Brasil | Entrevista com a direção do PSTU brasileiro, Vera Lúcia

Vera foi a primeira mulher negra e operária a se candidatar à presidência, em 2018 pelo PSTU e em 2022 pelo PSTU e pelo Polo Socialista e Revolucionário.
O PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) é um partido trotskysta filiado à Liga Internacional dos Trabalhadores (Quarta Internacional).
Por: ISL – Inglaterra
1. Qual é a situação da classe operária em termos de emprego e salário. Existe brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza?
O desemprego no Brasil é alarmante. De acordo com a pesquisa realizada pelo ILAESE (Instituto Latino Americano de Estudo Socioeconômicos), existem 47,271 milhões de trabalhadores empregados no mercado formal; 49,235 milhões de desempregados; e 38,968 milhões subempregados (trabalhadores de aplicativo, vendedores ambulantes e os chamados bicos).
Os salários são baixíssimos. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 37% dos trabalhadores recebem até um salário mínimo que é de R$ 1.212,00 mensal. A combinação dessa realidade resulta em 62,525 milhões de brasileiros condenados a viverem abaixo da linha de pobreza, ou seja, são pessoas que sobrevivem com menos de R$ 16,20 por dia, de acordo com o mesmo instituto.
2. Esse desemprego e precarização do trabalho se deve à desindustrialização ou ao aumento de produtividade nas empresas?
A duas coisas. Nos últimos 10 anos foram fechadas 9.579 fábricas, demitindo um milhão de operários diretos. Sendo que a terceirização cresceu muito e para cada operário direto existem pelos menos 7 ou 8 terceirizados que foram demitidos com o fechamento dessas indústrias. Isso tem um feito dominó.
Em 2021, foram fechadas 1,410 milhão de empresas segundo o Ministério da Economia. Entre maio e agosto deste ano de 2022, foram fechadas 600 mil empresas. Muitas outras são abertas, mas as micro e pequenas empresas, que são as que mais empregam, não conseguem se sustentar com a inflação e a com a pesada carga tributária. Os governos só isentam as grandes empresas e as multinacionais de pagamentos dos impostos.
Existe uma política de desmantelamento do parque industrial brasileiro e de privatização das estatais, que com a mudança para a centralidade econômica na produção de alimentos e minérios para exportação. Essa é a nova localização do Brasil no mercado mundial com o aval da burguesia nacional a serviço dos imperialismos estadunidense e europeu e, também, chinês.
Com o avanço tecnológico e com a chegada da indústria 4.0, mesmo atrasada aqui no país, tem aumentado a produtividade, enquanto aumenta o desemprego. Isso explica, por exemplo, o recorde de lucros das empresas do agronegócio, da Petrobrás, das mineradoras e, obviamente, dos bancos.
A alta concentração de riqueza de um lado e leva à alta concentração de miséria do outro. No Brasil, concentra-se uma das maiores desigualdades sociais do mundo.
3. Ativistas denunciam o genocídio da juventude preta e pobre no Brasil? O que quer dizer isso?
A maior população negra do mundo fora da África encontra-se no Brasil e foi o último país a abolir a escravidão na América, sem nenhuma reparação aos negros e negras saídos das senzalas.
Consequentemente, negras e negros são a maioria dos desempregados, são os que recebem os menores salários, estão nos subempregos, são os que mais passam fome (atualmente 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil), são os que estão abaixo da linha da pobreza, são os que sofrem com a falta de moradia (há déficit habitacional de mais de 6 milhões no Brasil). Negras e negros, em ampla maioria, moram nos bairros mais distantes, sem saneamento básico, sem creches, com valas de esgotos abertos, sem acesso ao lazer.
Para justificar a condição de escravização dos negros e negras, a burguesia, sobretudo europeia, disseminou toda uma ideologia contra essa parcela da humanidade. A propaganda ideológica dizia que nós negras e negros não éramos gente, não tínhamos alma, éramos menos inteligentes, etc. A força dessa propaganda ideológica foi tão grande, que até hoje se reverbera como muita força.
Durante a escravidão, era muito comum os negros e negras apanharem, serem torturados, assassinados, humilhados. Hoje, isso se mantém, agora nas periferias das cidades e nos presídios. Tudo que é ruim é associado aos negros e negras.
