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sexta-feira, março 1, 2024

Uma guerra de agressão nacional

Lenin, diante de uma guerra, perguntava-se: “Como uma guerra ode ser explicada sem relacioná-la com a política anterior de um dado estado, de um dado sistema de estados, das classes [sociais] existentes?”, e concluía: “Esta é a questão central, sempre subestimada, e o mal-entendido que faz de nove em dez discussões sobre guerra uma mera disputa e muita conversa”. Estas foram suas perguntas: “Eu diria que é a questão do caráter de classe da guerra; o que causou a guerra, que classes estão em luta, e que condições históricas e histórico-econômicas levaram a ela”[1].

Apresentação da Revista Marxismo Vivo Nº 18, Maio de 2022.

A LIT-QI defende que a ocupação da Ucrânia pelas tropas russas, iniciada em fevereiro, é uma guerra de agressão nacional da segunda potência militar do mundo contra uma nação muito mais fraca, que quer subjugar pela violência, com métodos de extrema crueldade. Ao longo de sua história, com exceção do curto período inicial da URSS durante a vida de Lenin, a Ucrânia foi subjugada, primeiro pelo czarismo e depois pela burocracia stalinista. Após a restauração capitalista, as várias facções burguesas que saquearam a propriedade estatal lutam entre si para permanecer na órbita do imperialismo europeu.

A intervenção russa na Ucrânia é uma continuação da guerra e da ocupação sangrenta da Chechênia, da intervenção militar russa na Geórgia, do apoio direto ao ditador Lukashenko em Belarus, da anexação da Crimeia e da ocupação de Donbass, e da intervenção militar no Cazaquistão em janeiro deste ano.

As entrevistas coletivas de Putin com a imagem de Catarina, a Grande, a grande figura da expansão imperial russa no século 18, ao fundo, são uma declaração de intenções. A natureza deste conflito é uma guerra de agressão nacional, cujo objetivo é o controle militar, econômico e político de um país e dos recursos naturais que o Kremlin considera essenciais para seu projeto capitalista da Grande Rússia.

A invasão mostra, paradoxalmente, a fraqueza econômica do capitalismo russo, economicamente dependente e dominado por um punhado de oligarcas cujo papel na divisão mundial do trabalho é basicamente reduzido ao de fornecedor de energia. Entretanto, o capitalismo russo é, ao mesmo tempo, uma superpotência militar nuclear herdada da URSS que, para preservar seus interesses como potência no que considera seu espaço vital, recorre à força militar, com a qual sustenta ditaduras submissivas. No entanto, as guerras de agressão de Putin só jogam água nos moinhos dos imperialismos europeu e norte-americano.

Décadas depois da restauração do capitalismo na China e na Rússia, os defensores da teoria dos campos continuam proclamando que o que define ser “anti-imperialista” é estar “no campo onde a OTAN não está”. Com base neste argumento, apoiam a guerra de agressão de Putin. Mas, na verdade, estas teses se apoiam em regimes capitalistas reacionários e antipopulares como os de Cuba, Nicarágua ou Venezuela ou o da teocracia iraniana, que procuram abrigo na Rússia de Putin e na China de Xi Jinping, que alguns, a propósito, transformaram nada menos que em uma luta burguesa no “socialismo real” de nossos dias.

Perante uma guerra de agressão nacional, a única posição legítima do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora internacional é a solidariedade e o apoio à resistência do povo ucraniano para derrotar a agressão imperial[2] russa. É por isso que devemos estar no campo militar do povo ucraniano. 

O primeiro texto deste dossiê sobre a Ucrânia reconstrói a trajetória da luta do povo ucraniano pela autodeterminação até a restauração capitalista. Em seguida, textos de Leon Trotsky e outros autores discutem a atitude dos revolucionários em relação às guerras de agressão nacional, à invasão japonesa da China em 1937 e à guerra ítalo-etíope em 1935.


[1] Lenin, Guerra e revolução, https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1917/may/14.htm

[2] O termo “imperial” utilizado acima, não se confunde com a categoria Imperialismo capitalista utilizado por Lenin, no qual alguns poucos países, pelo poder de seu capital financeiro tem uma política de Estado de subjugar a maioria dos Estados. Ainda que a Rússia de Putin tenha uma política opressora dos países do entorno, Rússia não nos parece que esteja envolvida em uma guerra por uma nova divisão do mundo, e sim de controle da região histórica do império czarista. Como afirma Lenin, na época do imperialismo capitalista a politica internacional do capital financeiro “origina abundantes formas transitórias de dependência estatal. Nesta época são típicos não apenas os dois grupos fundamentais de países -os que possuem colônias e as colônias -, mas também formas variadas de países dependentes…”V.I. Lenin, El imperialismo fase superior del capitalismo. Editorial Fundamentos, Madrid, 1974.

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