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quinta-feira, fevereiro 29, 2024

Diga seu nome! O assassinato policial de Tyre Nichols desata a indignação

Em 7 de janeiro, a polícia de Memphis da chamada Unidade SCORPION (Operação de Delitos de Rua para Restaurar a Paz em Nossos Bairros) deteve Tyre Nichols, de 29 anos, por uma suposta infração de trânsito. O vídeo divulgado pela polícia de Memphis mostra que, no encontro inicial, os policiais gritam agressivamente:” Sai da p**** do carro!”, com as armas em punho. Nichols obedeceu às ordens e ouve-se ele dizer: “Não fiz nada” e “Só estou tentando voltar para casa”.

Por: John Leslie

A situação se agrava rapidamente, e um grupo de policiais golpeia, chuta e lança gás pimenta em Nichols. Ouve-se Nichols chamar repetidamente sua mãe. Nas gravações das câmeras corporais publicadas recentemente, vê-se Tyre Nichols encostado contra um carro da polícia em evidente perigo, enquanto os policiais estão batendo papo. Ninguém tenta deter o espancamento nem prestar ajuda depois. Os dois paramédicos que chegaram ao local não ofereceram ajuda médica a Nichols, embora um deles revistou seus bolsos e pegou a carteira. Finalmente, todos os funcionários uniformizados, inclusive os paramédicos, saem, deixando Nichols sozinho e se retorcendo de dor.

Van Turner, presidente da seção da NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas Negras, por sua sigla em inglês) em Memphis, disse que o desenlace poderia ter sido diferente se alguém tivesse parado para ajudar Nichols: “Se tivessem prestado os primeiros socorros, talvez Tyre tivesse recebido golpes, tivesse ossos quebrados, mas continuaria vivo. Dessa forma, os que se limitaram a vê-lo morrer, deveriam ser tão responsáveis como os que o maltrataram”.

Inclusive o chefe da Ordem Fraternal da Polícia, sindicato reacionário de policiais que tem defendido repetidamente muitos policiais em circunstâncias similares, qualificou o incidente de “repugnante” e de “crime”, e acrescentou: “O que ocorreu, tal como nos descreveram, não constitui um trabalho policial legítimo nem uma parada de trânsito que deu errado”.

Este vil assassinato fez com que cinco policiais fossem acusados de assassinato em segundo grau, má conduta oficial, sequestro com agravantes, opressão oficial e agressão com agravantes. Os policiais foram despedidos da corporação, e o Departamento de Polícia de Memphis dissolveu a unidade SCORPION, após defender inicialmente o esquadrão de elite.

Protestos em todo o país

Durante o fim de semana de 27 a 29 de janeiro, os manifestantes se reuniram desde Nova York até Bay Area, em dezenas de cidades e bairros pobres, para exigir “Justiça para Tyre Nichols!”. Muitos dos manifestantes gritavam: “Tyre Nichols: Diga seu nome!”. Tyre Nichols era pai, filho, enteado, fotógrafo, skatista e trabalhador. Era um fotógrafo dotado, cujo talento fica patente nas fotos que postou na Internet. Consulte seu website aquí. Tyre trabalhava na FedEx, donde poupava dinheiro para conseguir uma vida melhor para ele e seu filho. Estes policiais brutais roubaram de sua família e do mundo a promessa que encerrava sua vida.

O Partido Democrata e seus aliados nas ONGs e entre as figuras “progressistas” da comunidade agiram para desencorajar os protestos e canalizar a justa ira das massas para águas mais seguras e tranquilas. A última coisa que os democratas querem é outra explosão social como a que aconteceu após os assassinatos em 2020 de Ahmaud Arbery, Breonna Taylor e George Floyd. O presidente Biden declarou que estava “indignado e profundamente condoído” pelo vídeo.

As mobilizações pela justiça para Tyre Nichols ocorrem no contexto de um aumento da violência policial e ao mesmo tempo em que muitos exigem justiça para Manuel “Tortuguita” Terán, ativista de Stop Cop City assassinado por policiais em Atlanta em 18 de janeiro. O estado da Geórgia está usando o pretexto dos supostos protestos violentos contra Cop City para acusar os ativistas de terrorismo doméstico e de usar a Guarda Nacional contra os manifestantes.