A juventude negra é vítima de um verdadeiro extermínio. Em 2021, foram registrados 47.503 assassinatos. Esse é o menor número desde 2011. Em 2012 foram 56.337 assassinatos.
Tudo isso expressa o quanto o racismo é presente no país. É isso que os movimentos sociais denunciam. Diariamente, lutamos contra o racismo e por reparações aos negros e negras que são marginalizados, discriminados e violentados.
4. E a situação da violência contra a mulher e a população LGBT? O futuro governo Lula vai defender a legalização o aborto no Brasil?
O Brasil é também um país machista e LGBTIfóbico, ocupando o 5º lugar em assassinato de mulheres e o primeiro em assassinato de LGBTIs no ranking mundial. Isso explica em grande medida o apoio ao presidente Jair Bolsonaro que perdeu a eleição para Lula. Bolsonaro é um conservador moralista de ultradireita. Por outro lado, Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), é contra o aborto. Tanto é assim que nos seus dois mandatos anteriores, essa pauta não avançou. E, a presidente ex-presidente Dilma, também do PT, em troca de votos se comprometeu com os religiosos evangélicos e católicos em não levar adiante essa pauta.
Agora, diante ao novo governo do PT, em coalização com partidos da grande burguesia brasileira, que inicia em janeiro de 2023, a luta contra o machismo e a LGBTIfobia será travada nas ruas. O direito à legalização do aborto é parte dessa batalha.
5. Nas últimas eleições você fez chapa presidencial com Raquel Tremembé, de uma etnia indígena. Qual é a situação dos povos indígenas?
Podemos resumir a situação dos povos indígenas em no Brasil em uma palavra: degradante. Os povos originários são roubados desde o dia que o primeiro colonizador europeu colocou os pés aqui. O Marco Temporal é o mais recente projeto de expropriação das terras indígenas pelo Estado brasileiro, para entregá-las à dominação privada das mineradores, madeireiras e ruralistas.
Os povos indígenas, os quilombolas e população ribeirinha são perseguidos e mortos. Os sobreviventes vivem, majoritariamente, em condições de penúria.
Ter uma chapa feminina negra, operária e indígena condensa e retrata do que é a maioria do povo e da classe trabalhadora oprimida e explorada de nosso país. Minha companheira de chapa – Raquel, da etnia Tremembé – expressava os mais de 300 povos e as 150 línguas que resistem e lutam todos os dias pelos por seus territórios e pro suas vidas.
6. Bolsonaro perdeu a eleição. Isso foi positivo para a classe operária? É o fim do bolsonarismo?
O presidente Bolsonaro ter perdido as eleições foi uma vitória muito importante para a classe operária e ao conjunto da classe trabalhadora, porque isso nos possibilita melhores condições para a organização, mobilização e manifestações, que estariam seriamente ameaçadas caso ele ganhasse as eleições e promovesse um autogolpe, que é o que ele sempre almejou ou fosse endurecendo o regime por dentro nos moldes do governo Orban, da Hungria.
O ato de ter perdido a eleição enfraquece, não acaba com o bolsonarismo, que é um movimento de ultradireita, que tem dentro dele os defensores de um golpe militar, grupos e células fascistas. Esse tipo de movimento só a luta organizada da classe trabalhadora e da juventude nas ruas, pode de fato destruí-lo.
7. Lula está formando um governo anticapitalista ou buscará aliança com grupos capitalistas?
O governo Lula é um governo de coalisão, como os próprios petistas dizem. Dentro dele estão partidos da direita conservadora, democrática, neoliberais e os partidos mais mercenários e corruptos da política brasileira, chamado de centrão, que juntamente com os partidos de esquerda, PSOL e os estalinistas PCdoB e UP, juntamente com o PT formam o governo Lula.
O seu vice, Geraldo Alkimin, é um político da direita conservadora e religiosa, que foi integrante da Opus Dei, esteve na linha de frente das privatizações do país. Como governador de São Paulo foi extremamente violento com os movimentos sociais, como na desocupação do bairro Pinheirinho, com os estudantes nas manifestações de rua de 2013, e com estudantes secundaristas. Além do envolvimento com vários esquemas de corrupção, desde a merenda escolar até a construção de linhas do metrô.
