangeiras, hoje, na Ucrânia seguem, vivem protegidos fora do país e continuam fazendo negócios com a Rússia em meio à guerra.

Por fim, em seu discurso, insistiu na importância da ajuda material direta aos sindicatos e à resistência operária que eles têm recebido da RESU e da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas: “agradecemos por toda a ajuda que  nos deram, nos enviaram geradores que nos ajudam a lutar nas frentes em Bakhmut e Soledar, nos enviaram sacos de dormir que ajudam os soldados ucranianos a dormir aquecidos. Temos membros de nosso sindicato ativos em dois batalhões do exército ucraniano e um dos comboios de ajuda material foi entregue diretamente em mãos a um batalhão na frente. Para mim é muito importante que essa ajuda de operário para operário seja direta, que entreguemos as coisas em mãos e não passemos por intermediários.”

Também falou no evento Vitaliy Dudin, representante do Sotsіalniy Rukh (Movimento Social) da Ucrânia, que denunciou a “agressão imperialista de Putin” e enfatizou “a necessidade de continuar a ajuda econômica e militar à resistência, bem como a importância de cancelar o pagamento da dívida externa da Ucrânia” e a importância de fortalecer as organizações de classe na Ucrânia para poder recuperar os direitos sociais perdidos após a vitória e realizar uma “transformação social radical” que implemente “políticas socialistas”. Jean-Pierre Pasternak, porta-voz dos Ucranianos da França, organização fundada em 1949 pelos sobreviventes dos campos de concentração nazistas que chegaram à França, e que reúne grande parte da comunidade ucraniana no país, deixou bem nítido que não podem aceitar “nenhum tipo de paz com anexações” e que a resistência ucraniana e seus aliados (a diáspora ucraniana e os povos solidários com sua causa) “devem impor uma derrota categórica ao imperialismo russo, pois também ameaça, hoje, a Moldávia, os Países Bálticos e a Polônia”. A companheira Huayra Llanque, do coletivo feminista RESU e militante da ATTAC, destacou a importância de tornar visível a perspectiva e o papel das mulheres na resistência ucraniana e o manifesto feminista que elas lançaram para fazer um apelo internacional à solidariedade. Destacou que as mulheres têm enfrentado agressões e estupros por parte do exército invasor, mas também que estão muito ativas na resistência e na defesa de seus direitos, tanto em sua luta pela materialização do direito ao aborto, legal na Ucrânia, mas sem recursos médicos e materiais durante a guerra, como no apoio às mulheres polonesas que estão lutando pelos direitos reprodutivos nos últimos anos, já que muitos ativistas ucranianos estão na Polônia hoje.

O ato foi encerrado pelas intervenções s de três representantes (Solidaires, FSU e CGT) da intersindical na França que apoia os sindicatos ucranianos, e da RSISL que explicaram as diferentes iniciativas de ajuda material e comboios internacionais aos quais aderiram. Cybèle David, da federação Solidaires, fez um chamado para continuar “apoiando a resistência sindical e popular na Ucrânia, e também à população bielorrussa e aqueles na Rússia que se opõem à invasão” e sair a se manifestar em Paris e outras cidades no sábado, dia 25. Também enfatizaram a necessidade de organizar a classe trabalhadora para lutar por seus direitos sociais e políticos tanto na França quanto na Ucrânia, conectando as lutas e desenvolvendo a solidariedade internacional.

O ato do dia 23, no entanto, carecia de uma delimitação nítida do governo imperialista francês, do imperialismo europeu da UE e da OTAN. Nem uma crítica, portanto, à política real de Macron na Ucrânia, que continua, como os demais governos da UE, enviando armamento velho e a conta-gotas para a Ucrânia enquanto aproveita a guerra para aumentar espetacularmente os gastos militares franceses, reforçando seu exército imperialista, que reprime protestos na África e em outros países, e para lançar uma corrida armamentista que beneficia os grandes grupos industriais franceses (Airbus Group, Dassault Aviation, Thales, Nexter et). Também não foram questionados os planos da UE de “reconstruir a Ucrânia” por meio de pesados ​​empréstimos e de um endividamento que compromete qualquer verdadeira independência econômica uma vez que a guerra seja vencida e que busca semicolonizar a Ucrânia. É por isso que, em cada visita a Kiev, os hierarcas europeus são acompanhados por grandes empresários dos seus países que disputam a espoliação da reconstrução.

A capitulação à direção atlantista e burguesa manifestou-se abertamente na passeata do sábado, dia 25, em Paris, na qual um dos oradores foi Alain Madelin, antigo ministro do governo Chirac e figura pública do neoliberalismo pró-OTAN ou Bernard Guetta , deputado europeu do LRM, o partido de Macron.

Há que destacar que o novo orçamento militar do governo Macron para o período 2024-2030 será de 413 bilhões de euros, e os gastos com inteligência militar aumentarão 60%. No total, o gasto militar para os próximos sete anos vai dobrar em relação ao anterior e elevar o gasto militar total para 2,5% do PIB, superando o “mínimo” de 2% estabelecido pela OTAN. Tudo isso enquanto milhões de trabalhadores na França sofrem os efeitos da inflação recorde, o fim de diversos auxílios governamentais para enfrentar a crise social e, evidente está, o brutal ataque da reforma previdenciária de Macron.

A grande justificativa para a detestada reforma que tem levado milhões às ruas (e que provavelmente paralisará o país em 7 de março) é que, segundo o Governo, o sistema de aposentadorias/pensões tem um déficit anual entre 10 e 12 bilhões de euros. No entanto, a reforma da previdência em meio à guerra e corrida armamentista expõe as contradições e prioridades do governo Macron, já que o orçamento militar do Estado francês em 2022 foi de 41 bilhões para defender os interesses das grandes multinacionais francesas em suas zonas de influência. Fica nítido que o imperialismo francês tem recursos suficientes para manter e até mesmo diminuir a idade de aposentadoria, aumentar as pensões e os salários e apoiar decisivamente a resistência ucraniana. No entanto, os trabalhadores franceses só conseguirão atender às necessidades imediatas da classe trabalhadora na França, na Europa e na Ucrânia  se questionam de maneira radical os lucros recordes de suas multinacionais, a adesão à OTAN e o papel de seu exército na África e no resto do mundo, e avançam para construir um governo independente da classe trabalhadora que aponte para um governo de e pelos trabalhadores.

Portanto, enquanto continuamos a construir a unidade de ação em prol do apoio material para a resistência ucraniana e para a derrota da invasão russa, e fortalecendo, em particular, a resistência operária e popular, devemos defender uma ala independente e de classe, que se diferencie fortemente dos planos de Biden, Macron e Scholz, que não visam a independência política e econômica do povo ucraniano. Devemos construir um movimento de solidariedade que reúna cada vez mais setores operários e populares, e desenvolver iniciativas de mobilização independente dos trabalhadores franceses e europeus, e as campanhas de ajuda direta, como começaram a fazer a intersindical na França e a RSISL.

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