Dois anos depois de George Floyd

Há quase três anos, ocorreram manifestações de massas e explosões sociais sem precedentes após os assassinatos de Ahmaud Arbery, Breonna Taylor e George Floyd. Milhões de pessoas foram às ruas em cidades e pequenos bairros pobres dos Estados Unidos e do mundo, exigindo justiça para as vítimas deste sistema racista. O doloroso vídeo do assassinato de George Floyd, que ofegava enquanto um policial ajoelhava sobre seu pescoço, chocou o mundo e desencadeou exigências de desfinanciamento e abolição da polícia.

Os democratas, sempre fiéis auxiliares do capital, fizeram todo o possível para adiantarem-se ao movimento e dispersar sua energia, oferecendo declarações sobre reformas, às vezes inclusive ecoando as demandas do movimento. Biden e membros do Congresso “se ajoelharam” em sinal de solidariedade.

Após o assassinato de George Floyd, 45 estados aprovaram cerca de 300 medidas destinadas a reformar os departamentos de polícia e as práticas policiais. Muitas destas leis foram posteriormente suavizadas ou alteradas sob a pressão de grupos pró polícia. Em alguns estados, as leis incluíam mais proteções para a polícia. No ano passado, Biden deu apresentou seu “Plano América Segura”, que pedia 37 bilhões de dólares “para apoiar o cumprimento da lei e da prevenção da delinquência”. Parte desta lei pede para contratar e formar 100.000 novos policiais para uma “polícia comunitária responsável”. Muitas das reformas que foram oferecidas – como a suposta melhoria da formação policial ou as câmeras corporais – não impediram o assassinato de Tyre Nichols e de outras pessoas que foram assassinadas ou maltratadas pela polícia.

Segundo o jornal The Guardian, os assassinatos policiais nos Estados Unidos aumentaram, não diminuíram em 2022: “O total preliminar de 2022 – possivelmente uma contagem inferior à medida que mais casos sejam catalogados – marca 31 mortes a mais que no ano anterior. Em 2021, a polícia matou 1.145 pessoas; 1.152 em 2020; 1.097 em 2019; 1.140 em 2018; e 1.089 em 2017. Os dados mais antigos remontam a 2013, quando jornalistas e defensores da justiça racial começaram a contabilizar estes incidentes mortais em escala nacional. Uma base de dados administrada pelo Washington Post, que faz um acompanhamento dos tiroteios mortais da polícia, também mostra 2022 como um ano com recorde de assassinatos”. Trata-se do maior número anual de assassinatos policiais desde a revolta de Ferguson de 2014.

Isto representa um reinado contínuo do terror policial nos bairros negros e pardos. The Guardian cita a tia de Breonna Taylor, Bianca Austin: “Simplesmente nunca se detém. Houve um movimento e um alvoroço em todo o mundo, e continuamos tendo mais assassinatos?”.

Não há bons policiais em um sistema racista!

A polícia não existe para “proteger e servir” à classe trabalhadora média. No capitalismo, a polícia está a serviço dos interesses dos ricos e de fazer cumprir a vontade da classe dominante. A polícia serve como guardiã de uma ordem social racista. A instituição nos Estados Unidos “foi originada na instituição da captura dos escravos no Sul e na conversão do sistema de oficiais de diligência e vigilantes noturnos no Norte em patrulhas para a vigilância das zonas operárias e, especialmente, da repressão das greves”.

O fato de que cinco dos seis, ou mais, policiais que assassinaram Tyre Nichols sejam negros é irrelevante para compreender a natureza racista da instituição. É seu papel em um sistema racista como protetores do status quo o que determina a natureza racista da polícia nos EUA. Qualquer ativista comunitário que tenha protestado contra a violência policial ou qualquer trabalhador que tenha se declarado em greve, aprendeu rapidamente de que lado os policiais estão. Na era do encarceramento em massa, a polícia é a primeira linha da guerra contra as pessoas negras e os trabalhadores, um mecanismo de admissão para o complexo industrial penitenciário.

As unidades especiais da polícia, como a chamada unidade SCORPION de Memphis, agem baseando-se em uma ética agressiva que vê os membros da comunidade como um inimigo que têm que conter, não como cidadãos que têm que proteger. Por isso, muitos ativistas veem a polícia mais como uma força militar de ocupação do que como uma presença benigna.