Integram o governo de Lula os banqueiros do Itaú e Bradesco, representantes do agronegócio, empresários das mineradoras como Vale e CSN, e quase todos os movimentos sociais e as centrais sindicais. Esse é o governo Lula. Um governo capitalista que integra a direita e a esquerda.
8. Você acha que é interesse dos grupos capitalistas e do futuro governo Lula combater ou preservar o bolsonarismo?
O combate à ultradireita bolsonarista passa pelo atendimento das necessidades da classe trabalhadora, começando pelos mais pobres e oprimidos. Mas para isso, é necessário revogar as reformas trabalhistas e previdenciárias; acabar com o teto dos gastos; demarcação e homologar todas as terras indígenas e quilombolas; revogar as leis antiterror e antidrogas; reestatizar as empresas privatizadas; suspender o pagamento da dívida pública; construir um plano de geração de empregos; aumento dos salários; acabar com a Paridade de Preço de Impostação que dolariza a economia; por um fim ás isenções ficais para as grandes empresas nacionais e as multinacionais.
O governo Lula não fará isso. E, são exatamente essas as bases de sustentação do bolsonarismo: a miséria, o desemprego e a violência, que estimula todos os tipos de preconceitos diante da concorrência escarnecida no interior da classe trabalhadora e própria da concorrência capitalista.
Por outro lado, a existência do bolsonarismo será o principal elemento de chantagem das direções reformistas, integrantes do governo, principalmente, para garantir a governabilidade petista, enquanto Lula ataca os trabalhadores para garantir os interesses dos capitalistas, com o argumento da volta da ultradireita.
O governo petista não vai acabar com o bolsonarismo, porque a existência dele é a garantia de permanência de seu governo. A tarefa de combate ao bolsonarismo e o petismo será da classe trabalhadora de forma unificada e organizada.
9. A central sindical e popular CSP-Conlutas da qual você é uma das fundadoras está discutindo a questão da autodefesa operária e popular. Você acredita que ela é necessária? Como ela se dará?
A autodefesa é uma necessidade vital para os explorados e oprimidos. É através dela que manteremos e construiremos as organizações que precisamos para nos defender dos bolsonaristas e da ultradireita, dos ataques do novo governo e da violência policial, machista, racista, LGBTIfóbica, xenofóbica.
A CSP-Conlutas teve a iniciativa de organizar o comitê de autodefesa, primeiro em São Paulo, e está incentivando o debate em todo o país sobre essa necessidade. Primeiro, porque a autodefesa é uma ação de massas para se proteger de todas as formas de violência. Esse debate e a sua organização deve ocorrer nas escolas, universidades, nas fábricas, nos bairros, nas repartições públicas e privadas, de tal maneira que todos os oprimidos e explorados coletivamente decidam sobre a melhor maneira de se protegerem de todas as formas de violência praticadas contra ela.
Por exemplo, uma assembleia na fábrica, na escola ou no bairro pode debater e deliberar como farão a segurança para se protegerem de grupos bolsonaristas, e no interior desses locais, como será a conduta dos homens perante as mulheres, dos brancos perante os negros, dos cis e héteros perante as pessoas LGBTIs, perante os imigrantes. De estimulo à solidariedade de classe, de maneira que possamos nos apoiar uns nos outros para nos proteger das investidas contra nossas vidas e nossa sobrevivência.
10. Há uma onda de greves operárias no Reino Unido. Você quer deixar uma mensagem para os grevistas?
Nós, do PSTU brasileiro, somos solidários a todos os grevistas e as suas justas reivindicações. Entendemos que precisamos de muitas outras greves por categorias e greves gerais nacionais e interacionais, numa economia globalizada e com a classe trabalhadora globalizada, também.
Aqueles que nos condenam a uma vida de sofrimentos são nossos inimigos comuns. Que fazem tudo isso conosco para protegerem seus privilégios e suas grandes propriedades privadas. Por isso, precisamos de um projeto de sociedade que tenhamos pleno emprego, mas que o trabalho não seja para nós um fardo, que do trabalho toda a sociedade possa desfrutar, sem se apropriar de forma privada do trabalho alheio como é no capitalismo. Assim, precisamos construir, organizar e desenvolver partidos revolucionários socialistas e internacionalistas. É por este motivo que construímos o PSTU no Brasil, um partido irmão de nossos camaradas do ISL. E, juntos construímos a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI).