dom dez 04, 2022
domingo, dezembro 4, 2022

“Argentina 1985” em debate

O filme protagonizado por Ricardo Darín e Peter Lanzani encheu as salas de cinema de todo o país e chegou a festivais internacionais. Agora aparece como forte candidato a concorrer ao Oscar de melhor filme internacional, um reconhecimento que, no nosso país, também veio com “A História Oficial” e “O Segredo dos Seus Olhos”.

Por: Leandro Aznar

Para quem ainda não viu, Argentina 1985 narra o julgamento das Juntas Militares do ponto de vista do Promotor de Justiça Julio César Strassera (Darín) e seu adjunto Luis Moreno Ocampo (Lanzani). Ambos atores fazem um trabalho notável na ficção. A adaptação dos depoimentos e do processo judicial foi muito bem conseguida. E tem também alguns momentos de humor que cortam um pouco a tensão gerada pela trama.

O que propomos com este artigo não é ficar em uma crítica cinematográfica (nem o autor está nem perto de ser um crítico de cinema): é aproveitar esse filme e as questões que ele coloca para debater, partindo dos pontos de vista que propõe. Atenção, pode haver spoilers.

A impunidade da repressão

Talvez o maior acerto de Argentina 1985 esteja em como deixa explícito que, terminada a Ditadura, os militares agiam com grande impunidade. Assim, mostra como eles intimidavam a promotoria, testemunhas e juízes, com ameaças por telefone, espionagem e até mesmo o envio de uma carta para a casa do promotor Strassera com o selo da ESMA[1] e uma bala.

Essa impunidade, infelizmente, continua até hoje. O caso mais emblemático é o segundo desaparecimento de Jorge Julio López durante a Presidência de Néstor Kirchner, depois de ser testemunha no processo contra o genocida Miguel Etchecolatz.

Mobilização popular…ausente

O que o filme não mostra são as enormes mobilizações que acompanharam o julgamento. Se foi possível jugar e prender parcialmente as Juntas, foi tudo graças ao fato de que na Argentina a Ditadura caiu por meio de uma revolução, ao contrário de outros países do mundo onde os militares pactuaram sua saída do poder com impunidade.

No nosso caso, eles não caíram apenas pela mobilização popular. As ações de repúdio à Ditadura se estenderam ao longo do tempo exigindo julgamento e punição. Argentina 1985 faz um notório esquecimento desses fatos.

Ao longo do filme não se vê uma única manifestação dos milhares que lutaram para prender os militares genocidas e seus cúmplices civis e a alta hierarquia da Igreja, o que nos leva ao seguinte debate.

Uma maquiada

O que foi dito no ponto anterior traz consigo outra polêmica: no filme os impulsores do julgamento são os juízes da câmara de apelações, e ambos promotores.

Cabe questionar se na falta da pressão popular esse julgamento teria sido realizado.

Alfonsín aparece de forma muito breve, imperceptível, mas foi suficiente para sair com uma boa imagem. E, embora as leis de impunidade sejam mencionadas no final, nada é dito sobre o papel que o ex-presidente teve ao emitir o Ponto Final e a Obediência Devida, para deixar livre dezenas de torturadores e assassinos.

Strassera é elevado ao status de herói da pátria, ainda que sua trajetória pessoal durante a Ditadura tenha sido controversa e registra não ter feito nada de relevante em relação aos crimes relacionados aos direitos humanos. Como promotor, permitiu a apropriação da Papel Prensa pelo Clarín e pelo La Nación.

O que Argentina 1985 faz é exaltar as instituições da democracia burguesa, como a Justiça ou a Presidência da Nação. Uma Democracia com a qual não “se come, se cura e se educa”, como disse Raúl Alfonsín em 1983, quando assumiu a Presidência do país, e na qual, pelo contrário, até hoje continuamos pagando pelo legado econômico da Ditadura, principalmente os trabalhadores e pobres.

Para concluir

Para além das características que foram marcadas, não se pode deixar de dizer que é um filme que vale a pena cada segundo. E ainda mais porque nos permite aprofundar essas discussões.

Portanto, quem ainda não viu, deve reservar um momento para vê-lo.

Enquanto o poder do Estado e suas instituições estiverem nas mãos de quem nos explora todos os dias, será difícil encontrar uma obra que não reflita, mesmo que em pequena parte, o ponto de vista dos poderosos.

Será quando os trabalhadores tomarem o poder em suas mãos que teremos as ferramentas para contar nossas histórias, as histórias dos de baixo.


[1] A Escola de Mecânica de Marinha, conhecida pela sigla ESMA era onde funcionava ali o maior centro clandestino de detenção, tortura e extermínio da ditadura militar argentina, ndt.

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