Segundo o jornal The New York Times, “os residentes se queixavam das táticas duras, de que os agentes da nova equipe Escorpião empregavam medidas policiais punitivas em resposta a delitos relativamente menores. Depois chegou a detenção e o assassinato de Tyre Nichols, e as imagens de vídeo publicadas na sexta que mostravam como os agentes davam chutes, socos e usavam um cassetete para bater no Sr.Nichols enquanto este suplicava que lhe deixassem ir para casa”.

Guerra contra as drogas ou guerra contra os negros?

A Guerra contra as Drogas é um aspecto do complexo industrial penitenciário (CIP). Seu objetivo é criminalizar e marginalizar ainda mais as pessoas negras e pardas e os ativistas políticos. John Ehrlichman, assessor de política interior de Richard Nixon, admitiu isso durante uma entrevista em 1994 com o biógrafo de Nixon, Dom Baum.

Baum cita Ehrlichman dizendo: “A campanha de Nixon em 1968, e a Casa Branca de Nixon depois, tinham dois inimigos: a esquerda antibelicista e os negros. Entende o que eu digo? Sabíamos que não podíamos ilegalizar nem estar contra a guerra nem contra os negros, mas se conseguíssemos que o público associasse os hippies com a maconha e os negros com a heroína, e depois criminalizássemos fortemente ambos, podíamos desorganizar essas comunidades. Podíamos deter seus líderes, fazer batidas em suas casas, dissolver reuniões e difamá-los noite após noite nos noticiários. Sabíamos que mentíamos sobre as drogas? Certamente que sim” (“Harper’s Magazine: War on Drugs Invented to Destroy Blacks, Anti-Vietnam Left,” East Bay Express, 24 de março de 2016).

Ambos os partidos capitalistas são cúmplices deste horror. A lei federal contra a delinquência de 1994 assinada pelo democrata Bill Clinton, e apoiada pelo então senador Joe Biden, contribuiu para criar uma situação na qual os Estados Unidos encarceram seus cidadãos mais do que nenhum outro país do mundo. O projeto de lei aumentou o número de policiais, promulgou novas diretrizes mais severas para as condenações e deu incentivos aos estados para a construção de prisões, provocando um auge na construção de novas prisões.

Em um discurso pronunciado em 1993 para defender a aprovação da lei, Biden advertiu sobre os “predadores”, dizendo: “A menos que façamos algo com esse grupo de jovens – dezenas de milhares deles nascidos fora do matrimônio, sem pais, sem supervisão, sem nenhuma estrutura, sem nenhum desenvolvimento consciente – porque literalmente não foram socializados, literalmente não tiveram uma oportunidade …se converterão – ou uma parte deles o farão – em depredadores dentro de 15 anos”. Da mesma forma, Hillary Clinton, em 1996, falando em defesa do projeto de lei de seu marido contra a delinquência, se referiu aos jovens negros como “superdepredadores”.

O que fazer agora?

Os capitalistas de ambos os partidos não têm nenhuma solução para as verdadeiras raízes da delinquência, que estão profundamente arraigadas na desigualdade e na exploração do sistema atual. Os políticos falam de “linha dura contra a delinquência” e estão dispostos a investir mais e mais dinheiro na polícia e nas prisões, ao invés de destinar mais dinheiro e recursos para a educação, a moradia acessível, o emprego, a saúde e o transporte público. O sistema militarizou a polícia.

Nós socialistas não defendemos reformas que deixem o poder da polícia intacto. Apontamos a insuficiência da “melhor formação policial”, que inclui técnicas como a formação em preconceitos implícitos, a polícia comunitária (uma estratégia de “polícia branda” para ganhar o apoio da comunidade à polícia), as juntas consultivas comunitárias que dão sua opinião à polícia sobre como realizar melhor seu trabalho, mas não questionam seu próprio trabalho, e as juntas civis de revisão.

Em vez disso, apoiamos o desarmamento e a desmilitarização da polícia, o desfinanciamento da polícia, o julgamento dos policiais violentos e assassinos, e a expulsão dos policiais das escolas. Também pedimos a saída dos policiais do movimento operário. A polícia não faz parte da classe operária e seus “sindicatos” não têm lugar nas fileiras do movimento operário organizado. O mesmo vale para os sindicatos de carcereiros. Em última instância, pedimos a extinção da polícia e das prisões, uma exigência a que os políticos burgueses nunca irão aceder.

Justiça para Tyre Nichols! Policiais assassinos na prisão! Policiais e carcereiros fora dos sindicatos! Extinguir a polícia e as prisões!

Tradução: Lilian Enck

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